O art. 277 do Código Civil trata das consequências do pagamento parcial do débito solidário e da remissão obtida por um dos devedores:
“Art. 277. O pagamento parcial feito por um dos devedores e a remis- são por ele obtida não aproveitam aos outros devedores, senão até à con- corrência da quantia paga ou relevada”.
Nesse mesmo sentido prescreve o art. 388 do novo diploma, verbis: “A remissão concedida a um dos codevedores extingue a dívida na parte a ele correspondente; de modo que, ainda reservando o credor a solidarie- dade contra os outros, já lhes não pode cobrar o débito sem dedução da parte remitida”.
O pagamento parcial naturalmente reduz o crédito. Sendo assim, o credor só pode cobrar do que pagou, ou dos outros devedores, o saldo re- manescente. Essa redução da prestação afeta a relação jurídica externa entre credor e devedores. O dispositivo em estudo pretende obstar um en- riquecimento indevido do credor, que ocorreria se ainda lhe fosse permitido cobrar a dívida inteira.
Há mudança também na relação jurídica interna, entre os vários deve- dores, visto que o solvens se liberou e continua responsável somente pela quota do eventual insolvente.
A remissão ou perdão pessoal dado pelo credor a um dos devedores solidários não extingue a solidariedade em relação aos codevedores, acar- retando tão somente a redução da dívida, em proporção ao valor remitido. Dessa forma, o credor só estará legitimado a exigir dos demais devedores o seu crédito se fizer a dedução da parte daquele a quem beneficiou, ou seja: os codevedores não contemplados pelo perdão só poderão ser demandados
com abatimento da quota relativa ao devedor relevado, não pela totalidade da dívida50.
A razão do critério adotado em nosso direito parte da ideia de que a remissão se baseia em considerações pessoais, não podendo aproveitar aos demais devedores, a menos que tenha caráter objetivo, da obrigação51. Di-
verso o efeito na solidariedade ativa. Nesta, o perdão de um dos credores exonera o devedor (CC, art. 272).
No tocante ao pagamento parcial, a ideia, obviamente, é que, dimi nuída a dívida da parte do devedor exonerado, não possa o credor exigir e receber o total dos codevedores, experimentando um enriquecimento indevido.
No que concerne à remissão, observa-se que o perdão obtido por um dos devedores solidários aproveita aos outros, mas somente até a quantia relevada. Se um devedor é perdoado, a nada mais pode ser obrigado. Per- deria ele o benefício se o credor pudesse exigir de outro devedor o total da dívida, porque o solvens ficaria com regresso contra o favorecido, pela parte a este correspondente nesse total cobrado.
Decidiu a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça, em acórdão relatado pela Min. Nancy Andrighi (dez./2008), que, celebrada transação entre o credor e um dos devedores solidários, com o pagamento acordado e a outorga de quitação geral e irrestrita, mas com a ressalva de que tal quitação não abrange o outro devedor solidário, pode o credor prosseguir com a ação para obter a condenação deste pelo valor de sua quota no débi- to remanescente. Ressaltou a mencionada relatora que, havendo pagamen- to parcial (no caso, 50% da dívida), o codevedor continua obrigado pelo valor remanescente. O pagamento parcial efetivado por um dos codevedores e a remissão a ele concedida não alcança os demais, senão até a concorrên- cia da quantia paga ou relevada. Em conclusão, determinou-se que a recor- rida permanecesse no polo passivo e devedora de 50% da totalidade dos danos sofridos pela autora lesada.
Ainda pertinentemente ao tema, dispõe o art. 284 do novo diploma que, “no caso de rateio entre os codevedores, contribuirão também os exo- nerados da solidariedade pelo credor, pela parte que na obrigação incum- bia ao insolvente”.
50 Washington de Barros Monteiro, Curso, cit., 29. ed., v. 4, p. 186; Maria Helena Diniz,
Curso, cit., v. 2, p. 166; Serpa Lopes, Curso de direito civil, 4. ed., Rio de Janeiro, Forense,
1966, p. 147.
Anote-se que a remissão também pode ser concedida por disposição de última vontade, bem como ser tacitamente outorgada pela entrega volun- tária do título da obrigação, quando por escrito particular, a um dos deve- dores solidários (CC, art. 386).
14.2. Cláusula, condição ou obrigação adicional
Estabelece o novo diploma a ineficácia da estipulação adicional gra- vosa aos codevedores solidários que não participaram da avença. Resolve, assim, dessa forma a dúvida sobre qual o resultado de tal deliberação rela- tivamente aos demais devedores solidários que nela não foram partes, não foram ouvidas, nem lhe deram consentimento.
Prescreve, com efeito, o art. 278 do Código Civil:
“Qualquer cláusula, condição ou obrigação adicional, estipulada entre um dos devedores solidários e o credor, não poderá agravar a posição dos outros sem consentimento destes”.
A ideia, já esposada no art. 907 do Código Civil de 1916, é que ninguém pode ser obrigado a mais do que consentiu ou desejou. Pode-se inferir, igualmente, do dispositivo transcrito, que não se comunicam os atos preju- diciais praticados pelo codevedor, mas apenas os favoráveis.
Na análise tradicional da solidariedade entram, como elementos dessa unidade de prestação, a pluralidade de laços e a representação mútua dos codevedores. Nas relações do credor com os devedores, segundo essa dou- trina, presume-se que estes, uns aos outros, deram mandato recíproco, para se representar; cada codevedor é representante de todos e de cada um nas referidas relações.
A explicação harmoniza-se com o caráter específico da dívida solidá- ria, dívida única pesando sobre muitas pessoas, e conforma-se com a von- tade das partes, expressa na convenção ou interpretada pelo legislador na solidariedade legal.
Este poder de representação, porém, não é ilimitado: os codevedores se representam em todos os atos tendentes à extinção ou conservação da dívida, à melhoria de condição em face do credor e não mais. Como conse- quência, nenhum dos devedores está autorizado a estipular, com o credor, cláusula, condição ou obrigação adicional que agrave a obrigação e piore a posição dos representados sem o consentimento destes52.
52 Washington de Barros Monteiro, Curso, cit., 29. ed., v. 4, p. 186; Tito Fulgêncio, Do di-
reito, cit., p. 322; Serpa Lopes, Curso, cit., v. II, p. 146; Manoel Ignácio Carvalho de Men-
Segundo TITO FULGÊNCIO, “nosso sistema, entretanto, não acolheu essa doutrina de representação mútua, até mesmo pela imprecisão e arbítrio com que delineia a extensão do mandato presumido. Para a justificação destes como de todos os outros efeitos principais da solidariedade, não há neces- sidade de recursos extraordinários. Basta a estrutura do instituto: mesma obrigação, pluralidade de laços, tantos (com objeto único) quantos os de- vedores. Estipular cláusula, condição, obrigação nova, agravando a posição dos outros devedores solidários, por ato de um só, é alterar a essência do vínculo, que é filho da vontade de todos, seja convencional, seja legalmen- te interpretada. O ato do estipulante é seu e somente a si obriga”53.
Conseguintemente, se um dos devedores estipula com o credor, à re- velia dos demais, cláusula penal, taxa de juros mais elevada ou outra van- tagem, claro que semelhante estipulação será pessoal, restrita exclusivamen- te ao próprio estipulante, não podendo afetar, destarte, a situação dos demais codevedores, alheios à nova estipulação54.
Desse modo, para que um aditamento contratual, acordado entre um dos devedores e o credor, obrigue solidariamente aos devedores solidários, impõe-se que nele hajam consentido.
Há, no entanto, exceções à regra de que o novo ônus só atinge a quem anuiu. O art. 204, § 1º, do novo Código proclama que a interrupção da prescrição, operada contra um dos codevedores, estende-se aos demais, havendo, assim, comunicação dos efeitos interruptivos.
14.3. Renúncia da solidariedade
Como a solidariedade constitui benefício instituído em favor do credor, pode dele abrir mão, ainda que se trate de vínculo resultante da lei.
Nesse sentido o Código Civil:
“Art. 282. O credor pode renunciar à solidariedade em favor de um, de alguns ou de todos os devedores.
Parágrafo único. Se o credor exonerar da solidariedade um ou mais devedores, subsistirá a dos demais”.
Quando a renúncia é efetivada em prol de todos os coobrigados deno- mina-se absoluta. Neste caso, não mais haverá solidariedade passiva, pois
53 Do direito, cit., p. 322.
cada coobrigado passará a dever pro rata, isto é, a responder somente por sua quota.
Trata-se de hipótese bastante rara. A obrigação torna-se conjunta, pois os devedores, que eram solidários, responsáveis, cada um de per si pela dívida inteira, passam à condição de devedores de obrigações únicas, dis- tintas e separadas, sujeitos às regras comuns.
A renúncia operada em proveito de um, ou de alguns devedores apenas, intitula-se relativa. Ocorre quando o credor dispensa da solidariedade so- mente um ou outro devedor, conservando-a, todavia, quanto aos demais. Assim procedendo, o credor divide a obrigação em duas partes: uma pela qual responde o devedor favorecido, correspondente somente à sua quota; e a outra, a que se acham solidariamente sujeitos os outros55.
Registre-se que a renúncia relativa da solidariedade acarreta os seguin- tes efeitos, em relação aos devedores:
a) os contemplados continuam devedores, porém não mais da totali- dade, senão de sua quota-parte no débito;
b) suportam sua parte na insolvência de seus ex-codevedores (CC, art. 283). Os não exonerados permanecem na mesma situação de devedores soli- dários. Contudo, o credor não poderá acioná-los senão abatendo no débito a parte correspondente aos devedores cuja obrigação deixou de ser solidária56.
A razão é que, se o devedor pagou sua parte na dívida e foi exonerado da soli dariedade, a cobrança da referida parte dos codevedores solidários recairia sobre o que já não era devido. E o beneficiado não poderia ser constrangido a pagar duas vezes, ao credor e aos outros coobrigados, a estes em regresso.
A renúncia pode ser ainda expressa ou tácita. A primeira resulta de declaração verbal ou escrita, posto não solene, em que o credor abre mão do benefício; a segunda decorre de circunstâncias explícitas, que revelem de modo inequívoco a intenção de arredar a solidariedade, como quando permite o credor que o solvens pague apenas sua quota, dando-lhe quitação, sem ressalva de exigir-lhe o restante57.
A renúncia tácita é uma questão puramente de fato e de intenção apurá- vel contraditoriamente. Pode resultar de qualquer ato praticado pelo credor, dos quais, pelos termos empregados ou pelas circunstâncias, mostre-se ine-
55 Washington de Barros Monteiro, Curso, cit., 29. ed., v. 4, p. 192; Maria Helena Diniz,
Curso, cit., v. 2, p. 167.
56 Tito Fulgêncio, Do direito, cit., p. 361-362.
quívoca a intenção em remir a ação solidária, em renunciar ao pagamento indiviso, em converter o vínculo solidário em obrigação simples ou conjunta.
De uma ou de outra forma, a renúncia deve ser muito clara, pois não é de presumir-se que o credor tenha querido cercear sua garantia (nemo juri suo facile renuntiare praesumitur). Não pode ser inferida de meras conjec- turas; na dúvida, presume-se não existir58.
A renúncia ao benefício da solidariedade distingue-se da remissão da dívida. Com efeito, o credor que apenas renuncia a solidariedade continua sendo credor, embora sem a vantagem de poder reclamar de um dos deve- dores a prestação por inteiro, ao passo que aquele que remite o débito abre mão de seu crédito, liberando o devedor da obrigação59.