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C APÍTULO II R EDES DE PARENTELA

DPM 13 E NGENHO DO V IEGAS , HISTÓRICO P ATRI MATRIMONIAL

FONTES: AGCRJ. COLETÂNEA DE PESQUISAS REALIZADAS NO SETOR 3 HISTÓRICO DO ARQUIVO GERAL - 2 HD DO ESTADO DA GUANABARA DURANTE OS ANOS DE 1956 A 1960; AN. FUNDO INVENTÁRIOS. NOME: MANOEL ANTUNES SUSANO. ANO 1783. NOTAÇÃO 2, CAIXA 3629. (PROCESSO MOVIDO POR OUTRO MANOEL); AP286 (1767 A 1811); AN. FUNDO INVENTÁRIOS. FALECIDOS: MANOEL ANTUNES SUSANO E MARIA JANUÁRIA GALVEZ PALENÇA. INVENTARIANTE: JOÃO GOMES DE CAMPOS. ANO 1819. NOTAÇÃO 77, CAIXA 3629; LAMEGO 1942 E FRÓES 2004.

"Que elle suplicante por mais esforços que tenha feito para tornar lucroza aquella fazenda mal o pode conseguir tendo tomado conta da administração em agosto do anno passado, e achando apenas a fazenda com 24 bois, e 16 bestas, sendo que para a sua laboração não pode conter menos de 120 bois e 40 bestas, resultando dessa falta de animaes gravissimo prejuizo de se perder toda a plantação de canas, e as safras, o que he não só gravissimo ao suplicante mais ainda aos menores seus tutelados, difficultando-se cada vez mais os meios de promover a sua subsistência, e de confirmar e augmentar um patrimônio daquella qualidade."272

O herdeiro se lamentava por não conseguir sustentar a qualidade da casa de seu pai, o que era muito mais grave que morrer de fome. Segundo a moral corporativa da época, cada

corpus tinha sua qualidade, algo como status, que devia ser preservada pelos bens materiais, ou por

um padrão de vida condizente. Segundo Hespanha, uma qualidade, conferia por um estatuto que “comportava certos direitos, mas também certos deveres. E sobretudo, uma obrigação de assumir em tudo uma

atitude social correspondente ao estado, atitude que a teoria moral da época definia como ‘honra’.”273 No relato

do filho sucessor do alferes Manoel, o engenho dos Coqueiros havia sido esvaziado de seus meios de produção, sobretudo dos animais de tração, a ponto de não conseguir prover sequer a subsistência dos herdeiros, nem de ‘confirmar e augmentar um patrimônio daquella qualidade’. Exagero ou não, não temos mais notícias das dificuldades do filho sucessor para administrar, tão jovem, o imenso patrimônio do seu pai, durante a década de 1820.

Mas o ano de 1831 foi decisivo para a descendência dos Antunes Susano em Coqueiros. Nesse ano morreu Manoel, o sucessor do pai, e uma outra irmã, Maria, deixando, novamente, o engenho à deriva. Neste mesmo ano, casaram-se duas de suas irmãs, ambas co-herdeiras em Coqueiros, o que desencadeou uma disputa entre os novos cunhados pela tutela dos outros irmãos, claramente interessados na administração daquele patrimônio. A crise de sucessão ameaçava a integridade dos dois engenhos, que permaneciam pro indiviso até aquele momento. Mas parece ter sido controlada. Naquele ano, os herdeiros fizeram acordo com um cunhado, cedendo parte dos imóveis que tinham no centro da cidade para não dividir a Fazenda Coqueiros, alegando saber das ‘nefastas conseqüências’ da divisão por casos na vizinhança. Por fim, em 1854, dois desses filhos declararam possuir a fazenda, que tinha também vários outros foreiros.

272 AN. Fundo Inventários. Falecidos: Manoel Antunes Susano e Maria Januária Galvez Palença. Inventariante:

João Gomes de Campos. Ano 1819. Notação 77, caixa 3629. (Fl. 301)

Façamos um breve parêntesis para esclarecermos o uso do termo pro indiviso. Segundo o moderno direito sobre as coisas, a composse pro indiviso é a situação de um condomínio em que cada compossuidor tem apenas uma parte ideal sem saber qual a parte certa que lhe cabe, ou seja, a posse é exercida sobre coisa na qual sua parte não é determinada. Não havendo divisão de fato, a comunhão é de fato e de direito. No senso comum, se fala em um imóvel pro indiviso, ou em comum, quando os condôminos não têm a posse de determinada parcela da coisa, onde tudo é de todos. Juridicamente, os títulos de propriedade de um condomínio pro indiviso falam em fração ideal, descrevem o todo e nada é referido quanto ao uso exclusivo. Da mesma forma, as proteções possessórias conferidas pela lei têm por finalidade sempre a gleba como um todo. Mas, na prática, ninguém usa parte certa, todos usam o todo segundo as normas legais e as conveniências do grupo condominial.274

Historicamente, há ainda muito o que se conhecer sobre as terras pro indiviso. Elione Guimarães, estudando o caso dessas fazendas pro indiviso em Juiz de Fora, na primeira metade do século XIX, definiu as “terras pró-indivisos” ou “terras no comum” como propriedades sem demarcação judicial dos limites e possuídas por vários donos, aparentados ou não275. Ela

descobriu que eram terras que, ao longo dos anos, a partir de transações de compra e venda, permutas e partilhas, passaram a ser propriedade de várias pessoas, perdendo-se as divisas originais. Os condôminos, no geral, possuíam o título de propriedade sobre o patrimônio em disputa, mas eram tantos que alguns se desconheciam como co-proprietários. É lógico supor que a inexistência de divisas judiciais e que os acordos informais de ocupação das propriedades em comum gerassem uma enormidade de conflitos. Dando as linhas gerais para a compreensão do termo, esperamos que, ao final desse trabalho, o leitor também encontre nossa posição sobre o que são e para que servem as terras pro indiviso.

* * *

Vejamos agora o que se passou com o irmão do alferes Manoel, outro filho de José Antunes Susano, também chamado José. Este, como dissemos anteriormente, havia se casado, em 1779, com a filha do capitão João Pereira Lemos, com quem tivera sete filhos, antes de ficar

274 Comentários ao Projeto Gleba Legal, Mario Pazutti Mezzari, Registrador de Imóveis - 1º RI de Pelotas-

RS (www.colegioregistralrs.org.br/anexos/mariomezzari_comentariosglebalegal.doc); Ver também http://pt.wikipedia.org/wiki/Direito_das_Coisas;

http://www.ricardoericardo.com.br/dji/dc/posse.htm#Composse%20pró-indiviso;

http://www.advocaciaassociada.com.br/informacoes.asp?IdSiteAdv=2803&action=exibir&idinfo=1796.

viúvo, em 1791. Enquanto esperava seu quinhão dessa herança polpuda, se casara novamente com outra Maria Tereza de Jesus, também sua prima, mas filha de Mateus, tio pobre, estabelecido como sitiante nas terras de Capoeiras há décadas. Maria Tereza faleceu logo, sem dar novos filhos ao capitão. Por volta dessa época, ele administrava o engenho de Inhoaíba, que antes era do capitão Antônio Antunes (seu tio?), portanto, de sua família ampliada.

Em 1794, morreu a sua sogra, dona do maior engenho de Irajá e do das Capoeiras, que o genro também passaria a administrar. Embora essas terras não lhe pertencessem no seu conjunto, os investimentos matrimoniais valeram a pena: o capitão José teve sucesso no acordo