DESTA À IURD
CAPÍTULO 5: O DISCURSO NA CANÇÃO
3. A ANÁLISE DO DISCURSO E ALGUNS DE SEUS OPERACIONALIZADORES
3.2. O TEXTO E A INTERTEXTUALIDADE
Orlandi distingue texto de discurso, afirmando que este se encontra no nível do teórico e metodológico, enquanto que aquele, no nível do analítico. Esta colocação possibilita o tratamento do texto sob uma perspectiva diferente daquela aplicada ao discurso.
Um texto não é simplesmente a soma de suas frases nem a soma dos interlocutores, ele é um ato de linguagem, pois em alguma medida instaura uma forma de interação. Os textos devem ser entendidos como espaços simbólicos, pois em sua constituição entram outros elementos, a saber: o contexto, outros textos (a intertextualidade) e outros sujeitos.
O texto, que se apresenta totalmente constituído de enunciados, é a unidade empírica de análise, é a materialização do discurso. O texto tem começo, meio e fim, por isso é considerado como uma superfície lingüística37 que se encontra fechada em si mesma enquanto objeto teórico, mas, na perspectiva da Análise do Discurso, o texto é um objeto incompleto, pois esta o remete às suas condições de produção na busca de sentidos implícitos. Num processo analítico o texto é tomado como discurso, pois se apresenta como um estado determinado de um processo discursivo ou de uma construção discursiva, portanto, o texto é um produto, mas, não é a unidade de construção do discurso. Por isso, Orlandi afirma que entre texto e discurso não existe uma relação biunívoca, isto é, “um discurso não é igual a um texto e vice-versa”38.
Orlandi e Guimarães concebem o texto sempre vinculado ao sujeito; para estes autores o texto deve ser entendido como uma dispersão do sujeito, isto é, o texto mostra “a perda da centralidade de um sujeito uno que passa a ocupar várias posições enunciativas”39. Esse descentramento do sujeito ocorre porque o sujeito se encontra socialmente orientado temporal e espacialmente, por isso o seu discurso está permeado do discurso do outro (intertextualidade). Brandão afirma que a Análise do Discurso questiona a concepção de um “sujeito enquanto ser único, central, origem e fonte do sentido [...], porque na sua fala outras vozes também falam”40. O entendimento da Análise do Discurso é de que na fala do sujeito ressoa a fala de outros também. Assim Brandão se expressa:
não há, portanto, centro para o sujeito, fora da ilusão e do fantasma. Esta ilusão, designada por Freud como a “função do desconhecimento do eu” é uma tendência necessária e normal para o sujeito. Em outros termos, é próprio da constituição do sujeito a função que o eu assume de manter a ilusão de um centro. O que importa é
37 Apresenta-se como uma seqüência oral ou escrita, variável em extensão, geralmente superior a uma frase; é a
linguagem empírica, o discurso concreto. (Orlandi in Guimarães, 1978:36). Em outro momento, Orlandi afirma que a superfície lingüística é “o material de linguagem bruto coletado, tal como existe”. (Orlandi, 2005:65).
38 Orlandi, 2008:59. 39 Brandão, 2004:83. 40 Brandão, 2004:59.
procurar conhecer a realidade desta ilusão: “não tomar os enganos construídos pelo sujeito pela realidade que mascaram; como também não ignorar estes enganos como ilusórios desconhecendo seu caráter real”[...].41
A Análise do Discurso considera que a linguagem é apropriada socialmente pelo sujeito,42 por isso a ideologia da qual faz parte se apresenta através do discurso/texto/enunciação sem que tome conta disso, criando, portanto, a ilusão do sujeito. Em outras palavras, o indivíduo que produz a linguagem acredita ser a fonte exclusiva do seu discurso, quando, na realidade, retoma um sentido [ideologia] preexistente, daí advindo a
ilusão discursiva do sujeito. Isto se dá porque o domínio que o sujeito pensa ter sobre o texto
é relativo, e essa “relatividade vem do fato de que o texto tem relação com outros textos e com as condições em que se produz, [...]. Desta forma, um texto pode significar mesmo o que não faz parte da intenção de significação do seu autor”43, criando, então, a ilusão discursiva
do sujeito.
A intertextualidade tem a ver com a relação que um texto tem com outros. Tal relação pode ser interna, quando um discurso materializado em texto tem relação direta com outros do mesmo campo, citando-os efetivamente, ou pode ser externa, quando o discurso tem relação indireta, isto é, em seu enunciado existe remissão implícita a outros discursos. Por isso Brandão afirma que “não há campo discursivo insular, que o universo discursivo é dotado de uma intensa circulação de uma região do saber para outra. Essa circulação se caracteriza pela sua instabilidade, ocorrendo trocas bastante diversificadas conforme os discursos e as circunstâncias concernidas”44.
Resumindo, os textos são materializações das enunciações e se constituem como espaços simbólicos, pois apresentam si outros elementos que podem ser alçados na análise do discurso. E o discurso? Qual é a sua característica? É o assunto que segue.
41 Brandão, 2004:68. Grifo da autora.
42 “De forma geral, podemos dizer que o sujeito da linguagem não é um sujeito-em-si, mas tal como existe
socialmente e, além disso, a apropriação da linguagem é um ato social, isto é, não é o indivíduo enquanto tal que se apropria da linguagem uma vez que há uma forma social dessa apropriação”. (Orlandi, 2009:188).
43 Orlandi, 2009:190.
44 Brandão, 2004:95. Orlandi afirma que “não há discurso que não se relacione com outros. Em outras palavras,
os sentidos resultam de relações: um discurso aponta para outros que o sustentam, assim como para dizeres futuros. Todo discurso é visto como um estado de um processo discursivo mais amplo, contínuo. Não há, desse modo, começo absoluto nem ponto final para o discurso. Um dizer tem relação com outros dizeres realizados, imaginados ou possíveis.” (Orlandi, 2005:39).
3.3. O DISCURSO
O discurso, por sua vez, possui como unidade de construção o enunciado. O discurso é um olhar sobre o enunciado tomando como ponto de vista as suas condições de produção. A máxima de Saussure de que “é o ponto de vista que cria o objeto”45 é aqui aplicada, pois o enunciado só se torna um discurso porque a Análise do Discurso leva em consideração os seguintes fatores: o contexto histórico-social, os interlocutores, o lugar de onde falam e a imagem que fazem de si, do outro e do referente. Isto é, a Análise do Discurso considera como constitutivo do discurso todas as condições de sua produção, por isso, “em um discurso, então, não só se representam os interlocutores, mas também a relação que eles mantêm com a formação ideológica”.46
A. Guespin, citado por Orlandi, distingue assim um enunciado de um discurso: “um olhar lançado sobre um texto do ponto de vista de sua estruturação em língua faz dele um enunciado. Um estudo das condições de produção desse texto fará dele um discurso”47. Por
isso, o discurso pode ser visto como a linguagem em sua existência social, isto é, é a linguagem em seu estado de realização, abrangendo, logicamente, a enunciação e o texto, este como materialização da enunciação. Esta noção de discurso estabelece que a linguagem é social, isto é, ela existe entre a língua, que é geral, e a fala, que é individual; conseqüentemente “o discurso é lugar social”48.
Uma característica importante do discurso apontada pela Análise do Discurso é a de o considerar como efeito de sentidos e não como transmissão de informação, daí resultando a seguinte definição apresentada por Orlandi: “o discurso é efeito de sentido entre locutores”49.
Orlandi e Guimarães concebem o discurso como uma dispersão de textos50, o que possibilita vê-lo atravessado por várias formações discursivas.
Este tema é o assunto que segue.
45 Saussure, 2004:15.
46 Orlandi, 2009:125.
47 Guespin apud Orlandi, 2009:117. O lingüista Eduardo de Araújo Carneiro resume o conceito do termo
discurso da seguinte forma: “de maneira mais simples pode-se dizer que o discurso é a língua posta em funcionamento por sujeitos que produzem sentido numa dada sociedade. Sua produção acontece na história, por meio da linguagem, que é uma das instâncias por onde a ideologia se materializa.” (Carneiro, 2008:27). Grifo do autor.
48 Orlandi, 2009:158.
49 Orlandi, 2009:31 e 2005:21.
50 “O discurso universitário, por exemplo, se constitui de uma dispersão de textos: os de professores, de alunos,
de funcionários, de administradores, textos burocráticos, científicos, pedagógicos etc. Toda essa textualidade faz parte do discurso universitário. Inclusive os das eleições de cargos de direção, reitoria etc.” (Orlandi, 2005:70).