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5. A QUEBRA DE PATENTE DOS MEDICAMENTOS COMO INSTRUMENTO DE

5.2 OS PROCEDIMENTOS PARA A QUEBRA DE PATENTES

A realização da quebra de patentes, além ser possível em determinados casos previstos por lei, consoante analisados anteriormente, também precisa ser realizada em conformidade com os procedimentos previstos por lei, a fim de que a sua concretização seja marcada pelo respeito aos direitos constituídos pelo titular da patente.

Destarte, o licenciamento compulsório, em conformidade com o ordenamento jurídico brasileiro, poderá ocorrer administrativamente, quando as questões referentes ao tema sejam analisadas pelo órgão administrativo responsável, no caso, o Instituto Nacional de Propriedade Industrial; ou judicialmente165, quando, por qualquer motivo, as partes envolvidas busquem a tutela jurisdicional para dirimir os conflitos existentes que culmina com a quebra da patente, dado o respeito ao princípio constitucional da inafastabilidade166 do Poder Judiciário, previsto no incisos XXXV167, do art. 5º da Carta Magna de 1988 e do devido processo legal168, nos termos do LIV169 do mesmo artigo, em ambas as esferas170.

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Diante da possibilidade de uma apreciação judicial, em conformidade com o princípio do devido processo legal em sentido material, ensina Fredie Didier Júnior (2009, p. 35): “O magistrado, para resolver o conflito, haverá de avaliar qual das normas constitucionais, no caso concreto, deve prevalecer – como não se pode resolver a tensão pelo princípio da hierarquia das normas, pois advindas da mesma fonte, o juiz pondera os interesses em jogo, limitando a aplicação de um dos conflitantes em detrimento da do outro, de modo a delimitar o seu alcance. Serve, este método de desenvolvimento do direito, ‘para delimitar, umas em relação às outras, as esferas de aplicação das normas que se entrecruzam e, com isso, concretizar os direitos cujo âmbito ficou em aberto’. Com efeito, o critério da proporcionalidade é tópico, volve-se para a justiça do caso concreto ou particular, se aparenta consideravelmente com a equidade e é um eficaz instrumento de apoio às decisões judiciais que, após, submeterem o caso a reflexões prós e contras (Abwängung), a fim de averiguar se na relação entre meios e fins não houve excesso (Ubermassverbot), concretizam assim a necessidade do ato decisório de correção”.

166 Em conformidade com a lição de Alexandre Freitas Câmara (2002, p. 42), este princípio consiste no

controle judicial, segundo o qual: “[...] fica assegurado a todo aquele que se sentir lesado ou ameaçado em seus direitos o acesso aos órgãos judiciais, não podendo a lei vedar esse acesso”.

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De acordo com o citado dispositivo: “A lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”.

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Segundo ensina Fredie Didier (2009, p. 38), analisando este princípio sob sua vertente formal: “[...] o devido processo legal em sentido formal é, basicamente, o direito a ser processado e a processar de acordo com as normas previamente estabelecidas para tanto, normas estas cujo processo de produção também deve respeitar aquele princípio. Os demais princípios processuais são, na verdade, decorrência dele [...]”.

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Segundo este dispositivo: “Ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal”.

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Nesse sentido, leciona Patrícia Aurélia Del Nero (2004, p. 193): “[...] o agente competente para avaliar o pedido de licença compulsória (sua procedência ou não), bem como manifestar-se acerca da capacidade técnica do pretendente na exploração, é o INPI, na esfera administrativa, sendo que, uma vez frustrada a expectativa do pretendente, o canal competente é, em última instância, o Poder Judiciário, em face da aplicação do princípio constitucional da universalidade da jurisdição (art. 5º, inciso XXXV, da Constituição

No caso do processo judicial, o procedimento seguirá as disposições trazidas pelo Código de Processo Civil referentes ao processo ordinário, bem como os princípios processuais abrangidos pelo sistema brasileiro.

No caso do processo administrativo, o procedimento de licenciamento compulsório deverá atender as normas previstas na própria Lei nº 9.279/96, não obstante estar o Poder Público obrigado a adoção das disposições da Lei nº 9.784/99 que regula o processo administrativo na Administração Pública Federal.

Nesse sentido, ressalte-se que, de acordo com este diploma específico do processo administrativo federal, lei posterior a de propriedade industrial, ao longo das etapas procedimentais previstas pela lei, deverão ser observados os princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência (art. 2º, da Lei 9.784/99).

O procedimento administrativo poderá ser iniciado a requerimento do interessado quando o licenciamento compulsório fundado nos arts. 68 e 70 da Lei nº 9.279/96 ou de ofício pelo Poder Público quando estiver fundado no art. 71 do mesmo diploma legal.

Em ambas as situações, registre-se que o interesse de agir171 processual (administrativo ou judicial), estará diretamente ligado à capacidade técnica e econômica172 do demandante em produzir o bem patenteado, pois sem o qual o requerimento, sendo procedente, não apresentará resultado prático.

No caso do processo ser iniciado a requerimento do interessado, o pedido inicial deverá estar acompanhado de todos os documentos que comprovem o motivo da solicitação

Federal). Nesse caso, não se trata, propriamente, de uma omissão da lei, mas de uma prescrição normativa implícita. O que procede quanto à crítica é que a legislação projetada é omissa, não dizendo respeito à efetiva exploração da patente pelo licenciado, compulsoriamente, pois, do contrário, o instituto restaria inócuo, ineficaz”.

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Nesse sentido, a doutrina processualista de Humberto Theodoro Júnior (1999, p. 56) sintetiza ensinando que: “[...] O interesse de agir, que é instrumental e secundário, surge da necessidade de se obter através do processo a proteção do interesse substancial. Entende-se, dessa maneira, que há interesse processual ‘se a parte sofre um prejuízo, não propondo a demanda, e daí resulta que, para evitar esse prejuízo, necessita exatamente da intervenção dos órgãos jurisdicionais’”. Portanto, para ser necessária a chancela do pedido de licenciamento compulsório, o requerente deverá comprovar que possui condição de produzir o bem, de sorte que sem esta demonstração não há que se falar em prejuízo.

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No que se refere à capacidade técnica e econômica do Poder Público, Denis Borges Barbosa (2002) comenta: “Argüem alguns que a capacidade técnica implicaria em que o licenciante tivesse pleno domínio da tecnologia necessária, descabendo assim qualquer aporte por parte do inventor. Tal regra de legitimidade não impede, a nosso ver, o Poder Público de postular a licença para o seu uso, ainda que tal outorga presuma o sublicenciamento a terceiros, mediante contratação direta ou licitação, para suprimento dos bens ou serviços licenciados compulsoriamente. O sentido da regra legal é que o licenciamento deva resultar num uso efetivo da patente de acordo com os seus pressupostos legais. A capacidade técnica e econômica a que se refere a lei deve ser entendida, pelo menos em face ao Poder Público, como própria ou delegada”.

da quebra da patente e das condições que serão ofertadas ao titular da patente para a exploração do bem (art. 73, caput, §1º e §2º, da Lei nº 9.279/96).

Doravante, após a apresentação do requerimento perante o INPI, o licenciado deverá ser intimado para se manifestar no prazo de sessenta dias, sob pena de, em não o fazendo, ter como aceita a proposta de licenciamento nos termos do pedido inicial (§1º do art. 73, da Lei nº 9.279/96).

Em caso de contestação, o INPI poderá realizar diligências para dirimir as controvérsias ou formar comissão com peritos para que o montante da remuneração seja arbitrado, considerando o valor econômico do bem (§3º e §6º, do art. 73, da Lei nº 9.279/96).

Superada a fase instrutória do processo administrativo, o INPI possui o prazo de sessenta dias para decidir sobre o pedido de licenciamento compulsório, seja para resolver a procedência ou improcedência do requerimento vestibular ou, em caso de procedência, para fixar as condições em que o mesmo ocorrerá (§7, do art. 73, da Lei nº 9.279/96).

Uma vez decidido, a parte que se sentir prejudicada com o resultado poderá recorrer à instância administrativa superior com o recurso administrativo sendo recebido, apenas, no seu efeito devolutivo (§8º, do art. 73, da Lei nº 9.279/96).

Por outro lado, no caso do processo administrativo ter início de oficio, quando o próprio Poder Público estiver interesse processual na quebra de patentes, a Administração Pública deverá adotar procedimento específico quando a urgência da situação imponha a necessidade de uma maior celeridade em detrimento dos prazos processuais previstos em lei, conforme fora regulamentado pelo Decreto nº 3.201/99173.

Todavia, a celeridade nestes casos não justifica a supressão de direitos e garantias conferidos aos processos em geral, mas somente redução dos prazos e dos procedimentos, a fim de dar uma resposta mais rápida e condizendo com uma necessidade social que requer uma resposta com urgência por parte do Estado.

Por fim, registre-se que, em algumas hipóteses, pode-se admitir que a Administração Pública venha a requerer a quebra de patentes com base nos arts. 68 e 70 quando estiver

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Segundo autoriza o art. 7º deste diploma legal: “No caso de emergência nacional ou interesse público que caracterize extrema urgência, a licença compulsória de que trata este Decreto poderá ser implementada e efetivado o uso da patente, independentemente do atendimento prévio das condições estabelecidas nos arts. 4º e 5º deste Decreto”. Considerando que os mencionados dispositivos se referem, respectivamente, a constatação de impossibilidade do titular da patente de atender à situação emergencial que se encontra a sociedade e a fixação do prazo de vigência e da remuneração pelo licenciamento compulsório, percebe-se que o Estado visa, com esta medida, encurtar o prazo em que ocorrem os trâmites processuais, referentes aos estudos e avaliações que precedem a quebra de patentes para possibilitar um ingresso mais rápido na execução da medida, a fim de evitar ou minimizar as suas conseqüências.

atuando no mercado em atividade econômica, em consonância com o art. 173 da Constituição Federal de 1988.

Em todas as hipóteses, porém, o procedimento a ser adotado para a quebra de patentes de medicamentos deverá estar voltado à realização de direitos, pois deverá oportunizar o direito de defesa ao titular da patente, a fim de que a decisão final esteja pautada nos princípios constitucionais e processuais do Estado Democrático de Direito.

Nesse diapasão, após analisadas as etapas necessárias para a realização do licenciamento compulsório do bem patenteado, faz-se necessária a análise de quais as conseqüências jurídicas advindas com a adoção desta medida de intervenção na propriedade privada dos medicamentos, no direito brasileiro.