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O elemento “sustentabilidade” permeando as esferas pública e privada

Para alcançar esse desiderato, em sua versão original, o Código de 1965 pre- viu vários instrumentos, dentre os quais se destacam: as áreas e as fl orestas de preservação permanente, as áreas de reserva legal, unidades de conservação, a proteção de espécies e espécimes arbóreos, sanções de cunho administrativo e penal, incentivos fi scais, além da obrigatoriedade da educação e da conscienti- zação ambiental.

Ao longo dos anos, tais instrumentos mereceram algumas modifi cações, além de a norma ter incorporado outros, como é o caso da servidão ambiental de áreas de fl oresta.

As áreas de preservação permanente (APP) estão defi nidas na atual versão do Código de 196522 como sendo aquelas áreas, cobertas ou não por vege-

tação nativa, que têm por função ambiental preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fl uxo gênico de fauna e fl ora, proteger o solo e assegurar o bem -estar das populações humanas. Dessa defi nição legal nota -se que as APP existem de per se, ou seja, dependem apenas da confi guração geomorfológica do sítio considerado, de suas características naturais. É, portanto, irrelevante, estarem em áreas públicas ou privadas, ur- banas ou rurais. Daí por que, conforme SILVA (2010:265) “a necessidade de preservar a vegetação nessas áreas é justamente para que não ocorram erosão e assoreamento dos rios, deslizamentos e inundações que possam afetar a popu- lação. Trata -se, portanto, de assegurar o bem -estar das populações e a dinâmica dos ecossistemas”.23

Já as fl orestas de preservação permanente são espaços, fl orestados ou não,24

assim defi nidos pelo Poder Público, e destinados a atenuar a erosão de terras; a fi xar dunas; a formar faixas de proteção ao longo de rodovias e ferrovias; a auxi- liar a defesa do território nacional; a proteger sítios de excepcional beleza ou de valor científi co ou histórico; a asilar exemplares da fauna ou fl ora ameaçados de extinção; a manter o ambiente necessário à vida das populações silvícolas; ou, simplesmente, a assegurar condições de bem -estar público.25

Em seguida, vale mencionar as áreas de reserva legal (RL) como sendo toda:

22 Com a modifi cação instituída pela Medida Provisória n. 2166/2001, que inseriu, entre outros, dois parágrafos ao artigo 1º. Para as APPs em espécie, vide o artigo 2º do Código, além das resoluções n. 302 e 303 do CONAMA.

23 Solange Teles da Silva, Código fl orestal e a lógica do desenvolvimento sustentável, in FIGUEIREDO et. al. (org.), Código fl orestal 45 anos: estudos e refl exões. Curitiba: IBAP, 2010.

24 Se não fl orestados, a sua instituição como fl oresta de preservação permanente visa justamente à recupe- ração dessas áreas.

área localizada no interior de uma propriedade ou posse rural, exce- tuada a de preservação permanente, necessária ao uso sustentável dos recursos naturais, à conservação e reabilitação dos processos ecológi- cos, à conservação da biodiversidade e ao abrigo e proteção de fauna e fl ora nativas.

Até 2001, as áreas de RL variavam entre 20% e 50% da propriedade rural, nos termos do artigo 16 do Código. Tal dispositivo previa, ainda, proteção específi ca para as fl orestas de araucária, na Região Sul do Brasil, ademais de se preocupar com as áreas de caatinga, exigindo normas técnicas específi cas para o seu corte. A partir da Medida Provisória 2166/2001, o território nacional pas- sou a ser modulado em 20%, 35% e 80%, para as áreas de RL,26 o que se deu

por pressão internacional e, por óbvio, causou, e continua causando, discussões acaloradas em torno do tema.

Duas outras normas merecem destaque ao se comentar a sustentabilidade da gestão fl orestal no Brasil: a lei de gestão de fl orestas públicas,27 de uma parte,

e a lei da Mata Atlântica, de outra.28

A primeira, ao estabelecer as condições para a gestão de fl orestas públi- cas, delineia princípios29 que nos remetem à conservação, à recuperação e ao

uso sustentável das fl orestas, respeitados os direitos das populações tradicionais, num processo que deve primar pela transparência.30 A lei aporta modifi cações

ao Código de 1965, ao exigir, também para a exploração de fl orestas privadas, a adoção de técnicas de condução, de exploração, de reposição fl orestal e de manejo que sejam compatíveis com os variados ecossistemas formados pela co- bertura arbórea.31

26 80% para as propriedades na Amazônia Legal; 35% para as áreas de cerrado na Amazônia Legal; 20% para o restante do território nacional.

27 Lei n. 11.284, de 2 de março de 2006, publicada no DOU de 3 de março de 2006, que Dispõe sobre a ges-

tão de fl orestas públicas para a produção sustentável; institui, na estrutura do Ministério do Meio Ambiente, o Serviço Florestal Brasileiro — SFB; cria o Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal — FNDF; altera as Leis nos 10.683, de 28 de maio de 2003, 5.868, de 12 de dezembro de 1972, 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, 4.771, de 15 de setembro de 1965, 6.938, de 31 de agosto de 1981, e 6.015, de 31 de dezembro de 1973; e dá outras providências.

28 Lei n. 11.428, de 22 de dezembro de 2006, publicada no DOU de 26 de dezembro de 2006, que Dispõe

sobre a utilização e proteção da vegetação nativa do Bioma Mata Atlântica, e dá outras providências.

29 Nos termos de seu artigo 2º e incisos.

30 Mencionando, especifi camente, a lei n. 10.650/2003, que trata sobre o direito à informação em matéria ambiental.

31 Nos termos do artigo 19 do Código de 1965, com a redação dada pela lei n. 11.284/2006. Dito dispo- sitivo exige, outrossim, a aprovação da atividade exploratória pelo órgão ambiental competente.

APONTAMENTOS SOBRE A GESTÃO FLORESTAL NO BRASIL 189

No que tange à lei 11.428, vinculada ao Código de 1965 desde seu introito,32 nota -se que o objetivo geral da proteção e da utilização da Mata

Atlântica é o desenvolvimento sustentável, que se confi gura na exploração que garanta “a perenidade dos recursos ambientais renováveis e dos processos eco- lógicos, mantendo a biodiversidade e os demais atributos ecológicos, de forma socialmente justa e economicamente viável”.33 A lei objetiva especifi camente a

salvaguarda da biodiversidade, da saúde humana, dos valores paisagísticos, esté- ticos e turísticos, do regime hídrico e da estabilidade social nas regiões cobertas pelo bioma. Além disso, a norma se preocupa em conciliar os elementos que, sob vários aspectos, representariam confl itos com a proteção do bioma, a saber: as atividades agropecuárias, as obras de infraestrutura de interesse nacional ou o crescimento urbano, seja ele formal ou informal.34

É, portanto, inegável ser o desenvolvimento sustentável um objetivo das normas brasileiras de gestão fl orestal, tanto na esfera pública, quanto na esfera privada. Sua efetividade, no entanto, depende da concorrência de vários fatores, dentre os quais os vários desafi os que passaremos a ver em seguida.