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Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo! Guimarães Rosa. Grande Sertão Veredas.

A preocupação teórica com o tema do assédio moral no trabalho vem ganhando visibilidade nos estudos recentes sobre saúde e trabalho. Contudo, o enfrentamento político desse problema social no mundo do trabalho ainda carece de evolução. Antes de tratarmos de sua caracterização no trabalho docente, faz-se importante expor o modo pelo qual a literatura especializada o conceitua.

O assédio moral dispõe da presença de elementos como conduta abusiva contra a dignidade psíquica do indivíduo, caráter recorrente (forma repetitiva e sistematizada), exclusão social, exposição vexatória e exigências descabidas. Trata-se de uma clara relação assimétrica de domínio, poder e violência nas relações interpessoais, acarretando prejuízo a saúde mental do trabalhador.

Ruwer e Canoas o definem do seguinte modo:

O Assédio Moral constitui a representação de uma conduta abusiva, de natureza psicológica; que representa, muitas vezes, um atentado contra a dignidade psíquica do indivíduo, de forma repetitiva, causando exclusão do ambiente e do convívio social. Esse é um risco que se insere nas relações interpessoais, composto por fatores psicossociais, denominado por isso de “risco invisível” ou “velado”, porém objetivo, no que se refere à Saúde Mental do Trabalhador – na maneira em que desestabiliza as emoções, desencadeia ou agrava doenças pré-existentes, ameaçando, além do trabalho, a vida dos trabalhadores. (RUWER e CANOAS 2010 p.283).

Leymann (1996) identifica o assédio moral quando uma pessoa é coagida nas relações interpessoais, de modo hostil, chegando a um estado de fraqueza psicológica. Hirigoyen (2002), por sua vez, considera que o fenômeno, ao provocar mal-estar no trabalho, pode ocorrer: a) horizontalmente (agressão de um colega por outro colega); b) vertical-ascendente (de um superior por um subordinado) e; c) vertical-descendente (de um subordinado a um superior). O comportamento assediador desqualifica, humilha, desmoraliza pessoal e profissionalmente a vítima assediada. Freitas (2001) acrescenta que assédio moral remete ao rebaixamento do outro, degradando sua auto-estima, sua aprovação ou reconhecimento. Portanto, o conceito está relacionado a ausência de reconhecimento digno e à degradação da identidade.

Contudo, nem toda agressão pontual, apesar de ser violência, constitui assédio moral, assim como a mera cobrança de trabalho por parte da chefia. A configuração do assédio moral requer, além da intencionalidade de desqualificação, o caráter sistemático e frequente de desmoralização por parte do agressor. Fonseca (apud Ruwer e Canoas 2010) destaca quatro condutas abusivas que embasam o assédio moral no local de trabalho, a saber, 1. Conduta abusiva (caráter doloso e deliberado do agente); 2. Repetição ou sistematização (incidência constante, e não isolado); 3. Dano à integridade psíquica ou física de uma pessoal (dano afetivo); 4. Ameaça ao emprego ou degradação do clima de trabalho (constrangimento do empregado em relação ao emprego ou ao clima de trabalho).

Ruwer e Canoas (2010) lembram, ainda, algumas vias de assédio moral típicas: isolamento do empregado, desconsiderações de suas opiniões e de sua própria pessoa, gozações sobre suas características físicas, divulgação de boatos maldosos, ataques à reputação e à família, delegação de tarefas flagrantemente superiores ou inferiores à sua capacidade, imputação de erros inexistentes ou orientações contraditórias e imprecisas, críticas em público, imposição de horário e tarefas injustificadas, não atribuição de qualquer incumbência ao empregado, proibição de contato com outros colegas de trabalho, recusa à comunicação direta com a vítima (dando-lhe ordens através de colegas), supressão de documentos ou informações importantes para a realização do trabalho, ridicularização das convicções religiosas ou políticas e dos gostos do trabalhador (RUWER e CANOAS 2010, p.287).

Heloani (2005) considera o assédio moral enquanto produto de um processo disciplinar, associado a relações de poder proveniente de modernas formas de gestão, as quais

pressupõem hipercompetição e individualização no ambiente de trabalho248. Trata-se de um problema organizacional, e não individual, uma vez que a saúde dos trabalhadores é um bem a ser preservado. Portanto, nesse entendimento, ao qual nos filiamos, o assédio no trabalho pressupõe ações antiéticas em termos profissionais, para além da exposição vexatória, da humilhação sistemática e intencional, acarretam em fragilização psicológica da vítima, mas, sobretudo, envolve relações de poder na medida em que o agressor pretende neutralizar e anular o assediado no local de trabalho. Envolve, portanto, relações de poder e disciplinamento no ambiente organizacional. Freitas, Heloani e Barreto (2008) apontam como métodos de assédio:

• Deteriorização prosposital das condições de trabalho: limitar a possibilidade de atuação autônoma do desempenho do trabalho da vítima;

• Isolamento e recusa de comunicação: é vedado à vítima formas de comunicação, possibilitando seu isolamento no local de trabalho;

• Atentado contra a dignidade: insinuações vexatórias e situações de desprezo e descrédito diante dos colegas

• Violência verbal, física e sexual: ameaça, agressão física ou violência simbólica (de ordem psicológica), bem como o assédio sexual (gestos ou propostas)

No âmbito escolar, o assédio moral mais recorrente é o horizontal e o vertical- ascendente, ou seja, o constrangimento entre próprios colegas professores ou de superiores (coordenadores, diretores etc) com professores. É importante lembrar que, em geral, as mulheres estão frequentemente mais expostas ao assédio, especialmente em relação ao assédio sexual (BARRETO e HELOANI 2010) por parte de seus colegas de trabalho ou superiores (neste caso, valem-se de uma condição hierárquica e sabem que dificilmente a vítima reagirá ao assédio). As relações de gênero no mundo do trabalho...

Conforme os depoimentos colhidos e a análise dos questionários aplicados junto aos professores do CEETEPS, o que se verifica no interior das organizações empresariais e que pode ser expresso nas unidades escolares diz respeito ao assédio moral. Nesse item, 38% dizem já terem sofrido algum tipo de perseguição na unidade em que lecionam.

248 Referências brasileiras na luta pela criminalização e no combate ao assédio moral, Heloani (2004) e Barreto (2005) lançaram o site www.assediomoral.org.br como ferramenta nesse sentido.

No tocante à perseguições e assédio moral, os questionários revelam questões típicas de adoecimento decorrente de indícios de assédio moral realizado pelo superior imediato, como a o depoimento que se segue:

“Já fui ameaçada/assediada moralmente para mudar a minha conduta (que no caso eram afastamentos para realizar sessões de químioterapia, pois estava faltando demais para o tratamento) ou não renovariam meu contrato que era determinado na época, pois isso demonstrava falta de comprometimento com a U.E. Após esse episódio tive pânico de trabalhar lá, por isso precisei de acompanhamento psicológico por um ano”.

O depoimento acima, choca, constrange. Mesmo por motivo grave de saúde, a professora é compelida a não se ausentar das aulas, a preparar atividades pedagógicas caso se ausente para realização de exame médico. Neste caso em específico, valendo-se de sua função hierárquica, o coordenador lembra a professora de que não poderá ter seu contrato de trabalho renovado. Há outros relatos de práticas antipedagógicas e antiéticas de coordenadores, colhidos em depoimento:

“Após uma greve, a coordenadora da ETEC (...), jogava alunos contra as minhas aulas, para que eu largasse as aulas e o filho do diretor assumisse as mesmas”.

Ou ainda, práticas antissindicalistas por parte de gestores: “Em período de greve, a diretora trancou o portão impedindo a entrada do comando de greve” ou, “sofri assédio moral, devido a militância sindical”. Falas como “já sofri perseguição ideológica” e “ caí no isolamento social” emergem nos depoimentos colhidos. Para ilustrar ainda mais, cabe destacar o depoimento a seguir que, no caso, refere-se a posições de perseguição de próprios colegas docentes alinhados ao Programa Escola Sem Partido:

“[Já tive] Desconstrução do meu trabalho e outros colegas em função de posturas adotadas por nós, frente as demandas do corpo discente. Em função de divergências ideológicas, já sofremos tentativas de desconstrução de um trabalho cientificamente preparado e pensado para a sala de aula”.

4.11

A resistência à intensificação do trabalho: as saídas

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