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duas perspectivas na “sociedade de massa “

No documento ESTUDOS ESTRATÉGICOS (páginas 167-200)

Tudo isto significa que não estamos, em absoluto, diante do fim do partido político, mas diante do fim do partido político anacrônico; não estamos diante do fim das ideologias, mas diante do fim das ideologias dogmatizadas; não estamos diante do esmagamento da cultura por obra da política, mas, ao contrário, diante do amadurecimento de uma política nutrida de cultura.

Tudo isto certamente não significa que deixarão de existir fenômenos de anacronismo na vida dos partidos. Significa, porém, que hoje a própria competição entre os partidos favorece os partidos capazes de interpretar e dirigir a nova realidade social através de alternativas adequadas de integração e de racionalização social. Neste sentido, a “sociedade de massa” pode se abrir para duas perspectivas diferentes: de subordinação do sujeito humano e de mortificação da cultura, mas também de desenvolvimento da socialização consciente e do crescimento de sujeitos maduros, responsáveis e conscientemente integrados numa comunidade igualitária. Esta dupla perspectiva se abre em toda a vida política. Conforme as orientações impressas à direção política poderemos caminhar para uma mais férrea oligarquia tecnocrática, sob a qual a personalidade do cidadão será manipulada, massificada e forçada à apatia, ou para uma maior participação nas decisões políticas, para um enriquecimento e uma descentralização da opção política, para uma integração entre cultura e política, entre especialização e orientação global da vida. Nesta opção, muito dependerá dos grandes partidos de massa, de sua capacidade de fazer funcionar uma correta, moderna e democrática relação entre quadros e massas, entre dirigentes e dirigidos, entre funcionários e aderentes, entre inscritos e simpatizantes, entre eleitos e eleitores.

Hoje, a relação quadros-massas recoloca como um problema político e, portanto, atual, o fundamental problema gramsciano: deve durar eternamente a divisão govemantes-governados? No interior da própria sociedade evoluída propõe-se às forças políticas um tema que implica a resposta a esta outra interrogação: queremos mudar este Estado e esta sociedade ou precisam eles ser conservados para sempre? Eis porque uma série de postulados tradicionais vem sendo recolocada em discussão por todos os partidos populares, mas em geral por todos os partidos dotados de uma instrumentação cultural moderna. O socialismo, por exemplo, não é mais uma doutrina a ser excomungada, mas um tema da vida. Isso, entretanto, sob a condição de que o próprio socialismo se saiba não como uma doutrina por “aplicar”, como uma tábua canônica por “interpretar”, mas como tendência geral da sociedade moderna para superar as contradições induzidas pelo capitalismo na economia e pela gestão delegada e elitista na política.

Com apoio nisso, reabre-se hoje o discurso sobre a correção da democracia parlamentar a partir do crescimento de formas de democracia de base, de democracia direta e participativa nos comitês de escola, nos conselhos de fábrica, nos conselhos de bairro, nas instituições administrativas. Esta articulação da democracia é uma exigência da socialização objetiva de nossa realidade econômica e também da maturidade cultural atingida pelo cidadão-trabalhador. Esta tendência é, por assim dizer, a elevação aos mais altos níveis políticos e culturais da tradição revolucionária dos sovietes. Nessas instituições da democracia difusa não se forma apenas uma mais alta consciência dos trabalhadores, mas também uma mais moderna adequação dos partidos políticos. Através dos mil canais de uma democracia participativa se educa o próprio educador, na medida em que ele está em contato com os problemas e com a vontade dos trabalhadores e dos cidadãos. Nesta relação entre quadros e massas, modela-se definitivamente uma relação mais ampla entre intelectuais cada vez menos isolados e “simples” cada vez mais portadores de saber real e de competência sociais. Nela, portanto, também se remodela a relação entre trabalho intelectual e trabalho manual, o problema de uma divisão do trabalho não cerceadora do desenvolvimentb individual, o problema da relação entre ciência e profissionalidade.

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O partido político está diante de uma encruzilhada de três caminhos: ou se torna promotor de uma grande síntese social, convertendo-se verdadeiramente no moderno príncipe gramsciano; ou se reduz a ser o servo estúpido de um poder estranho e astuto, o mecanismo de manipulação dos novos súditos dominados pelas coisas; ou, enfim, sobrevive como o Don Quixote iludido de uma revolução impossível. Seja como for, estamos diante de uma perspectiva de profunda transformação e, talvez, às vésperas de mudanças importantes em partidos importantes. (...)

(...) O partido político, por assim dizer, deve hoje ser muito ambicioso e muito modesto. O fim da “vaidade de partido” relança as grandes metas da política moderna: a universalização da existência através da potencialização da liberdade de cada um e da igualdade de todos. O partido deve ser ambicioso e modesto como o cientista, e como bom intelectual coletivo deve redescobrir a virtude da ciência: a dúvida metódica na corajosa pesquisa da verdade, a persistente finalização das menores operações, a fantasia criadora e a disponibilidade antidogmática para a experimentação. Deve acabar, portanto, aquilo que Bentham chamava de “a indiferença com respeito ao método” que geralmente o partido tem e que freqüentemente solicita aos seus membros. A fidelidade ao partido, dizia Bentham, não deve produzir indiferença com respeito ao método. Pode-se então concluir que, hoje, quem presta o melhor serviço ao partido político não é o executor cadavérico, mas os que controlam criticamente as análises, participando da batalha cotidiana para atualizá-las e para realizá-las corretamente. Exatamente a crescente densidade intelectual da política exige uma crescente participação intelectual, crítica, no partido político e na elaboração de sua linha.

A relação quadros-massas, em suma, não pode mais ser uma relação de comando, uma mera relação de guia ou uma mera relação “pedagógica”. Torna-se uma relação maiêutica voltada para descobrir na massa a capacidade potencial de se tornar quadros, não para selecionar a massa, mas para fazê-la crescer em proporções cada ver maiores. Nesta tendência política para a promoção imediata e contínua da massa emerge um impulso importante e talvez decisivo para universalizar a vida e suscitar as funções parciais próprias de um partido com funções gerais. Ao mesmo tempo, o partido eleva a própria perspectiva política ao nível da cultura, da unificação do gênero. Somente assim um partido político pode, hoje, fazer uma política-história, como dizia Gramsci, isto é, uma política que enquanto incide sobre o presente corrige o passado e abre o futuro. Somente assim o partido político se torna vanguarda real, deixa de ser vanguarda apenas carismática.

A força das próprias transformações objetivas nos está impelindo para uma profunda transformação do instrumento político ainda não privado das tradicionais e sobreviventes características religiosas. Agora se pede a ele que se laicize e se racionalize, ou se remodele como portador de um programa culturalmente rico e universal. A própria história coloca como uma precisa instância política o fim do “pensamento sectário” e a descoberta dos vínculos orgânicos entre ciência e política: ou melhor, a capacidade de desenvolver a causa de uma parte da sociedade como causa geral.

Isto significa que a capacidade de hegemonia cultural e intelectual e de emancipação universal converte-se num elemento cada vez mais decisivo na competição entre os partidos.

O melhor partido é aquele que consegue crescer com as necessidades, as solicitações, as esperanças de universalizar a vida de todos - não como membros de um partido ou dos membros de uma classe, mas de toda a humanidade; é aquele que consegue se colocar como portador de uma mensagem universal de renovação do mundo, de libertação da existência de todos.

Terminarei recordando um pensamento de Gramsci sobre a relação quadros-massas. Ele dizia que “é mais fácil criar um exército do que dez capitães”. Mas é presumível que Gramsci não queria criar apenas dez capitães e deixar de criar um exército. Na realidade, ele queria dizer que o problema do partido

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político moderno é o da construção de um exército capaz de criar capitães, de um exército de capitães. Entretanto, um exército de capitães é um não-exército, pois não apresenta graduações burocráticas e tem como seu fim último exatamente o fim do partido e da necessidade de um guia político: o fim de toda divisão entre dirigentes e dirigidos, a emancipação de todos, inclusive do moderno Príncipe.

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Capítulo VI

A relação da burguesia e a do proletariado com suas representações políticas apresenta diferenças muito importantes, sem deixar de conter também semelhanças.

Em primeiro lugar, a burguesia é uma classe-elite. Se considerarmos a burguesia propriamente dita, com exclusão, portanto, da pequena burguesia, verificamos, em qualquer país no qual a formação social tem estrutura capitalista definida, que a burguesia constitui percentual ínfimo no conjunto da população. Grandes e médios proprietários de capital (empresários ou não) formam um segmento notavelmente restrito, que aparece como elite, ou seja, como minoria dotada de certos atributos especiais. No caso, riqueza e prestígio.

Marx e Engels enfatizaram, ao mesmo tempo, o caráter do Estado burguês enquanto órgão de dominação de classe da burguesia e a inaptidão desta para o exercício direto do poder estatal. A burguesia se distinguiria, sob este aspecto, dos senhores de escravos e dos senhores feudais. Estes se incumbiam pessoalmente das tarefas do poder, arbitrando decisões em instituições coletivas, como o Senado romano, ou comandando forças militares com a prerrogativa da coerção legítima. Já o mesmo não se dá, de fato, com a burguesia.

Marx e Engels elaboraram suas teses sobre o tema principalmente a partir dos acontecimentos políticos na França, entre a revolução de fevereiro de 1848 e o golpe de Estado de Napoleão III, em dezembro de 1851. Enfrentando, num dos flancos, os partidários da monarquia, que acabava de ruir, e, no outro, um proletariado exigente e combativo, e perdida, além disso, nas dissensões internas, a burguesia cedeu o poder no final a um falsário político. Renunciou ao exercício direto do poder para se contentar com a segurança de sua ordem social — a ordem capitalista — garantida por um ditador que seria a reprodução farsesca do bonapartismo original. A burguesia sacrificou seus representantes parlamentares para poder se entregar com tranqüilidade à gestão dos negocios privados. Está claro, semelhante renuncia tinha um preço.

Escrevendo muito depois, quase no final do século XIX, Engels salientou a dependência servil em que a burguesia inglesa, toscamente educada, se encontrava em face dos aristocratas, instruídos e experientes na administração pública.

As constatações de Marx e Engels são válidas até hoje, mas sua explicação se revela incorreta. O Estado burguês moderno centralizou fortemente funções públicas antes descentralizadas e dispersas. Max Weber observou que o exercício da força coercitiva legítima deixou de ser atribuição de grandes e pequenos senhores de feudos e se concentrou no poder legítimo e unificado do Estado capitalista moderno. Um único exército substituiu as múltiplas tropas dos barões medievais. E assim por diante.

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revoluções burguesas, mas, sem dúvida, deu com estas um salto qualitativo. Anteriormente a Weber, já havia Marx esboçado a idéia seminal acerca do agigantamento do Estado no processo de centralização administrativa, que transcorre entre a formação feudal e a formação capitalista.

Demais disso, a atividade pública, executiva ou legislativa, se tornou uma especialização profissional. Para ser realizada com eficiência requer dedicação integral, instrução superior, experiência acumulada. Verifica-se que muito raramente a mesma pessoa consegue ter êxito no cumprimento simultâneo das tarefas de empresário e estadista.

Quando começou a existir como tipo social, ainda sob o domínio da aristocracia feudal, o burguês manifestava um sentimento de inferioridade diante dos nobres com os quais entrava em contato. O nobre podia até estar arruinado, mas dispunha do savoir faire que faltava ao plebeu endinheirado, cuja atração pela ostentação da nobreza Molière ridicularizou na figura do burguês fidalgo. O comportamento deste ainda não se desprendera da ideologia aristocrática e sua maior ambição de novo-rico era se aristocratizar.

Está claro, o burguês fidalgo, deslumbrado e trapalhão, ficou para trás. A medida que adquiriu consistência como classe, a burguesia desenvolveu ideologia própria, altamente elaborada, e fez sua revolução contra a aristocracia feudal. Mas isso não a libertou de certa peculiaridade própria da condição de classe. Precisamente, a peculiaridade acerca da qual Marx e Engels se equivocaram, interpretando-a como inaptidão congênita ao exercício direto do poder estatal. Na verdade, não se trata de inaptidão stricto sensu, supostamente incurável, mas de divisão de funções sociais.

O aristocrata medieval era educado no manejo das armas e na administração do feudo. Para o burguês prático, seria inviável associar responsabilidades empresariais com a profissão militar ou de administrador público. Necessariamente, a burguesia precisou admitir a delegação das tarefas estatais a especialistas profissionais. Nos primórdios, estes especialistas eram principalmente aristocratas. Com o tempo, passaram a ser recrutados em outras camadas sociais como militares profissionais, juristas, financistas e outros especialistas (inclusive sociólogos), aos quais Gramsci chamaria de intelectuais orgânicos.

A divisão de tarefas, sem dúvida, não é rígida. Não faltam empresários nos parlamentos e nos ministérios. Mas não são eles que caracterizam o tipo social que desempenha as funções públicas. Estas, em casos como as judiciárias e militares, são rigorosamente restritas a profissionais de tempo integral. São funções que requerem longa preparação especializada e não dão margem para improvisações.

Também o exercício de cargos eletivos se tornou uma especialização profissional. Pessoas oriundas de famílias burguesas podem ocupar tais cargos, levadas por motivações diversas. Em sua grande maioria, no entanto, os cargos eletivos são disputados e exercidos por políticos em tempo integral, procedentes das camadas médias e inferiores. A disputa eleitoral requer o trato habilidoso com a massa de gente comum, o que só conseguem os indivíduos dotados de vocação e experiência vivenciada. Uma vez que é uma classe-elite, a dominação da burguesia depende do apoio das classes-massa. O político profissional age como promotor deste apoio, o que lhe impõe disciplina, conhecimentos, esforço concentrado e traquejo apurado. Por isso mesmo, é muito raro que um Kennedy chegue à presidência da república.

A separação de funções entre o burguês prático e o político profissional não afeta em nada a dominação de classe da burguesia. Todo um mecanismo de mídia e de financiamentos, legalizados ou não, ata os partidos burgueses e os políticos profissionais, individualmente, à burguesia como classe ou a setores e grupos dela. O mecanismo, vez por outra, incorre em desajustes e falhas e pode mesmo entrar em pane. Mas a regra é o funcionamento satisfatório.

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assegurando sua fidelidade aos interesses gerais da burguesia (embora ocorram infidelidades, até com freqüência, a interesses parciais, sobretudo se conflitantes entre si). Tal circunstância consiste no fato de que só por exceção o político profissional é um asceta, motivado unicamente pelos princípios cívicos. Comumente, ambiciona ser burguês ao mesmo título que seus patrocinadores, dispondo de patrimônio e de padrão de vida equivalentes aos deles. Afinal, por que deveria o deputado ou ministro se contentar com os vencimentos protocolares, enquanto os empresários, cujas causas eles defendem, se fartam de riquezas crescentes?

Como é óbvio, existem regras do jogo que não devem ser violadas, aparências que precisam ser preservadas, sobretudo nos países em que o Estado de direito e a transparência da vida pública são valorizados. Todavia, no Brasil bem como nos países considerados sérios, não faltam os mil e um jeitinhos, incluindo a passagem pelos campos minados da corrupção, que conduzem o político profissional de origem modesta à fortuna pessoal. Vez por outra, explodem os escândalos provocados pela corrupção de políticos profissionais e funcionários públicos. Porém a repetição indefinida desses escândalos demonstra que se trata de procedimento sistêmico, inextirpável da vida pública burguesa. Na verdade, uma ramificação normal das atividades políticas e administrativas, cuja prática só vem a ser condenada naqueles casos em que os agentes, por exagero, incompetência ou falta de sorte, violaram normas consagradas e aparências indispensáveis. Mas, para um Collor, punido com a pena máxima que correspondia ao seu caso, existem milhares de feras, grandes e pequenas, que devoram o butim com tranqüilidade e bom proveito. O fenômeno da corrupção assumiu proporções tão vastas que a sisuda revista The Economist, na edição de 16 de janeiro de 1999, lhe dedica extensa matéria, na qual informa sobre uma’”guerra global contra o suborno” e sobre a convenção assinada pelos países integrantes da OCDE com a finalidade expressa de punição do crime de corromper funcionários estrangeiros. Dois meses depois, em 15 de março, a Comissão Européia, órgão executivo da União Européia, renunciou coletivamente, sob a acusação de fraude financeira e práticas de nepotismo e apadrinhamento.

o proletariado e suas representações

Para começar, o proletariado, nos países de estrutura capitalista definida, é uma classe-massa. Possui peso de massa no jogo político, inclusive nas alianças de classe. O peso de massa do proletariado (no todo ou em parte) nem sempre se situa na sustentação dos partidos que se proclamam de trabalhadores. Ao invés, pode ser colocado — como tantas vezes acontece — à disposição de partidos, que, dizendo-se condizendo-servadores ou democráticos, efetivamente repredizendo-sentam os interesdizendo-ses burguedizendo-ses. Assim, a própria massa operária não é unívoca no direcionamento de sua orientação política. O apoio dela precisa ser disputado pelos próprios partidos que pretendem representá-la.

No campo estrito dos partidos políticos, não é garantida a fidelidade dos partidos operários aos seus representados. E inimaginável que um partido burguês defenda os interesses da classe operária contra os interesses da burguesia. O contrário, porém, ocorre e não constitui episódio surpreendente: partidos operários podem, como se diz, “fazer o jogo” da burguesia, em prejuízo dos interesses fundamentais ou conjunturais do proletariado.

A relação entre o proletariado como classe e sua representação política, seja com os partidos ou com os dirigentes, é, como se percebe, muito mais problemática do que para a burguesia. Demonstraram-no a experiencia histórica e a abundante teorização suscitada pelo tema. Teorizado que tem assumido formatos diversos e oscila entre dois polos: o do vanguardismo e o do espontaneísmo.

No Manifesto comunista, Marx e Engels declararam que os comunistas apóiam os partidos operários já existentes, porém pretendiam representar o futuro do movimento operário. Os comunistas não constituíam um partido particular diante dos outros partidos operários, mas se distinguiam deles ao menos em dois pontos: na prevalência dos interesses internacionais e na representação permanente dos

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interesses do movimento em seu conjunto.

Ai já está formulada a tarefa de vanguarda dos comunistas. Seria apanágio deles a visão mais avançada e mais ampla. A afirmação de que os comunistas não pretendiam constituir um partido particular certamente se referia àquele momento preciso, no ano de 1848. Posteriormente, Marx e Engels dedicaram muito esforço ao desenvolvimento do partido comunista (denominado social-democrata) na Alemanha e fundaram a Associação Internacional dos Trabalhadores (Primeira Internacional). O fato de não haverem tratado, em nível teórico, as questões organizativas do partido não justifica a suposição de que lhes seria indiferente a própria ação partidária, uma vez que, supostamente, bastaria a ação da classe enquanto tal.

Marx teve oportunidade de abordar a questão da relação entre a classe operária e os seus representantes políticos, no caso os funcionários do Estado operário. A Comuna de Paris lhe ofereceu essa oportunidade.

O empenho de Marx consistiu em despojar os representantes do proletariado dos privilégios assegurados aos parlamentares e aos altos funcionários do Estado no regime burguês. Destacou dois aspectos: o da revocabilidade dos mandatos eletivos pelos eleitores, a qualquer momento, e o do salário igual ao de operários para todos os ocupantes de cargos públicos. Cumpre notar que, depois da Comuna

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