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precarizada do CEETEPS enquanto laboratório nacional

Capítulo 4: ELEMENTOS CONSTITUTIVOS QUE INFORMAM O MODO DE SER E ESTAR NO MUNDO E NA

EDUCAÇÃO PÚBLICA PROFISSIONAL

4.1

O gerencialismo na educação e as reformas para o mercado

O propósito que move este capítulo, constituído a partir da pesquisa de campo, é o de focalizar, a partir do processo de trabalho docente, os elementos constitutivos que informam o modo de ser e estar no mundo e na educação público profissional do CEETEPS. Para tanto, apresentaremos o avanço do gerencialismo na educação pública profissional, pós-reformas orientadas pelo mercado, e o ideário das “novas qualificações-competências” como práticas de manipulação psicológica no mundo educacional. Por fim, trataremos, com base na pesquisa empírica, dos atributos existenciais da precarização docente, dentre os quais destacamos a subalternidade, acaso e contingência, insegurança e descontrole existencial, deriva pessoal e sofrimento, assujeitamento e desefetivação, corrosão do caráter, invisibilidade social, manipulação psicológica, desencantamento com a profissão, identidade deteriorada e individualidade alienada de classe.

Vincent de Gaulejac demonstrou que o poder gerencialista passa a penetrar cada vez mais as instituições, inclusive a administração pública. Com foco no controle dos meios e na “ética dos resultados”, as exigências do mercado hiperconcorrencial requerem gerenciamento de recursos humanos, flexibilidade, adaptabilidade, eficiência a curto prazo (encurtamento permanente dos prazos), aceleração contínua dos ritmos de trabalho: “as lógicas de produção estão cada vez mais submetidas às pressões das lógicas financeiras” (GAULEJAC 2007 p.45). Atrelada aos planos de redução de custos está a volatidade do mercado de trabalho: “multiplicação de empregos precários, empregos temporários, contratos com duração determinada, demissões brutais...” (ibidem p.47). Assim, a administração dos recursos estaria alinhada a uma noção de gestão de “qualidade”, cujos conceitos-chave a ela associados são: excelência, sucesso, comprometimento, progresso, desempenho, satisfação das necessidades do cliente. Tudo isso em um ideário que estimula a mobilização psíquica do ideal de “eu” e uma adesão aos valores gerenciais, capitalistas.

Uma análise da nova morfologia do ensino técnico requer o destaque aos sentidos das reformas gerencialistas na educação. Pretende-se contribuir com o debate acerca do

significado do trabalho no processo de constituição do indivíduo social e seus impactos na subjetividade dos trabalhadores, analisando as reformas educacionais e as mudanças nas condições e organização do trabalho.

As reformas educacionais de orientação neoliberal obedecem à dinâmica do sistema do capital em contexto de crise estrutural e regime de acumulação flexível, em movimento político incessante por recuperação de taxa de lucro dos capitais, mecanismos atrativos de investimentos (predomínio do capital financeiro) e redução de custos, em perspectiva mundializada. Os capitais localizados nos países centrais do imperialismo e da nova ordem mundial elaboram discursos e princípios institucionalizados em organismos multilaterais com foco nas críticas dos gastos sociais dos Estados nacionais, enfatizando uma gestão pública de cunho gerencialista e neoliberal. No plano econômico, ajuste fiscal, desregulamentação do mercado e privatizações combinam-se com flexibilização da legislação protetora do trabalho e redução do investimento em políticas sociais. No plano político, a incorporação da iniciativa privada se impõe, restando ao Estado “mínimo” o caráter de coordenar e regulamentar a vida institucional. A reconfiguração entre mercado-Estado-sociedade civil no Brasil data da década de 1990187, especialmente com o governo FHC.

Em contexto de Estado gerencialista, as recomendações internacionais para as reformas nas políticas educacionais, sob a direção do Banco Mundial, requerem a incorporação da gestão privada na gestão pública188, com subordinação dos países periféricos e semi-periféricos localizados no sistema mundial de Estados. Mecanismos externos de avaliação de qualidade e desempenho passam a sinalizar índices internacionais de atrativo de investimento financeiro, ao mesmo tempo em que reorientam os sistemas educacionais e seus mecanismos organizacionais.

187 “A reconfiguração do papel do Estado com a institucionalização do Estado mínimo resultou, no caso da educação, em um processo de centralização – descentralização pelo qual não só mudou a histórica relação federativa do país, como também atribuiu um novo papel ao Estado, à iniciativa privada e à pessoa física na educação. A descentralização era uma característica constituinte da educação formal no Brasil, porém, com a Reforma Educacional, sofreu forte regulamentação que afetou a distribuição de responsabilidades e atribuições entre os diferentes níveis de governo – estados e municípios – e a redistribuição de recusos em cada estado da federação” (KRAWCZYK e VIEIRA, 2012 p.22-3).

188 “A sociedade gerencial nada mais é do que um sistema que tem, no centro, o universo econômico, social e cultural ditado pela empresa” (GAULEJAC, 2007 p.15)

Ao analisar, em perspectiva comparativa, a reforma educacional na América Latina, em países como, Argentina, Brasil, Chile e México nos anos 1990, Krawczyk e Vieira sinalizam:

No entanto, é importante destacar que o consenso construído acerca da Reforma Educacional nos diferentes países foi consequência da fetichização da necessidade do conhecimento instrumental para a inserção competitiva dos países latino-americanos no mercado mundial. Assim, a reforma do Estado – vetor das transformações educacionais – foi apresentada à sociedade como uma estratégia necessária para racionalizar os investimentos e a gestão pública, e não como a finalidade última do projeto de desenvolvimento neoliberal. (KRAWCZYK e VIEIRA,2012p.19)

Por um lado, institui-se a aplicação de políticas meritocráticas vinculadas a avaliações de mérito e desempenho, ampliando a pressão sobre os profissionais da educação, assédio na gestão escolar e desmoralização profissional daqueles que não atingem as metas exigidas, além de fortalecer, ainda, o discurso individualista da competência em nome de uma suposta qualidade na educação. Por outro lado, o processo de organização e gestão requer intensificação do ritmo de trabalho e precarizadas relações laborais, além da mercantilização do ensino. Tudo sob o ideário da modernização trabalhista, eficiência de gestão e “inevitabilidade” de contenção de gastos públicos.

Os impactos das políticas neoliberais na educação levadas à cabo desde as reformas gerenciais do Estado orientadas para o mercado sugerem a redução do papel do Estado e de gastos orçamentários sociais, como a educação. Nesse ideário, o mercado apresenta-se como mais eficiente e racional na administração, fornecimento de serviços e investimento de recursos (TORRES 1995). Nos anos 1990, com a redefinição do papel do Estado, as políticas educacionais orientam-se em consonância com os ditames dos organismos multilaterais em desenvolver a empregabilidade por meio da escolarização, adequando a educação às exigências da acumulação flexível e da reestruturação produtiva em contexto de mundialização do capital. Introduz-se no sistema escolar a lógica do gerencialismo e de mecanismos de avaliação de qualidade com base em critérios de mercado (produtividade, eficácia e eficiência). Na busca da racionalidade de custos mínimos, expande-se a rede de parcerias público-privado na educação.

As reformas educacionais de FHC se ajustaram às exigências de desregulamentação, flexibilização e privatização. “A regressão social da década de 1990 nos mostrou também uma regressão no campo educacional”, salientam Frigotto, Ciavatta e Ramos (2012 p.15). E prosseguem:

A regressão mais profunda, sem dúvida, ocorreu logo após a promulgação da LDB, no ensino médio e técnico, mediante o Decreto n.2.208/97. Com efeito, este decreto restabelece o dualismo, ainda que, em outros termos, da educação dos anos, e assume o ideário pedagógico do capital ou do mercado – pedagogia das competências para a empregabilidade – com base nas Diretrizes e Parâmetros Nacionais Curriculares (PCNs e DCNs). (ibidem, p.13)

As reformas não estancaram nas gestões tucanas, vale dizer, mas foi nos anos 1990 que emergiram em contexto estrutural no Brasil, isto é, quando seus contornos melhor se definem.

4.2

Novas

qualificações-competências

na

educação

e

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