• Nenhum resultado encontrado

Dos macacos sem mãe aos ratos malcuidados

No documento Epigenetica - Richard C. Francis.pdf (páginas 48-50)

Nos anos 1950, Harry Harlow realizou, na Universidade do Wisconsin, alguns experimentos pioneiros acerca da ligação emocional do bebê com a mãe.3 Os experimentos foram

conduzidos em macacos Rhesus, que, entre os primatas, são um dos modelos preferidos para muitas investigações científicas. Lembro-me de haver assistido, durante minha graduação, a um filme sobre os experimentos que me despertou um misto de fascínio e repulsa. Sem dúvida, pelos padrões de hoje, as pesquisas de Harlow parecem ultrapassar um limite ético no tratamento dado aos animais. O próprio Harlow não era visto como uma figura especialmente simpática, mas como uma forma caricata de psicólogo experimental, quase um cientista maluco. Contudo, as acusações de seus detratores mais ferrenhos, segundo os quais seus experimentos, sádicos na aparência, não tinham nenhum valor científico, não têm o menor fundamento.

Os primeiros experimentos de Harlow foram concebidos para responder a uma questão fundamental a respeito do laço entre mãe e filho sob a perspectiva da criança: seria este sustentado pela nutrição recebida pelo bebê (no início, o leite), ou por alguma outra qualidade, menos obviamente necessária à vida, oferecida pela mãe? Hoje, a resposta pode

parecer evidente, mas não era na época. Segundo a visão então dominante, da escola behaviorista, os bebês se apegariam às mães apenas pelo alimento oferecido. Harlow questionava a linha behaviorista e decidiu testá-la. O cientista construiu macacas de arame, algumas dotadas de mamilos por onde o leite podia fluir e outras desprovidas de mamilos, mas forradas com tecido atoalhado. Recém-nascidos havia pouco separados das mães biológicas podiam escolher um dos tipos de mãe artificial para se agarrar. Todos os bebês logo aprenderam a mamar nas bonecas de arame, mas preferiam passar o resto do tempo, incluindo o sono, agarrados às bonecas de pano. A estimulação tátil oferecida pelas macacas de tecido – ainda que não se comparasse aos pelos de uma mãe verdadeira – era mais atraente para os recém-nascidos que o leite oferecido pela versão de arame.

É evidente que uma boneca inanimada de arame, mesmo quando coberta de tecido, não substitui uma mãe de verdade, atenciosa e dedicada. Assim, os bebês “criados” pelas bonecas apresentavam níveis elevados de estresse e graves problemas psicossociais. E era impossível ressocializá-los adequadamente com outros macacos, não importando os métodos empregados.4 Nos anos 1960, Steven Suomi, aluno de Harlow, estudou o comportamento das

fêmeas criadas por bonecas quando se tornaram mães – em outras palavras, das mães sem mãe. Ele observou que essas macacas, na melhor das hipóteses, negligenciavam, e na pior, agrediam os próprios filhos.5 As semelhanças com o caso dos gorilas em cativeiro é evidente.

Além disso, esses estudos proporcionaram reflexões importantes sobre a condição humana, em especial sobre o fato de que os maus-tratos e o descuido com as crianças costumam se repetir na mesma família, ao longo de várias gerações. Negligência gera negligência. Abuso gera abuso.

Mas como a negligência gera negligência? O que acontece no cérebro de uma criança malcuidada que a faz se tornar um pai ou mãe negligente? Um retorno aos estudos de Michael Meaney e seus colaboradores nos ajuda a responder a essa questão. Lembre-se de que as mães ratas variam quanto ao grau de estimulação tátil proporcionada aos filhotes por meio de lambidas, e que os ratos que não foram lambidos o suficiente tendem a se transformar em adultos estressados pelas mudanças epigenéticas no gene NGF. O que acontece quando as ratas adultas estressadas se tornam mães? Nada muito diferente do que ocorre com os gorilas criados em cativeiro e com os macacos Rhesus de Harlow. Ratas negligenciadas (privadas de lambidas) se tornam mães negligentes.6

Graças ao modelo dos ratos, conseguimos nos aprofundar um pouco mais nos mecanismos dessa herança social. Uma explicação possível é que fêmeas estressadas não são boas mães: uma rata privada de lambidas se transforma numa mãe estressada em consequência de alterações epigenéticas no gene NGF; por causa do estresse, ela é uma mãe descuidada, de modo que seus filhotes do sexo feminino sofrem a mesma mudança epigenética e se tornam, também elas, mães estressadas – e assim o ciclo se repete. Parece que essa é uma parte da história, mas ainda não é a história toda.

Entre os ratos, como em todos os mamíferos, incluindo o homem, as mães passam por uma série de mudanças hormonais antes e depois do parto. Os níveis de ocitocina se elevam, assim como os de estrogênio e de receptores sensíveis a esse hormônio. O nível de receptores de estrogênio parece desempenhar papel de especial importância para o comportamento materno. Esses níveis se encontram reduzidos nas fêmeas criadas por más lambedoras em comparação com as criadas por boas lambedoras.7 Uma das consequências dos baixos níveis de receptores

de estrogênio é que, quando se tornam mães, essas fêmeas não apresentam uma reação normal aos altos níveis de estrogênio liberados no parto. Um dos efeitos dessa reação diminuída é uma menor ligação de ocitocina no hipotálamo, região do cérebro fundamental para o comportamento materno. A ocitocina, principalmente quando atua no hipotálamo, promove comportamentos sociais ou de filiação.8 (Alguns pesquisadores, numa perspectiva

reducionista, referem-se a ele como “hormônio do amor”.) Esse efeito dos receptores de estrogênio sobre a ocitocina se dá porque o complexo formado pelo estrogênio e por seus receptores estimula a expressão do gene dos receptores de ocitocina no hipotálamo, pois se liga diretamente ao painel de controle do gene responsável pela codificação destes últimos.

A expressão diminuída do gene dos receptores de estrogênio das ratas filhotes tende a persistir na idade adulta, o que aumenta a probabilidade de que estas venham a ser lambedoras menos dedicadas quando se tornarem mães. Assim, os efeitos da falta de cuidados maternos se perpetuam por mais uma geração. Como você já deve estar imaginando, os efeitos de longo prazo da falta de lambidas sobre a expressão do gene dos receptores de estrogênio são de natureza epigenética. Filhotes nascidos de boas lambedoras mas criados por más lambedoras têm menos receptores de estrogênio no hipotálamo que seus irmãos que permaneceram com a mãe biológica.9 O inverso também é verdadeiro: animais nascidos de

lambedoras negligentes mas criados por lambedoras dedicadas têm níveis elevados de receptores de estrogênio no hipotálamo. Em ambos os casos, as alterações nos níveis dos receptores persistem graças à metilação do painel de controle do gene que o codifica. Os filhotes criados por más lambedoras apresentam uma metilação mais intensa desse painel de controle que os criados por boas lambedoras. (Lembre-se de que, em geral, altos níveis de metilação resultam em menores níveis de expressão para um dado gene.)

No documento Epigenetica - Richard C. Francis.pdf (páginas 48-50)