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C APÍTULO II R EDES DE PARENTELA

DPM 16 H ERDEIROS DO DIZIMEIRO M ARCOS C ARDOSO DOS S ANTOS (1720-1809)

FONTES: FRAGOSO 2007; ARQUIVO NACIONAL. FUNDO INVENTÁRIOS. ORIGEM: JUÍZO DE ÓRFÃOS. NOME: JOSÉ CARDOSO DOS SANTOS. ANO: 1822. CAIXA 3763, NÚMERO 5; NOME: MARCOS CARDOSO DOS SANTOS, INVENTARIANTE. ORIGEM: JUÍZO MUNICIPAL, REVISTA CÍVEL. ANO: 1824; CAIXA 3763, NÚMERO 22; ORIGEM: JUÍZO DE ÓRFÃOS MAÇO 3 NÚMERO 34; ACARJ, AP286 (1767A 1795); ARQUIVO NACIONAL. FUNDO PROCESSOS SDJ DIVERSOS. AÇÃO DE LIBELO. ANO 1819. NÚMERO 4204, MAÇO 1744. LAMEGO 1942, ENTRE OUTROS.

Em síntese, o dizimeiro Marcos Cardoso dos Santos foi, ou melhor, buscou ser um elemento da nobreza da terra: arrematou contrato do governo da colônia, através do qual amealhou imenso patrimônio fundiário e em escravos. Suas estratégias matrimoniais para os filhos miraram para ‘fora’ da freguesia, sobretudo para o estabelecimento de relações verticais com famílias de mais status. Mas os seus esforços para manter uma posição econômica e política para dentro da freguesia não se orientaram para o afinco na gestão do engenho, que nunca foi o mais produtivo, nem para a expansão do patrimônio ou fundação de novas fazendas e engenhos (o único caso, de Rio da Prata, rendeu muitos problemas). Também não priorizaram incrementos patrimoniais via casamentos com outras famílias senhoriais, nem o estabelecimento de relações de compadrio com famílias de lavradores locais.

No ano da morte do sargento-mor José Cardoso dos Santos, 1809, seu patrimônio, quase integralmente herdado dos pais, foi avaliado em 70.000.000 réis (21.466,67 libras).295 A casa

grande possuía móveis de jacarandá, uma capela separada, com imagens, e somente a prataria, ouro e pedras preciosas foram avaliados em 190.470 réis (58,41 libras).296 Diferindo, entretanto,

de outros grandes senhores de terras da região, José Cardoso dos Santos optou, em testamento, por dividir o patrimônio igualmente entre seus seis filhos, não havendo, portanto, herdeiro preferencial. A partir de então, inicia-se uma guerra fratricida que duraria 34 anos, para ver quem angariaria o melhor quinhão da Fazenda Cabuçu.

Em sentido contrário ao que vimos com os Antunes Susano e os Pereira Lemos, os Cardoso dos Santos não teriam criado vínculos locais a ponto de poderem transitar mais harmonicamente entre seus vizinhos, nem buscaram relações sociais que os permitissem expandir seu patrimônio, ou liberar seus herdeiros, de maneira menos conflitiva. Pelo contrário, Marcos e Úrsula quiseram manter ‘tudo para si’, até fins do século XVIII, com mão de ferro sobre cercas, filhos, noras e netos, mantendo os bens pro indiviso e prescrevendo comportamentos matrimoniais, econômicos e políticos bastante restritivos.

295 Arquivo Nacional. Fundo Inventários. Nome: Angélica Maria Ignácia de Paiva, inventariante. Origem: Juízo de Órfãos, Apelação de Partilha. Ano: 1826. Número 34, maço 3.

296 Arquivo Nacional. Fundo Inventários. Nome: Marcos Cardoso dos Santos, inventariante. Origem: Juízo Municipal, Revista Cível. Ano: 1824. Caixa 3763, Número 22.

O resultado se deu, primeiro, na forma de conflitos com os vizinhos, para os quais não houve mediação, apenas violência.297 Depois, o conflito entre todos os herdeiros, que não

possuíam outros meios de vida ou outros vínculos sociais vantajosos para que pudessem, ou quisessem, prescindir do seu quinhão no patrimônio.

Seria esse exclusivismo que daria sentido à declaração dos herdeiros para o visitador, em 1813, de que as suas fazendas seriam as únicas que não teriam moradores, mas apenas 203 escravos e 44 agregados (somando os engenhos de Cabuçu e Rio da Prata)? O fato de não termos acesso a uma lista nominal dos moradores de suas fazendas nos impediu de fazer, com os Cardoso dos Santos, o mesmo exercício patrimonial-genealógico que fizemos com os Antunes Susano e Pereira Lemos, tornando impossível traçar a relação dos sitiantes com a família senhorial. Mas, por outro lado, se herdeiros problemáticos de Cabuçu declararam não possuir nenhuma família com status de moradores em suas terras, confirmamos nossa hipótese inicial, através de um contracaso.

Que existiam outros lavradores em Cabuçu, temos certeza absoluta. Nos meandros do inventário da fazenda, nos inúmeros conflitos entre si, os herdeiros do sargento-mor recorriam a testemunhas, despejavam, se faziam reconhecer por vizinhos, todos eles moradores em terras de Cabuçu. Nos registros de batismos, encontramos gerações de lavradores bastante bem estabelecidos que, no momento do Registro Paroquial de Terras, declarariam datas ou situações em Cabuçu. Mas entendemos que os Cardoso dos Santos não os reconheciam como sitiantes porque optaram por não estabelecer vínculos sociais ‘para baixo’, pois dar status de sitiante era o mesmo que considerar o morador um parente, um amigo ou um compadre, com os direitos e obrigações morais disso advindos. Não é coincidência que os únicos casos de violência contra vizinhos pobres e despejo sumário de arrendatários que conhecemos na freguesia, no primeiro quartel do século XIX, sejam, justamente, entre os herdeiros de Cabuçu.

O exclusivismo patrimonialista, enquanto estratégia de acumulação a curto prazo, foi eficiente, pois centralizou recursos e impediu que esse patrimônio se fracionasse, até 1809. Mas, enquanto estratégia social a médio e longo prazo, de manutenção e expansão desse patrimônio, fez com que os herdeiros fossem colocados numa ‘panela de pressão’ sem válvula de escape.

297 Segundo Fridman, Antônio da Cunha e Silva também denunciou o feitor da Fazenda Cabuçu, por volta de 1820, de invadir sua fazenda com mais de 20 escravos para roubar lenha. Cf Fridman 1999. (p. 168 nota 113)

EST RA T É G IA S P A T R I-M A T RIM O N IA I S SE N HO R IA I S

Nesse ponto, devemos fazer breves considerações a respeito das mudanças e dos conflitos que perpassavam as regras de transmissão das terras, em escala mais ampla, para nesse contexto balizarmos as atitudes das famílias senhoriais de Campo Grande que acabamos de expor. A liberalização do mercado fundiário (ou seja, a anulação de qualquer vínculo que impeça a venda de uma gleba) e o igualitarismo sucessório são as bases do direito fundiário moderno. Na Europa, os novos regimes fundiários fundados sobre a propriedade privada, liberada de todos os vínculos e alienável, foram o resultado de um processo iniciado com a revolução francesa e prosseguido com as várias reformas agrárias liberais.

Os regimes jurídicos que regulavam a partilha e a herança também estavam mudando no século XIX, e apontavam para uma tendência mais igualitária na divisão dos bens entre os herdeiros. Mas esse novo direito se construiu no longo prazo, plenamente estabelecido apenas no século XX. Por isso, a disputa histórica entre um sistema de transmissão de patrimônio mais igualitário e a preservação da vontade do testador é uma das marcas de um processo mais longo de liberalização dos direitos no mundo ocidental. Essas mudanças foram acompanhadas de novas regras que permitiram o fracionamento da propriedade, a colocação no mercado das terras da Igreja, os grandes comunais e os pequenos lotes camponeses.298

Segundo Maria Malatesta, a história das elites fundiárias desde os oitocentos é a história de sua transformação, já que elas se mostraram dinâmicas e não hostis às inovações econômicas, mas, ao mesmo tempo, quiseram manter a idéia do privilégio senhorial. A restauração geral após a queda de Napoleão retomou o regime sucessório do Antigo Regime (maggiorasco e fideicomisso), mas, a partir da segunda metade dos oitocentos, quando o direito moderno se impôs com maior vigor, a aristocracia fundiária passou a utilizar outras estratégias e subterfúgios legais para garantir a indivisibilidade da propriedade.

Na França, os fundadores da temática da sucessão patrimonial rural foram dois artigos publicados nos Annales em 1972, de Le Roy Ladurie e Pierre Bourdieu.299 Eles mostravam a

ligação entre práticas sucessórias, estruturas familiares, economia doméstica, estratégias matrimoniais e estrutura social, para considerar a transmissão do patrimônio como um fenômeno social total, que reenviava a um vasto conjunto de práticas, instituições e modos de

298 Malatesta 1999. (p. 14) 299 Bourdieu, 1962

pensamento. Os problemas que eles se colocaram permanecem atuais: qual o papel da herança na estruturação da parentela e nos dispositivos de reprodução econômica e social do campesinato?300 Partindo de outro problema, alguns anos mais tarde Giovanni Levi já nos

apontava para a necessidade metodológica de se transcender a família nuclear e alcançar as estratégias mais gerais das famílias extensas que as envolvem. Por estratégia familiar, Levi entendia a forma da família ampliada agir em solidariedade e cooperação seletiva, adotadas para organizar a sobrevivência e o enriquecimento.301

No Brasil, a temática apenas engatinha. Mas, aceitando o desafio de se ‘afogar em nomes’, João Fragoso se debruçou sobre as estratégias das ‘melhores famílias da terra’ carioca, dos séculos XVI ao XVIII, perpetuarem seu patrimônio e mantê-lo íntegro, mesmo em contextos de solavancos econômicos. Segundo ele, com esse objetivo os descendentes dos quinhentistas teriam desenvolvido uma verdadeira economia política com diferentes capítulos, que passavam pela política, administração, negócios, crédito, e também pela elaboração de um sistema de casamentos e de transmissão de patrimônio.

No campo patri-matrimonial, vê-se a necessidade sentida por essas famílias de restringir as alianças que dispersassem seus bens através de casamentos. Assim, criada uma aliança considerada vantajosa entre duas famílias, a tendência era reforçar esse elo através do tempo, reproduzindo casamentos entre aparentados. A conseqüência foi a formação de um ‘grande clã’ onde todos tinham certo grau de parentesco, ou, num linguajar mais técnico, um quadro de endogamia parental, mesmo que não estritamente geográfica.302 Criado o meio propício, outro

traço observado naquele sistema foi a passagem de bens entre cunhados e irmãos selecionados, mesmo contra a lei.303 Nesse campo, as famílias teriam táticas para burlar a lei de heranças

prevista pela legislação portuguesa, que supostamente fragmentaria os bens de uma família, recorrendo aos tabelionatos para vender o patrimônio em cartório para um parente cuidadosamente escolhido.304

300 Barthelemy 1988. 301 Levi 2000. (p. 98) 302 Fragoso 2007. (p. 28)

303 Nas Ordenações Filipinas, o Rei tentava proibir que os pais vendessem terras para um herdeiro e que os outros fossem lesados. Cf Ordenações Filipinas. Rio de Janeiro. Editor Cândido Mendes de Almeida. 1870. Livro 4, título XII: Das vendas e trocas, que alguns fazem com seus filhos ou netos. 304 Segundo Fragoso, “No sistema de transmissão de patrimônios de uma geração para outra, talvez

Segundo Fragoso, os sistemas matrimoniais e de passagens de bens entre as famílias ainda são, em grande parte, segredos não desvendados. Mas suas pesquisas demonstraram que eram um aspecto da complexa cultura política da fidalguia da época, práticas atravessadas por hierarquias sociais e parentais, camufladas sob a idéia de ‘casa’. Extrapolando o caso do Rio de Janeiro, Linda Lewin analisou a relação entre política e famílias extensas da elite paraibana, no correr do século XIX.305 As pistas deixadas por Fragoso e Lewin foram seguidas neste trabalho.

Ao longo dos estudos de casos anteriores, tratamos das formas distintas com que as três mais antigas famílias senhoriais de Campo Grande—Antunes Susano, Pereira Lemos e Cardoso dos Santos—lidaram com as incertezas da conjuntura econômica, com o futuro dos filhos e com os imprevistos da vida, na administração do seu patrimônio em terras. Em nosso caso, interessava compreender a ‘qualidade’ e a ‘diversidade’ das relações sociais estabelecidas por essas famílias no período em que se consolidavam nos engenhos da freguesia, ou seja, a segunda metade do século XVIII e primeiros anos do XIX.

Nesse sentido, o recorte temporal desta pesquisa avança um pouco naquele enfocado por João Fragoso. Mesmo assim, consideramos que a diferença fundamental das nossas pesquisas está no problema e no grupo social escolhido. No caso de João Fragoso, interessava-lhe destrinchar os sistemas patri-matrimoniais como um dos aspectos da cultura política da nobreza da terra fluminense, inserindo esse trabalho no conjunto mais amplo de preocupações sobre as peripécias dessas elites coloniais tupiniquins. O grupo enfocado por ele foi, portanto, não apenas o de produtores agrícolas, nem somente o dos senhores de engenho, mas a nobreza colonial que, para além de monopolizar terras e homens em nível local, monopolizava também cargos públicos, mercês, negócios e créditos.

De nossa parte, revimos as estratégias senhoriais de Campo Grande com propósito diverso. Acreditávamos que elas pudessem explicar quem seriam os tantos moradores que os senhores declararam em suas terras, no censo paroquial de 1813. Nosso problema central não são as estratégias da nobreza da terra em si, mas entender a relação dos lavradores com os senhores de engenho de Campo Grande. Estamos lidando aqui basicamente com senhores de médios plantéis, numa posição econômica fragilizada pela concorrência com o açúcar campista e

Na análise de tais práticas, deve-se atentar para o fato de que as partilhas dos inventários post mortem podem induzir ao erro, pois nelas sempre a fortuna do casal é partilhada igualitariamente entre os herdeiros, em razão da lei”. Cf Fragoso 2007. (p. 24)

com o café do vale, um degrau abaixo socialmente dos senhores mais antigos e bem estabelecidos em Irajá, Jacarepaguá ou Marapicu. Enquanto aqueles tinham pretensões maiores no mando, nossos senhores eram uma elite apenas em nível local, quando muito.

Portanto, chegamos até aqui porque acreditamos que os moradores seriam o resultado territorial de redes sociais específicas tecidas anteriormente por aquelas famílias. Não esqueçamos que a família continuava sendo o instrumento fundamental de reprodução da aristocracia fundiária, ou da nobreza da terra.306 Sempre que a família possuía um patrimônio a

zelar, todas as estratégias disponíveis para perpetuação natural e cultural desse patrimônio eram válidas: matrimônio, fecundidade, sucessores, instrução. Portanto, julgamos que estamos no caminho correto, embora tortuoso, para desvendar uma configuração territorial, social e política particular: devemos destrinchar as estratégias pelas quais as famílias zelavam, aumentavam ou tentavam perpetuar seu patrimônio fundiário.

Dentre elas, enxergamos a importância dos mecanismos de sucessão, através dos quais as famílias nobres tentavam proteger-se da divisão e do fracionamento dos bens ocasionados por heranças e por casamentos. No Antigo Regime, dispositivos legalmente disponíveis apenas aos nobres eram o fidelcomisso, o maggiorascato e a primogenitura307, que se propagaram na Europa

Ocidental a partir do século XVI. Acionando-os, sobre a terra eram colocados vínculos legais que impediam a sua venda e a mantinham longe do mercado, e quem herdava a propriedade era, na prática, apenas um usufrutuário que tinha por função administrá-la e transmiti-la ao herdeiro designado. Malatesta, ao analisar a aristocracia fundiária européia, concluiu que, se o orgulho de possuir uma terra há muitas gerações era a marca desse grupo, isso deveria ser acompanhado de uma estrutura familiar desigual e hierarquizada. A transmissão da propriedade indivisa para um único herdeiro tinha custos muito elevados para as mulheres e filhos mais jovens. Em Portugal,

306 Malatesta 1999.

307 O fideicomisso podia ser aplicado a uma parte ou a toda a propriedade, e a dimensão das partes vinculadas dependia do equilíbrio entre o desejo de transmitir todo patrimônio ao herdeiro designado e a exigência de deixar parte da terra livre para ser vendida ou hipotecada e saldar dívidas. A propriedade ia sendo liberada de acordo com uma escala temporal. Já o maggiorasco permitia que um título nobiliárquico fosse herdado, desde que fosse ligado a uma propriedade vinculada. Por último, a primogenitura escolhia o filho mais velho como herdeiro universal dos bens da família, excluindo todos os outros. Cf Malatesta 1999. Para uma discussão sobre os problemas gerados pelo fideicomisso na Fazenda de Curicica, no Rio de Janeiro, ver Brasil 1950.

dispositivos como esses, criados no contexto da guerra de Reconquista, foram sancionados pelas Leis Mentais e chegaram às Ordenações Filipinas, que vigoraram no Brasil de 1603 a 1916.308

A diferença primordial é que no Brasil existiam poucas famílias que podiam ser consideradas legalmente nobres, portanto, esses dispositivos legais foram pouco utilizados.309 A

legislação para os plebeus, seguindo os costumes do Reino, determinava a meação dos bens entre marido e mulher e dois terços da legítima do falecido divididos igualmente entre todos os filhos. Logo, apenas um sexto do montante dos bens poderia ser intestado pela vontade, os outros devendo ser partilhados igualmente.310 Portanto, sem valer-se de uma legislação protetora

de seus domínios, as famílias senhoriais brasileiras tiveram de adaptar ou burlar o direito fundiário vigente para atender às exigências de suas estratégias patrimoniais, que prezavam pela integridade.

Aí entrava a criatividade. Malatesta analisou vários dos subterfúgios europeus: o ‘matrimônio limitado’, segundo o qual se casava apenas o herdeiro da propriedade, enquanto os outros filhos eram destinados à carreira religiosa ou ao celibato; a manipulação de pequenas normas que burlavam as grandes; o recurso à liberdade individual do morto, que podia dispor como quisesse de alguma parte do patrimônio; a divisão desigual do patrimônio entre os herdeiros, doação em vida, deserção de herdeiros, entre outros.311

308 “Primeiramente, determinou e mandou, que todas as terras, bens e herdamentos da Coroa de seus Reinos, que per elle, ou pelos Reys foram, ou ao diante fossem dadas e doadas a quaesquer pessoas, de qualquer stado que fossem, para elles e todos seus descendentes, ou seus herdeiros, ou successores, ficassem sempre inteiramente, por morte do possuidor dos bens, e terras, ao seu filho legítimo varão maior, que delle ficasse (...) que as terras da Coroa e do Reino não fossem partidas entre os herdeiros, nem em alguma maneira amalheadas, mas andassem sempre inteiras em o filho maior, varão legítimo daquele que se finasse, e as ditas terras tivesse. (...) se ficasse alguma filha, queria que esta filha as não podesse herdar, salvo per special doação, ou mercê, que lhe elle quizesse fazer (...) porque sua tenção e vontade era, que sem embargo de taes clausulas, as cousas conteúdas nas ditas doações viessem sempre ao filho maior, varão legítimo.” Ordenações Filipinas, livro 2, título XXXV: Da maneira, que se terá na sucessão das terras, e bens da Coroa do Reino (pp. 455-6)(grifo da autora)

309 Para o exemplo da estruturação e dos problemas enfrentados por um nobre morgadio fluminense, em Marapicu, ver BN. Seção de Obras Raras, Ms. 5, 3, 13-15, processo analisado por Silva, M. B. N. D. 1984.

310 Ordenações Filipinas, Rio de Janeiro. Editor Cândido Mendes de Almeida. 1870. livro 4, título XCIV: Como o marido ou mulher casados succedem hum ao outro; Ordenações Filipinas, título XLVI: Como o marido e mulher são meeiros em seus bens. (p. 832); título XCVI: Como se hão-de fazer as partilhas entre os herdeiros (p. 955)