5. EDUCAÇÃO
5.1 Educação e Cultura
Para introduzir o estudo sobre educação, nada melhor do que iniciar pela sua definição, pelo começo que a explica por meio de palavras. De forma breve, mas bastante significativa, John Dewey16, um dos maiores pensadores sobre o assunto, afirma que ―a educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida‖.
O ato de educar é de suma importância para a construção de uma sociedade mais justa e democrática, para a formação de jovens e adultos com qualidade. É, principalmente, por meio dela que se torna possível fazer frente às estratégias de exclusão e desigualdade social. Para a educação de jovens e adultos, não é a percepção de que as pessoas são portadoras de cultura e que dominam uma série de conhecimentos que prevalece, mas sim as maneiras eficientes de assegurar os direitos humanos e permitir que cada um exerça sua cidadania, valorizando a
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O filósofo e pedagogo John Dewey (1859 – 1952) é reconhecido como um dos fundadores da escola filosófica de Pragmatismo, além de um dos exponentes da escola progressiva americana. Para Dewey, o pensamento não existe isolado da ação. A educação deve servir para resolver situações da vida e a ação educativa tem como elemento fundamental o aperfeiçoamento das relações sociais.
diversidade cultural, evitando assim a discriminação e promovendo a solidariedade em outros povos.
Isto pode acarretar algumas implicações, como, por exemplo, tomar como ponto de partida os saberes e conhecimentos que o educando já tem, que ele traz da sua vivência em família e em sociedade. Aprende-se estabelecendo relações entre o que já se sabe e o novo que se apresenta. Logo, a escola pode ser o local de diálogo, de aprender a conviver e vivenciar a própria cultura, respeitando as diferentes formas nas quais ela se expressa. É preciso considerar as diferenças como fator de enriquecimento e não como uma série de obstáculos para a aprendizagem.
A princípio, a escola teria a responsabilidade de ser mais um dos elementos auxiliares para o desenvolvimento de uma gente mais orgulhosa das suas origens, dos seus costumes, das suas artes e de tantas outras características que vão muito além dos perfis simplistas, rotulados e caricatos.
A relação entre a educação e a cultura é, portanto, mais do que apenas próxima. Ela é absolutamente íntima, interativa, inclusiva. Muitas vezes, tal como acontece em outras áreas de práticas sociais vizinhas – como a saúde, a comunicação, a ação ambiental etc. – costumamos separar ‗a parte do todo‘. E, assim, pensamos, por exemplo, que a educação, a pedagogia, o ensinar-e-aprender possuem uma relativa ou mesmo uma ampla autonomia. Essa será a razão pela qual em todo o mundo tardamos tanto em compreender o que a educação é – como tudo o mais que é humano e é criação de seres humanos – uma dimensão, uma esfera interativa e interligada com outras, um elo ou uma trama (no bom sentido da palavra) na teia de símbolos e saberes, de sentidos e significados, como também de códigos, de instituições que configuram uma cultura, uma pluralidade interconectada (não raro, entre acordos e conflitos) de culturas e entre culturas, situadas em uma ou entre várias sociedades (ROCHA, 2009, p. 12).
Assim, observa-se que educação e cultura fazem parte de uma mesma trama, uma rede de saberes em prol do desenvolvimento da sociedade. Para Rocha (2009, p. 12), muito se tem falado e discutido em todo o mundo sobre as diferenças culturais, a educação inclusiva, o multiculturalismo e o direito à diferença, trazendo à tona essa falta de memória, provocando um reencontro um pouco lento, mas deveras oportuno entre a educação e a cultura e, por consequência, entre a antropologia e a pedagogia, compreendida aqui como a ciência da educação.
De acordo com Gramsci (1982, p. 118), atualmente existe uma tendência de pôr fim em qualquer tipo de escola que não seja "desinteressada" (não
imediatamente interessada) e "formativa", e, para conseguir solucionar esta problemática de modo racional, só existe uma linha a se perseguir, que seria uma ―escola única inicial de cultura geral, humanista, formativa, que equilibre equanimente o desenvolvimento da capacidade de trabalhar manualmente (tecnicamente, industrialmente) e o desenvolvimento das capacidades de trabalho intelectual‖.
Deve-se levar em consideração a tendência em desenvolvimento, segundo a qual cada atividade prática tende a criar para si uma escola especializada própria, do mesmo modo como cada atividade intelectual tende a criar círculos próprios de cultura, que assumem a função de instituições pós-escolares especializadas em organizar as condições nas quais seja possível manter-se a par dos progressos que ocorrem no ramo científico próprio (GRAMSCI, 1982, p. 119).
Não existe um método particular e simples para definir a educação, mas é possível compreender o seu significado, se verificarmos o que dizem sobre ela os legisladores, pedagogos e professores. Além disso, oferecendo ferramentas mais consistentes de bases teóricas, os filósofos, pensadores, sociólogos, antropólogos e cientistas sociais muito têm a acrescentar sobre o assunto.
A breve apresentação do conceito dado por Dewey coloca a definição de educação como sendo algo tão grandioso como a própria vida. Mesmo parecendo poético em excesso, Dewey apenas generaliza um conceito que, se for melhor esmiuçado, irá convergir para o mesmo ponto: educação é a própria vida. Nessa busca pelos diversos conceitos de educação, pode-se encontrar no Aurélio que ela refere-se à:
Ação exercida pelas gerações adultas sobre as gerações jovens para adaptá-Ias à vida social; trabalho sistematizado, seletivo, orientador, pelo qual nos ajustamos à vida, de acordo com as necessidades ideais e propósitos dominantes, ato ou efeito de educar; aperfeiçoamento integral de todas as faculdades humanas, polidez, cortesia (Pequeno Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa, Aurélio Buarque de Holanda).
Já Aulete define como:
Ação e efeito de educar, de desenvolver as faculdades físicas, intelectuais e morais da criança e, em geral, do ser humano; disciplinamento, instrução, ensino (Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, Caldas Aulete).
Ao atentar para as definições acima, é possível verificar, seguindo o mesmo raciocínio de Brandão (2007, p. 54-55), que ambas procuram explicar o que é a
educação e para que serve, como se fosse algo, ou metas de projetos que as pessoas procuram alcançar e realizar.
Quando alguém tenta explicar o que são estes nomes e o que eles misturam: educação, escola, ensino, a fala que explica pode pender para um lado ou para o outro de uma velha discussão. Uma discussão ontem quente, hoje em dia inútil, a não ser quando serve para revelar o que se esconde por detrás de pensar a educação desta maneira ou daquela. De acordo com as idéias de alguns filósofos e educadores, a educação é um meio pelo qual o homem (a pessoa, o ser humano, o indivíduo, a criança, etc.) desenvolve potencialidades biopsíquicas inatas, mas que não atingiriam a sua perfeição (o seu amadurecimento, o seu desenvolvimento, etc.) sem a aprendizagem realizada através da educação (BRANDÃO, 2007, p. 61).
De fato, é impossível sobreviver ou isentar-se da educação, tendo em vista que, de um modo ou de outro, estamos envolvidos com ela, seja na escola, para aprender ou ensinar, seja na vida pessoal, para ensinar, para aprender ou para fazer. Diariamente a educação se soma à vida, dando-lhe forma e compreensão, transformando-a em atitudes com significado.
Relacionar educação com mudança não é algo recente, tem sido costume desde os primórdios, mas só atualmente, quando políticos e cientistas começaram a denominar a "mudança de desenvolvimento (desenvolvimento social, socioeconômico, nacional, regional, de comunidades, etc.), é que foi lembrado que a educação deveria associar-se a ele também‖ (BRANDÃO, 2007, p. 82).
De acordo com Brandão (2007, p. 83), esse período de transição gradual foi de suma importância, porque provocou uma mudança de pensamento:
Antes de se difundirem pelo mundo idéias de mudança e de necessidade de mudança social, a educação era pensada como alguma coisa que preserva, que conserva, que resguarda justamente de se mudarem, de se perderem, as tradições, os costumes e os valores de ‗um povo‘, ‗uma cultura‘ ou ‗uma civilização‘. Antes de se inventarem políticas de desenvolvimento, a educação era prescrita como um direito da pessoa, ou como uma exigência da sociedade, mas nunca como um investimento. Um investimento como outros, como os de saúde, transporte e agricultura. A educação deixa finalmente de ser vista como um privilégio, um direito apenas, e deixa também de ser percebida como um meio apenas de adaptação da pessoa à mudança que se faz sem ela, e que apenas a afeta depois de feita (BRANDÃO, 2007, p. 82-83).
É evidente que, ainda atualmente, percebe-se a necessidade de possuir uma nova forma de sentir e conceber a educação: Reinventar. Aliás, "reinventar a educação" é uma expressão cara a Paulo Freire e aos seus companheiros do
Instituto de Desenvolvimento e Ação Cultural - IDAC17, que, trabalhando como educadores e junto com outros educadores de outros países, aprenderam que tratavam de reinventar mais do que só a educação, mas também a sua própria vida social (BRANDÃO, 2007, p. 99).
O mais importante nesta palavra, ‗reinventar‘, é a idéia de que a educação é uma invenção humana e, se em algum lugar foi feita um dia de um modo, pode ser mais adiante refeita de outro, diferente, diverso, até oposto. Muitas vezes um dos esforços mais persistentes em Paulo Freire é um dos menos lembrados. Ao fazer a crítica da educação capitalista, que ora chamou também de ‗educação bancária‘, ora de ‗educação do opressor‘, ele sempre quis desarmá- la da idéia de que ela é maior do que o homem (BRANDÃO, 2007, p. 99).
Sobre educação bancária, Freire (1987, p. 80) cria um paralelo com a movimentação financeira, afirmando que, sobre os conteúdos transmitidos, os alunos se tornavam meros depositários. ―Enquanto a prática bancária, como enfatizamos, implica numa espécie de anestesia, inibindo o poder criador dos educandos, a educação problematizadora, de caráter autenticamente reflexivo, implica num constante ato de devaneio da realidade‖. E traça um paralelo com a educação problematizadora, afirmando que ―a educação será libertadora na medida em que incentivar a reflexão e a ação consciente e criativa das classes oprimidas em relação ao seu próprio processo de libertação‖ (FREIRE, 1986, p. 20).
Com as discussões sobre o conceito de cultura, o analfabeto descobrirá que tanto é cultura o boneco de barro feito pelos artistas, seus irmãos do povo, como cultura também é a obra de um grande escultor, de um grande pintor, de um grande místico, ou de um grande pensador. Cultura é a poesia dos poetas letrados de seu pais, como também a poesia de seu cancioneiro popular. Cultura é toda criação humana (FREIRE, 1983, p. 109).
Paulo Freire, em seu trabalho com educação, sempre teve a preocupação com a cultura, e isto fica evidente desde a época da criação do IDAC, que assessorou projetos na África, no seu segundo caderno de cultura popular, que tratam do problema da cultura e identidade cultural, quando os colonizadores afirmavam que somente eles tinham cultura, e que, antes de sua chegada, a África não tinha cultura nem história, ao que Paulo rebate afirmando:
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Em 1971, Paulo Freire e seu grupo criaram o IDAC, que assessorou projetos na África, em países como a Guiné-Bissau e as ilhas de São Tomé e Príncipe, que haviam se tornado independentes de Portugal. A sede da instituição foi transferida para o Rio de Janeiro e São Paulo, quando ele regressou ao Brasil.
Todos os povos têm cultura, porque trabalham, porque transformam o mundo e, ao transformá-lo se transformam. A dança do povo é cultura. A música do povo é cultura, como cultura é também a forma como o povo cultiva a terra. Cultura é também a maneira que o povo tem de andar, de sorrir, de falar, de cantar, enquanto trabalha. O calulu18 é cultura, como a maneira de fazer o calulu é cultura, como cultural é o gosto das comidas. Cultura são instrumentos que o Povo usa para produzir. Cultura é a forma como o Povo entende e expressa o seu mundo e como o Povo se compreende nas suas relações com o seu mundo. Cultura é o ritmo do tambor. Cultura é o gingar dos corpos do Povo ao ritmo dos tambores (FREIRE, 1989, p. 71).
Mais uma vez, observa-se o forte vínculo existente entre educação e cultura. Tal ligação, sempre presente na obra de Paulo Freire, foi divulgada e fortemente enfatizada pelos movimentos de cultura popular da década de 1960, muito antes de haver sido descoberta pela academia, pela pedagogia das universidades e pela própria antropologia.