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NATUREZA DA EDUCAÇÃO TÉCNICA

1.3 Herança ocidental dos sentidos do trabalho

Inúmeras tradições, em um complexo percurso, deram origem ou constituíram aquilo que podemos chamar de herança ocidental dos sentidos do trabalho. Na antiguidade clássica54, o trabalho era destinado a escravos e homens não-livres55. Desprovido de qualquer virtude, desqualificava o cidadão, o qual deveria se dedicar a atividades superiores, como o exercício da política ou da filosofia. Conforme afirmou o filósofo grego Aristóteles (1998), “o ócio é uma necessidade, tanto para o crescimento na virtude como para a perseguição das atividades políticas”. Em diálogo de Xenofontes, Sócrates chega a mencionar “De fato, em algumas

pólis, especialmente naquelas com necessidade de guerra, não é permitido a nenhum cidadão

exercer trabalhos manuais” (XENOFONTE apud Bendassolli 2007 p.34). Ésquilo, em

Prometeu Acorrentado, enfatizou: “quem vive de seu trabalho não deve ambicionar a aliança

nem do rico efeminado, nem do nobre orgulhoso” (ÉSQUILO apud Antunes 2005 p.11). O valor dominante na Grécia Antiga era o cultivo da razão em oposição a atividade produtiva. Em Ética à Nicômano, Aristóteles é taxativo a respeito do valor de felicidade a ser cultivado pelo cidadão grego, a saber, o conhecimento teórico e a vida contemplativa. Mesmo Platão, em A República, orientava que não caberia aos cidadãos o exercício de atividades laborais, como comércio, produção ou qualquer outro negócio. O trabalho, nessa acepção, corresponde a aprisionamento, ausência de liberdade ou de virtude. O homem livre não poderia ser escravizado pela necessidade. O único trabalho virtuoso, visto como não-trabalho em si

54 Uma referência para a compreensão da formação do homem grego encontra-se presente em Jaeger (2003).

55 Em função da divisão social que havia na Pólis grega, a economia ocupava lugar subalterno. O trabalho doméstico, atividade privada de gestão da casa, era destinado exclusivamente à mulheres e escravos, vale dizer. Aristóteles, por exemplo, naturaliza a condição de escravidão, ao afirmar que um escravo equivalia a um “instrumento animado”.

mesmo voltado para as necessidades, mas voltado para o belo e a felicidade, seria o intelectual proveniente da vida contemplativa, de caráter aristocrático. Em Roma Antiga, Sêneca aborda o significado da brevidade da vida no fluxo do tempo, afirmando que “dentre todos os seres humanos os ociosos de verdade são os que se dedicam à filosofia. Esses são os únicos que vivem” (SÊNECA 2007 p.59). Em síntese, na antiguidade greco-romana, há valorização do ócio como virtude (exercício de liberdade e da razão), ao passo que o trabalho é concebido como aprisionamento à esfera das necessidades.

No contexto medieval, o fardo do trabalho está associado à tradição teológica, embora passe a assumir uma nova valoração. O mito bíblico do pecado original56, no Gênesis,

determina o trabalho como penitência, punição divina, atividade penosa, esforço necessário. Há, portanto, uma ressignificação da visão aristotélica do trabalho. Assume-se um certo equilíbrio entre vida ativa (o esforço do corpo) e vida contemplativa (contemplar a Deus e os valores cristãos, cuidar da alma). Para Santo Agostinho, o homem deve suportar sua condição na terra, laborando na natureza e refletindo sobre o divino. Como diz Bendassolli (2007), na tradição medieval, se, por um lado, o homem é responsável pelo alimento, sua alma pertence à Deus.

Em São Tomás de Aquino, os trabalhos individuais devem ocorrer em harmonia e equilíbrio com o bem comum. Cada profissão seria um “chamado” divino. Não se trata de um fim em si, mas um meio de possibilidade de salvação, conforme aponta Aquino em Do

trabalho manual, em meados do século XIII. O trabalho como penitência adquire forte

conotação moral e normativa. Assim, é atividade digna, honesta, contribui com o enriquecimento da alma. “Ao final da Idade Média, com são Tomás de Aquino, o trabalho foi considerado ato moral digno de honra e respeito” (ANTUNES, 2005 p.11). Cabe a cada um cumprir a determinação divina que lhe foi dada, combatendo a ociosidade, à medida em que o trabalho é condição natural dos homens. É por seu intermédio que se alcança tanto os bens materiais quanto os espirituais. Trata-se da possibilidade de salvação da alma no reino extramundano.

Ainda na tradição cristã, conforme os Monges Beneditinos, o trabalho assume um claro fardo penitencial de dignidade e busca da salvação, uma vez que, nos monastérios, os

56 O simbolismo da expulsão do homem do paraíso, por seu criador, institui na tradição cristã o trabalho como fardo, como punição e condenação do homem a viver dependente do trabalho, a partir do qual deverá recriar sua condição humana e sanar suas necessidades. Encontramos no texto bíblico, portanto, a determinação fundamental do trabalho na constituição dos homens.

monges devem evitar o excesso de tempo livre e obter controle disciplinar do corpo e da mente. “O significado deste trabalho monástico era acima de tudo penitencial. (...) Quaisquer que fossem os motivos, o simples fato de que o mais elevado tipo de perfeição cristã, o monge, engajar-se no trabalho gerou uma parte do prestígio social e espiritual dos praticantes para refletirem sobre a atividade do trabalho” (LE GOFF 1980, p.80-81). Na vida monástica, o corpo deveria estar submisso à alma, e o trabalho à consciência religiosa.

Portanto, conforme podemos notar, a tradição feudal rompe com a concepção aristocrática do trabalho da Antiguidade, conferindo-lhe certo prestígio social e espiritual, ainda que o concebendo simbolicamente como punição divina. Por sua vez, com a decadência do feudalismo e da estrutura tradicional da Idade Média, a atividade comercial e o fluxo de trabalho (circulação de mercadorias) passam por novas metamorfoses, e o trabalho por novas formas de valoração, ainda que, na conformação das monarquias nacionais, o trabalho não fosse digno da nobreza e da realeza – das classes dominantes -, mas atividades destinadas a camponeses, artesãos e comerciantes.

No período do Renascimento há um redimensionamento da valorização do trabalho, mas de um determinado entendimento do trabalho não orientado à produção ou ao comércio; antes disso, a concepção do Humanismo Renascentista contribui com uma nova valorização do trabalho/arte de artesão57. Ainda que de modo um pouco idealizado e restrito a alguns casos do campo artístico, Bensassolli (2007) aponta que o trabalho passa a adquirir um valor intrínseco na acepção da arte renascentista, representando um “trabalho como arte de construção de si e do mundo”, centrado no aprendizado (habilidade de elaboração) e na qualidade do produto. Conforme sugere, “o que realmente importava eram a expectativa e o prazer de realizar um bom trabalho” (idem p.56), isto é, há um inseparável laço de ligação entre produtor e produto (arte) – não há, aparentemente, disjuntiva, no plano da consciência, entre aquele que cria e executa o trabalho e o conjunto da produção.

O mestre de ofício, enquanto artista-artesão completo, aparece relativamente livre em sua criação e execução da produção artística. Dito em outros termos, a exteriorização do trabalho passa a ter um significado subjetivo a quem executa o ofício-artesão, o qual se torna um devoto de sua própria obra e realizar-se nela, reconhecendo-se. Dificilmente pode-se distinguir o tempo de trabalho/ tempo de lazer, a medida em que “ele usa seu tempo livre

57 Déscartes considera que “as mesmas mãos que se dedicam a cultivar os campos e a tanger à cítara, ou a diversos misteres diferentes, não os consegue realizar tão bem como os fariam se só a um se dedicassem”. (DESCARTES,2003 p. 73).

como um fluxo contínuo de criatividade e insight. (...) Vida e trabalho, nesse sentido compõem um único mosaico” (BENSASSOLI 2007 p.60-1). Nesse aspecto, a concepção de trabalho-arte do resnascimento representaria o momento de sublimação, desfrute e catarse, uma vez que o trabalho não estaria “distanciado da vida”. Essa “auto-realização no ato de trabalhar” acarretaria tanto em um reconhecimento subjetivo por parte do produtor (uma espécie de realização de si), quanto do reconhecimento do público em relação a seu artista- produtor, expressando, de certa forma, um trabalho dotado de liberdade e prazer58.

Ainda no século XVI, se deslocarmos para outra tradição não-cristã-ocidental, e mirarmos o exemplo dos indígenas tupi-guarani que se dedicavam mais à natureza e, ao menos na nostalgia do colonizador europeu sobre o mundo selvagem, por certo etnocêntrica, o trabalho aparece como um fardo e em oposição à vida em natureza, Descreve Gaulejac (2007 p.239).

Lembremo-nos da história dos índios tupi-guarani, que haviam deixado sua terra porque achavam insuportável quatro a cinco horas por dia para garantir sua subsistência. Eles partiram em massa, através da floresta, em busca de uma terra ideal, na qual pudessem viver sem trabalhar. É essa terra maravilhosa que os espanhóis chamaram de Eldorado59

No século XVII, o valor e a ética positiva do trabalho no Protestantismo fundam um novo paradigma para o sentido do trabalho no mundo contemporâneo. O protestantismo confere uma certa teologia individualista, por assim dizer, com prevalência da disciplina ao ofício, dedicação a atividade produtiva60, não limitada a contemplação. Max Weber destaca

58 Cabe notar que, apesar de ilustrativa e significativa, essa acepção encontrada na literatura nos parece um tanto unilateral, uma vez que desconsidera o caráter de mercado (ainda que não o liberal) e mercantil da obra de arte no período de expansão da atividade comercial. Podemos lembrar, por exemplo, o mecenato. Ao largo disso, o trabalho manual e outros ofícios não-artísticos continuaram existindo e sendo imprescindíveis, inclusive como atividade penosa, como condição de existência das sociedades, incluindo o trabalho escravo. Esse seria o caráter dialético do trabalho no Renascimento. Nesses termos, Norbert Elias diferencia arte de artesão de arte de artista. “Na fase da arte artesanal, o padrão de gosto do patrono prevalecia, como base para a criação artística, sobre a fantasia pessoal de cada artista. A imaginação individual era canalizada, estritamente, de acordo com o gosto da classe dos patronos” (ELIAS, 1995 p.47).

59 “No dia 17 de agosto de 1551, uma frota armada pelo rei de Portugal aporta sobre as costas brasileiras. A bordo um certo Américo Vespúcci. Ele descreve um mundo que apresenta todas as características do paraíso terrestre: ‘O trabalho e os tormentos não são nela uma obrigação’” (GAULEJAC 2007 p.239).

que o ascetismo puritano foi secularizado, enfatizando a prevalência do negócio (negação do ócio) no comportamento dos indivíduos. Em seu célebre A ética protestante e o “espírito”

capitalista [originalmente de 1904-5, e ampliada na versão de 1920], o sociólogo alemão

chega a identificar “afinidades eletivas” entre determinadas orientações protestantes e atitude/conduta de vida conforme a orientação capitalista do homem moderno e ocidental. Dito de outro modo, os fundamentos da moral puritana estariam na gênese da cultura capitalista moderna. Haveria certas motivações individuais na tradição do protestantismo, em particular na ética calvinista, convergentes com o que denominou por “espírito do capitalismo”. Ou seja, a condução metódica cotidiana tende a convergir com o “espírito” do capitalismo como modo de vida61, nessa compreensão.

O reconhecimento do trabalho e das atividades comerciais no meio protestante - distintamente da vida monástica e contemplativa concebida pelos teólogos católicos da Idade Média - confere uma nova ética positiva ao trabalho, não mais sinônimo de martírio e sofrimento, mas dotado de propósito em si mesmo. A dedicação disciplinar ao trabalho (como obrigação moral) passa a remeter a devoção a vocação individual, principal meio (visto como fim em si mesmo) de servir à Deus. O ascetismo puritano incentiva a orientação ao trabalho, disciplina o tempo livre e os prazeres da carne não-produtivos, posto entender o trabalho como uma vocação profissional, um chamado divino. A glorificação mundana do trabalho confere ao labor o principal meio de combater a preguiça e projetar a acumulação – eis as afinidades comportamentais com a lógica do dinheiro e da mercadoria. Seja a acumulação dos negócios capitalistas, seja o engajamento dedicado do trabalhador ao empreendimento empresarial.

No século XVIII, com o liberalismo triunfante e o início da sociedade burguesa, o trabalho passa a ser sinônimo de busca de liberdade individual, de construção de identidade

61 Segundo Max Weber, o capitalismo tem, antes de tudo, uma “significação cultural”, cuja “individualidade histórica” remete a “um complexo de conexões que se dão na realidade histórica e que nós encadeamos conceitualmente em um todo, do ponto de vista de sua significação cultural” (WEBER 2004 p.41). Ou seja, o autor procura investigar os sentidos (subjetivos) que os indivíduos atribuem a própria ação e a conexão com a “cultura”. A abordagem weberiana não apreende o aspecto histórico-material do modo de produção capitalista e sua formação sócio-histórica, mas cultural. Assim, o protestantismo teria desenvolvido uma máxima de conduta de vida eticamente orientada (racional), alinhada ao “espírito” do capitalismo, como a cultura norte americana expressa na máxima de Benjamin Franklin de que “tempo é dinheiro”, foco em investimento, trabalho, crédito, negócios e contabilidade de receitas e despesas. “É Benjamim Franklin que nessas sentenças nos faz um sermão – máximas (...) da cultura americana (...). Ninguém porá em dúvida que é o ‘espírito do capitalismo’ que aqui nos fala de maneira característica” (ibidem p.45).

(ENRIQUEZ 1999) e ascenção social (busca por mobilidade social ascendente). Tais seriam os pilares da concepção de trabalho para o pensamento ocidental contemporâneo.

É a partir da Revolução Industrial, entre os séculos XVIII e XIX, inicialmente na Inglaterra, e o decorrente expansionismo do mercado mundializado do capitalismo industrial, que se universaliza o trabalho assalariado como meio de vida na sociedade burguesa e se consolida a ideologia liberal de ascensão social pelo trabalho. Esse processo, elevou o grau de desenvolvimento das forças produtivas sem precedentes históricos, ao mesmo tempo que o investimento em capital e as contínuas inovações tecnológicas (impulsionadas pela energia inanimada da máquina a vapor) expandiu as escalas de produção e concentração dos meios de produção.

Sob o capitalismo, ocorre a generalização da forma-mercadoria62. A condição básica é que o processo capitalista se realiza sob controle do capitalista e o produto do trabalho não pertence ao produtor imediato (que trabalha sob o regime de assalariamento), mas ao proprietário dos meios de produção, a quem cabe o controle e planejamento do trabalho realizado pela classe não-proprietária. A força de trabalho encontra-se disponível na esfera da circulação como mercadoria e dissociadas das condições objetivas de trabalho, dos meios de produção63. A lógica do processo de produção de mercadorias sobrepõe o valor de troca ao valor de uso. É no capitalismo, em que ocorre de forma singular o caráter de produção social e apropriação privada, que se estão dadas as condições para que o trabalho produtivo produza mais-valor64 e ocorra o processo de valorização do capital enquanto forma dominante de produção, isto é, o valor excedente gerado no processo produtivo, sob exploração da

62 “A tendência da produção capitalista, entretanto, é transformar, sempre que possa, toda produção em produção de mercadorias (...)” (MARX, 2008 p.124).

63 As condições sociais que proporcionaram a dissociação do trabalhador dos meios de produção, a proletarização da força de trabalho e o processo de concentração e centralização de capital requer o tratamento histórico, o qual nos deslocaria dos propósitos do presente trabalho. Trata-se do ponto de partida do processo de produção capitalista, o processo de acumulação primitiva do capital, bem como a passagem da subsunção formal à subsunção real do trabalho ao capital.

64 O conceito de mais-valor compreende uma magnitude do valor produzida pelo trabalho social, ou seja, é o valor produzido pela força-de-trabalho que supera o valor da reprodução da própria força de trabalho (condições necessárias para se sobreviver e constituir família). Objetivamente, corresponde ao trabalho não pago, ao tempo de trabalho excedente, à criação de um excedente econômico, de um valor novo que se materializa na mercadoria e é apropriado pelo capitalista no processo de produção, mas que se realiza no processo de circulação, caracterizando a exploração do trabalho pelo capital. Marx demonstrou inúmeras formas (e podemos acrescentar formas contemporâneas) do capital incrementar mais-valia. Para uma análise mais apurada entre processo de trabalho e processo de valorização, sobretudo no que se refere a mais-valia absoluta, relativa e extra. Ver: MARX, Karl. O

capacidade de trabalho socialmente combinada, em relação ao valor consumido no processo, isto é, a parte relativa ao tempo de trabalho excedente (em detrimento do necessário) e não- pago, apropriado pelo capitalista.

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