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O CANTO COMUNITÁRIO COMO ELEMENTO CONSTITUTIVO DO RITUAL

No documento theogeneseugeniofigueiredo (páginas 194-197)

PARTE II: O CANTO COMUNITÁRIO RITUAL COMO EXPERIÊNCIA RELIGIOSA

CAPÍTULO 6: A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA E O RITUAL

3. O CANTO COMUNITÁRIO COMO ELEMENTO CONSTITUTIVO DO RITUAL

A música cantada e a música em geral são partes fundamentais dos rituais dos diversos povos desde os tempos remotos21, principalmente a música cantada em voz uníssona pelo povo, que chegou ao nível de ser uma expressão constituinte do próprio ritual e referência da liturgia cristã.

O antropólogo Aldo Natale Terrin apresenta vários exemplos da presença da música em rituais na Mesopotâmia, onde a oração e o canto tinham lugar nos templos. Afirma que todo templo mesopotâmico tinha um precentor22, ou vários precentores, isto é, diretores do

coro que cantavam hinos acompanhados por instrumentos diversos.

No antigo Egito, a situação era semelhante à da Mesopotâmia. Diz Terrin que nos documentos que fazem referência à música egípcia “não são mencionados apenas os

precentores como oficiais do culto nos templos, pois parece que os próprios deuses são ‘cantores’, gostam da música e ensinaram aos homens as melhores melodias”23.

Na Índia antiga, verifica-se uma identificação profunda com a música a ponto de não haver dissociação entre “concepção filosófica, religiosa, cosmológica e musical”. A música é considerada “‘portadora de salvação’ e livra do ciclo das reencarnações”. Muitos hinos védicos são hoje conhecidos e divulgados.24

Na China, a música apresentava-se relacionada com a vida religiosa e com os rituais. “[...] a música estava relacionada com a ordem em todos os níveis: ordem cósmica, ordem estacional, ordem astrofísica e, sobretudo, ordem social”. Todas estas ordens estavam

21 Luiz Tatit afirma que “tanto os índios como os negros [brasileiros] invocavam os deuses pelo canto”. (Tatit,

2004:41). Mário de Andrade afirma que “a música é uma parceira instintiva, imediata e necessária, tanto das práticas da alta magia das civilizações espirituais, como da baixa feitiçaria das civilizações naturais”. (Andrade, 1963:25). Reginaldo Prandi afirma que “no candomblé, como na África ancestral, canta-se para a vida e para a morte, para os vivos e para os mortos. Canta-se para o trabalho e para a comida que vence a fome. Canta-se para reafirmar a fé, porque cantar é celebração, é reiteração da identidade. Mas também se canta pelos simples ócio. Canta-se pela liberdade. E porque isso merece sempre ser cantado, canta-se para que se mantenha sempre vivo o sonho.” (Prandi, 2005:182).

22 “[...] podemos dizer que desde o seu surgir o ritual religiosos previa uma parte musical tão estreitamente ligada

ao próprio rito, que não havia hinos védicos que não tivessem uma melodia ou uma recitação melódica apropriada para o culto às divindades. O precentor chamado Udgatar, que com os seus acólitos entoava cânticos extraídos da parte musical própria do Samaveda, era a regra no mundo religioso antigo.” (Terrin, 2004a:213). Grifo do autor.

23 Terrin, 2004:275. Grifo do autor.

24 Terrin, 2004:277. Afirma Terrin que “os deuses não só amam a música, mas fazem música, são músicos, e

Xiva teria expressamente exclamado: ‘Agrada-me muito mais a música de instrumentos e de vozes do que mil banhos e orações’”. (Terrin, 2004a:212).

consonantemente associadas à harmonia universal no seu grande concerto, assumindo, dessa forma, “o significado religioso em sentido pleno”.25

O uso da música entre o povo judeu, e especialmente o canto comunitário, é amplamente verificado no livro dos Salmos. No período apostólico, várias textos bíblicos26 afirmam a existência da música em rituais e em situações individuais diversas, especialmente o canto.

Na idade média, a presença da música cantada nos rituais encontra-se registrada na literatura dos povos da Síria, Grécia e Roma. Textos de música cantada escritos por diversos autores desse período27 são encontrados em vasta bibliografia.

No renascimento, época da Reforma, a música e o canto comunitário eclesial tomaram um rumo diferente daquele até então traçado. A prática do canto gregoriano era comum no ritual eclesiástico, o qual tinha sua execução restrita aos coros formados por sacerdotes, cantado em uníssono, sem acompanhamento instrumental, monótono; “[...] a música da missa era cantada pelo padre e por um coro masculino separado dos devotos”.28 Lutero introduziu na liturgia o método de cantar trechos bíblicos, sendo uma de suas preocupações o provimento de hinos para o canto comunitário.

A Reforma aconteceu através da música, afirma Rubem Alves. A opinião deste autor sobre o uso do canto comunitário no movimento da Reforma é que “o canto põe asas nos

25 Terrin, 2004:280. “[...] os monges tibetanos ainda hoje entoam e cantam os seus cânticos e hinos quase num

gesto de suprema e soberana liberdade do mundo, esquecendo os signos e penetrando além da maya, o véu que nos esconde a verdadeira realidade, maya como sinal de toda classificação, multiplicação, como expressão de todos os epifenômenos mundanos.” (Terrin, 2004a:214). Grifo do autor.

26 Entre outros citados por Keith (1987:22-24), apresento os seguintes versos bíblicos: Atos 4.24-30: “[24] E, ouvindo eles isto, unânimes levantaram a voz a Deus, e disseram: Senhor, tu és o Deus que fizeste o céu, e a terra, e o mar e tudo o que neles há; [25] Que disseste pela boca de Davi, teu servo: Por que bramaram os gentios, e os povos pensaram coisas vãs? [26] Levantaram-se os reis da terra, E os príncipes se ajuntaram à uma, Contra o Senhor e contra o seu Ungido. [27] Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel; [28] Para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer. [29] Agora, pois, ó Senhor, olha para as suas ameaças, e concede aos teus servos que falem com toda a ousadia a tua palavra; [30] Enquanto estendes a tua mão para curar, e para que se façam sinais e prodígios pelo nome de teu santo Filho Jesus.” Atos 16.25: “E, perto da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam hinos a Deus, e os outros presos os escutavam.” Efésios 5.19: “Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração.” Colossenses 3.16: “Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele.” Tiago 5.13: “Mas, sobretudo, meus irmãos, não jureis, nem pelo céu, nem pela terra, nem façais qualquer outro juramento; mas que a vossa palavra seja sim, sim, e não, não; para que não caiais em condenação.”

27 São estes, entre outros: Clemente de Alexandria (170-220), André de Creta (660-732), João Damasceno (cerca

de 750), Estevão, o sabaíta (725-794), Hilário de Poictiers (século IV), Ambrósio (340-397), Aurélio Prudêncio (348-410?), Venâncio Fortunato (530-609?), Gregório, o grande (540-604), Teodolfo de Orleans (760-821), Bernardo de Claraval (1091-1153), Bernardo de Clúnia (século XII), Francisco de Assis (1182-1226), Tomás de Celano (século XIII). (Keith, 1987:30-41).

pés”29, isto é, aquele que canta torna-se mais perigoso do que aquele que somente pensa porque é arregimentado e instigado pela música que canta.

Haverá outra razão para as marchas militares que põe uma mesma cadência nos passos? O canto mobiliza o corpo, imobiliza o medo e transforma gestos solitários em caminhadas solidárias. E Lutero colocou sua fé em hinos que eram repetidos e decorados, mesmo por aqueles que – crianças talvez – não entendiam bem as idéias. A confiança se cristalizou em imagens. Qualquer um podia entender o que significava cantar ‘Castelo forte é nosso Deus, espada e bom escudo ... 30

Nos séculos que se seguiram à Reforma e nos desdobramentos ocasionados por ela, a música cantada pelo povo, que já tinha fincado suas raízes no ritual religioso, floresceu. Pode- se afirmar, finalizando esta breve visão histórica, que a música foi parte integrante dos rituais dos povos mais antigos, tanto nas celebrações festivas comunitárias quanto nas celebrações religiosas. Terrin afirma que a música “sempre teve um papel importante dentro do culto, a ponto de ser expressão integrante do próprio ritual e modelo exemplar, sob certos aspectos, da liturgia cristã dos nossos dias.”31

O antropólogo Ronaldo de Almeida faz o seguinte relato sobre o canto comunitário presenciado por ele em um ritual:

Lentamente a oração vai terminando, enquanto muitos fiéis já se encontram em prantos. O piano [teclado eletrônico], que fez um suave fundo musical durante a oração, dá os primeiros acordes do cântico “Segura nas mãos de Deus”. Com as mãos levantadas e balançando ao ritmo lento da música, todos pedem o socorro divino. Como diz o cântico, “as mãos de Deus os sustentarão”. Ao término da canção, com a certeza de que receberão a ajuda, todos os fiéis num grande entusiasmo, fervorosamente aplaudem Jesus. [...]. Todos em pé, ora batendo palmas ora balançando os braços e fazendo gestos, cantam várias músicas que falam do sofrimento e da oferta de ajuda dada por Jesus: [...].32

A música em geral e o canto comunitário em particular têm presença constante nos rituais iurdianos. De alguma maneira essa música e esse canto afetam o ser humano, e esse “poder” de afetar é o assunto que discorro a seguir.

29 Alves, 1982:12.

30 Alves, 1982:12. 31 Terrin, 2004:275. 32 Miranda, 2009:77-78.

CAPÍTULO 7: CONSIDERAÇÕES SOBRE O “PODER” DA MÚSICA

No documento theogeneseugeniofigueiredo (páginas 194-197)