2. Elementos constitutivos da obrigação
2.2. Objeto da relação obrigacional (elemento objetivo)
Objeto da obrigação é sempre uma conduta ou ato humano: dar, fazer ou não fazer (dare, facere, praestare, dos romanos). E se chama prestação, que pode ser positiva (dar e fazer) ou negativa (não fazer). Objeto da relação obrigacional é, pois, a prestação debitória. É a ação ou omissão a que o devedor fica adstrito e que o credor tem o direito de exigir9.
Qualquer que seja a obrigação assumida pelo devedor, ela se subsu- mirá sempre a uma prestação: a) de dar, que pode ser de dar coisa certa (CC, arts. 233 e s.) ou incerta (indeterminada quanto à qualidade: CC, art. 243) e consiste em entregá-la ou restituí-la (na compra e venda o vendedor se obriga a entregar a coisa, e o comprador, o preço; no comodato, o como- datário se obriga a restituir a coisa emprestada gratuitamente, sendo todas modalidades de obrigação de dar); ou b) de fazer, que pode ser infungível ou fungível (CC, arts. 247 e 249) e de emitir declaração de vontade (CPC, art. 466-B); ou, ainda, c) de não fazer (CC, arts. 250 e s.).
A prestação (dar, fazer e não fazer) é o objeto imediato (próximo, direto) da obrigação. Na compra e venda, como vimos, o vendedor se obriga a entregar, que é modalidade de obrigação de dar, a coisa alienada. A obrigação de entregar (de dar coisa certa) constitui o objeto imediato da aludida obrigação. Para saber qual o objeto mediato (distante, indireto) da obrigação, basta indagar: dar, fazer ou não fazer o quê? No citado exemplo da compra e venda, se o vendedor se obrigou a entregar um veículo, este será o objeto mediato da obrigação, podendo ser também chamado de “objeto da prestação”10.
Objeto mediato ou objeto da prestação é, pois, na obrigação de dar, a própria coisa. Na de fazer, a obra ou serviço encomendado (obrigação do empreiteiro e do transportador, p. ex.). Não se confunde, pois, o ato da prestação, a que o obrigado se encontra vinculado, com a coisa material, sobre o qual aquele ato incide.
9 Manoel Ignácio Carvalho de Mendonça, Doutrina e prática das obrigações, t. I, p. 90;
Antunes Varela, Direito das obrigações, cit., v. 1, p. 70.
10 Antunes Varela, Direito das obrigações, cit., v. I, p. 71; Álvaro Villaça Azevedo, Teoria
A prestação ou objeto imediato deve obedecer a certos requisitos, para que a obrigação se constitua validamente. Assim, deve ser lícito, possível, determinado ou determinável. Deve ser, também, economicamente apreci- ável. Como se verifica, tais requisitos não diferem dos exigidos para o ob- jeto da relação jurídica em geral (CC, art. 104, II).
Objeto lícito é o que não atenta contra a lei, a moral ou os bons cos- tumes.
Quando o objeto jurídico da obrigação é imoral, os tribunais por vezes aplicam o princípio de direito de que ninguém pode valer-se da própria torpeza (nemo auditur propriam turpitudinem allegans). Ou então a parêmia in pari causa turpitudinis cessat repetitio, segundo a qual se ambas as par- tes, no contrato, agiram com torpeza, não pode qualquer delas pedir devo- lução da importância que pagou11.
Tais princípios são aplicados pelo legislador, por exemplo, no art. 150 do Código Civil, que reprime o dolo ou torpeza bilateral, e no art. 883, que nega direito à repetição do pagamento feito para obter fim ilícito, imoral, ou proibido por lei. Impedem eles que as pessoas participantes de um con- trato imoral sejam ouvidas em juízo.
O objeto deve ser, também, possível. Quando impossível, o negócio é nulo. A impossibilidade do objeto pode ser física ou jurídica.
Impossibilidade física é a que emana de leis físicas ou naturais. Configura-se sempre que a prestação avençada ultrapassa as forças humanas. Deve ser real (não se tratar de mera faculdade) e absoluta, isto é, alcançar a todos, indistintamente, como, por exemplo, a que impede o cumprimento da obrigação de colocar toda a água dos oceanos em um copo d’água. A relativa, que atinge o devedor mas não outras pessoas, não constitui obstá- culo ao negócio jurídico. Dispõe, com efeito, o art. 106 do Código Civil que “a impossibilidade inicial do objeto não invalida o negócio jurídico se for relativa, ou se cessar antes de realizada a condição a que ele estiver subor- dinado”.
Impossibilidade jurídica do objeto ocorre quando o ordenamento jurí- dico proíbe, expressamente, negócios a respeito de determinado bem, como a herança de pessoa viva (CC, art. 426), o bem público (CC, art. 100) e os gravados com a cláusula de inalienabilidade, por exemplo. A ilicitude do objeto é mais ampla, pois abrange os contrários à moral e aos bons costumes.
O objeto da obrigação deve ser, igualmente, determinado ou determi- nável (indeterminado relativamente ou suscetível de determinação no mo- mento da execução).
Admite-se, assim, a venda de coisa incerta, indicada ao menos pelo gênero e pela quantidade (CC, art. 243), que será determinada pela escolha, bem como a venda alternativa, cuja indeterminação cessa com a concen- tração (CC, art. 252).
O objeto da obrigação, como foi dito, deve ser, também, economica- mente apreciável. Obrigações jurídicas, mas sem conteúdo patrimonial, como o dever de fidelidade entre os cônjuges e outros do direito de família, são excluídas do direito das obrigações.
Reportamo-nos ao item n. 3 (Características principais do direito das obrigações) do Capítulo I (Introdução ao direito das obrigações), retro, no qual foi abordada a questão da patrimonialidade do objeto da obrigação, transcrevendo-se a lição de CAIO MÁRIO, ao elogiar o art. 1.174 do Código Civil italiano, que proclama a economicidade da prestação, dizendo que a razão está em que “o interesse do credor pode ser apatrimonial, mas a pres- tação deve ser suscetível de avaliação em dinheiro”.
Também se mencionou a lição de ROBERTO DE RUGGIERO, que igual- mente vislumbra a solução do problema na distinção entre o interesse, que o credor tem na prestação, e a própria prestação, dizendo: “É fora de dúvi- das que nada impõe a necessidade de um interesse econômico no devedor, bem podendo ele ser apenas ideal, afetivo ou moral, desde que seja sério e lícito e se mostre, por isso, digno de proteção jurídica. Mas, pelo contrário, o objeto da prestação deve necessariamente ter um conteúdo econômico ou ser suscetível de uma avaliação patrimonial...”.
Acrescente-se que, em princípio, a responsabilidade do devedor esten- de-se a todo o seu patrimônio. A lei, no entanto, exclui da execução forçada certos bens, tornando-os impenhoráveis. É o que sucede com o imóvel utilizado como residência de família (bem de família), que não pode res- ponder por qualquer dívida contraída pelos pais, filhos ou outras pessoas que nele residam (Lei n. 8.009/90; CC, art. 1.711)12.
O entendimento de que pode haver interesse somente moral da pres- tação, mas deve ser suscetível de valorização econômica, adotado no art. 1.174 do Código Civil italiano, é amplamente aceito na doutrina brasileira,
mal grado a inexistência de regra expressa nesse sentido entre nós. O art. 398º do Código Civil português, todavia, prescreve que a prestação não necessita de ter valor pecuniário; mas deve corresponder a um interesse do credor, digno de proteção legal.
Comentando o assunto, INOCÊNCIO GALVÃO TELLES concorda em que o interesse do credor não tem que revestir caráter econômico, podendo tratar- -se de um interesse ideal ou espiritual, como o de assistir a um espetáculo, por exemplo. Quanto à prestação debitória em si, aduz o preclaro professor da Faculdade de Direito de Lisboa, “entendia-se tradicionalmente que, pela própria natureza das coisas, assumia sempre carácter econômico, sendo necessariamente avaliável em dinheiro. O novo Código Civil (português) afastou este modo de ver (art. 398º, n. 2.). É duvidoso no entanto que em concreto possam existir verdadeiras obrigações cujo objecto não possua valor pecuniário. O problema oferece escasso interesse prático, pois que, mesmo a aceitar-se como certa a posição do novo Código, a obrigação apresentará carácter patrimonial na esmagadora maioria dos casos”13.
Registre-se a opinião de PONTES DE MIRANDA, segundo a qual, se a prestação é lícita, não se pode dizer que não há obrigação se não é suscetí- vel da valorização econômica, como na hipótese da prestação de se enterrar o morto segundo o que ele, em vida, estabelecera, ou estipularam os des- cendentes ou amigos14.
Na realidade, a patrimonialidade tem sido considerada da essência da prestação, mesmo quando corresponda a interesse moral. Nesse caso, deve a prestação ser suscetível de avaliação econômica, como no caso, por exem- plo, da indenização pelo fato da morte, ou do sofrimento, em que avulta o caráter compensatório do ressarcimento. Inexistindo, porém, a referida economicidade, o juiz atribuirá, em caso de reparação de danos, um equi- valente (patrimonialidade por via indireta, que justifica, pois, a indenizabi- lidade do dano moral)15.
A esse respeito, LÉON MAZEAUD, citado por MÁRIO MOACYR PORTO, em magistério publicado no Recueil critique Dalloz, 1943, p. 43, esclarece que, “se o sofrimento é algo entranhadamente pessoal, o direito de ação de in- denização do dano moral é de natureza patrimonial e, como tal, transmite-se
13 Direito das obrigações, cit., p. 8-9.
14 Tratado de direito privado, t. 22 a 26, apud Paulo Luiz Netto Lôbo, Direito das obrigações,
cit., p. 16-17.
aos sucessores”16. Nessa linha, decidiu o Superior Tribunal de Justiça, per-
cucientemente: “O direito de ação por dano moral é de natureza patrimonial e, como tal, transmite-se aos sucessores da vítima”17.
Em consequência, apesar de serem imprescritíveis a honra e outros direitos da personalidade, a pretensão à sua reparação, tendo caráter patri- monial, está sujeita aos prazos prescricionais estabelecidos em lei.
Aduza-se, por fim, que a causa, embora referida de forma indireta em alguns dispositivos (arts. 140, 373, 876), não foi incluída em nosso ordena- mento como elemento constitutivo da relação obrigacional.