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GREEN ECONOMY: THE ESTABLISHMENT OF PROPERTY RIGHTS

IV. Poder público em conjunto com a iniciativa privada

Na Amazônia brasileira, apenas 24% do território é reclamado como área pri- vada. O restante se divide entre áreas legalmente protegidas, inclusive Unidades de Conservação e Terras Indígenas (29%) e terras públicas ou devolutas, com cobertura predominantemente fl orestal (47%), sobre as quais a atuação do Es- tado ainda é incipiente.

A gestão de bens públicos — como águas, minerais e espaço aéreo — e de serviços públicos — como telefonia, telecomunicações e transportes — é regu- lamentada por ampla legislação. A despeito do relevante potencial fl orestal do País, não existia até recentemente, no arcabouço jurídico nacional, instrumento normativo que discipline, de modo específi co, a gestão de fl orestas públicas. As formas de acesso defi nidas atualmente são insufi cientes para garantir o uso sustentável dos recursos fl orestais.

Diante dessa situação, foi aprovada a Lei nº 11.284, de 2006, que dispõe sobre a gestão de fl orestas públicas para produção sustentável, institui, na estrutura do Ministério do Meio Ambiente, o Serviço Florestal Brasileiro — SFB, cria o Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal — FNDF, e dá outras providências.

Segundo o art. 4º da citada norma, foram previstos três instrumentos para a gestão fl orestal:

• a criação de fl orestas nacionais, estaduais e municipais e sua gestão direta; • a destinação de fl orestas públicas às comunidades locais;

• a concessão fl orestal, incluindo fl orestas naturais ou plantadas e as unida- des de manejo das áreas protegidas.

No caso da gestão direta, o Poder Público pode, para a execução de ativida- des subsidiárias, fi rmar convênios, termos de parceria, contratos ou instrumen- tos similares com terceiros.

As fl orestas públicas ocupadas ou utilizadas por comunidades locais seriam identifi cadas para serem, sem ônus fi nanceiro para os benefi ciários, destinadas, entre outras, às seguintes formas de gestão: criação de reservas extrativistas e re- servas de desenvolvimento sustentável; concessão de uso, por meio de projetos de assentamento fl orestal, de desenvolvimento sustentável e agroextrativistas ou outros similares.

Por fi m, a Lei estabeleceu a concessão fl orestal, que permite aos governos, federal, estadual e municipal concederem a particulares o direito de explorar, de forma econômica e ambientalmente sustentável, bens e serviços em fl orestas públicas. Tal concessão será autorizada em ato do poder concedente e formali- zada mediante contrato, que deverá observar os termos dessa Lei, das normas pertinentes e do edital de licitação.

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Notem que essas iniciativas nada mais são do que defi nir claramente quem pode trabalhar na terra e de que forma; ou seja, a lei defi niu os direitos de propriedade para os que manejam a terra. Essa sensação de ser responsável por uma propriedade faz com que o usuário cuide da área. A defi nição dos direi- tos de propriedade geram oportunidades para o desenvolvimento sustentável, mitigando o dano ambiental. Outra vantagem é a regularização fundiária na Amazônia, pois as concessões afastam os grileiros e concretizam a presença do Poder Público nos locais.

Cabe enfatizar que os dispositivos em questão não buscam a privatização das fl orestas públicas, como disseram algumas críticas. Tanto é que o Estado pode cancelar os contratos de exploração fl orestal que estiverem em desacordo com as regras estabelecidas e cujos rumos possam atentar contra os interesses nacionais.

Até o momento, ocorreram apenas duas concessões fl orestais, a primeira, realizada em 2008, diz respeito à Floresta Nacional do Jamari (Rondônia). A segunda concessão fl orestal realizada pelo Serviço Florestal Brasileiro ocorreu na Floresta Nacional de Saracá -Taquera, localizada nos municípios de Faro, Terra Santa e Oriximiná no Estado do Pará.

Foram apenas duas concessões porque a lei exige um longo processo até o seu fi m. A fi gura 1, na próxima página indica as etapas necessárias.

A concessão em Jamari já está produzindo retorno. Mais de 7 mil metros cúbicos de madeira foram transportados ofi cialmente da fl oresta. Esse volume, produzido de forma sustentável e com a manutenção da fl oresta em pé, equivale a cerca de 300 caminhões do produto.

Existem outras iniciativas governamentais, relacionadas com o estabeleci- mento de direito de propriedade, que certamente produzem incentivos para a promoção da qualidade ambiental, como a Lei nº 14.933, de 2009, do municí- pio de São Paulo, que estabeleceu os seguintes princípios: o poluidor deve arcar com o ônus do dano ambiental decorrente da poluição; o ônus da utilização deve ser arcado pelo utilizador do recurso natural; e grupos ou comunidades cujo modo de vida ou ação auxilie na conservação do meio ambiente receberão recursos ou benefícios.

V. Considerações Finais

A degradação ambiental, em especial nas fl orestas brasileiras, pode ter acon- tecido devido, em parte, a um arcabouço institucional, principalmente leis e tribunais, que não souberam defi nir claramente os direitos de propriedade e, assim, criaram incentivos para o desmatamento.

Esse comportamento contra os direitos de propriedade é antigo e aconte- ceu em diversos países. Block (1992) relata que, na Inglaterra, nos primeiros tempos do transporte ferroviário, as estradas de ferro usavam motor a vapor com autorização do governo e, assim, não eram responsáveis, perante a lei co- mum, por nenhum dano que pudesse ser causado pelas fagulhas. A lei inglesa determinava explicitamente que, se as cinzas da locomotiva causassem a des-

Monitoramento, Fiscalização e Auditorias Elaboração do PMFS Habilitação Assinatura de Contrato Julgamento das Propostas Cadastro das Florestas públicas Plano anual de Outorga Florestal Plano de Manejo da Unidade de Conservação Relatório Ambiental Preliminar Publicação do Pré-Edital Publicação do Edital Consulta e Audiências Públicas Fase Pré-Edital Fases do Processo

Inclui todas as etapas até a publicação do edital de licitação

Fase Execução

Inclui as atividades relacionadas à implantação do manejo florestal e ao monitoramento, fiscalização e auditorias

Fonte: Serviço Florestal Brasileiro (http://www.florestal.gov.br) Fase Seleção e Contratação Inclui todas as etapas até a assinatura do contrato de concessão florestal

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truição dos campos de um fazendeiro, a companhia ferroviária não seria respon- sabilizada por isso.

Essa postura era generalizada porque todos defendiam um crescimento eco- nômico a qualquer custo. Como o transporte ferroviário era importante para o transporte de mercadorias, ele era protegido contra o transtorno causado aos ou- tros. Esse mesmo pensamento tolerava e, se fosse o caso, até incentivava ativida- des poluentes. Trata -se de um momento histórico em que o modelo de produção e consumo, apesar de gerar riqueza, acarretava graves danos ambientais.

Relativamente à administração dos recursos naturais pelo Estado, há na literatura várias evidências da inefi ciência do setor público nessa tarefa, con- forme relata Cole (2000). Em muitos casos, o processo de administração go- vernamental dos bens ambientais acabou por gerar exemplos da tragédia dos comuns. Nesse sentido, são muito bem -vindas iniciativas como as criadas pela Lei nº 11.284, de 2006, que incentivam novas maneiras de gestão das fl orestas, em parceria com a iniciativa privada.

O que se espera do Estado em uma Economia Verde é que ele cumpra um papel indutor de práticas que colaborem com o desenvolvimento sustentável e que desestimule práticas consideradas indesejáveis. Nesse sentido, cabe citar o programa Bolsa Floresta que dava dinheiro para as populações que habitavam áreas fl orestais da Amazônia e que se comprometiam a reduzir o desmatamento.

Finalmente, cabe reforçar que vários tipos de situações relacionadas à qua- lidade ambiental, como administração de resíduos sólidos, poluição do ar, con- taminação dos rios e mares, podem ser resolvidos quando a sociedade estipula os direitos de propriedade e fi xa os corretos incentivos econômicos, de forma que os agentes façam o que se deseja que se faça.

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Introdução

As discussões a respeito das Emissões de Gases do Efeito Estufa, num mundo regido por motivações econômicas e onde a alocação de recursos depende de um sistema de preços relativos, se inserem num capítulo clássico da literatura econômica, em que se estuda a forma de imprimir efi ciência ao funcionamento dos mercados, em ambientes em que as atividades econômicas são geradoras de “externalidades”.

A existência de uma “externalidade” se caracteriza quando a atividade de um agente econômico, quer seja produtor ou consumidor, afeta as funções de produção ou de utilidade de outros agentes. Quando isto ocorre, a falta de defi nição dos direitos entre as partes envolvidas e os elevados custos de transa- ção (em parte decorrentes dessa falta de defi nição de direitos), impede que os mecanismos de mercado funcionem adequadamente.

Questões ambientais, de uma forma geral, constituem exemplos típicos desse fenômeno, e o Protocolo de Quioto, no âmbito das mudanças climáticas, apresentou uma solução que, ao estabelecer metas para a redução de emissões dos países desenvolvidos e ao

impor multas aos que não as atingissem (o que equivale a uma defi nição dos direitos de emitir gases do efeito estufa), fez surgir automaticamente um mercado de créditos de carbono.

Nesse sentido, o Protocolo de Quioto foi uma solução perfeitamente em- basada na Teoria do Bem Estar ou “Wellfare Economics”, que é o ramo da Teo- ria Econômica que trata deste tipo de problema. O fato de as metas não terem sido sufi cientes para conter o aquecimento global e o de nem todos os grandes países emissores terem aderido ao Protocolo são problemas de calibragem e de natureza política, que não denigrem a qualidade técnica da solução proposta pelo Protocolo.

1 Virgilio Gibbon é economista da Fundação Getúlio Vargas, membro do Comitê Científi co e assessor do Governo do Estado do Acre.