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Dos professores

No documento Igualdade e educação em CONDORCET (páginas 32-38)

A profissão de professor é permanente, em todos os lugares, e exige formação contínua para a prática de ensinar. Condorcet caracteriza as principais funções do ser professor: “Ensinar supõe o hábito e o gosto por uma vida sedentária e regrada; exige doçura e firmeza de caráter, paciência e zelo, simplicidade nos costumes e uma espécie de dignidade” (CONDORCET, 2008, p. 119). O ser professor exige capacidades múltiplas, além de amplo conhecimento e metodologia para ensinar:

Um professor precisa saber resolver e prever de antemão as dificuldades que podem surgir nos espíritos muito dessemelhantes de seus discípulos. Enfim, a arte de instruir só se adquire com o costume, só se aperfeiçoa com a experiência, e os primeiros anos do ensino são sempre inferiores aos que se seguem. Trata-se, pois, de uma das profissões que exigem que um homem a ela dedique a vida inteira ou uma grande parte de sua vida (CONDORCET, 2008, p. 120).

Para o filósofo, os professores não devem formar uma corporação, evitando a uniformização dos anseios e sofrimentos. Defende que os mestres existam à parte, que as decisões sejam tomadas sem influências do grupo de colegas, que vivam sem intrigas

e ambições corporativas, mas que preservem com toda dedicação possível o espírito da instrução, que seja impedido “que a instrução, que é instruída para os alunos, seja regulada segundo o que convém aos interesses dos mestres” (CONDORCET, 2008, p. 121).

O professor, mesmo que tenha o direito de exercer outras funções públicas, como, por exemplo, ser eleito para uma função parlamentar, não é conveniente a compatibilidade de funções, porque comprometeria a concentração primordial do educar, compreendia Condorcet. A função de professor que lhe foi confiada é uma função permanente por sua natureza, e exige dedicação exclusiva. Na proposta constitucional do filósofo, o professor exerceria o cargo entre 15 e 20 anos, dependendo do lugar que estaria lotado, podendo estender este período, caso não estivesse finalizado seus planos de trabalho.

A remuneração do professor não deve se limitar a ele, mas estender-se à subsistência de sua família, como resume Condorcet em sua proposta:

[...]seria possível estabelecer, por exemplo, que uma soma igual a um terço dos salários fosse reservada para constituir a aposentadoria dos professores e acumulada com uma taxa de juros de quatro por centro. A metade dessa soma serviria para uma pensão vitalícia e a outra metade para constituir um fundo de acumulação. Se o professor morresse na sua função, esse fundo pertenceria a seus filhos, à sua mulher e até mesmo a seus pais, se estes estivessem vivos. Se o professor deixasse a função, seja depois de ter cumprido seu tempo, seja por demissão, ele usufruiria de início dos juros do fundo destinado a produzi-la lhe daria por pessoa de sua idade, sem que, contudo, tal aposentadoria não excedesse nunca o salário da função(CONDORCET, 2008, p. 124).

A nomeação de professores dar-se-ia pelas capacidades necessárias ao cargo e intrínsecas nos candidatos. Segundo Condorcet, a escolha seria realizada por profissionais imparciais e capazes de julgar o proponente ao cargo. O candidato deveria reunir fundamentalmente três condições: “primeiro, que aquele que é eleito tenha capacidade suficiente; segunda, que ele convenha ao posto por características locais e regionais; terceira, que seja o melhor daqueles que reúnem a capacidade e a conveniência” (CONDORCET, 2008, p. 125/6). No caso da necessidade de destituir o professor do cargo, o julgamento passaria pelos mesmos princípios que o tornaram apto, tendo sempre em vista assegurar a boa qualidade da instrução.

Além dos professores para cada grau de instrução, mais os do ensino particular, os responsáveis para gerir a organização estrutural das escolas, Condorcet propõe ainda um inspetor de estudos, profissional que se responsabilizaria pelas bibliotecas e museus,

cuidaria a funcionalidade escolar, substituiria professores ausentes, entre outras funções de dirigir o bom funcionamento do estabelecimento escolar.

Por fim, o filósofo sugere, ainda, a necessidade de criar companhias científicas para o constante progresso das luzes em todo o sistema da instrução. É essencial, diz ele, “que exista uma sociedade de sábios em cada primeira divisão de um grande Estado [...] uma só dessas sociedades bastaria em cada um deles para abarcar a universalidade dos conhecimentos humanos” (CONDORCET, 2008, p. 128). Os mestres que se dedicam à pesquisa teriam nesta sociedade o ambiente para socializar os conhecimentos produzidos, bem como colocá-los à prova da contestação, e se aceitos pela comunidade científica, difundi-los aos mais longínquos estabelecimentos educacionais, levando assim a expansão das luzes: “O fim dessas sociedades é o descobrir verdades, aperfeiçoar teorias, multiplicar as observações, ampliar métodos” (CONDORCET, 2008, p. 133). Daí a necessidade destes que estão integrando os postos da companhia científica, que sejam homens íntegros e naturalmente dedicados a contribuir para estes objetivos.

Segundo capítulo

Crítica à desigualdade

A proposição de instrução que Condorcet apresenta à Franca tem como pressuposto uma crítica à desigualdade social que as pessoas viviam, o poder dominante de uns sobre os outros, a relação escravocrata que estava enraizada no país, o privilégio de poucos possuírem o direito do conhecimento, entre outras características presentes nas relações exclusivistas que pequeno grupo de franceses possuíam em detrimento da grande maioria ficar à margem, propiciou ao filósofo refletir e criticar as diferenças políticas e sociais, principalmente a desigualdade de direitos dos cidadãos.

Neste particular, a indagação que se apresenta seria: o que seria igualdade na concepção de Condorcet? Ao tratar sobre a temática igualdade, o filósofo estabelece uma relação próxima deste conceito, com a instrução pública, o que passaremos a refletir a seguir.

No seu projeto de decreto sobre a organização geral da instrução pública, Condorcet apresenta os fundamentos filosóficos e seu pensamento educativo acerca da ideia de igualdade, articulando proximamente esta, com a liberdade, concepções fundamentais no seu entender para a independência das pessoas. Vista sob o ponto de vista da educação, os alunos devem ter, primeiramente, a liberdade de escolher a extensão e a natureza dos estudos que irão prosseguir. A igualdade seria uma consequência desse processo, isto é, viria após a liberdade.

Acerca do conceito de igualdade em Condorcet, podemos destacar três acepções distintas, seguindo a reflexão realizada por Adriana Maamari. Primeiro, a “igualdade da declaração”, ou “igualdade política”; segundo, a “igualdade de direito”, ou “igualdade real”, pois todos seriam moralmente iguais, isto é, gozariam de uma situação digna embora apresentassem as diferenças de talentos que lhes são naturais; e, por fim, a “igualdade de fato”, alimentada pela inveja e ressentimento daqueles que, mostrando-se incapazes de realizar maiores progressos nos conhecimentos, aspiram à partilha diante daqueles que os alcançaram. A posição de Condorcet é a de rejeitar essa última acepção, enquanto defende as outras duas do seguinte modo: a “igualdade real”, possível somente

pela instrução pública, seria a única forma e a “igualdade política” proclamada realizar- se verdadeiramente.

Desse modo, no plano de Condorcet, a liberdade antecede a instrução, e a Franç, estava vivendo este processo de libertação do ser humano. Ou seja, as condições básicas necessárias para introduzir o plano de Instrução Pública que o filósofo tinha como meta eram propícias. Condorcet estava conferindo ao Estado a tarefa de garantir e oferecer os saberes indispensáveis e igualitários aos cidadãos.

A igualdade defendida por Condorcet, contrariada por outros pensadores como Romme e Lakanal, não era a aplicação uniforme e absoluta de um modelo instrutivo aristocrata e hierárquico, mas um plano que respeitava o talento dos indivíduos, com igualdade de condições a todos os cidadãos: “O Estado deve garantir a formação integral dos homens, desde a infância até a morte, em todos os domínios da existência e para ambos os sexos. Todos instruídos e educados à mesma maneira farão desaparecer as diferenças sociais” (MAAMARI, 2002, p. 64). Portanto, o trabalho instrutivo do Estado seria o de destituir os efeitos causados pelas desigualdades naturais e sociais do passado. À escola recairia a tarefa de realizar na prática as políticas de liberdade e de igualdade, indispensáveis à formação dos cidadãos.

Nesta nova proposta, os interesses particulares cedem espaço para aquilo que é fundamentalmente público, aquilo que originou a pólis, a república. Neste sentido, a escola se torna o espaço privilegiado para o exercício da liberdade. O homem é um ser livre para deliberar, votar, escolher, somente se estiver esclarecido suficientemente para fazer esta escolha através de sua consciência, de sua razão; caso contrário, estaria coagido e agindo sob influência de outras forças e, portanto, não seria livre. Desse modo, a instrução seria a única forma da liberdade tornar-se efetiva no ser humano.

A Instrução Pública e a educação cívica são essenciais para realizar concretamente o programa constitucional desejado por Condorcet. O cidadão condorcetiano nunca renuncia aos seus deveres, mas também os exerce com paciência, como diz Coutuel, “es necesario tiempo para que los argumentos se entiendan y que la crítica sea compreendida pues el ritmo de las reformas es también el de los progresos de la razón” (COUTEL, 2004, p. 94). Ou seja, o processo instrutivo desenvolve no indivíduo um senso progressivo de responsabilidade, sob a égide das luzes. Por outro lado, a sociedade também entra neste processo progressivo, exigindo que as leis constitutivas do Estado sejam reformadas e remodeladas aos aspectos e à vontade da população do seu tempo:

Las constituciones que contienen en sí mismas el medio de perfeccionamiento, que permite en cada época ponerse en el nível de las luces y no tienen necesidad para mantenerse de oponer a la razón los prejuicios de la antigüedad (COUTEL, 2004, p. 95).

Condorcet buscou constantemente o aperfeiçoamento das constituições teóricas e práticas das luzes, sejam elas nos aspectos e conceitos do laicismo, liberdade, igualdade, racionalidade, instrução e humanidade. Contudo, para alcançar estes fins, foram necessárias algumas condições fundamentais que Coutel elenca:

1. Estas reformas constitucionales y jurídicas deben ser justificadas y decididas por la iniciativa de um ciudadano y aceptadas por todos; 2. La racionalidad política debe inspirar los debates y los escrutínios. Lo que

presupone una opinión pública ilustrada que la Instrucción pública forma poco a poco. La independencia de la institución escolar está entonces garantizada pela la República;

3. El poder político no debe constituirse em instancia separada del cuerpo político mismo. Condorcet extrae uma consecuencia que desconcierta a la época: todos los representantes del pueblo deben ser elegidos (diputados, ministros y jueces) y deben rendir cuentas a sus electores;

4. El ejercicio de la ciudadanía se inscribe en un cuadro nacional pero se abre, por médio de la opinión pública europea, al amor a la Humanidad y a la fraternidad universal (COUTEL, 2004, p. 96).

Estas quatro condições foram pensadas por Condorcet para constituir o seu projeto legislativo de Instrução Pública à França, as quais, articulados, exercem a prospecção e identidade do ser humano, permitindo ao homem a passagem da instituição (República) para a constituição (leis), e desta, por consequência, à cidadania. Neste sentido, cautelosamente, Condorcet conecta na prática os princípios das luzes às políticas concretas de formação humana cidadã: “o princípio de perfectibilidade explica o caráter de revisão das leis e da constituição; os princípios de laicisismo e de racionalidade explicam a definição de lei como expressão da vontade e da razão; a cidadania se apoia no amor racionalizado das leis” (COUTEL, 2004, p. 96).

Portanto, para se garantir a igualdade social, Condorcet defende a total gratuidade do ensino público, pois através da instrução o homem se apodera em cidadania, em igualdade de condições, e, consequentemente, participa da vida republicana conforme prevêem os princípios que a fundamentam.

No documento Igualdade e educação em CONDORCET (páginas 32-38)

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