DESTA À IURD
9. A RELIGIOSIDADE MARGINAL/INCONDICIONAL E SUA IMBRICAÇÃO COM A IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS
9.1. ELEMENTOS CARACTERIZADORES DA RELIGIOSIDADE IURDIANA
Apresentadas as bases sobre as quais a religiosidade iurdiana se assenta – cura, exorcismo, conversão/prosperidade –, aponto a seguir alguns elementos que caracterizam o neopentecostalismo, conforme discriminados pelo cientista da religião Leonildo Campos. Tais elementos emergiram em virtude das transformações culturais e religiosas ocorridas nas últimas décadas, motivadas pelo processo de modernização do mundo ocidental. Esse processo é chamado por alguns autores de pós-modernidade. Não entrando na discussão da existência, ou não, da pós-modernidade, Campos afirma que nos últimos anos o
ser humano estaria vivendo um processo social de atomização, tornando-se mais individualista, desprovido de historicidade, voltando-se para si mesmo, na busca de referências para o viver diário. Nesse contexto, valoriza-se o lúdico, enfatiza-se o irracionalismo, e descrê-se da modernidade e de tudo que a caracteriza. Para o indivíduo, pouco lhe interessa o passado e o futuro, pois a sua ênfase privilegia o presente.71
68 Bittencourt Filho, 1994:26-27.
69 “A interdição dos hábitos e costumes culturais mais comezinhos – principalmente aqueles ligados ao lazer e à
sexualidade – produz um tipo de poupança que, uma vez investida na qualidade de vida material, transforma concretamente a situação das pessoas.” (Bittencourt Filho, 1994:27).
70 Bonfatti, 2008:4. 71 Campos, 1997:46.
Os elementos que caracterizam a postura da IURD em relação à cultura pós-moderna são72:
a) valorização do Espírito Santo
b) universalização do discurso religioso visando a globalização do sentimento religioso
c) localização do transcendente dentro da pessoa, ou a busca interior da divindade através de rituais extáticos
d) diluição das fronteiras entre o cristão e o pagão, com o rompimento do monopólio ocidental e cristão sobre as expressões religiosas
e) definição da vida material como manifestação de um Espírito divino
f) proposição da dupla natureza dos seres humanos (material e espiritual; o Eu inferior e o Eu superior – Jesus Cristo)
g) aproximação do novo período mundial, no qual as contradições serão superadas – o Reino de Deus
h) admissão de que a ascensão pessoal e a prosperidade se encontram ligadas à espiritualidade73
72 Campos, 1997:47-48.
73 Os temas ascensão pessoal e prosperidade na IURD estão diretamente ligado à ideologia denominada Teologia da Prosperidade. O sociólogo Ricardo Mariano faz um extenso comentário sobre essa ideologia no livro Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil, do qual transcrevo alguns trechos: “Na interpretação de certos pregadores brasileiros da Teologia da Prosperidade, o pecado cometido por Adão e Eva desfez a comunhão, a aliança ou a ‘sociedade’ existente entre Deus e as criaturas humanas, tornando-as escravas do Diabo. Como Deus desejava voltar a ser ‘sócio’ dos homens, mandou seu filho unigênito à cruz para expiar o pecado original. Entretanto, [...], Jesus não expiou os pecados da humanidade ao ter seu sangue derramado na cruz, mas, sim, quando, após sua morte, desceu ao inferno, recebeu a natureza satânica, experimentou a morte espiritual, sofreu durante três dias, renasceu e, por fim, conseguiu derrotar o Diabo em seu próprio território [...]. Desse modo, foram necessários para o restabelecimento dessa sociedade, na qual os homens, se cumprirem sua parte no contrato firmado na Bíblia por Deus, isto é, se pagarem fielmente o dízimo – o ‘sangue da igreja’, para Edir Macedo – e exigirem o que a Palavra declara pertencer-lhes, tornam a adquirir o direito à ‘vida abundante’. O pagamento do dízimo [...] constitui o meio pelo qual os indivíduos podem refazer a ‘sociedade com Deus’, habilitando-se a desfrutar das promessas bíblicas. [...] Deus não pode deixar de cumprir suas promessas bíblicas. O Criador não tem escolha senão cumprir o prometido. Presa às promessas que fez, a onipotência fica comprometida. Nesta sociedade, a parte que cabe aos homens consiste em pagar o dízimo, ter fé em Deus e em sua Palavra e confessar as bênçãos divinas em sua vida. Enquanto a parte de Deus reside no pronto cumprimento de suas promessas (repreender o ‘devorador’ e conceder bênçãos em abundância), das quais Ele, desde que satisfeitas as condições contratuais, em hipótese alguma pode se furtar. [...]. Com isso, além de ter sua soberania drasticamente diminuída, Deus torna-se vítima de freqüentes manipulações por parte de seus sócios, até porque não pode se ver livre delas, a menos que ‘quebre sua Palavra’, algo inimaginável na ótica destes crentes.” (Mariano, 2005:160-162). Continua Mariano, “[...] a fé constitui o elemento fundamental para se alcançar tais bênçãos. Pela fé, os cristãos podem possuir tudo [...] o que determinarem verbalmente em nome de Jesus. Saúde perfeita, ou cura das enfermidades, prosperidade material, triunfo sobre o Diabo, uma vida plena de vitória e felicidade, ‘direitos’ do cristão anunciados na Bíblia, figuram entre as bênçãos mais declaradas por eles. [...] Confessar nada tem a ver com pedir ou suplicar a Deus. Estas são atitudes reprováveis, demonstrações de pouca fé, [...]. Os cristãos, em vez de implorar, devem decretar, determinar, exigir, reivindicar, em nome de Jesus, como Deus prescrevera, para ‘tomar posse das bênçãos’ a que têm ‘direito’. Mais do que isso: eles devem crer a priori que já receberam as graças apesar de elas ainda não terem se concretizado no plano material. [...].” (Mariano, 2005;154). Grifo no original.
i) aceitação de que o sofrimento não é de Deus
Outros autores ao falarem sobre os elementos que caracterizam a IURD transitam pelos temas propostos por Campos. Entretanto, cito Bittencourt Filho, que fala do êxtase
coletivo, da poupança e prosperidade e da intervenção divina, e cito Bonfatti, que fala da realidade do mal, da guerra santa e dos dois reinos, e do simbolismo do dinheiro. Ambos os
autores correlacionam estes temas às demandas resultantes das transformações ocorridas na sociedade brasileira nas últimas décadas, às quais a IURD tenta prover com o seu universo simbólico.
Verifica-se que a IURD ajusta-se às características desse novo tempo da “pós- modernidade religiosa”74. O tempo presente, a pós-modernidade, caracteriza-se pelo movimento espiral, no qual um elemento simbólico antigo é recuperado tornando-se atual. Por isso, Sanchis afirma que a IURD vai buscar em tempos longínquos da religiosidade elementos simbólicos que são intencionalmente contextualizados pela liderança iurdiana ao momento sócio-político-econômico-religioso75 atual e que produzem um sincretismo progressivo. Esse
instrumental simbólico e prático é “colhido pelas igrejas neopentecostais no vasto arsenal simbólico das religiões cristãs e não-cristãs”76.
Um exemplo do uso de um material simbólico de um passado longínquo é apresentado no texto da canção Restitui. Embora a IURD seja classificada por alguns autores como pertencente ao setor do campo religioso brasileiro chamado de neopentecostais, que são considerados a vanguarda religiosa, como afirma Sanchis77, ela busca no Antigo Testamento (no passado longínquo) fatos e ações para alimentar seus rituais. Esses fatos e ações são manipulados discursivamente de forma que possam ter vários significados. No caso desta canção, é possível, devido à polissignificação, significar a atitude de dar ordens à divindade, como pode ser constatada na análise da letra da canção Restitui78, que se encontra na página 257.
A letra da canção é a seguinte:
74 A “segunda característica desta pós-modernidade religiosa seria que ela reencontra momentos civilizacionais
antigos, num desenvolvimento em espiral – por conseguinte sem que se trate de simples repetição do já visto. Fato instigante de uma pós-modernidade [...], e que obriga a temperar o espanto diante do ‘novo’ e a matizar os prognósticos para o futuro.” (Sanchis, 2001:37).
75 É o caso do rito da unção dos sete pontos por mim presenciado e relatado posteriormente nesta pesquisa. 76 Mendonça, 2006:98.
77 É “no próprio coração da vanguarda ‘moderna’ que reencontraremos as marcas do passado”. (Sanchis,
1998:20).
78 Esta canção foi entoada no ritual iurdiano ocorrido no dia 6 de agosto de 2006, no templo situado na Avenida
Restitui
(Terceira faixa do CD Restituição, apresentada pelo grupo Toque no altar79)
Os planos que foram embora O sonho que se perdeu O que era festa e agora É luto do que já morreu Não podes pensar que este é o teu fim
Não é o que Deus planejou Levante-se do chão!
Erga um clamor! [REFRÃO]
Restitui!
Eu quero de volta o que é meu Sara-me!
E põe Teu azeite em minha dor Restitui!
E leva-me às águas tranqüilas Lava-me!
E refrigera a minh’alma Restitui... Ouça no nosso clamor.
[FINAL DO REFRÃO, repete o primeiro verso e o refrão, na repetição do refrão, há uma fala do cantor.]
E o tempo que roubado foi Não poderá se comparar A tudo aquilo que o Senhor Tem preparado ao que clamar Creia porque o poder de um clamor
Pode ressuscitar...
Na análise do texto desta canção, verifiquei haver uma aproximação não declarada a dois episódios bíblicos do Antigo Testamento. São as histórias narradas em 2 Reis 1-6 e 2 Reis 4.8-37, nas quais os personagens são uma mulher sunamita (da cidade de Suném), o profeta Eliseu e seu servo Geazi, e o rei daquela cidade. O episódio do clamor da sunamita ao rei no sentido de que seus bens fossem devolvidos é ressaltado na canção. Mas, o autor do texto da canção não apresenta o contexto histórico do fato bíblico e utiliza o ato de clamar como “fórmula” geral para a obtenção de benesses divinas. Essa utilização possibilita um
79 “O ministério de louvor Toque no Altar surgiu em janeiro de 2002 quando o Pr. Marcus Gregório implantou
na Igreja Evangélica Ministério Apascentar em Nova Iguaçu / RJ, baseado em I Crônicas 25, a visão de músicos de tempo integral, ou seja, músicos separados exclusivamente para a adoração [...]. Esse projeto começou com quatro pessoas e, atualmente, possui 17 músicos [...]. Discografia: até hoje foram lançados pelo ministério TOQUE NO ALTAR seis CDS e dois DVDs, sendo eles: CD Toque no altar, CD Restituição, CD Deus de promessass, CD Olha pra mim, CD Deus de promessas ao vivo, CD É impossível mas Deus pode, DVD Toque no altar/Restituição, DVD Deus de promessas.” Informação disponível no endereço eletrônico
http://www.oyo.com.br/artistas/gospel/toque-no-altar/. O CD Restituição foi lançado no ano de 2003 e vendeu mais de um milhão de cópias. Informação disponível no endereço eletrônico http://pt.wikipedia.org/wiki/ Trazendo_a_Arca.
significado diferente do emanado no texto bíblico e corrobora a ideologia religiosa praticada pelos neopentecostais.
Retornando ao tema deste tópico, que discorre sobre os elementos caracterizadores da religiosidade iurdiana, um fato digno de nota, e que caracteriza a existência do substrato religioso-cultural marginal/incondicional, é que no caso iurdiano a busca de elementos simbólicos se faz nas práticas e crenças das religiões dos povos contingenciados em terra brasileira, isto é, a busca se dá tanto no simbolismo da Igreja Católica quanto no simbolismo das religiões afras, no xamanismo indígena e suas derivações.
A utilização de ritos de diversas religiosidades pela IURD é evidente e incontestável, mas não é algo unilateral, pois parte da Igreja Católica também faz uso desse recurso. Bittencourt Filho afirma que “quando a Igreja Universal restaura símbolos do Catolicismo tradicional, o faz segundo uma nova argumentação religiosa, supostamente explicativa. Quando a Igreja Católica retoma antigos exercícios espirituais (tidos como superados), e adota fórmulas exitosas dos pentecostalismos, o faz em nome da ‘contextualização’ do catolicismo ao mundo atual.”80
Cabe, então, a pergunta: a continuidade de ritos católicos em um grupo religioso antagônico (a IURD), pelo menos no discurso, pode ser considerada uma estratégia mercadológica ou se apresenta como uma característica de uma religiosidade emergente?
Penso que, assim como o pentecostalismo em geral, qualificado como “Autônomo”, tomou uma identidade própria e autônoma em relação ao ramo religioso de origem, a IURD pode usar a estratégia de apropriação e reelaboração, ou pode intencionalmente fazer uso da negação/assimilação e da inversão/continuidade – binômios propostos pelo antropólogo Ronaldo de Almeida – ao utilizar símbolos existentes na religiosidade marginal brasileira. Mas, a aceitação desse ritualismo por parte dos fiéis neopentecostais, a aceitação de uma prática litúrgica incontestavelmente de origem católica, é motivada pelas idiossincrasias próprias de uma religiosidade que invade “as almas dos brasileiros pelas trilhas da memória inconsciente, da intuição, da emoção, do afeto, enfim, da experiência religiosa não estritamente racional”81. A IURD promove seus rituais visando abranger exatamente essa religiosidade que no campo religioso brasileiro ainda não tinha sido visualizada e apropriada pelas religiões institucionalizadas.
80 Bittercourt Filho, 2003:79. 81 Bittencourt Filho, 2003:232.
O rito da unção dos sete pontos82 foi realizado e contextualizado como proteção dos fiéis contra um mal que rondava aquela área geográfica, a saber, a dengue. Campos afirma que “a Igreja Universal se liga àquelas forças mágicas, que emergem em momentos de crise e as usa para provocar alteração na auto-estima dos indivíduos e mudanças em seus respectivos comportamentos”83. A IURD não somente está “ligada”84 nas forças mágicas como também nos fatos sociais cotidianos, dos quais pode tirar proveito. Tal atitude pode ser comprovada com o rito da unção dos sete pontos, que deixou de ser um ato memorial de um elemento do passado religioso, para ter eficácia simbólica85 sobre uma epidemia que acometeu o povo da região.
A proposta do surgimento de uma religiosidade marginal/incondicional, sincrética por excelência, caracterizada por continuidades, rupturas, assimilações, fusões, inversões, alterações e hibridação86 entre as culturas religiosas de um povo mesclado e contingenciado em terras brasileiras, é sustentável e, em parte, pode ser comprovada na apropriação e reelaboração pela IURD do rito católico de tradição oriental.
A IURD apresenta em suas práticas rituais elementos do seu universo simbólico- axiológico “que evidenciam sua estreita aclimatação ao quadro religioso brasileiro e sua tendência à hibridação dos códigos”87. Por isso, é considerada a igreja que mais se aproxima de um substrato religioso marginal/incondicional brasileiro, porque incorpora em suas crenças e práticas parte das características religiosas das religiões que se amalgamaram na formação dessa religiosidade.
A IURD reencontrou
82 Sumariamente, este rito elege sete pontos do corpo humano para serem untados com óleo; a intenção do ritual
é de proteção.
83 Campos, 1998:36.
84 Um dos jargões utilizados em seus rituais.
85 Gilberto Velho afirma que a noção de eficácia simbólica “baseia-se na capacidade de envolver indivíduos e
grupos de uma forma totalizante”. (Velho, 1999: 52). No rito da unção dos sete pontos, o envolvimento do grupo foi total no desejo de proteção contra um mal que rondava a cidade.
86 Canclini utiliza-se do conceito de hibridação, que foi deslocado da biologia para as análises sociais culturais,
no livro Culturas híbridas. Ele diz que “ao transferi-la da biologia às análises socioculturais, ganhou campos de aplicação, mas perdeu univocidade. Daí que alguns prefiram continuar a falar de sincretismo em questões religiosas, de mestiçagem em história e antropologia, de fusão em música.” Canclini afirma que “o conceito de hibridação é útil em algumas pesquisas para abranger conjuntamente contatos interculturais que costumam receber nomes diferentes: as fusões raciais ou étnicas denominadas mestiçagem, o sincretismo de crenças e também outras misturas modernas entre o artesanal e o industrial, o culto e o popular, o escrito e o visual nas mensagens midiáticas.” Diz ainda o autor que considera atraente “tratar a hibridação como um termo de tradução entre mestiçagem, sincretismo, fusão e os outros vocábulos empregados para designar misturas particulares. Talvez a questão decisiva não seja estabelecer qual desses conceitos abrange mais e é mais fecundo, mas, sim, como continuar a construir princípios teóricos e procedimentos metodológicos que nos ajudem a tornar este mundo mais traduzível, ou seja, convivível em meio a suas diferenças, e a aceitar o que cada um ganha e está perdendo ao hibridar-se.” (Canclini, 2006:xix, xxvii e xxxix).
os processos de intensa ritualização, de mediação institucional e, senão dos “sacramentos”, pelo menos dos sacramentais múltiplos, feitos de “signos” quotidianos e naturais: não mais a imagem, [...] mas o sal grosso, o óleo, a água.... [...]. Em certo sentido, o “terreiro” é reconstituído no interior mesmo do culto pentecostal, quando Exus e Pomba-giras são adorcizados [sic] para serem triunfalmente exorcizados88.
A IURD é uma “atualização das possibilidades teológicas, éticas e estéticas do pentecostalismo”89, tendo se tornado uma religião de caráter universal, isto é, aberta para a conversão de todas as pessoas90 – todos credos, crenças e práticas. Campos afirma que a IURD é um empreendimento sincrético, “que juntou num mesmo espaço e discurso tanto a lógica e a terminologia operantes no kardecismo, catolicismo e protestantismo popular, assim como nas religiões afrobrasileiras”.91 Esta inclusão do protestantismo de linha popular é uma
referência ao pentecostalismo, de onde a IURD tem sua origem, e não do protestantismo histórico, ou de missão.
88 Sanchis, 1998:18. (Texto divulgado anteriormente à sua publicação na Revista Horizonte. Belo Horizonte, vol
1, nº 2, de abril de 1998.)
89 Freston apud Antoniazzi et alii, 1994:139.
90 Camargo apud Pierucci in Teixeira et alii, 2006:20. 91 Campos, 1997:26.