to parcial e da remissão. 14.2. Cláusula, condição ou obrigação adicio- nal. 14.3. Renúncia da solidariedade. 15. Impossibilidade da prestação. 16. Responsabilidade pelos juros. 17. Meios de defesa dos devedores. 18. Relações dos codevedores entre eles. 18.1. Direito de regresso. 18.2. Insolvência de um dos codevedores solidários.
11. Conceito e características
A solidariedade passiva consiste na concorrência de dois ou mais de- vedores, cada um com dever de prestar a dívida toda. Segundo WASHINGTON DE BARROS MONTEIRO, tal modalidade é predicado externo que cinge a obri- gação e por via do qual, de qualquer dos devedores que nela concorrem, pode o credor exigir a totalidade da dívida. Representa assim preciosa cau- tela para a garantia dos direitos obrigacionais39.
Ao contrário da solidariedade ativa, a passiva é muito frequente, admi- tindo alguns países a presunção de solidariedade, dispensando a convenção expressa nas dívidas comuns ou quando não resulte o contrário do título.
A obrigação solidária passiva pode ser conceituada como a relação obrigacional, oriunda de lei ou de vontade das partes, com multiplicidade de devedores, sendo que cada um responde in totum et totaliter pelo cum- primento da prestação, como se fosse o único devedor. Cada devedor está obrigado à prestação na sua integralidade, como se tivesse contraído sozinho o débito. Assim, na solidariedade passiva unificam-se os devedores, possi- bilitando ao credor, para maior segurança do crédito, exigir e receber de qualquer deles o adimplemento, parcial ou total, da dívida comum40.
39 Curso de direito civil, 29. ed., v. 4, p. 176.
40 Carvalho Santos, Código Civil brasileiro interpretado, 9. ed., v. 11, p. 225; Maria Helena
Se quiser, poderá o credor exigir parte do débito de cada um dos de- vedores separadamente. A principal característica da obrigação solidária pode ser encontrada na manutenção da autonomia, a despeito da solidarie- dade. Sua tônica, na expressão de OROZIMBO NONATO, é que cada um dos devedores está obrigado à prestação na sua integralidade, totum et totaliter, como se em verdade houvesse contraído, sozinho, a obrigação inteira41.
Para melhor compreensão, a solidariedade passiva deve ser analisada pelos lados externo e interno da relação jurídica: nas relações dos devedores com o credor e nas dos devedores entre si. Encarada pelo lado externo, o conjunto de devedores se apresenta como se fosse um devedor único, pois dele pode o credor exigir a totalidade do crédito42.
Desse princípio, decorre: a) que o credor pode dirigir-se à sua vontade contra qualquer dos devedores e pedir-lhes toda a prestação (CC, art. 275); b) que o devedor escolhido, estando obrigado pessoalmente pela totalidade, não pode invocar o beneficium divisionis e, assim, pretender pagar só a sua quo- ta ou pedir que sejam convencidos os coobrigados; c) que uma vez conse- guida de um só toda a prestação, todos os outros ficam livres (CC, art. 277); d) que, por consequência, assim como o credor pode agir contra um ou con- tra todos ao mesmo tempo, da mesma forma quando tenha agido sem resul- tado ou com resultado parcial contra um ou vários, pode depois agir ainda contra os outros até completa execução da prestação; e) que se a prestação se torna impossível por culpa ou durante a mora de um ou de vários devedo- res, as consequências do fato culposo devem recair sobre o seu autor, mas não podem por outro lado servir para libertar os outros obrigados solidaria- mente; o devedor, que esteja em culpa ou em mora, será por isso obrigado a responder na mais larga medida da indenização do dano, devendo todos os outros, pelo contrário, responder nos limites da aestimatio rei (CC, art. 279)43.
Se, todavia, encararmos a questão sob o aspecto interno, encontraremos vários devedores, uns responsáveis para com os outros. As obrigações de cada um são individuais e autônomas, mas se encontram entrelaçadas numa relação unitária, em virtude da solidariedade.
A solidariedade passiva atende ao interesse comum das partes. Ofere- ce ao credor a vantagem de desobrigá-lo de uma ação coletiva e o põe a
41 Curso de obrigações, Rio de Janeiro, Forense, 1959, v. II, p. 168.
42 Ruggiero e Maroi, Istituzioni di diritto privato, 8. ed., Milão, 1955, v. II, p. 50; Caio
Mário da Silva Pereira, Instituições de direito civil, 19. ed., Rio de Janeiro, Forense, 2001, v. II, p. 62.
salvo de eventual insolvência de um dos devedores. A estes facilita o crédi- to, dada a forte garantia que representa para o credor.
Há semelhanças com a fiança. A solidariedade e a fiança constituem espécies de um mesmo gênero de cauções. O fiador obriga-se a satisfazer a obrigação do devedor, caso este não a cumpra. O devedor solidário em- penha-se do mesmo modo, em relação aos seus obrigados. Entretanto, não se confundem, porque a fiança é um contrato acessório. Ainda sendo soli- dário com o devedor principal (arts. 828 e 829), o fiador ficará exonerado nas hipóteses de extinção peculiares da fiança (arts. 838 e 839).
Como a solidariedade é benefício do credor para facilitar a cobrança, tornando, perante ele, cada um dos sujeitos passivos da obrigação o devedor único, responsável pela integralidade da obrigação, mesmo sendo esta di- visível, não se compreende solidariedade nas obrigações de fazer, quando convencionado que o devedor cumpra a prestação pessoalmente.
A solidariedade pode ser estipulada na convenção, como segurança para defesa do crédito. Às vezes a lei a prevê, para maior garantia das relações ju- rídicas. São inúmeros os exemplos de solidariedade instituída no próprio Código Civil, podendo ser destacados: a) art. 942 e parágrafo único — entre autores, coautores e as pessoas designadas no art. 932 (pais, tutores, emprega- dores etc.), pelos atos ilícitos que praticaram; b) art. 154 — entre o terceiro autor da coação e a parte a quem ela aproveita, se a conhecia; c) art. 585 — entre as pessoas que forem simultaneamente comodatárias da mesma coisa, para com o comodante; d) art. 828, II — entre devedor principal e fiador, se este se obrigou como principal pagador, ou devedor solidário; e) art. 1.003 e parágrafo único — entre cedente e cessionário de quotas de sociedade44.
12. Direitos do credor
Proclama o Código Civil:
44 A obrigação alimentar não é solidária, mas divisível, porque a solidariedade não se presu-
me. Não havendo texto legal impondo a solidariedade, é ela divisível, isto é, conjunta. Cada devedor responde por sua quota-parte. Havendo quatro filhos em condições de pensionar o ascendente, não poderá este exigir de um só deles o cumprimento da obrigação por inteiro. Se o fizer, sujeitar-se-á às consequências de sua omissão, por inexistir na hipótese litis- consórcio passivo necessário, mas sim facultativo impróprio, isto é, obterá apenas ¼ do valor da pensão (STJ, 4ª T., REsp 50.153-9-RJ, rel. Min. Barros Monteiro, DJU, 14 nov. 1994, p. 30961, Seção I).
“Art. 275. O credor tem direito a exigir e receber de um ou de alguns dos devedores, parcial ou totalmente, a dívida comum; se o pagamento tiver sido parcial, todos os demais devedores continuam obrigados solidaria- mente pelo resto.
Parágrafo único. Não importará renúncia da solidariedade a propo- situra de ação pelo credor contra um ou alguns dos devedores”.
O caput do dispositivo corresponde ao art. 904 do Código Civil de 1916, tendo sido porém acrescido o parágrafo único supratranscrito, que constituía artigo autônomo naquele diploma (art. 910).
O principal efeito da solidariedade passiva consiste no direito que confere ao credor de exigir de qualquer dos devedores o cumprimento in- tegral da prestação, como já foi dito. Trata-se, porém, de uma faculdade e não de um dever ou de um ônus, pois pode o credor não usá-la ou usar dela apenas em parte, exigir o cumprimento de todos os devedores ou só de alguns deles ou exigir de qualquer deles uma parte apenas da dívida comum45.
Se o pagamento for integral, operar-se-á a extinção da relação obriga- cional, exonerando-se todos os codevedores. Se, porém, for parcial e efetu- ado por um dos devedores, os outros ficarão liberados até a concorrência da importância paga, permanecendo solidariamente devedores do remanes- cente.
A exigência e o recebimento parcial da dívida comum das mãos de algum ou de alguns dos devedores não liberam os demais do vínculo de solidariedade pelo restante, como consta expressamente da segunda parte do art. 275 do Código Civil ora comentado.
O fato não importa renúncia do direito do credor, nem ela é de se presumir, conforme dispõe o parágrafo único do aludido dispositivo. O credor, propondo ação contra um dos devedores solidários, não fica inibido de acionar os outros, como dispunha o art. 910 do Código Civil de 1916, não importando, tal fato, renúncia da solidariedade. A ideia é repetida no mencionado parágrafo único do art. 275 do novo Código46.
45 Antunes Varela, Direito das obrigações, Rio de Janeiro, Forense, 1977, v. I, p. 301. 46 “Ação movida contra devedor cuja falência foi declarada. Extinção do processo. Inad-
missibilidade. Hipótese de suspensão do feito. Decretação de quebra contra o devedor principal que não impede o prosseguimento da demanda contra os devedores solidários”
O devedor demandado pela prestação integral pode chamar os outros ao processo, com fundamento nos arts. 77 e seguintes do Código de Pro- cesso Civil, não só para que o auxiliem na defesa, mas também para que a eventual sentença condenatória valha como coisa julgada por ocasião do exercício do direito de regresso contra os codevedores. Mesmo se forem vários os codevedores condenados, poderá o credor mover a execução con- tra apenas um deles, conforme o seu interesse, penhorando-lhe os bens47.
Sendo solidária a obrigação, os direitos de crédito aproveitam tanto ao credor originário como ao seu cessionário ou ao terceiro sub-rogado na sua posição, como o fiador, por exemplo.
Malgrado cada credor tenha o direito de reclamar de qualquer dos deve- dores a totalidade da dívida, não é conveniente que o faça em processos di- versos, concomitantemente, para evitar o risco de decisões conflitantes. Se tal, no entanto, ocorrer, devem as ações ser reunidas para julgamento conjunto.
13. Efeitos da morte de um dos devedores solidários
Na sequência, e sem qualquer inovação em relação ao direito anterior, determina o art. 276 do Código Civil:
“Se um dos devedores solidários falecer deixando herdeiros, nenhum destes será obrigado a pagar senão a quota que corresponder ao seu quinhão hereditário, salvo se a obrigação for indivisível; mas todos reunidos serão considerados como um devedor solidário em relação aos demais devedores”.
Segundo dispõe o art. 1.792, primeira parte, do novo Código Civil, “o herdeiro não responde por encargos superiores às forças da herança”. A integralidade da herança recai sobre o conjunto de herdeiros, pois se sub-
47 “Tratando-se de dano a prédio vizinho ocasionado por construção, a responsabilidade é
solidária e objetiva entre o proprietário e o construtor ou responsável técnico pela obra, descabendo a denunciação da lide ao segundo pelo primeiro, mas sim o instituto do chama- mento ao processo” (RT, 673/109).
Segundo Nelson Nery Junior e Rosa Maria de Andrade Nery, chamamento ao processo é a ação condenatória exercida pelo devedor solidário que, acionado sozinho para responder pela totalidade da dívida, pretender acertar a responsabilidade do devedor principal ou dos demais codevedores solidários, estes na proporção de suas cotas. Tendo o autor ajuizado ação apenas contra o réu, os demais codevedores não fazem parte da relação jurídica pro- cessual originária. Essa modalidade de intervenção de terceiros não cabe no processo de execução, nem no cautelar (Código de Processo Civil comentado, p. 360-361).
-rogaram na posição ocupada, na relação jurídica, por um dos devedores solidários. Este, em razão da natureza da obrigação, respondia pela obriga- ção inteira.
A dívida, no entanto, desmembra-se em relação a cada um dos deve- dores, se divisível. Considerado isoladamente, cada devedor responde, tão somente, pela quota correspondente ao seu quinhão hereditário.
A esse respeito preleciona LACERDADE ALMEIDA: “Falecendo um dos devedores solidários, a obrigação, obedecendo a um princípio geral, divi- de-se de pleno direito entre os herdeiros. Em virtude deste princípio ficam os herdeiros do devedor solidário na posição entre si de devedores simples- mente conjuntos (pro parte). Todavia, como pelo fato de passar a herdeiros a condição da dívida não se transmuta, são eles coletivamente considerados e em relação aos codevedores originários como constituindo um devedor solidário48.
Há perfeita simetria entre o supratranscrito art. 276 e o art. 270, con- cernente à solidariedade ativa, ambos do novo Código Civil: se um dos credores solidários falecer deixando herdeiros, fracionar-se-á a obrigação e cada um destes só poderá exigir e receber a quota do crédito que correspon- der ao seu quinhão hereditário, salvo se indivisível.
Na solidariedade passiva, “morto o devedor solidário, também com herdeiros, divide-se o débito e cada um só responde pela quota respectiva, salvo se a obrigação for igualmente indivisível. Mas, neste último caso, por ficção legal, os herdeiros reunidos são considerados como um só devedor solidário, em relação aos demais codevedores”49.
Verifica-se, desse modo, que a morte de um dos devedores solidários não rompe a solidariedade, que continua a onerar os demais codevedores.
Se a obrigação for indivisível, cessa a regra que prevê o fracionamen- to, entre os herdeiros, da quota do devedor solidário falecido. Cada um será obrigado pela dívida toda. A exceção, imposta pela natureza do objeto da obrigação, que não pode ser prestado por partes, está em conformidade com os preceitos dos arts. 259 e 270 do Código Civil.
Poder-se-ia objetar que a expressão “todos reunidos serão considera- dos como um devedor solidário em relação aos demais devedores” só teria aplicação antes da partilha, ou seja, que a responsabilidade dos herdeiros
48 Obrigações, cit., p. 52.
do devedor solidário pela totalidade da dívida só é coletiva quando deman- dada a herança antes da partilha. Feita esta, no entanto, respondem eles pela quota proporcional ao seu quinhão, porque não representam a herança, mas o seu quinhão hereditário.
Contudo, não parece ser essa a intenção do legislador, mas que, sendo os herdeiros acionados coletivamente (reunidos, afirma o art. 276 do novo diploma), solidários são, ainda que já se tenha verificado a partilha, porque representam um dos devedores solidários.