7. Resultados e discussão
7.3 Efeitos do volume de páginas na tomada de decisão e a qualidade dos EIAs
Com relação aos volumes de informação, ostentar grandes quantidades de páginas não é
sempre sinônimo de qualidade como já apontaram Barker e Wood (1999) e Drayson et al. (2015), ainda que, aparentemente na prática para algumas regiões geográficas, se tem uma falsa ideia de que um EIA volumoso é símbolo de qualidade. Mostra disso é o EIA do projeto canadense “Alumysa” proposto no ano 1996; com um peso de 102 kg e uma preparação de 10 anos, sua aparência talvez possa haver garantido sua licença. Segundo Muñoz (2008), o projeto tratava da construção de três hidrelétricas para o aproveitamento de alumínio. No entanto, no ano 2007, na área da localização do projeto, uma série de sismos provocaram deslocamentos tipo tsunami que acabaram com a vida de muitas pessoas e, apesar do comprimento e quantidade de informações inseridas no EIA, nunca se ouviram discussões visíveis ao público em torno do projeto, nem muito menos se ouviu falar dos riscos sísmicos e suas consequências, por exemplo, a ativação do vulcão Chaitén.
Outro caso emblemático similar, que relaciona o volume de informação com consequências no ambiente, se encontra no Brasil, refletido no projeto Belo Monte, catalogado como um dos empreendimentos hidrelétricos maiores do mundo, depois da hidrelétrica chinesa “Três Gargantas” e a Hidrelétrica de Itaipu (ANNEL, 2011). O projeto Belo Monte obteve sua licença ambiental (LP) no ano 2010, e o EIA apresentado para as autoridades ambientais compreendeu mais de 15000 páginas de informação (ALMEIDA et al., 2015). Apesar disso, atualmente, o projeto tem sido altamente questionado, pois, apesar de seu vasto texto, muitos dos compromissos estabelecidos pelo estudo de impacto e os pareceres técnicos não foram cumpridos (COSTA et al., 2012).
Segundo Fearnside (2006), o projeto no corpo textual do EIA, e durante seu estabelecimento, não identificou os impactos negativos mais significativos e os planos de mitigação propostos não foram os mais racionais para uma construção de tal magnitude. De fato, parecera que ditos planos foram ocultados ou submergidos na quantidade de páginas do EIA. Aliás, o autor repara que os conflitos originados poderiam ter sido prevenidos, mas considera que interesses essencialmente econômicos tiveram maior prioridade que as preocupações ecológicas e sociais.
Face ao exposto, os volumes enciclopédicos de informação não só podem ser adjudicados aos elaboradores do documento, já que os volumes podem ser influenciados por diferentes fatores, por exemplo, determinações dos órgãos ambientais e mesmos empreendedores. Segundo Ahmad e Wood (2002), no que tange às autoridades ambientais, é comum que solicitem requerimentos e informações que nem sempre são relevantes, originando EIAs volumosos que demoram ainda mais os processos de avaliação. Paralelamente, Middle e Middle (2010) e Sadler (1996) discutem que em diferentes oportunidades os órgãos de controle estabelecem recomendações inadequadas na etapa do escopo, exigir descrições de impactos pouco representativos é uma das mais frequentes. Em decorrência dessa fragilidade, uma quantidade desnecessária de recursos e tempo é inutilmente aproveitada, dando origem a EIAs volumosos que descrevem uma excessiva variedade de impactos, que às vezes nem explicam como vão a ser tratados ou nem são considerados pelos mesmos órgãos encarregados. Esta divergência pode originar que os impactos verdadeiramente significativos sejam ignorados no EIA ou possivelmente sejam abordados depois da execução do projeto, quando seu tratamento seja irreversível.
Wood (1996) percebeu que empreendedores costumam pressionar as consultorias para gerar informação além das que os entes ambientais exigem, aparentemente este costume, segundo Muñoz (2008), é uma tática para saturar de informação aos órgãos de controle, pois o autor insinua que EIAs gigantescos apresentados nos entes ambientais se parecem à estratégia usada pelos serviços de contraespionagem no transcurso da segunda guerra mundial, que consistiam em construir grandes quantidades de informação correta e incorreta para enganar o inimigo e restar- lhe capacidade de decisão.
Estudos feitos por Kumpf (2000) e Wood (2003) indicam que o excesso de informação em documentos e EIAs implica revisões de texto mais dilatadas e intensifica a utilização de tempo e ferramentas para a análise de toda sua informação (software, internet, etc.,). Nesse cenário, o tamanho e revisão do EIA acaba influenciando os prazos de resposta a empreendedores e processos administrativos. Os efeitos do tamanho de informação na tomada de decisão também podem ser vistos por meio da rotina dos revisores de EIAs. Muñoz (2008), por exemplo, descreve brevemente o drama de um revisor que está tentando há horas entender um projeto complexo e suas possíveis consequências sobre o meio ambiente, da seguinte maneira: “[...] Ele, o revisor, apenas se encontra na página, e.g. 600, analisando uma informação que é essencial do EIA, mas está pouco clara, sua visão está cansada, aliás, está submetido a uma constante carga de trabalho, revisão de outros EIAs e pressão pelos prazos e setores interessados [...]”. Nessa dinâmica de sucessos, é possível que o técnico termine sendo vulnerável nas interpretações, passe por cima de informações relevantes e defina aspectos pouco apropriados para a tomada de decisões.
Ainda assim, para muitos, é apenas lógico pensar que as equipes técnicas devem ser multidisciplinares, com treinamento em leitura rápida de documentos vastos e compreensão de textos, além disso, dispor de equipamentos e ferramentas para facilitar o tratamento e avaliação de dados. Não obstante, é possível que estas condições ótimas de trabalho não sejam o caso de todos os entes de controle dos países (MUÑOZ, 2008).
Outro aspecto a considerar é que, hoje em dia, apesar de se utilizar menos papel nas apresentações dos EIAs e se optar pelos modernos documentos digitais, os novos formatos obrigam ao revisor a ter uma postura frente a uma tela que, enquanto exibe informações, joga radiação e cores às vezes incômodas, cansam a visão e incitam a interromper a leitura (MUÑOZ, 2008). Ademais, tal exposição pode afetar severamente os tecidos oculares e a saúde visual do
técnico (SHEPPARD; WOLFFSOHN, 2018), aspecto de segurança talvez pouco discutido pelos entes licenciadores.
Dado o anterior, se o EIA apresenta uma quantidade excessiva de dados, as apreciações e a leitura podem ser pior que nos formatos físicos (MUÑOZ, 2008). No entanto, Wood (2003) e Sánchez (2013) discutem que antigamente os EIAs apresentados em formatos físicos limitavam a análise e busca de dados, vantagem que atualmente possuem os órgãos de controle, pois examinar gráficos, fórmulas matemáticas, simulações, etc., implica menos esforço e tempo nos formatos digitais, mas como mencionou Muñoz (2008), o formato digital também pode jogar contra os revisores e na estimação de medidas para a tomada de decisões, sobretudo se o tamanho do EIA é de grande comprimento.
Em outro cenário, se um cidadão está interessado em ler um EIA ou um documento relacionado e solicita informação ao órgão de controle, em resposta, a autoridade encarregada lhe propicia um livro enorme ou lhe ensina um bloco de volumes, a primeira impressão do interessado poderia ser recusar a leitura e deixar seu interesse. Possivelmente, esta atitude seja adotada por vários indivíduos da sociedade, o qual influi significativamente na difusão e entendimento dos projetos. Tendo consciência dessa situação, Kostelnick (1996) infere que a apresentação dos documentos causa um enorme impacto na interação com os leitores, aliás, Nadeem e Hameed (2008) manifestam que um dos problemas que impede o entendimento dos projetos na população é a ausência de mecanismos para transferir claramente as informações.
Também é sabido que os espaços de comunicação nas seções do EIA são erradamente aproveitados, já que geralmente adotam conteúdos desnecessários que podem influenciar a tomada de decisões. Por exemplo, quando o órgão do poder público solicita informação da descrição da área a sofrer intervenção, mais conhecida como “diagnóstico ambiental”, se refere a que se indiquem as características mais representativas dessas áreas, mas consultorias costumam colocar conceitos e explicar nomenclaturas ao invés de dar prioridade à descrição das áreas e considerar seus limites geográficos (JOÃO, 2002). Igualmente, na mesma seção, habitua-se colocar listas e inventários intermináveis de flora e fauna, descrições de relevo, fontes hídricas, etc., e esquece-se de focalizar as análises sob um enquadramento ecossistêmico que contemple as dinâmicas ambientais (SCHERER, 2011; SÁNCHEZ, 2013; TURRA et al., 2017).
Paiva et al. (2015) encontraram que EIAs mesclam quantidades de dados estatísticos com bibliografia e informações sem nenhum vínculo com o diagnóstico ambiental, ação que
principalmente acontece nas descrições no meio socioeconômico. Outro aspecto encontrado por Filho e Souza (2004) exibe que consultorias tendem a confundir terminologias técnicas próprias da AIA, o que leva a produzir informações incorretas, por exemplo, confundem no EIA conteúdos das alternativas tecnológicas e de localização com programas de mitigação e compensação ou se tomam como impactos positivos a geração de emprego, entre outros erros. Estas deficiências técnicas contribuem para que a estrutura do EIA, sem dúvida, seja confusa e se dificulte o tratamento da informação.
O MPF (2004) discute que a legislação e as autoridades ambientais não têm estabelecido uma terminologia conceitual para definir áreas de interesse do projeto (e.g. Área de Influência Direta, Área de Influência Indireta, Área de Entorno, Área de Influência Difusa, entre outras). Portanto, estas situações têm levado a distorções, desacordos nos pontos de vista dos especialistas, fornecendo quantidade de informações de localização prolixas, que posteriormente podem afetar áreas de importância natural ao escolher alternativas ou predições de impactos inapropriadas (PAIVA et al., 2015).
Por outro lado, Almeida et al. (2015) ressaltam que os órgãos ambientais brasileiros só tomam uma quantidade de dados do EIA para sua revisão, principalmente focando-se no cumprimento exclusivo dos TRs, ignorando outros elementos de informação. Nessa linha, um informe da Comissão Europeia também revelou que distintos estados membros não contam com uma revisão sistemática de EIAs (PÖLÖNEN, 2006). Geralmente as complementações são baseadas no mesmo conteúdo, mas não se evidenciam esforços na ampliação de aportes técnicos nos aspectos que se tenham omitido no documento EIA, ou que apresentem conflitos e ameaças. Ou seja, o que “não está exposto no EIA não é considerado”, atitude que indica uma baixa iniciativa por parte do empreendedor e órgãos ambientais para complementar vazios do EIA e prevenir ambiguidades posteriores.
Outro fator relevante que deve considerar principalmente a opinião pública sobre este assunto é que há uma profunda diferença entre a literatura convencional com conteúdos extensos e a produção de grandes volumes de informações em EIAs, pois a diferença destes últimos em relação aos outros são ferramentas de gestão, utilizadas em diferentes áreas geográficas do mundo. Além disso, são portadores de atividades que podem trazer efeitos diretos nos cenários biofísicos e econômicos, às vezes irreversíveis. Nesse sentido, vale a pena pensar, é necessário que um EIA apresente quantidades enciclopédicas de informação?