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amostra: 96 registros, crianças com nome Manoel ou Anna.

F IGURA 2 P ADRINHOS EM C AMPO G RANDE (1785-1827)

FONTE: ACARJ, LIVROS DE REGISTROS DE BATISMOS DE LIVRES AP286 (1767 A 1811), AP287 (1795 A 1804), AP 288 (1805 A 1827), AMOSTRAGEM DE CRIANÇAS ANNA E MANUEL (96 REGISTROS)

padrinhos que aparecem com três ou mais afilhados são precisamente os senhores locais, mas apenas 20 cerimônias os envolvem. Nos outros 76 batizados, comparecem como padrinhos ‘ilustres desconhecidos’ de nossas listas senhoriais, na maior parte das vezes apenas uma, no máximo duas vezes o mesmo, demonstrando a pulverização da reciprocidade horizontal local, ou seja, pequenos grupos de amizade entre lavradores ou moradores mais pobres, desconectados do vínculo vertical com um grande senhor ou credor local, como o alferes Manoel, seu irmão capitão José, seu cunhado padre, entre outros poucos. O fato de essas redes serem tão mais descentralizadas pode ser um elemento gerador de resultados interessantes na freguesia. Guardemos esse dado.

Mas nem só os melhores casamentos se produziam localmente. As melhores patentes também. Na impossibilidade de importá-los, os oficiais e conselheiros de Campo Grande também eram produção própria da freguesia: filhos e netos dos primeiros senhores sem patentes, cujo título de ‘capitão de ordenanças’ era a prova da ascensão econômica e da consolidação do status local de suas famílias, pois “davam a categoria de cavaleiros aos que tais postos

tivesse, mesmo que o não fossem”212. As câmaras vão também ser chamadas a escolher o capitão-mor,

o sargento-mor, os capitães e alferes de entre os que residem nos concelhos. Nada distoante do que previam as Ordenações de 1603, para os quais os membros das câmaras

“deviam ser escolhidos homens de boa consciência—e, naturalmente, com alguns haveres—para governarem os concelhos. (...) Para além da Justiça e da administração, as funções atribuídas pelas Ordenações aos concelhos são, sobretudo, as do bem reger as terras pelo que toca aos aspectos econômicos.”213

Como primeiros exemplos, o sargento-mor José Cardoso dos Santos, herdeiro da Fazenda de Cabuçu, o capitão Antônio Antunes, senhor de Inhoaíba, capitão José Antunes Susano, senhor de Capoeiras e seu sucessor em Inhoaíba, e seu irmão alferes. Essa gente tem bens de raiz e rendimentos da terra.214 Os Pereira Lemos de Campo Grande, conforme já

dissemos, eram o ramo excluído da sucessão dos títulos e terras dos pais, em Sapopemba, portanto, não galgariam maiores degraus na hierarquia social local.

212 Magalhães (p. 496) 213 Magalhães (p. 176)

214 Joaquim Romero Magalhães nos lembra que “As câmaras, concelhos e as oligarquias que as compõem e regem, têm tanto maior autonomia quanto mais afastadas de encontram do poder central ou de um seu representante com alguma autoridade” Magalhães (p. 184, 496)

Também não é coincidência que as famílias senhoriais que estudamos aqui tenham seus padres na primeira geração: Luiz de Lemos Pereira, senhor de Sapopemba em 1706, Miguel Antunes Susano (filho do sesmeiro original, proprietário de escravos)215, Francisco Pereira

Lemos (filho de João Pereira Lemos e senhor de engenho em 1797)216, e Martino Fernandes (que

recebeu sesmaria em 1773)217. Mais tarde, numa segunda geração, haveria ainda Belisário

Cardoso dos Santos e Antonio Garcia de Oliveira Durão (herdeiro dos Garcia do Amaral)218.

Todos padres, filhos de famílias senhoriais, moradores da freguesia, senhores de engenho e donos de escravos, que ajudavam a construir o status e a riqueza da família, diante de seus ‘rebanhos’, sem levar muito em conta as prescrições do comportamento clerical.

Há que se remarcar as potencialidades tangíveis desses cargos e patentes. Por um lado, a produção endógena tinha limites, e não extrapolava párocos e capitães de ordenanças. Em nosso ver, isso denota, novamente, a influência restrita dessa elite senhorial ao nível local, sua posição intermediária nas hierarquias políticas da colônia, sua subordinação clientelar à nobreza da terra de outras paragens e seu papel economicamente pouco expressivo. Por outro lado, o fato das mesmas famílias senhoriais concentrarem em poucos filhos tantas insígnias de poder—senhores de terras, donos de escravos, capitães de ordenanças, líderes espirituais—sobrepunha vínculos verticais orientados para um mesmo topo, aumentando a densidade das redes sociais locais. Conseqüentemente, amarrava-se com mais força o feixe de compromissos entre senhores e moradores, tornando mais difícil a existência de subgrupos alternativos ou independentes dessas parentelas tradicionais.

O leitor pode nos perguntar sobre a relação dessas redes de crédito precisamente com a dinâmica agrária, objeto deste trabalho. Vejamos o tópico a seguir.

ME R CA DO DE T E RRA S E E N GE N HO S

Outro aspecto da crise canavieira que se instalaria no Recôncavo da Guanabara a partir de meados do século XVIII se faria sentir nas inúmeras transferências de propriedade dos

215 Para ver os batizados dos escravos de Miguel Antunes Susano, Cf ACARJ. Livro de registro de batismos de escravos, Freguesia de Campo Grande (1752 a 1759). Fls. 121-verso e 122-frente.

216 Fróes 2004.

217 AGCRJ, 68-3-75: Limites do Distrito Federal Escrituras de terras que estão dentro do atual Distrito Federal, na praça limítrofe com o Estado do Rio de Janeiro ou nas proximidades. 4º Volume

engenhos mais antigos, mais dependentes dos circuitos comerciais. Dessa forma julgamos poder explicar a intermitente troca de donos das Fazendas Viegas e Bangu.219 Para além desses,

encontramos na freguesia de Campo Grande três outros engenhos já estabelecidos, como constam no relatório de 1777, que mudaram de senhor,entre fins do século XVIII e início do XIX. Esses novos senhores foram Bernardo José Dantas (engenho Juari, comprado entre 1777 e 1793), Francisco Caetano de Oliveira Braga (engenho do Mendanha, comprado em 1772) e os irmãos Fernandes Barata (engenho Piraquara, comprado entre 1797 e 1813)220.

Vejamos o que fizeram com o patrimônio recentemente adquirido. Para o engenho do Viegas, vimos no item anterior o que fizeram os Garcia do Amaral . O engenho do Mendanha, onde o capitão reformado Oliveira Braga chegou a ser senhor com 30 escravos e produzir 10 caixas de açúcar e oito pipas de aguardente, foi vendido aproximadamente em 1780, para o padre Antônio Couto da Fonseca—o primeiro a plantar café na região—gerando a mesma cadeia de compradores a prazo do Viegas. Ambos culminaram em processos judiciais e em intrincadas cadeias de devedores que, por coincidência, envolviam uma mesma família: os Garcia do Amaral.221 Sobre o engenho de Juari, existente ao menos desde 1777 e comprado por Bernardo

José Dantas aproximadamente em 1793, seus filhos o acusaram de tê-lo vendido, em 1833.222 Os

Fernandes Barata foram os únicos chegados no último quartel do século XVIII que efetivamente se enraizaram na freguesia, mas através de casamentos com filhas do capitão José Antunes Susano, como veremos mais tarde, e não com a reprodução do engenho de Piraquara, muito pequeno.

O que esse somatório de casos sinaliza? Primeiro, que no Brasil colonial, como em outras sociedades predominantemente agrícolas, a maioria dos circuitos de crédito girava em

219 Cf Fridman 1999. (pp. 154-155)

220 Não pudemos precisar a data exata destas transferências porque não fizemos uma busca sistemática nas escrituras de terras, devido ao prazo exíguo de que dispúnhamos para completar o trabalho. Sendo assim, nos baseamos apenas na comparação entre os donos de engenhos entre os relatórios de 1777, 1793 e 1813, vendo quem aparece ou desaparece de um para o outro.

221 Para a ação movida pelo não pagamento das prestações do engenho do Mendanha, ver Arquivo Nacional. Fundo Processos SDJ Diversos. Ano 1823. Número 510, caixa 1145. Para o engenho do Viegas, ver AN. Fundo Inventários. Nome: Manoel Antunes Susano. Ano 1783. Notação 2, caixa 3629. Para os outros ‘novos senhores’ ver Fróes 2004. (p. 164); e Lamego 1942. (p. 58).

torno da propriedade rural e de sua relação com o comércio.223 No caso, o engenho de açúcar

amalgamava essas duas faces, da produção agrícola e do comércio atlântico. A constante presença de senhores de engenho com patentes de capitão de ordenanças, ou tenentes, às vezes padres, nos mostra que o acesso a esses bens, mesmo que se desse por meio de compra, num precoce mercado de terras e engenhos, ainda era coisa restrita a poucos afortunados, até bastante avançado o século XIX.224 Ou seja, durante os séculos XVI e XVII, os primeiros conquistadores

transformaram concessões gratuitas e fábricas movidas a mão-de-obra compulsória—elementos nada liberais—em moeda corrente ou rendas de longo prazo, via contratos supostamente feitos na praça do mercado. Depois deles, via redes de crédito, acumulação mercantil e apadrinhamentos estratégicos, a seqüência de sesmeiros, devedores-compradores, mesmo que de origem diversa—negociantes, jovens portugueses, padres—se tornaria a responsável por reproduzir a dinâmica da plantation escravista colonial.

O processo de transformação de regalia em mercadoria especial é parecido com o que Carmagnani descreveu para o caso chileno. O autor demonstrou que a formação da propriedade territorial chilena foi o resultado de um complexo processo de hierarquização social, no curso do qual a terra se tornou uma mercadoria socialmente definida e diferenciada. O mercado de terras tinha como principal função transformar as doações em grandes propriedades e cooptar artesãos e mercadores mais abastados para a pequena nobreza, na forma de pequenos e médios proprietários.225 Essa idéia, de um mercado de terras ‘socialmente definido e diferenciado’,

parece se aplicar com bastante propriedade aos casos de engenhos que acabamos de expor. Em segundo lugar, vimos que, ao menos na freguesia de Campo Grande, longe de uma relação visceral e duradoura das famílias senhoriais com a mãe terra, grande parte dos engenhos mudava de dono periodicamente. João Fragoso já havia observado, para o século XVII, a tendência de, em cada década, se vender cerca de 10% do total das fábricas presentes na

223 Malatesta 1999. (p.151) 224 Fragoso 2000.

225 No Chile, os encomenderos, conquistadores, conseguiriam receber concessões e concentrariam terras potencialmente produtivas em grandes quantidades, o que limitaria muito sua oferta, demanda e vias de acesso. As terras se configurariam como mercadorias especiais porque, depois de doadas, adquiririam imediatamente valor de mercado, alto, para impedir o acesso dos cetos médios a estas propriedades. Portanto, a aquisição de terras potencialmente produtivas permitiria aos encomenderos transformar suas doações em verdadeiros latifúndios por um custo mínimo, que não são objetos de compra e venda. Cf Carmagnani 1987.

capitania. “Projetando esta tendência para 100 anos, em tese, todos os engenhos estariam nas mãos de novos

proprietários”.226 Certamente a conjuntura de crise da lavoura canavieira e de endividamento dos

seus produtores, em fins do século XVIII, acelerou a recomposição bastante abrangente dos senhores, se levarmos em consideração a relativa contemporaneidade na troca de donos desses quatro grandes engenhos da região. Esse processo parece bastante congruente com a tese de Henri Pirenne, que dizia que, ao transformarem-se as condições econômicas, os empresários adaptados ao estado de coisas anterior não respondiam às novas tendências. Portanto, a evolução do capitalismo não se daria progressivamente num plano inclinado, mas como degraus de uma escada, em que cada degrau corresponderia a uma ‘classe empresarial’ diversa da anterior.227

É claro que os senhores de engenho do Recôncavo da Guanabara não podem ser vistos como empresários capitalistas strictu senso. Mas as teorias acima, embora produzidas para um outro contexto, nos permitem pensar quais seriam as condições da não eternização dessa classe dominante local, fato que, às vezes, nos passa despercebido devido à continuidade secular de processos como a concentração fundiária ou o poder político dos donos de terras. De fato, desde o início da colonização do território brasileiro, a classe senhorial havia adquirido condições políticas e econômicas muito confortáveis para que se reproduzisse socialmente ao menos por 200 anos. Mas a vida econômica, imprevisível, levou a reconfigurações no final do período colonial que efetivamente desbancaram um grupo grande de falidos que venderam seus engenhos para credores ou esperançosos na região, sendo que estes, em sua maior parte, os venderiam novamente.

Mas essa conclusão é, em parte, precipitada. Esses senhores falidos não empobreceriam nem tornariam ricos os extratos mais baixos, numa inversão social impensável para seu tempo. João Fragoso já havia nos alertado para o jogo fechado de ‘dança das cadeiras’ das famílias senhoriais no Rio de Janeiro, até fins do século XVIII. Segundo sua pesquisa, a suposta crise econômica que se entrevê pelas sucessivas transferências dos engenhos teria outra perspectiva. Desvendando os vínculos entre compradores e vendedores, ele descobriu que esses engenhos

226 Fragoso 2007. (p. 21)

circularam, efetivamente, num mercado restrito a parentes e amigos de seus senhores falidos. Sua conclusão foi que

“Em três décadas, cerca de metade dos compradores eram parentes dos vendedores ou seus amigos. Isto, antes de tudo, demonstra a capacidade do grupo em ultrapassar as adversidades do mercado. Há troca de donos de engenhos, porém este fenômeno ocorre no interior do grupo dos conquistadores e seus descendentes. Ao menos em três das cinco décadas do século XVIII, tal fenômeno permanecia.228

Observando negócios entre parentes, é possível inferir que as cláusulas dessas vendas não fossem tão imparciais e mercadológicas quanto se pudesse supor. E que, ao invés de penalizar os devedores e aniquilar fábricas pouco ou nada competitivas, esses contratos servissem mais para rolar as dívidas e perpetuar o patrimônio no seio da família.

João Fragoso foi pioneiro no Brasil em abrir picadas que estão sendo desbravadas na Europa desde o trabalho fundador de Giovanni Levi. Levi insistiu sobre o fato de que o mercado de terras não era impessoal nas sociedades rurais tradicionais, mas regido por lógicas particulares, onde cada transação conseguia seu preço pela relação pessoal entre o vendedor e o comprador.229 Depois desse desafio, vários historiadores se dedicaram a inserir o mercado

fundiário, sobretudo o preço da terra, nas relações sociais mais amplas que o condicionariam, desdobrando, reforçando ou negando as hipóteses de Levi.230

Hoje, existe um consenso de que não é possível analisar o mercado de terras na época moderna como algo impessoal, e mais, que, ao menos para a Europa, não parece pertinente a oposição entre parentela e mercado. Segundo Derouet, seria preciso ver a parentela como uma forma de “conciliar a mobilidade real da terra, de dar coesão a parceiros privilegiados (os parentes) e, ao mesmo

tempo, de fornecer uma racionalidade genuinamente econômica a essas transações”.231

As transações com o engenho do Viegas reforçam essa forma de ver o mercado de engenhos no Brasil colonial. Mesmo assim, segundo o mesmo Derouet, se políticas de parentela teriam implicações em aspectos do mercado fundiário, a parentela não tem em todas as sociedades os mesmos usos e valores, já que estes são condicionados pelos modos de

228 Fragoso 2007. (p. 22)

229 Cf Levi 1976. Esse artigo era resultado parcial de sua pesquisa maior, publicada em Levi Existe apenas a tradução em português do seu trabalho mais conhecido, Levi 2000.

230 Augustins 1982. Barthelemy 1988. Beaur 1987. 1994. Servais 1994. 231 Derouet 2001.

reprodução social e pela relação com o patrimônio, específicos de cada contexto. Portanto, partindo dessas mesmas motivações teóricas, mas atentando para as especificidades da relação com o patrimônio das famílias senhoriais do Rio de Janeiro colonial, bastante bem estudadas por João Fragoso, há ainda outro viés que gostaríamos de realçar: o do ‘financiamento senhorial’ em longo prazo.

Não é intenção deste trabalho se dedicar exclusivamente a essa questão, deixando a tarefa para os historiadores do crédito. Mas, a nosso ver, no caso do engenho do Viegas, sua arrematação pelo filho do senhor endividado, por 18.000 cruzados, e sua venda em seguida por 45.000 teria sido um artifício para, através do recebimento das prestações, não somente sanar a dívida maior do pai, que recairia sobre os herdeiros, mas, com os ‘excessos’, prover uma renda segura para os mesmos. Se a intenção era essa, o resultado foi que, tanto compradores quanto vendedores, no momento da venda, colocaram em contato uma numerosa rede de atores ligados entre si por fluxos de crédito. Nesse como em outros casos, a parentela foi a fonte por excelência de crédito em longo prazo, e as vendas representam tanto a transferência real da propriedade quanto o pagamento de dívidas e rendas a longo prazo.

Não seria, portanto, coincidência que Antônio Garcia do Amaral tivesse seu engenho executado por dívidas em 1777, que houvesse outro Antônio Garcia do Amaral listado como senhor do engenho do Calundu, na freguesia de Jacutinga, no relatório de 1797, 232 e que um dos

filhos de Francisco Garcia do Amaral, o capitão que arrematara o engenho do pai e o vendera a prazo, se tornasse também senhor de engenho, a partir de 1812.233 Quando comprou o engenho

do Mendanha, em Campo Grande, esse terceiro Antônio perpetuou a condição de família senhorial através de cadeias de endividamento envolvendo os engenhos de açúcar. No caso, estava em papel contrário ao de seu pai, mas certamente utilizou-se de seus créditos e dívidas na praça. Ele agora era o comprador, inserindo-se na cadeia longa dos que desembolsavam valores irrisórios à vista, mas herdavam a obrigação de saldar a dívida com os primeiros vendedores do engenho do Mendanha.

Esse Antônio, depois promovido a capitão-mor, foi o mesmo que entraria em conflito com Manoel Antunes Susano, como herdeiro ao qual aquele deveria pagar as prestações do

232 Lamego 1942. (p. 58)

engenho do Viegas, comprado em 1800. Por outro lado, seus herdeiros, em 1823, seriam processados pela viúva do capitão Oliveira Braga por não saldarem seus compromissos na compra a prazo do engenho do Mendanha. Apenas duas faces diferentes de uma mesma moeda. A família Garcia do Amaral tentou, no conjunto, obstaculizar crises conjunturais que envolviam as terras de seus membros e aproveitar boas oportunidades, mediante cauções, empréstimos, vendas a prazo, etc. Para tanto, usou dos mecanismos permitidos a uma família senhorial da época, qual seja, de fazer dinheiro a partir de concessões gratuitas, receber mesmo devendo, e manipular os circuitos de crédito como maneira de se recriar como família senhorial, no tempo e no espaço. Podemos mesmo considerar que seja esse um dos vieses da economia política da elite da época, ou seja, uma das facetas de seu comportamento econômico, pautada num contexto corporativo, numa cultura que sancionava prerrogativas senhoriais e num mercado imperfeito, eivado de segredos, monopólios, privilégios, amizades.

E será que o endividamento ou as origens duvidosas de um engenho fazia diferença para o prestígio local do seu senhor? Julgamos que não. A família Garcia do Amaral nos chama a atenção para o fato de que todos esses compradores, que nunca pagavam o valor da mercadoria à vista e muito menos suas parcelas a prazo, se achavam absolutamente legítimos proprietários, tinham patentes públicas e eram respeitados em suas paragens. A própria viúva do alferes Manoel Antunes Susano, em 1818, ao precisar de um avaliador dos engenhos do falecido marido, convocou o capitão Antônio Garcia do Amaral, senhor de engenho vizinho, para tal tarefa,234 menosprezando a capacidade de outros avaliadores que não eram eles próprios

senhores de engenho. O mesmo Antônio, três anos antes, ainda sargento, havia litigado com Manoel Joaquim de Souza, senhor dos engenhos de Bangu e Retiro, por se julgar no direito das terras que estavam na divisa entre os seus engenhos, e ganhou a causa.235 E para provar a

longevidade desse prestígio, em 1877, um quarto Antônio Garcia do Amaral, possivelmente neto

234 AN. Fundo Inventários. Falecidos: Manoel Antunes Susano e Maria Januária Galvez Palença. Inventariante: João Gomes de Campos. Ano 1819. Notação 77, caixa 3629. (fl. 242).

235 Arquivo Nacional. Fundo Processos SDJ Diversos. Autos de Força Nova. Ano 1823. Número 322, Caixa 1121

ou bisneto do capitão, estava na enxuta lista dos votantes da freguesia de Campo Grande, sediado na Fazenda do Mendanha.236

As redes de crédito, nesse sentido, trazem consigo direitos e, sobretudo no caso dos engenhos, o imenso status de ser senhor. Retomando Saint-Hilaire, “A posse de engenho de açúcar

confere entre os lavradores do Rio de Janeiro como que uma espécie de nobreza. De um senhor de engenho só se fala com consideração e adquirir tal preeminência é a ambição geral.”237 Em se tratando de posição tão

cobiçada, parece ser compreensível que diversas estratégias, honestas ou não, fossem usadas para esse fim. A mágica de transformar um direito fajuto ou contestado em instrumento de poder para angariar ainda mais direitos não é específica do caso brasileiro, mas da formação