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EFEITO DA “DIETA DA PROTEÍNA” NO TECIDO ÓSSEO

Resumo

O objetivo deste estudo foi avaliar o efeito do consumo da dieta da proteína no tecido ósseo. Métodos: O estudo teve duração de 60 dias. Vinte e oito ratas Wistar albino, adultos, provenientes do Laboratório de Nutrição Experimental foram divididas em 4 grupos (n=7); Controle 1 (C1), Controle 2 (C2), Hiperprotéico 1 (HP1) e Hiperprotéico 2 (HP2). Os grupos C2 e HP2 foram submetidos a restrição alimentar de 30%. A dieta hiperproteica foi manipulada para simular a dieta da proteína. Ao final do experimento os animais foram anestesiados para os procedimentos de densitometria óssea (DXA) e coleta de tecidos. Análises sérica e óssea de minerais foram realizadas pelo método colorimétrico usando aparelho automatizado. Resultados: A Densidade mineral óssea total (DMO), da pelve e da coluna vertebral dos grupos com restrição alimentar (HP2 e C2) foi menor (P<0,05) do que dos grupos C1 e HP1. Enquanto a DMO do fêmur do grupo HP2 foi menor (P<0,05) em relação aos outros grupos. Houve redução (P<0,05) da largura do ponto médio da diáfise do fêmur e da concentração de cálcio ósseo nos grupos hiperproteicos (HP1 e HP2). Efeito semelhante foi observado na concentração sérica de osteocalcina, que foi inferior (P<0,05) nos grupos hiperproteicos, enquanto a concentração de insulina apresentou-se menor, somente, no grupo HP2. Já o cálcio sérico dos grupos hiperproteicos e C2 mostrou-se inferior (P<0,05) ao grupo C1. Conclusão: A dieta da proteína promove alteração óssea significativa no fêmur e na concentração dos hormônios relacionados à formação e manutenção deste tecido.

Termos de indexação: Dieta hiperprotéica, densidade mineral óssea, remodelagem óssea,

Abstract

The aim of this study is to evaluate the effect of the protein diet consumption on bone tissue. Methods: The study was conducted during sixty days. Twenty eight Wistar albinus rats, adults, originated from Laboratório de Nutrição Experimental were divided in four groups: (n=7); Control 1 (C1), Control 2 (C2), Hyperproteic 1 (HP1) e Hyperproteic 2 (HP2). The C2 and HP2 groups were submitted to 30% of food restriction. The hyperproteic diet was prepared to simulate the protein diet. At the end of the study the animals were anesthetized to performer bone densitometry analyses by DXA and blood and tissue collection. Serum and bone minerals analyses were conducted by colorimetric methods in automated equipment. Results: The total bone mineral density (DMO) of the pelvis and the spine of the food restriction groups (HP2 e C2) were lower (P<0.05) than C1 e HP1 groups. While the femur DMO of the HP2 was lower (p<0.05) related to others groups. It had been observed reduction (P<0.05) in the medium point of the width of femur diaphysis and in bone calcium level in the hyperproteic groups (HP1 e HP2). It was observed similar effect on the osteocalcin level, that presented lower (P<0.05) in the hyperproteic groups. The insulin level was lower only in HP2 and serum calcium of the HP1 and HP2 groups was lower than C1. Conclusion: The protein diet promotes significant bone change on femur and in the hormones levels related to bone synthesis and maintenance of this tissue.

Indexing terms: hyperproteic diet, bone mineral density, bone remodeling, hormones, Atkins

Introdução

A dieta da proteína é a uma das dietas “da moda” mais procurada e tem sido considerada eficaz na redução de peso1,2,3. Caracteriza-se por alta concentração de proteínas e lipídeos e baixa concentração de carboidratos3. No entanto, existem evidências de que o consumo excessivo de proteína pode prejudicar a saúde óssea, podendo contribuir para o desenvolvimento da osteoporose, principalmente entre as mulheres na idade adulta4.

A alteração óssea promovida pelo consumo em excesso de proteínas e gordura de origem animal tem sido atribuída ao desenvolvimento da acidose metabólica ocasionada pela produção excessiva de corpos cetônicos, resultante do metabolismo proteico e lipídico. Este estado de cetogênese parece estimular a reabsorção óssea e inibir a atividade dos osteoblastos5,6.

Entretanto, a literatura ainda é controversa sobre o real efeito da elevada ingestão protéica e as possíveis modificações no tecido ósseo. Alguns estudos sugerem que dietas hiperproteicas estão associadas a maior propensão a perda óssea7,8. Porém, outros pesquisadores relatam resultados benéficos, incluindo o aumento da densidade mineral óssea9,10.

Logo, o conjunto dos relatos anteriores são inconclusivos o que requer mais estudos sobre a dieta hiperprotéica e suas repercussões na saúde óssea e o provável desenvolvimento de osteopenia e/ou osteoporose ainda necessita de investigações. Assim, o objetivo deste estudo foi avaliar os efeitos da dieta da proteína (hiperproteica) sobre o tecido ósseo de ratas Wistar adultas.

Metodologia

O estudo foi realizado no Laboratório de Nutrição Experimental do Departamento de Nutrição e Dietética da Faculdade de Nutrição da Universidade Federal Fluminense, com

Rattus Norvergicus Wistar Albino, fêmeas, com 90 dias de vida, pesando aproximadamente

200g. Todos os animais foram mantidos em experimentação por 60 dias, em gaiolas individuais de polipropileno devidamente identificadas, em ambiente com temperatura constante (24ºC ± 2ºC) e iluminação adequada com ciclo claro e escuro de 12 em 12 horas.

Os animais foram divididos em 4 grupos (n=7/grupo): 1) Grupo Controle (C1) e 2) Grupo Controle 2 (C2)*- que receberam ração constituída de 69,20% de carboidratos (59,20% de amido e 10% de açúcar); 11,30% de proteína (caseína); 4,80% de lipídio (óleo de soja); 1% de mistura vitamínica (Prag soluções, São Paulo, Brasil); 3,5% de mistura de minerais (Prag Soluções, São Paulo, Brasil); 5% de fibras (celulose); 0,25% de bitartarato de colina e 0,18% de L-cistina, manufaturadas seguindo as recomendações do American

(HP2)*- que receberam ração contendo 4,73% de glicídio (lactose); 49,77% de proteína (47,54% de proteína da carne bovina e 2,23% de proteína do leite); 15,97% de lipídio (11,97% gordura animal da carne e 4% óleo de soja); 1% de mistura de vitaminas (Prag Soluções, São Paulo, Brasil); 3,5% de mistura de minerais (Prag Soluções, São Paulo, Brasil); 7% de fibras (5% celulose e 2% Agar); 0,18% de L-cistina e 0,25% de bitartarato de colina. O Agar foi usado para dar liga e moldar a ração. *Os Grupos C2 e HP2 receberam 70% da quantidade de ração consumida pelos grupos C1 e HP1.

Os ingredientes para a formulação da dieta da proteína foram adquiridos no comércio local, a carne bovina (acém) foi desidratada, triturada, peneirada e misturada aos outros ingredientes para formulação da ração. A dieta da proteína (hiperproteica) foi acrescida de leite para atender as recomendações da dieta do Dr. Atkins3 que inclui a ingestão de laticínios.

O cuidado dos animais foi realizado disponibilizando-se água em livre demanda para todos os grupos. O peso corporal (g) e o consumo de água (mL) foram aferidos semanalmente utilizando balança (Bioprecisa JY 50001, de precisão 0,1g) e proveta, respectivamente. A sobra da água foi quantificada para obtenção da ingestão diária. O controle da oferta e sobra de ração dos grupos C1 e HP1 foi realizado semanalmente, já dos grupos C2 e HP2 foi feito diariamente em função da restrição alimentar de 30% a qual foram submetidos.

Ao final do período experimental, todos os animais foram submetidos ao procedimento de lavado vaginal para identificação da fase do ciclo estral. Após esta análise, aqueles que estavam na fase “estro” do ciclo, foram separados e mantidos em jejum por seis horas para posterior sacrifício. Foram, então, anestesiados com injeção intraperitoneal (cloridrato de xilazina associado a ketamina na proporção de 1:1) na dosagem de 0,1 ml/200g e submetidos a densitometria óssea por meio do Dual-energy X-ray Absorptiometry (DXA) (Lunar DXA 200368 GE instrument, Wisconsin, USA), no Laboratório de Avaliação Nutricional da Faculdade de Nutrição da UFF. A análise foi realizada com auxílio de software específico para pequenos animais12,13 (encore 2008. Version 13.40 GE Healthcare). Densidade mineral óssea (DMO; g/cm2), conteúdo mineral ósseo (CMO;g) e a área óssea (cm2) foram analisados em cada animal.

Após o DXA, com os animais ainda anestesiados, foi realizada a coleta de sangue por punção cardíaca. O sangue foi coletado em tubos sem anticoagulante e centrifugado a 3000 rpm, durante 20 minutos, para obtenção do soro. Em seguida, após o sacrifício, o fêmur direito foi retirado, limpo e pesado. As amostras de soro e as peças ósseas foram congeladas a -80ºC para análises posteriores.

As concentrações séricas de cálcio, fósforo e magnésio foram determinados por método colorimétrico utilizando kits comerciais (BioClin, Belo Horizonte, Brasil) em aparelho

automatizado. A concentração sérica de insulina, osteocalcina e paratormônio foram determinadas por Imunoabsorção Ligado a Enzima (ELISA) utilizando Kits comerciais específicos (UScn, Life Science Inc) e a leitura realizada em aparelho Thermo Plater

Reader.

A avaliação da distância entre as epífises e a largura do ponto médio da diáfise do fêmur foi realizada com paquímetro, com leitura em milímetros. Posterior a avaliação do peso do fêmur (g) foram analisadas a DMO (g/cm2), o CMO (g) e a área óssea (cm2) com o auxílio do DXA. As peças foram colocadas (uma de cada vez) em recipiente com arroz para simular os tecidos moles14.

A composição mineral óssea do fêmur foi realizada a partir da produção de cinzas15,

que posteriormente foram acidificadas, aquecidas e diluídas em água deionizada. Posteriormente, foram realizadas as análises de cálcio, fósforo e magnésio pelo método colorimétrico utilizando aparelho automatizado.

Os resultados são apresentados a partir da estatística descritiva como média e desvio padrão. Para as análises de comparação de médias entre os grupos foi utilizado ANOVA com medidas de repetição e Duncan como pós-teste. Para análise da evolução do peso corporal (g), foi utilizada ANOVA bi-variada. Trabalhamos com um nível de significância de 5%. Para estas análises foi utilizado o software GraphPad inStat versão 3.1 for Win/95 NT.

O presente projeto foi submetido ao Comitê de ética responsável por pesquisas em animais de laboratório da UFF, tendo sido aprovado com protocolo número 0027/08. Todos os animais foram manipulados de acordo com os princípios éticos adotados pelo Colégio Brasileiro de Experimentação Animal (COBEA).

Resultados

Durante o período estudado pode-se observar que os grupos que receberam ração em livre consumo (C1 e HP1) apresentaram aumento do peso corporal (P<0,05), enquanto àqueles que sofreram restrição alimentar (C2 e HP2) perderam peso (Gráfico 1).

GRÁFICO 1- Evolução do peso corporal dos animais ao longo do experimento. Grupu

Controle (C1); Grupo Hiperproteico (HP1). Grupos submetidos a 30% de restrição alimentar C2 e HP2. Diferentes letras denotam diferença estatística (ANOVA, P<0,05). Niterói, 2011.

Em relação a ingestão alimentar diária, o grupo controle (C1) apresentou maior consumo de ração (P<0,05) em relação aos outros grupos; enquanto o grupo HP2 apresentou o menor consumo de ração. O consumo do grupo hiperproteico que recebeu a

dieta da proteína em livre demanda (HP1) foi similar ao do grupo C2. (Gráfico 2).

Quanto à ingestão hídrica, os grupos que receberam a dieta da proteína, principalmente o grupo HP2, apresentaram maior ingestão de água (P<0,05) quando comparados ao grupo controle (C1). Enquanto o grupo C2 apresentou ingestão hídrica semelhante aos grupos que receberam a dieta em livre consumo (C1 e HP1) (Gráfico 2). Observou-se, também, que os grupos que receberam a dieta da proteína apresentaram diurese muito maior do que os outros grupos (dados observacionais não apresentados).

Gráfico 2- Consumo diário médio de ração (g/dia) e ingestão hídrica (mL/100g de peso corporal) dos animais. Grupo controle (C1); Grupo Hiperproteico (HP1). Grupos submetidos a 30% de restrição alimentar C2 e HP2. Diferentes letras denotam diferença estatística (ANOVA, P<0,05). Niterói, 2011.

As análises bioquímicas do sangue são apresentadas na Tabela 1. Pode-se observar que os grupos que receberam a dieta da proteína (HP1 e HP2) apresentaram concentração sérica de cálcio inferior (P<0,05) a do grupo C1. Em relação a insulina, observa-se que o grupo hiperproteico com restrição alimentar (HP2) apresentou menor (P<0,05) concentração sérica em relação aos demais grupos. Enquanto a concentração de osteocalcina foi menor (P<0,05) nos grupos que receberam a dieta da proteína (HP1 e HP2). As concentrações de magnésio, fósforo e paratormônio apresentaram-se semelhantes entre os grupos.

TABELA 1- Concentração sérica dos minerais e hormônios estudados, ao final do experimento. C1 HP1 C2 HP2 Cálcio (mg/dL) 8,22 ± 0,20 a 7,43 ± 0,17 b 7,76 ± 0,14 a ,b 7,15 ± 0,11 b Magnésio (mg/dL) 1,84 ± 0,15 2,13 ± 0,25 2,27 ± 0,43 1,98 ± 0,10 Fósforo (mg/dL) 5,08 ± 0,31 4,21 ± 0,20 4,12 ± 0,25 4,47 ± 0,31 Insulina (pg/mL) 1,45 ± 0,33a 0,91 ± 0,39 a 0,64 ± 0,14 a 0,35 ± 0,13b Osteocalcina (ng/mL) 1,21 ± 0,47a 0,38 ± 0,12c 0,73 ± 0,13b 0,33 ± 0,15c Paratormônio (pg/mL) 8,48 ± 1,16 8,70 ± 1,43 9,04 ± 1,54 7,35 ± 1,59

Grupo controle (C1); Grupo Hiperproteico (HP1). Grupos submetidos a 30% de restrição alimentar C2 e HP2. Diferentes letras sobrescritas denotam diferença estatística (ANOVA, P<0,05). Niterói, 2011.

A análise de densitometria do corpo total mostra que os grupos C2 e HP2 apresentaram menor (P<0,05) DMO, CMO e área óssea quando comparados aos grupos C1 e HP1. Ao analisarmos regiões específicas como a região da pelve, observou-se que os grupos C2 e HP2, também, apresentaram menor (P<0,05) DMO em relação aos grupos C1 e HP1, enquanto o CMO da pelve foi menor (P<0,05), apenas, no grupo C2. Para a região da coluna vertebral, os grupos que sofreram restrição alimentar (C2 e HP2) apresentaram menor (P<0,05) DMO e CMO em relação aos grupos com dieta em livre consumo (C1 e HP1). No entanto, ao analisar a DMO e a CMO do fêmur do grupo HP2 observa-se que esta foi inferior (P<0,05) a dos outros grupos (Tabela 2).

TABELA 2- Valores da densidade mineral óssea, conteúdo mineral ósseo, área total

corporal, da pélvis, coluna vertebral e do fêmur dos animais estudados.

(continua) C1 HP1 C2 HP2 Total DMO (g/cm2) CMO (g) ÁREA (cm2) 0,16 ± 0,01a 8,80 ± 0,36 a 52,40 ± 1,80a 0,15 ± 0,01 a 8,28 ± 0,14 a 52,60 ± 0,40 a 0,14 ± 0,01b 6,40 ± 0,15b 45,80 ± 0,91b 0,14 ± 0,01b 6,82 ± 0,03 b 46,60 ± 0,87 b Pelve DMO (g/cm2) CMO (g) Área (cm2) 0,16 ± 0,01a 2,34 ± 0,16a 14,80 ± 0,58 0,16 ± 0,01a 1,98 ± 0,11a 12,20 ± 0,37 0,13 ± 0,01b 1,70 ± 0,11b 13,20 ± 1,07 0,14 ± 0,01b 1,84 ± 0,11a 13,0 ± 0,83

TABELA 2- Valores da densidade mineral óssea, conteúdo mineral ósseo, área total

corporal, da pélvis, coluna vertebral e do fêmur dos animais estudados.

(conclusão) C1 HP1 C2 HP2 Coluna Vertebral DMO (g/cm2) CMO (g) Área (cm2) 0,15 ± 0,01a 1,78 ± 0,20 a 12,00 ± 1,0 0,15 ± 0,01 a 1,74 ± 0,05 a 11,40 ± 0,50 0,12 ± 0,01 b 1,12 ± 0,13 b 9,40 ± 0,87 0,12 ± 0,01 b 1,12 ± 0,12 b 9,00 ± 0,83 Fêmur DMO (g/cm2) CMO (g) Área (cm2) 0,156 ± 0,01a 0,400 ± 0,01 a 2,80 ± 0,1 0,146 ± 0,01a 0,380 ± 0,02 a 2,80 ± 0,1 0,145 ± 0,01a 0,370 ± 0,01 a 2,71 ± 0,1 0,132 ± 0,01b 0,360 ± 0,03 b 2,66 ± 0,2

Grupo controle (C1); Grupo Hiperproteico (HP1). Grupos submetidos a 30% de restrição alimentar C2 e HP2. Diferentes letras sobrescritas denotam diferença estatística (ANOVA, P<0,05). Niterói, 2011.

Ao analisar os parâmetros biométricos do fêmur pode-se observar que não houve diferença significativa para as análises de peso e distância entre as epífises. No entanto, observou-se redução (P<0,05) na largura do ponto médio da diáfise do fêmur nos grupos que receberam a dieta da proteína (HP1 e HP2), quando comparados com os seus respectivos grupos controle (C1e C2). Resultado semelhante foi encontrado quando avaliada a composição mineral do fêmur, os grupos HP1 e HP2 apresentaram menor (P<0,05) concentração de cálcio neste osso. Maior concentração (P<0,05) de magnésio foi encontrada nos grupos que receberam a dieta da proteína, em relação aos grupos C1e C2 (Tabela 3).

TABELA 3- Parâmetros biométricos e concentração de minerais do fêmur dos animais

estudados. (continua) C1 HP1 C2 HP2 Peso (g) 0,92 ± 0,01 0,93 ± 0,05 0,92 ± 0,01 0,84 ± 0,02 Distância entre as epífises (mm) 3,15 ± 0,05 3,20 ± 0,05 3,20 ± 0,05 3,08 ± 0,04

Largura do ponto médio

TABELA 3- Parâmetros biométricos e concentração de minerais do fêmur dos animais estudados. (conclusão) C1 HP1 C2 HP2 Composição óssea: Cálcio (mg/dL) 17,11 ± 2,63a 12,38 ± 0,24b 16,89 ± 3,42 a 11,59 ± 0,3b Magnésio (mg/dL) 4.00 ± 0.33 a 8.2 ± 1.09b 3.88 ± 0.37 a 8,19 ± 1,42b Fósforo (mg/dL) 7,37 ± 1,87 6,10 ± 0,97 5,08 ± 1,77 5,76 ± 1,03

Grupo controle (C1); Grupo Hiperproteico (HP1). Grupos submetidos a 30% de restrição alimentar C2 e HP2. Diferentes letras sobrescritas denotam diferença estatística (ANOVA, P<0,05). Niterói, 2011.

Discussão

O Dr. Atkins16 afirma que os indivíduos que utilizam a dieta hiperproteica podem ingerir mais energia e perder peso. Contudo, não existem evidências científicas que confirmem que esta dieta tenha vantagens metabólicas sobre as dietas convencionais para a redução de peso e manutenção da fisiologia óssea.

No presente estudo, pode-se observar que a dieta hiperproteica parece promover maior saciedade quando consumida em livre demanda, entretanto, como esta dieta apresenta maior valor energético por grama de ração consumida, a menor ingestão de ração pelo grupo HP1 não foi suficiente para levar a perda de peso corporal; e quando esta dieta é associada à restrição alimentar a perda de peso é semelhante ao da dieta hipocalórica balanceada. Mostrando que não é a dieta da proteína que leva à perda de peso corporal, mas sim a restrição energética imposta aos animais. Corroborando nossos resultados, estudos mostram que, em humanos, o consumo em livre demanda da dieta da proteína parece aumentar a saciedade e o efeito térmico da dieta, o que segundo estes autores pode levar a perda de peso corporal, apenas, após longos períodos17,18. Outros estudos sugerem que a menor ingestão alimentar pode estar relacionada à formação excessiva de corpos cetônicos devido a mudança do substrato utilizado no metabolismo energético ou ainda, outro fator sugerido é que a ingestão elevada de proteína leva ao aumento da concentração sérica de aminoácidos que estimulam a liberação de hormônios anorexígenos agindo na saciedade; e ao estímulo conferido pelos aminoácidos à secreção da colecistoquinina (CCK) favorecendo a diminuição da ingestão alimentar 1,19,20.

Metabolicamente, o maior precursor de corpos cetônicos é o Acetil coenzima A, produzido pela oxidação de ácidos graxos e pelos aminoácidos cetogênicos. A cetose produzida por este tipo de dieta pode aumentar a osmolalidade plasmática e, assim,

desencadear a sensação de sede e o maior consumo hídrico21. Fato este, observado no presente estudo, onde os animais que receberam a dieta da proteína apresentaram maior ingestão de água do que os animais do grupo controle, evidenciando que o consumo da dieta hiperproteica associada à restrição energética pode promover maior produção de corpos cetônicos, desencadeando maior consumo hídrico e maior diurese.

As proteínas e o cálcio são os maiores componentes do tecido ósseo, de modo que para manter o processo de remodelagem óssea voltada para a fase de formação existe a necessidade de suprimento adequado tanto do mineral quanto da proteína. Estudos observacionais evidenciam associações entre a ingestão de proteína e massa óssea e inclui tanto efeitos positivos quanto negativos22. Os resultados da densitometria óssea do presente estudo mostram que os grupos que sofreram restrição alimentar apresentaram menor densidade e conteúdo mineral ósseo na pélvis e coluna vertebral, provavelmente devido a maior formação de corpos cetônicos e menor ingestão de cálcio, confirmando os dados da literatura. No entanto, ao contrário do que foi observado na pélvis e na coluna vertebral, o fêmur do grupo que recebeu a dieta da proteína associada a restrição alimentar foi a parte óssea analisada mais afetada com redução na densidade, conteúdo mineral ósseo total, redução da largura no ponto médio da diáfise e redução da concentração óssea de cálcio. O que sugere que a elevada ingestão de proteínas associada a restrição energética aumenta os efeitos negativos desta dieta sobre o tecido ósseo, até mesmo em animais adultos, devido ao estímulo da remoção do cálcio ósseo na tentativa de minimizar os efeitos da acidose.

Alguns pesquisadores sugerem que a proteína da dieta em quantidades excessivas parece exercer efeito negativo sobre o osso, apenas, em condições de baixa ingestão de cálcio23, o que pode confirmar os efeitos negativos observados no grupo que recebeu a dieta da proteína com restrição alimentar. Os ajustes fisiológicos que podem estar associados a isto são a hipercalciúria, devido a redução da reabsorção tubular de cálcio em função da acidose, aumento na reabsorção óssea e, consequentemente, desmineralização deste tecido22,24.

No entanto, contrário aos nossos resultados, um estudo observou redução significativa na DMO e CMO do fêmur em camundongos que receberam dieta hipocalórica25. O que também sinaliza para possíveis efeitos negativos de dietas hipocalóricas com baixa concentração de cálcio.

Estudos recentes mostram que os osteoblastos possuem receptores para insulina aumentando a captação de glicose e a produção dos marcadores ósseos anabolizantes. É conhecido que dietas pobres em carboidratos levam a menor liberação de insulina, podendo refletir no metabolismo ósseo26; o que pode justificar os resultados negativos observados no grupo que recebeu a dieta da proteína associada a restrição alimentar (HP2), pois a baixa

concentração de carboidratos desta dieta diminuiu o estímulo a produção de insulina e, consequentemente de osteocalcina, devido ao menor estímulo para a atividade dos osteoblastos, refletindo na diminuição da largura do fêmur.

Um estudo realizado em ratas mostra que a ingestão energética é um fator determinante para a manutenção de concentrações adequadas de osteocalcina e para a formação óssea27. Outro estudo enfatiza que dietas hiperlipídicas também são capazes de inibir a formação óssea e bloquear a formação de osteoblastos28. Portanto, a dieta da proteína apresenta duas características importantes que podem influenciar negativamente o metabolismo e formação óssea: alta concentração de proteínas e lipídios. Contudo, os mecanismos exatos através dos quais estas características promovem tais alterações ainda necessitam ser melhor estudadas.

CONCLUSÃO

A partir dos resultados encontrados observa-se que a dieta da proteína promove alteração óssea significativa no fêmur e na concentração dos hormônios relacionados à formação e manutenção deste tecido.

Tais resultados podem sugerir que mulheres adultas, principalmente aquelas na fase de pré-menopausa e menopausa, podem ter a expectativa de desenvolvimento de osteopenia e osteoporose aumentadas, em função do consumo deste tipo de dieta.

Agradecimentos: Os autores agradecem a Pró-reitoria de Pesquisa, Pós-graduação e

Inovação da UFF pelo auxílio FOPESQ; a FAPERJ, ao CNPq/PIBIC pela concessão de bolsas de iniciação científica; e aos coordenadores e técnico do Laboratório de Avaliação Nutricional da UFF.

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