A perfectibilidade do homem se constitui permanentemente através do processo educativo, e a história demonstra este aperfeiçoamento da humanidade. Pela primeira vez, diz Condorcet, o sistema geral dos conhecimentos humanos foi desenvolvido, o método de descobrir a verdade tornou-se uma arte que se pode aprender, a razão encontrou, enfim, o seu caminho. O homem não regredirá mais ao obscurantismo antigo e as “luzes” seguirão seu curso de novas descobertas. Portanto, o caminho é de felicidade, na qual a razão saiu vitoriosa na luta contra a ignorância. O período a frente só lhe acrescentará novas luzes e o progresso será permanente.
É bem verdade que nem todos os acontecimentos do século XVIII foram favoráveis para o desenvolvimento cidadão dos indivíduos. Mesmo que o período tenha conquistado direitos emancipatórios reconhecidamente melhores que do período passado, a França foi o berço da aurora da liberdade, entretanto, sempre permanecem as marcas dos acontecimentos antigos e aquilo que foi criado hoje, amanhã já se torna envelhecido, portanto, uma vez reconhecida a lei que rege a história da humanidade, é dever de todos, mas especialmente dos filósofos, diz Condorcet, trabalhar não apenas para garantir o curso do progresso, mas sobretudo para acelerá-lo.
Para o seu tempo, a esperança que Condorcet teve sobre o estado futuro da espécie humana se resumia em três principais objetivos, quais sejam, destruição da desigualdade entre as nações, os progressos da igualdade no interior de um mesmo povo e, por último, o aperfeiçoamento real das pessoas. Tais objetivos foram expressos no décimo período do Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano, que passaremos a abordar:
Se o homem pode predizer com uma segurança quase integral os fenômenos dos quais conhece as leis; se, mesmo quando estas lhes são desconhecidas, ele pode, a partir da experiência do passado, prever com uma grande probabilidade os acontecimentos do futuro; por que se veria como um empreendimento quimérico aquele, de traçar, com alguma verossimilhança, o quadro dos destinos futuros da espécie humana, a partir dos resultados de sua história? O único fundamento de crença nas ciências naturais é a ideia segundo a qual as leis gerais, conhecidas ou ignoradas, que regram os fenômenos do universo são necessárias e constantes; e por quais razões esse princípio seria menos verdadeiro para o desenvolvimento das faculdades intelectuais e morais do homem do que para as outras operações da natureza? (CONDORCET, 1993, p. 189).
Estas indagações justificam o objetivo proposto por Condorcet, que embasou seu modo de pensar o homem para além do atual momento que vivia a França e outros países dos continentes. Ele lançou um olhar esperançosamente para o futuro, apostou num mundo mais promissor a ser atingido pela humanidade, tão logo que fosse possível “destruir a desigualdade entre as nações; os progressos da igualdade em um mesmo povo; enfim, o aperfeiçoamento real do homem” (CONDORCET, 1993, p. 190). Para o filósofo, se analisarmos as experiências já vividas, é possível compreender os porquês desses questionamentos:
Um dia todas as nações devem se aproximar do estado de civilização a que chegaram os povos mais esclarecidos, os mais livres, os mais libertos de preconceitos, os franceses e os anglo-americanos? Essa distância imensa que separa esses povos da servidão dos hindus, da barbárie das tribos africanas, da ignorância dos selvagens deve, pouco a pouco, esvanecer-se? Existiriam no globo regiões cuja natureza tenha condenado os habitantes a nunca desfrutar da liberdade, a nunca exercer sua razão? Essa diferença de luzes, de meios ou de riquezas, até o presente observada em todos os povos civilizados, entre as diferentes classes que compõe cada um deles; essa desigualdade, que os primeiros progressos da sociedade fizeram aumentar e mesmo, por assim dizer, produziram, depende da própria civilização ou das imperfeições atuais da arte social? Ela deve enfraquecer-se continuamente para dar lugar a essa igualdade de fato, meta última da arte social que, diminuindo até mesmo os efeitos da diferença natural das faculdades, só deixa subsistir uma desigualdade útil ao interesse de todos, porque ela favorecerá os progressos da civilização, da instrução e da indústria, sem acarretar nem dependência, nem humilhação, nem miséria; em uma palavra, os homens se aproximarão desse estado em que todos terão as luzes necessárias para se conduzir segundo sua própria razão nos negócios comuns da vida, e mantê-la isenta de preconceitos, para conhecer bem seus direitos e exercê-los segundo sua opinião e sua coerência; em que todos poderão, pelo desenvolvimento de suas faculdades, obter meios seguros de prover às suas necessidades; em que, enfim, a estupidez e a miséria serão apenas acidentes, e não o estado habitual de uma parte da sociedade?Enfim, a espécie humana, deve melhorar, seja por novas descobertas nas ciências e nas artes e, por uma consequência necessária, nos meios de bem-estar particular e de prosperidade comum; seja por progressos nos princípios de conduta e na moral prática; seja, enfim, pelo aperfeiçoamento real das faculdades intelectuais, morais e físicas, que pode ser igualmente a consequência ou do aperfeiçoamento dos instrumentos que aumentam a intensidade e dirigem o emprego dessas faculdades ou mesmo daquele da organização natural? (CONDORCET, 1993, p. 190/191).
Para responder estes questionamentos, que muito além de responder as indagações elencadas, ele fundamenta sua proposição filosófica que não encontrou velada na natureza, mas se valeu da análise de experiências do passado, dos progressos possibilitados por meio das ciências, da capacidade que o intelecto humano foi capaz de criar e desenvolver.
Para pensar a questão da desigualdade das nações, Condorcet analisa primeiramente seu ambiente, a Europa, e constata que os princípios da Constituição
francesa já são aqueles de todos os homens esclarecidos, mas constata a contradição vivenciada na sociedade. De um lado, os tiranos e sacerdotes mantendo o domínio sobre os súditos e escravos, que estão do outro lado. “Esses princípios logo despertarão ali um resto de bom senso e essa surda indignação que o hábito da humilhação e do terror não pode abafar na alma dos oprimidos” (CONDORCET, 1993, p. 191). Se a lei prevê a igualdade, haverá uma maneira de garantir sua aplicabilidade, e, portanto, o filósofo vê ali uma possibilidade de mudar este cenário, a revolução. Ampliando o olhar para além da França, cada nação terá seus obstáculos que dificultam subsistir com as desigualdades existentes entre seu povo, mas ver-se-á sinais favoráveis para que haja uma revolução, seja através da sabedoria (como Condorcet queria conduzir em seu Estado), ou tomadas por movimentos com práticas violentas e ligeiros resultados.
Basta olhar para a história, e de modo particular para a África, Ásia ou Grã- Bretanha, para constatar alguns exemplos de exploração realizados pelos detentores daqueles que detinham o poder das luzes e que estavam governando. Eles mantinham o controle dominador sobre os destituídos de conhecimento. Contudo, quando os murros da alienação foram sendo derrubados, as pessoas foram tendo liberdade, esclarecimento sobre os seus direitos, a vivencia social das pessoas foi se modificando e aos poucos foram construindo sua independência, conquistaram e o seu devido respeito. Este povo, diz Condorcet, “só parecem esperar instruções para se civilizar e encontrar irmãos nos europeus, para tornar-se seus amigos e seus discípulos” (CONDORCET, 1993, p. 193). A França se tornou uma referência aos povos das nações vizinhas, visto que ela percorreu caminho semelhante, e já tinha descoberto seu método de emancipação. A ajuda mútua entre as nações facilitaria a aceleração do processo, defendia Condorcet, uma vez que o povo francês já havia experimentado os erros e fracassos até chegar ao acerto desejado. Por mais que algumas nações ainda insistiam em manter o domínio de seu povo pela inibição política, com o desenvolvimento das luzes e seu desejo de progresso, não havia mais meios de reter a razão humana presa numa escravidão.
Condorcet teve este olhar aguçado para a sua época, e percebia com esperança uma mudança profunda ocorrendo com a humanidade. Ele afirmava: “chegará esse momento em que o Sol só iluminará homens livres na Terra, homens que só reconhecem a razão como seu senhor; momento em que tiranos ou os escravos, os sacerdotes e seus estúpidos ou hipócritas instrumentos só existirão na história ou nos teatros [...]” (CONDORCET, 1993, p. 195). Para o filósofo, os homens estavam iniciando a viver uma nova era, onde as desigualdades entre os indivíduos e as nações, a
ignorância da miséria, o despotismo de tiranos, a inacessibilidade das luzes, toda esta realidade estava ficando para trás, e uma nova história estava sendo construída.
É bem verdade, e muitos exemplos nos remetem a isso, que o intervalo entre o direito estabelecido por uma lei e o seu reconhecimento público e desfrute real pelos cidadãos, bem como, a igualdade que as instituições políticas deflagram para ser estabelecida na sociedade e aquela que de fato é realizada, leva o seu tempo e difere entre um país e outro por várias razões. Condorcet enumera três causas que provocam essas diferenças; são elas: “desigualdade de riqueza, desigualdade de estado e desigualdade de instrução” (CONDORCET, 1993, p. 195), e essas desigualdades não desaparecem, mas devem ser diminuídas, pois, nesse sentido, sua origem é natural e necessária:
É fácil provar que as fortunas tendem naturalmente à igualdade, e que sua excessiva desproporção ou não pode existir, ou logo deve cessar, se as leis civis não estabelecem meios artificiais de perpetuá-las; se a liberdade do comércio e da indústria faz desaparecer a vantagem que toda lei proibitiva, todo direito fiscal dão à riqueza adquirida; se impostos sobre os contratos, as restrições postas a liberdades, sua subordinação a formalidades incômodas; se a incerteza e as despesas necessárias para obter sua execução não detêm a atividade do pobre e não tragam seus pequenos capitais [...] se, enfim, pela simplicidade dos costumes e sabedoria das instituições, as riquezas não são mais meios de satisfazer a vaidade ou a ambição, sem que, todavia, uma austeridade mal sustentada, não permitindo mais fazer dessas riquezas um meio de desfrutes procurados, force a conservar aquelas que uma vez foram acumuladas (CONDORCET, 1993, p. 196).
Portanto, existe uma causa para a desigualdade, para a miséria, e mesmo para a dependência, e a grande maioria das pessoas trabalhadoras é que sofrem as consequências deste modelo de sociedade instituída.
Neste sentido, propõe o filósofo, uma maneira de evitar a dependência das estruturas institucionais e discriminação desigual da sociedade, é buscar a igualdade pela instrução. A instrução permitirá que cada pessoa consiga sua autonomia por meio de suas próprias capacidades de compreensão. Por meio de sua própria luz, o indivíduo conquista sua independência e tem capacidade de administrar seu trabalho, seus direitos, sua economia doméstica, enfim, as faculdades do homem permite autonomia em suas decisões.
Quando uma nação tem todos os seus habitantes sem distinções entre si, quando conseguem governar-se igualmente por suas próprias luzes; quando não dependem de um sistema mecânico para exercerem sua profissão; quando não necessitam dos outros para administrar seus negócios e afazeres domésticos; quando tem o outro para lhe
instruir, mas não depende deste para lhe conduzir; quando é confiado aos mais esclarecidos o direito de governar sem que, com isso, fique cego às práticas do governo; então, estas desigualdades vem a favor da igualdade, porque há homens verdadeiramente instruídos. A instrução bem conduzida corrige a desigualdade natural das faculdades.
A diferença natural das faculdades entre os homens cujo entendimento não foi cultivado produz, mesmo entre os selvagens, charlatões e tolos, pessoas hábeis e homens fáceis de enganar; sem dúvida, a mesma diferença existe em um povo em que a instrução é verdadeiramente geral, mas ela só existe entre os homens esclarecidos e os homens com um espírito correto, que sentem o prêmio das luzes sem ser cegados por ela(CONDORCET, 1993, p. 199).
Sendo a instrução equitativa a todas as pessoas, a organização da sociedade será refletida a partir dela, e, por consequência, toda a nação ganha, pois ela corrigirá aquelas desigualdades criadas em tempos de pouco esclarecimento.
As vantagens reais que devem resultar dos progressos dos quais se acaba de mostrar uma esperança certa só podem ter por termo o aperfeiçoamento da espécie humana, já que, na medida em que diversos gêneros de igualdade o estabelecerão por meios mais vastos de prover a nossas necessidades, por uma instrução mais extensa, por uma liberdade mais completa, mais essa igualdade será real, mais ela estará próxima de abarcar tudo aquilo que interessa verdadeiramente à felicidade dos homens (CONDORCET, 1993, p. 200).
O aperfeiçoamento das faculdades humanas é ilimitado, não se esgota. As possibilidades de combinação, descoberta, relações de ideias e objetos são imensas. Mesmo que um indivíduo não consiga abarcar todo o conhecimento, conhecendo algumas partes, terá constituído o seu progresso, aquele que sua inteligência lhe permite. Por outro lado, aquelas descobertas, verdades e processos de conhecimento que num primeiro momento exigiram muitos esforços intelectuais, depois que estão formulados se tornam mais acessíveis de compreensão para a grande maioria das pessoas.
Mesmo que, com o passar dos tempos, a estrutura biológica da inteligência humana permaneça inalterada, a desenvoltura e capacidade de absorção dos conhecimentos crescem na medida em que as ciências evoluem, a língua se aprimora, técnicas e métodos se criam, e tudo isso se torna acessível à socialização por meio da instrução. Neste sentido, Condorcet vê esperançosamente as verdades avançarem progressivamente de geração em geração:
[...] essas próprias mudanças sendo a consequência necessária do progresso no conhecimento das verdades de detalhe e a causa que leva à necessidade de
novos recursos produzindo ao mesmo tempo os meios de obtê-los, resulta que a massa real das verdades que forma o sistema das ciências de observação, de experiência ou de cálculo, pode aumentar sem cessar; e, todavia, todas as partes desse mesmo sistema não poderiam se aperfeiçoar sem cessar, supondo nas faculdades do homem a mesma força, a mesma atividade, a mesma extensão (CONDORCET, 1993, p. 202).
Apesar dos progressos de descobertas se multiplicarem constantemente, ainda assim, a mesma força, atividades e extensão necessária para alcançar a perfectibilidade do homem e da natureza, é limitada. Por isso, tanto mais a necessidade da instrução universal, que permitirá um número maior de pessoas dedicando-se à pesquisa, ao conhecimento. Quanto maior for a igualdade de instrução, maior o aperfeiçoamento das ciências, das artes, da língua e, consequentemente, melhor será a vida do homem. Conforme Condorcet, a técnica resultante do progresso humano criará “[...] os instrumentos, as máquinas, os ofícios aumentarão cada vez mais a força, a habilidade dos homens, ao mesmo tempo aumentarão a precisão dos produtos, diminuindo o tempo de trabalho necessário para obtê-los” (CONDORCET, 1993, p. 203). Desse modo, dizia o filósofo, a vida do homem moderno torna-se menos penosa e insalubre, se comparada com a do homem antigo.
Se por um lado há todo um constante progresso criado pelas faculdades do homem, com significativos avanços e transformações de sua vida, para o presente e o futuro, poderíamos imaginar que a humanidade chegaria ao ápice das luzes, tendo sabedoria para viver plenamente. Condorcet é cauteloso neste sentido, e vê que, por outro lado, seria muita pretensão imaginar que é possível alcançar o último limite das verdades fundamentais:
Mas é fácil ver o quanto a análise das faculdades intelectuais e morais do homem ainda é imperfeita; o quanto o conhecimento de seus deveres, que supõe aquele da influência de suas ações sobre o bem estar de seus semelhantes, sobre a sociedade da qual ele é membro, ainda pode entender-se por uma observação mais fixa, mais aprofundada, mais precisa dessa influência; o quanto resta de questões a resolver, de relações a examinar, para conhecer com exatidão a extensão dos direitos individuais do homem e daqueles que o estado social dá a todos em relação a cada um! (CONDORCET, 1993, p. 205).
Vemos, assim, a necessidade constante do aprimoramento das faculdades humanas. A instrução que permite ao indivíduo avaliar, comparar, escolher, reconhecer, sua presença livre no novo Estado francês, na disposição de leis e estruturas que resgatam a igualdade de condições e o respeito dos direitos naturais do homem. Ou seja, a instrução possibilita o aperfeiçoamento das ciências, do estado, do conhecimento, é o
próprio progresso humano. Conforme relata Condorcet, foi necessário realizar profundas mudanças à época, superar vícios, romper estruturas preconceituosas para instituir novos caminhos. A desigualdade de direitos entre o homem e a mulher foi uma das principais desigualdades rompidas com o desenvolvimento do processo educativo Francês:
Entre os progressos do espírito humano mais importantes para a felicidade geral, devemos contar com a destruição integral dos preconceitos que estabeleceram, entre os dois sexos, uma desigualdade de direito funesta àquele mesmo que ela favorece [...] essa desigualdade só teve origem no abuso da força, e foi em vão que depois se tentou desculpá-la por sofismas (CONDORCET, 1993, p. 209).
Além de promover o bem estar no seio da família, o rompimento das desigualdades entre o homem e a mulher foi um marco fundamental para que a instrução pública alcançasse o seu propósito, de ser oportunizada com igualdade a todos os cidadãos. Assim como outras conquistas que o povo francês promoveu progressivamente, elas foram alcançadas graças a desacomodação, bravura pela independência, rompimento com os poderes econômicos, políticos e religiosos, rompimento com o poder mercantil e ideológico. A república francesa inaugura gradativamente um novo modo de o cidadão viver, e o projeto de instrução pública tornou-se o principal meio da pessoa conquistar a sua liberdade e independência.
Por maior que seja o esforço pela busca das luzes, o progresso da inteligência humana estará aquém da perfeição, o aperfeiçoamento sempre será ilimitado, as possibilidades múltiplas permitirão um desenvolvimento contínuo das ciências, das artes, da inteligência: “Hoje em dia um jovem, ao sair de nossas escolas, sabe de matemáticas mais do que Newton tinha aprendido com uma facilidade então desconhecida. A mesma observação pode aplicar-se a todas as ciências [...]” (CONDORCET, 1993, p. 212), resguardando as devidas proporções, o que o filósofo se refere, é que com o passar do tempo, o progresso das ciências e o acúmulo de verdades e conhecimentos construídos, permite com maior facilidade o aprendizado e disseminação destes conhecimentos.
Com as razões até aqui expostas, Condorcet chega à conclusão de que a “perfectibilidade do homem é indefinida” (CONDORCET, 1993, p. 215), apesar do ser dispor das mesmas faculdades naturais e mesma organização educacional, justamente pelas possibilidades do progresso ocorrer permanentemente: “Mas quais seriam, então, a certeza, a extensão de suas esperanças, se pudéssemos acreditar que essas próprias
faculdades naturais, essa organização também são suscetíveis de melhorar?” (CONDORCET, 1993, p. 215).
Os mesmos princípios da lei geral da natureza dos vegetais e dos animais sobre a perfectibilidade orgânica das raças, estende-se também à espécie humana. Não há contestação da compreensão de Condorcet, que o homem progressista, utilizou-se de suas faculdades para desenvolver sua perfectibilidade, como podemos ver no progresso da medicina, no uso dos alimentos, nas técnicas aliadas ao trabalho, entre outros. Ele defende um progresso suscetível de ser apresentado com precisão por quantidades numéricas, e por isso delimitou como indefinido.
Por fim, Condorcet analisa se as faculdades morais e físicas do homem seguem um caminho semelhante de perfectibilidade. E parte deste questionamento: “Não é verossímil que a educação, aperfeiçoando essas qualidades, influi sobre essa mesma organização, a modifica e aperfeiçoa?” (CONDORCET, 1993, p. 218). Para ele, assim como herdamos de nossos pais traços genéticos, deles também recebemos parte da organização física, mas é dos progressos da razão e da inteligência livre e segura que depende o caminho da verdade, da virtude e da felicidade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este processo investigativo/reflexivo sobre o pensamento de Condorcet, mais especificamente de seu projeto de instrução pública, nos remete ao contexto monárquico em que a França estava inserida até o século XVIII, e, por ocasião deste regime, o desvelamento de diferentes movimentos revolucionários em toda a Europa.
Condorcet foi, entre tantos outros, mais um pensador que reage ao sistema opressor, à pratica do autoritarismo, à desigualdade política e impedimento da liberdade das pessoas. Sua proposta, para superação destes malefícios, foi apresentada na obra Cinco memórias sobre a instrução pública, a qual contem a teoria filosófica da escola republicana, viés pelo qual desenvolve seu projeto de lei para a instrução pública da França.
Nele, conforme apresentamos neste estudo, estão presentes os procedimentos e viabilidades de tornar todas as pessoas cidadãs na república. A república é capaz de