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Elementos constitutivos da posse de estado de filho

3. FILIAÇÃO SOCIOAFETIVA

3.2. Posse de Estado de Filho como pressuposto da filiação socioafetiva

3.2.1. Elementos constitutivos da posse de estado de filho

A doutrina mostra três elementos fundamentais para estabelecer a posse de estado de filho, para depois ser constituída a parentalidade socioafetiva: tractatus, tratamento,

nominatio, nome e, por fim, a fama, reconhecimento social. Para Leila Donizetti:

A identificação dos critérios caracterizadores da posse de estado de filho torna-se extremamente importante para convalidar relações socioafetivas na sociedade. Desta forma, o fato de o filho usar o nome do pai (nomen), ser tratado com as particularidades que permeiam a relação pai e filho (tractus), e também receber no

meio social a referência de filho de determinada pessoa (fama), são indícios irrefutáveis da existência da paternidade socioafetiva.48

Evidencia-se que a posse de estado de filho é matéria de direito, apesar de parecer matéria de fato, pois é necessário expor fatos que explicitem uma relação filial. É matéria de direito porque é necessário provar que os fatos alegados levam às noções jurídicas de nome, trato e fama, comprovando a existência da posse de estado de filho.49

O nomen ou nominatio também chamado de patronímico, apelido de família, é o uso constante do sobrenome do pai, sendo o filho reconhecido socialmente e no âmbito familiar pelo seu uso. É um identificador social, que representa a qual família pertence o indivíduo.

O nome é direito personalíssimo, conforme o art.16 do CC/2012, “Toda pessoa tem direito ao nome, nele compreendidos o prenome e o sobrenome”. A doutrina50 entende

que o uso do nome de família não é o único elemento que caracteriza a posse de estado, não sendo essencial. Mesmo que o filho nunca tenha usado o sobrenome do pai, poderá ser declarada a paternidade se presentes os demais elementos: trato e fama.

Pela importância do sobrenome para a pessoa o Superior Tribunal de Justiça manifestou-se favorável a alteração do registro de nascimento, a fim de acrescer o sobrenome dos pais de criação:

DIREITO CIVIL. ALTERAÇÃO DO ASSENTAMENTO DE NASCIMENTO NO REGISTRO CIVIL APÓS A MAIORIDADE. ACRÉSCIMO DO SOBRENOME DOS PAIS DE CRIAÇÃO. ARTIGO 56 DA LEI Nº 6.015/73. ADMISSIBILIDADE. Não é absoluto o princípio da imutabilidade do nome de família, admitindo-se, excepcionalmente, a alteração do patronímico, desde que presentes a justa motivação e a prévia intervenção do Ministério Público. No caso dos autos, presentes os requisitos autorizadores, já que pretende a recorrente, tão- somente, prestar uma homenagem àqueles que a criaram, acrescendo ao seu assento de nascimento o nome de família daqueles que considera seus pais verdadeiros, nada obsta que se autorize a alteração. Recurso conhecido e provido, com as ressalvas do relator. (STJ. 3ªT, REsp nº 605.708/RJ - 2003/0199850-1, Rel.: Min. Castro Filho, J. 16/08/2007, DJe 05/08/2008).

Tractatus, tratamento, é aquele revelado pelo pai ao educar, sustentar e manter o filho. “É o cuidado que os pais dispensam cotidianamente aos filhos de proteção, responsabilidade, carinho, amor, instrução, alimentação e também o tratamento que os filhos

48 DONIZETTI. op. cit., p.18. 49 CARVALHO. op. cit., p.143. 50 FUJITA. op.cit., p.116.

transmitem a seus pais, de carinho, respeito e obediência.”51 Para Julie Cristine Delinski: “É a

situação resultante de ser o indivíduo criado, educado, tido e apresentado como filho legítimo, pelo pai e pela mãe”.52

É considerado o elemento mais importante na relação paterno filial. Nesse sentido, é oportuno diferenciar a posse de estado da mera aparência. Na posse de estado não é necessário que pai e filho morem juntos para que se configure o tratamento. Na mera aparência, não há tratamento de pai e filho, podendo ser uma mera relação de padrinho e afilhado, com ajuda meramente financeira a este. A verdade socioafetiva manifesta-se no dever de assistência material, de sustento e imaterial, como o amor, o afeto, que são atos relacionados a função paterna.

Por conseguinte, fama é a notoriedade do filho perante a sociedade. “[...] consiste na situação resultante de ser o filho sempre considerado na família e na sociedade como filho legítimo das pessoas de quem ele afirma ser; por exemplo, os moradores daquela localidade o conhecem como sendo filho do Sr. Fulano de Tal.”53 É como a relação filial é vista pela

sociedade, o reconhecimento público na comunidade religiosa, por exemplo.

O tratamento, tractatus é indispensável para a exteriorização do reconhecimento social, fama, pois através do modo como é tratado o filho, a sociedade conhecerá a relação paterno-filial. O nome não é indispensável para caracterizar a posse de estado, porque nem sempre o filho possui o sobrenome do pai. Parte da doutrina54 não aponta hierarquia entre os

três elementos citados, fama, nome e tratamento, sendo que o último é condição para a existência do primeiro. Por conseguinte, a união desses três elementos é ideal para configurar não só a filiação socioafetiva, mas também as demais relações filiais.

A doutrina menciona também o tempo como fator decisivo na configuração da filiação socioafetiva, na posse de estado de filho, aliado aos elementos mencionados. Para Carmela Salsamendi de Carvalho:

O tempo ou a duração deve ser tal que demonstre os caracteres da continuidade e estabilidade da posse de estado de filho que não se constitui em um dia como acontece com o reconhecimento voluntário ou forçado, mas sim, da prática de atos, sentimentos, significados, construídos dia a dia, o que demanda tempo para sua formação e reconhecimento.55

51 CARVALHO. op. cit., p.135. 52 DELINSK. op. cit., p.44. 53 DELINSKI. op. cit., p. 44. 54 CARVALHO. op. cit., p.130. 55 CARVALHO. op. cit., p.139.

Esse tempo não precisa ser atual, deve o juiz analisar se houve a posse de estado de filho em um período passado, de modo que a decisão será baseada em critérios subjetivos, aliados à existência de fatos concretos que caracterizam a paternidade. Atualmente, a posse de estado de filho é critério de prova da paternidade, no entanto deveria ser considerada suficiente para estabelecer uma filiação.56

Portanto, a posse de estado de filho ainda não é predefinida, podendo ser analisados os elementos no caso concreto pelo juiz, que deverá avaliá-lo sem suprimir valores constitucionais, referências do novo Direito de Família, como os princípios da dignidade da pessoa humana e da solidariedade.

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