Já no principio do século xrx se conheciam os bons effeitos da digitalis na pneumonia lobar.
Este assumpto, porém, começou a interessar os es- píritos só em meiados d'esté século.
Se havia clinicos que proclamavam os benefícios colhidos pelo emprego da digitalis, outros havia que impugnavam os seus bons effeitos.
Diziam os adversários da digitalis que esta effecti- vamente combatia a febre, mas que a febre era ape- nas um symptoma da doença e que a digitalis, com- batendo este symptoma, náo curava a doença pois que, desapparecida a febre, continuavam a existir no pulmão os symptomas da lesão local.
Este modo de vêr era não só combatido trium- phantemente por algumas estatísticas, mas também pelas sensatas considerações suggeridas por alguns clinicos sobre a importância da febre na pneumonia.
Ora sabe-se pela observação que, na pneumonia, a febre é contemporânea da lesão pulmonar que pôde preceder o apparecimento d'esta e que termina geral- mente primeiro do que ella. Sabe-se também, e está
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averiguado por Hirtz, Traube e Kulp, que, em regra, depois que a febre desapparece, os symptomas de le- são local começam a indicar diminuição sensivel na sua intensidade e a tendência para a resolução é ma- nifesta.
Além d'isto, lembram os defensores da digitalis que, segundo os trabalhos concludentes de Cl. Bernard, o calor excessivo tem influencia perniciosa sobre o fíga- do, sobre o rim, sobre ns músculos e principalmente sobre o coração.
Esta influencia nociva do calor faz-se sentir, se- gundo o grande experimentador, com muita intensi- dade no elemento contractu do coração.
Tem-se notado que, a temperaturas superiores a 41", o sangue pôde coagular e o coração suecumbir.
Ora se temperaturas elevadas podem produzir efr feitos t&o desastrosos que determinem a morte do doente, é justo e muito plausível que se combata a temperatura, pois que combatida e vencida esta, cer- tamente se livra o doente d'um perigo que o poderia victimar.
E desde que nós temos um medicamento que he- roicamente subjuga a febre, parece estar plenamente justificado o seu emprego.
Esse medicamento heróico é a digitalis, que tem direito a ser considerado como arma poderosa contra a pneumonia.
Os seus effeitos têm sido conscienciosamente es- tudados por clínicos abalisados. D'estes estudos resul- ta a convicção da efficacia da digitalis.
Em pneumonias lobares intensas tem-se observado a descida rápida da temperatura no fim de doze e de vinte horas. Esta descida tem chegado a attingir dois a três graus, indo em alguns casos a quinze décimos abaixo da normal.
O pulso, que muitas vezes está a cem pulsações, desce a sessenta, tornando-se cheio e regular.
Pôde a principio ser intermittente e accelerado, mas em poucos instantes augmenta a sua tensão e adquire regularidade.
os effeitos no pulso. E em seguida ao abaixamento de temperatura, apparecem quasi sempre suores abun- dantes ou moderados, sendo quentes nas partes co- bertas o frescos nas partes do corpo nflo cobertas.
Vejamos agora o que determinará a descida de temperatura e qual será propriamente a acção da di- gitalis sobre a pneumonia.
Comquanto não se encontre actualmente trabalho algum moderno que explique o mechanismo da acção da digitalis na pneumonia, ha todavia observações e trabalhos experimentaes, que muito podem esclarecer o assumpto.
Assim Kaufman verificou que. sob a acçáo da di- gitalis, a energia das contracções cardíacas augmenta e a onda sanguínea é mais volumosa; e notou que em um individuo são ha rápido abaixamento de tempera- tura de cinco a seis décimos de grau.
M. Binz affirma quo ao mesmo tempo "que se dá este abaixamento de temperatura, ou instantes antes, em consequência da elevação de pressão arterial, ha repleção maior das artérias periphericas e consequen- temente perda de calor por irradiação.
Parece-me bem deduzido este modo de pensai'. Mas ainda mais se pôde dizer sobre o assumpto e directamente referente ás pertubações pulmonares.
Na pneumonia temos uma congestão bastante in- tensa e enfraquecimento correlactivo da corrente cir- culatória.
Ora a digitalis elevando a tensão arterial, activa a circulação pulmonar, combate a estase e ao mes- mo tempo que a torrente do sangue arrasta os ele- mentos infecciosos, a digitalis, pela sua acção diuré- tica, determina a excreção d'esses elementos, que in- feccionavam o organismo.
O augmente da tensão arterial, segundo Kaufman, é devido ao augmento de energia nas contracções car- díacas, que parece ser determinado pela acção directa da digitalis sobre os centros nervosos intra-cardíacos e sobre a propria fibra cardíaca.
Efectivamente esta acção manifesta-se tanto so- bre a ponta do coração excisada e mergulhada n'uma
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solução de digitalina, como sobre a base do coração só, onde estão os ganglios intra-cardíacos.
Nao ficam por aqui as modernas conquistas da sciencia.
O dr. Bayet fez varias experiências em cães, reco- nhecendo que a digitalis determina augmento de pres- são na grande circulação e notou que, ao mesmo tem- po que ha actividade maior na torrente circulatória, ha também diminuição de pressão na pequena circulação. Concluem d'aqui Bayet e o dr. Heger, também co- nhecedor das experiências, que a digitalina exerce uma acção deplectiva na circulação pulmonar, concor- rendo para descongestionar o pulmão e assimilhando-se aos effeitos d'uma sangria.
Pôde objectar-se que as experiências foram feitas com digitalina, que nao produz precisamente os mes- mos effeitos da digitalis.
iíffectíVaraente isto é verdade, mas também é in- contestável o facto de a digitalis actuar pelo conjunc- to da acção dos seus elementos constituintes; e se um d'esses elementos produz aquelle effeito, consigna- do pela experiência, é licito admittir que a digitalis possua a mesma propriedade, com differença de inten- sidade.
Este facto, adquirido recentemente pela experiên- cia, vem confirmar as ideias que Hirtz já tinha em 1862. N'esta época já Hirtz opinava que a digitalis determinava a resolução local pelo desengorgitamento pulmonar que provavelmente produziria.
Os clinicos que primeiro empregaram a digitalis aconselham que se suspenda o medicamento logo q'ue se dê o abaixamento da temperatura.
Sempre que se vigie a temperatura, afim de nao exaggerar a sua applicaçao, tem-se reconhecido nao haver phenomenos de intoxicação; apenas em casos raríssimos, com doses massiças, se tem observado vó- mitos e nauseas passageiras.
A temperatura desce geralmente no fim de doze a trinta horas depois da administração da digitalis. Desce muitas vezes trez a quatro décimos abaixo da nor- mal, conservando-se depois na normal sem nova subida.
O effeito da digitalis é certo e definitivo e a febre pôde, em regra, considerar-se vencida logo que se dê a descida da temperatura.
Após a queda da febre o doente deixa de sentir oppressão e começa a ter uma clara sensação de bem- estar.
A macissez e o sopro com fervores persistem algum tempo, mas a hepatisação pára na sua mar- cha.
A resolução nâo se faz esperar e a defervescencia, mais rápida do que a crise normal, dá ao doente um aspecto de animação e vigor bem différente do que elle tinha algumas horas antes.
A digitalis é insistentemente aconselhada nos in- divíduos vigorosos com pulso muito frequente e tem- peratura superior a 39°.
Nas formas pneumonicas typhoides e mesmo em velhos com resfriamento das extremidades, pulso pe- queno e frequente, a digitalis dá excellentes resulta- dos.
O mesmo se dá nos casos em que o pulso seja muito frequente, temperatura baixa e em que haja grande adynamia.
Nos tuberculosos, em que as pneumonias tanto aggravam a doença preexistente, a digitalis produz bom effeito sem que se tenham observado complica- ções graves.
O mesmo se tem dado nos indivíduos diabéticos, em que a pneumonia se tem curado sem deixar es- tragos alguns apreciáveis.
Na Austria, onde mais fervorosos adeptos creou este tratamento da pneumonia, dá-se a digitalis era infusão na dose de 6 a 8 grammas por dia.
Em França usa-se a dose de 4 grammas diárias. Ë em Portugal usa-se também em infusão ou ma- ceração na dose diária de 2 a 4 grammas ou em tin- tura na dose de 40 gottas.
A digitalis é pois um recurso precioso de que se deve lançar mão para combater a pneumonia e em que se pode ter bastante confiança sempre que haja o cuidado de não abusar do seu emprego.
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Os clínicos que tem usado da; digitalis na pneu- monia, reconhecem o seu valor e nao se esquivam a tecer-lhe os merecidos elogios.
Sempre que haja uma pneumonia com temperatura de 39" e pulso frequente, os effeitos da digitalis sao surprehendentes. Se além da temperatura elevada e do pulso frequente houver symptomas de gravidade, a digitalis da mesma forma produz effeitos que nao se.têm obtido com nenhum outro antithermico.
Todavia, podem encontrar-se casos em que haja complicações que modifiquem consideravelmente o typo normal da pneumonia; n'estes casos, comquanto lancemos mao do precioso recurso da digitalis, deve- mos também empregar, conforme as circumstancias, outros meios que já indiquei quando me referi á con-
ducta a seguir no tratamento da pneumonia.
Noticias sobre o mesmo assumpto. - Pe-
tresco apresentou á Academia de Medicina vários tra- balhos referentes ao tratamento da pneumonia pela digitalis, em que aconselhava a dose diária de 6 gram- mas de digitalis como a dose therapeutica contra a pneumonia nos adultos.
Em 1888 insistiu largamente sobre o bom resultado que obteve sempre com o seu processo.
Foi-lhe objectado em varias occasiões que o resul- tado que se obtinha com a digitalis se podia também conseguir com quaesquer outros processos e até mes- mo com a espectaçao.
Afflrmava o dr. Petresco que pela digitalis obtinha resultados superiores aos de todos os outros methodos de tratamento.
Com a digitalis havia apenas uma mortalidade de 2 % 'e <lue raríssimas vezes produzia vómitos, diar-
rhea e irregularidade de pulso.
Já em 1882 o dr. Petresco tinha proclamado os bons effeitos da digitalis na pneumonia, mas encon- trou-se quasi só em campo, até que, em 1890, o dr. Fikl, de Vienna, veiu confirmar as suas asserções.
O dr. Fikl, em consequência dos maus resultados obtidos por todos os outros methodos que lhe davam
uma mortalidade de 15 %> resolveu-se a tratar os seus pneumonicos pela digitalis.
Em 1890 conseguiu o dr. Fikl reunir sessenta e uma observações em que a digitalis deu excellentes resultados, havendo apenas um óbito, o que dá a mor- talidade inferior a 2 °/0.
Este clinico empregava a digitalis na dose diária de 3 grammas em infusão e notou, sempre que havia um considerável abaixamento de temperatura, o pul- so tornava-se regular e cheio e pouco frequente, ha- vendo também melhoras sensiveis no estado geral.
Observou também que pela digitalis a pneumonia tendia a terminar em lysis e que a duração da doen- ça não era sensivelmente abreviada, mas que tomava sempre um caracter benigno.
O dr. Fikl insiste sobre a grande rapidez com que se effectua a convalescença dos pneumonicos tratados pela digitalis e considera este corno o melhor de todos os tratamentos.
Em 1891 o dr. Fikl continuou as suas observações sobre as pneumonias tratadas pela digitalis e conseguiu reunir, até este mesmo anno, 108 casos com um óbito apenas.
Esto medico quasi sempre acompanhava o uso da digitalis com a administração d'uma poção alcoólica. O dr. Lepine tem feito também uso da digitalis em alguns pneumonicos, mas ainda não se pronunciou abertamente pelo seu emprego. Todavia, não hesita em declarar que tem feito quasi sempre uso da digi- talina crystallisada de Nativelle na dose diária de 8 a 4 miligrammas e que em 40 casos de pneumonia em que empregou este processo obteve sempre resul- tados completamente satisfactorios.
O dr. Hoepfel (Bárnau) apresenta quinze casos tra- tados pela digitalis e declara que em todos elles obteve abaixamento de temperatura no fim de trinta a qua- renta horas, melhoras do pulso o do estado geral.
Observou em quasi todos os casos uma abreviação de dois a trez dias. na sua duração ordinária.
Deu a digitalis na dose diária de 3 grammas, d'in- fusão em 100 grammas de agua.
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