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CAPÍTULO 2: Paisagens e jardins no Brasil: memória e história

2.3 Elementos Decorativos dos Jardins Brasileiros

A metrópole observada por Georg Simmel (1858-1918) e as cidades por onde caminhava o flâneur, de Walter Benjamin (1892-1940) eram, possivelmente, ornadas por gigantescos chafarizes repletos de ninfas e cariátides nos centros de belas praças, iluminadas por postes de médio porte, guarnecidas de bancos, gradis, portões ricamente trabalhados, lustres, vasos, pinhas, leões e cachorros, fontanários, estátuas com as mais diversificadas inspirações, coretos e uma infinidade de outras peças decorativas, na maior parte das vezes, em ferro fundido e, também, em faiança portuguesa e beton (ou concreto armado). Estes elementos de ornamentação urbana vinham de fundições artísticas como Durenne, Val D’Osne, Calla, Davioud e Ducel, para citar algumas das mais proeminentes fonderies francesas do século XIX. As Exposições Universais foram catalisadoras e divulgadoras dos equipamentos urbanos decorativos, a partir de 1851. Esta ornamentação marcará a paisagem das maiores cidades ocidentais entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do XX e entre elas estavam as cidades brasileiras.

A diversidade nos elementos decorativos dos jardins como estatuária, vasos, bustos, pinhas, globos, jarras, leões, postes e luminárias, chalés, coretos, mirantes, rochedos e grutas artificias, etc., em cerâmica, faiança, ferro fundido e outras ligas metálicas, mármore, terracota, cantaria, concreto armado, entre outros, será intensificada a partir de meados do oitocentos, com a industrialização das manufaturas e a circulação de modelos. As Exposições Universais e os Catálogos das próprias fundições e fábricas tornaram conhecidas as peças e fizeram circular pelo mundo modelos e padrões estéticos.

Os periódicos de Horticultura, inspirados na Revue Horticole: Journal d'Horticulture

Pratique, fundada em 1829 por Antoine Poiteau (1766-1854), em Paris, e no Gardener’s Chronicle, fundado em 1841, na Inglaterra, por Joseph Paxton, também faziam circular modelos

da arte de jardinar e impulsionavam a criação de jardins e a produção industrial de ornatos para embelezar estes espaços. No Brasil, periódicos especializados como a Revista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura (1869-1891) e a Revista de Horticultura: Jornal de Agricultura e Horticultura Prática (1876-1879), editada pelo horticultor Frederico Albuquerque, instruíam e divulgavam modelos de jardins e formas de jardinar. No Brasil, de certa forma, uma parte destes jardins projetados ou remodelados no final do setecentos e no oitocentos foi protegida pelo Decreto-Lei 25/1937, quando da instituição do SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) atual IPHAN, como veremos no Capítulo 3.

Na cidade que crescia e se alongava para além do nucleo colonial, nos subúrbios, uma nova paisagem era desenhada pela burguesia em ascensão. Nas Chácaras próximas aos núcleos urbanos, ornatos tais como vasos, estátuas, fontes e floreiras eram adquiridos para embelezar os seus limites. Uma delas era do inglês Sir Charles Stuart, que teria vasos e estátuas em porcelana portuguesa encimando as colunas do muro, os quais aparecem num desenho de Charles Landseer (1825-1826).

Imagem 42: Hotel Universal, no Andara, RJ, em 1861. A. L. Guimarães. Fonte: FERREZ, 2000:

236.

Imagem 43: Residências no final da rua São Clemente em Botafogo (RJ), ca. 1857-1860.

Fonte: FERREZ, 2000: 234.

RJ, 1835. Hitchings em Botafogo RJ, ca. 1845.

Palacetes e sobrados com espaços ajardinados, como os representados nas imagens acima, eram projetados pela burguesia e pelos estrangeiros que fixaram residência na Capital do Império e em outras localidades do Brasil. As Chácaras de Recreio, deste modo, se assemelhariam às Quintas portuguesas ajardinadas, com tratamento paisagístico primoroso, com ornatos diversos, vegetação frondosa e jardins, gerando uma ambiência para o ócio, a sociabilidade, o recreio e a produção293.

Carlos Terra afirmou que, como nos países europeus, o jardim no Brasil e especificamente no Rio de Janeiro seria de vital importância por constituir-se em símbolo de

status de seus proprietários294. Da mesma forma que ocorreu nos recintos privados das casas

nobres uma intensificação de aquisição de ornatos de embelezamento com o mobiliário artístico, algumas vezes vindos de outros países como a França, principiou a acontecer nos espaços públicos, notadamente a partir das reformas conduzidas por Glaziou.

Para ornar os jardins que levaram sua marca, Glaziou utilizou em profusão peças e equipamentos em ferro fundido, especialmente importados da França, com preferência para as da Fundição Val D’Osne. No Passeio Público, para as reformas sucedidas da década de 1860, o artista francês adquiriu uma ponte em ferro fundido em estilo rústico (Imagem 29), com imitação de galhos de árvore e quatro estátuas representando as estações do ano: outono, primavera, verão e inverno, modeladas pela Val D’Osne. No Contrato para construção do “Grande Jardim Nacional do Campo da Aclamação”, celebrado entre o Império do Brasil e os senhores Francisco Fialho e A. Glaziou, no ano de 1871295, havia a recomendação da compra

de “dez estátuas de ferro fundido da Fábrica de Barbezat, dos Hautes Fournaux, do Vale do Osne, em Paris, ou de igual crédito pela perfeição de seus trabalhos bronzeados”296. Ou seja,

havia uma exigência dos contratadores da procedência do mobiliário, bem como descrição minuciosa, no contrato, de todas as obras a serem feitas, como cascatas, grutas, lagos, rochedos, postes de iluminação, pontes, etc. Para esta obra, Glaziou importou da Val D’Osne quatro fontes do tipo Stela, com bustos encimando as fontes, gradil em ferro fundido, vasos coroando colunas de gnaisse, uma estátua de sereia e quatro belíssimos portões de ferro. Parte

293 CARAPINHA, 2001.

294 TERRA, 2013, p. 127.

295 Como mencionado, posteriormente Fialho e Glaziou romperam relações quando o francês seguiu sozinho na direção dos trabalhos do Campo de Santana ou da Aclamação.

considerável do mobiliário artístico em ferro fundido resistiu ao tempo e às tendências fugazes para o deleite dos que vivem ou visitam a cidade do Rio de Janeiro. As peças em faiança e louça não tiveram a mesma sorte, dadas as características de seu material, mais frágil e pouco resistente às intempéries.

A fonderie Val D’Osne foi uma das que mais exportou equipamento urbano para os espaços públicos no Brasil, entre o final do XIX e início do XX. Gustave Barbezat adquiriu a fundição artística de Jean Pierre Victor André, a famosa Fundição Val D’Osne, após a morte precoce do seu fundador, em 1855. No Brasil, pesquisas indicam que era conhecida como Companhia Barbezat ou Fábrica Barbezat, no século XIX e em parte do século XX, apesar de ter sido vendida em 1867 para a Fourment e Houillé & Cia. A Fundição denominada, atualmente, de Val D’Osne teve vários proprietários e, consequentemente, variadas denominações durante sua existência: Fundição de Jean Pierre Victor André – fundador e primeiro proprietário; Fundição de Victor André e Mathurin Moreau; posteriormente, Fundição Gustave Barbezat – segundo proprietário; Fundição Fourment e Houillé & Cia – terceiro proprietário; entre 1870 e 1892, sua denominação mudou para Société Anonyme des Fonderies d'Art du Val d'Osne. Em 1931, a Fundição Durenne adquiriu a Val D’Osne, transformando-a em Société Anonyme Durenne et du Val d'Osne. Além destas denominações, muitas vezes era apenas referenciada como Fundição de Haute-Marne. Em muitas peças, ao invés do nome da fundição aparece o do seu escultor: Mathurin Moreau, Louis Sauvageau, entre outros. Estas variadas acepções dificultam os levantamentos históricos a respeito da aquisição e da proveniência das peças, por este motivo é importante não perder de vista estas mudanças em sua denominação e vicissitudes de impressão de autoria nas peças, para entendermos que se trata da mesma fundição.

Nos Jardins Históricos, protegidos ou não por instrumentos de salvaguarda, podem ser encontrados muitos destes equipamentos urbanos importados para o Brasil. Entendemos que o mobiliário dos Jardins Históricos, juntamente com a vegetação e o traçado, são elementos imprescindíveis da composição destes bens culturais. A harmonia entre o traçado, a vegetação cuidadosamente escolhida e o mobiliário nos conta da concepção artística do seu construtor e de sua época.

Nos belos catálogos de divulgação das fundições artísticas, como a Val d’Osne e a Fundição Antoine Durenne, variadas estampas de peças artísticas a serem fundidas em ferro circulavam por países da Europa e da América. O mobiliário urbano das cidades em remodelação seria fortemente influenciado pelas peças fundidas com este material

reproduzidas em larga escala como produto da combinação da indústria e da arte. No Brasil, principalmente a cidade do Rio de Janeiro, será fartamente ornada por estas peças, principalmente nos seus jardins, largos, praças e parques públicos em construção ou remodelação no Segundo Império.

Influenciado pelo espírito da época, o Imperador Dom Pedro II teria adquirido um Chafariz de ferro fundido, medindo 10 metros de altura, constante da Exposição Universal de Viena, em 1873. A autoria é do escultor Mathurin Moreau (1821-1912), um dos principais escultores das Fundições Val D’Osne. Idênticos a este existem mais dois chafarizes, um localizado no Jardim Inglês, em Genebra, Suíça, e outro em Troyes, França. O maior chafariz em ferro fundido, do Rio de Janeiro, foi adquirido para ornar os jardins da Praça Dom Pedro II, aberta ao público no dia 25 de março de 1877, no antigo Largo do Paço. O francês Auguste Marie Glaziou foi o responsável pelo ajardinamento e tratamento urbanístico da Praça D. Pedro II (atual Praça XV), em por volta de 1872. Este chafariz está atualmente instalado em outro local, na Praça Monroe, no Centro da cidade, e é conhecido como o Chafariz do Monroe. Em 1962 ele havia sido transferido da Praça XV para a Praça da Bandeira, em 1978 para a Praça Mahatma Gandhi e, em 2001, foi desmontado, passando por restauro minucioso em 2002. Após o restauro, foi instalado na Praça Monroe e reinaugurado em 2004297.

Francisco Agenor de Noronha Santos escreveu a respeito deste chafariz

monumental na edição de número 10, da Revista do SPHAN, de 1946. De acordo com ele, o

chafariz foi instalado na Praça XV em 1887 (sic), “tipo dos ornamentais que existem nas grandes cidades. (...) à noite se transforma em fonte luminosa, quando necessário, em dias festivos”298. Em 1935, Magalhães Correa no extenso texto a respeito das “Fontes e Chafarizes

do Rio de Janeiro” descreveu este bem como “chafariz monumental do tipo ornamental que existe nas grandes capitais”299. Este chafariz foi tombado pelo IPHAN em 21/02/1990 e inscrito

no Livro das Belas Artes, em 21/02/1990 (Imagens 46 e 47).

Outro chafariz, oriundo da mesma fundição chegou à capital da Bahia mais de uma década antes deste do Rio de Janeiro. O chafariz em ferro fundido do Terreiro de Jesus foi encomendado em 1853, pela Companhia do Queimado, concessionária para o abastecimento

297 OLIVEIRA, Vera Dias, abril de 2015. 298 SANTOS, 1946, p. 52.

de água em Salvador, a partir de 1853. Ele teria chegado da França em 1857 quando da inauguração do Sistema do Queimado, para uso da população da cidade300.

Imagem 46: Catalogue Val d'Osne Vasque T. Álbum n° 2 pl. 555 n° 19.

Escultor: Mathurim Moreau, 1861. Fonte: e-MONUMEN. http://migre.me/avBAv. Acesso em

agosto de 2012.

Imagem 47: Fotógrafo Augusto Malta. Praça XV de Novembro. Rio de Janeiro. 1906. Acervo Instituto Moreira Salles. Atual Chafariz da Praça Monroe –

RJ.

O chafariz era proveniente diretamente das Fundições Val D’Osne, conforme consta do Catálogo da Fundição de número 2, Vasque T, PL. 554. A estátua de Vênus Genitrix que paira tendo o chafariz como pedestal, consta do mesmo catálogo gravura PL. 575, n° 139. Foi fundido em 1855, pelo escultor Mathurim Moreau. Ao redor do pedestal estão colocadas quatro figuras seminuas, sendo dois homens e duas mulheres, que representam os quatro principais rios da Bahia: Jequitinhonha, Paraguaçu, Pardo e São Francisco. No topo encontra-se uma escultura da deusa Venus Genitrix. O chafariz do Terreiro de Jesus possui sete metros de altura e está assentado em uma base de mármore circular, com 15 metros de circunferência. Ele aparece em imagem de Charles Ribeyrolles (1812-1860), no seu Brazil pittoresco: álbum de

vistas, panoramas, monumentos, costumes, etc., impresso em 1861, além de constar nas

fotografias feitas por Benjamin Robert Mulock, quando esteve em Salvador entre 1859 e 1861.

300 SILVEIRA, 2009, p. 81.

Imagem 48: O Terreiro de Jesus, fotografia tirada em albúmen por Victor Frond, em ca. 1857. Com o chafariz da Val D’Osne recém

instalado.

Imagem 49: Fotografia de 1862, de Camillo Vedani, mostra o Terreiro de Jesus com o chafariz da Val D’Osne cercado por grade e postes de iluminação

em ferro fundido. Árvores foram plantadas no entorno da praça.

Imagem 50: Praça XV de Novembro, Catedral e Academia de Medicina. Salvador/BA. Postal. N.º 16, J. Mello, Bahia, [c.1905]. O chafariz da Val D’Osne encontra- se no centro da praça que foi urbanizada com vegetação de pequeno porte e bancos,

as árvores da imagem anterior não aparecem.

Imagem 51: O Terreiro de Jesus em fotografia por volta de 1940, tirada da Catedral Basílica. O chafariz da Val D’Osne encontra-se no centro da

imagem. Bondes circulam pelo lado direito da imagem. As árvores, crescidas, proporcionam

sombra e um cenário agradável.

As imagens 48 a 51 são emblemáticas por mostrarem as transformações ocorridas num mesmo logradouro público nas últimas décadas do século XIX e início do XX, no entorno do mencionado Chafariz. Do chão batido do largo em frente à Catedral Basílica de Salvador ao

square gradeado e ornado com elementos em ferro fundido, o atual Terreiro de Jesus passou

por profundas transformações urbanísticas e paisagísticas acompanhando as mudanças e os modismos ocorridos na própria cidade. Normalmente os ornatos como pontes, chafarizes, coretos, entre outros, eram utilizados para compor os logradouros públicos e não o contrário como parece ter acontecido especificamente com este chafariz de Salvador.

Os chafarizes cumpriam dupla função para as cidades do período: a de ser útil para o abastecimento d’água e embelezar. A água, por sua vez, é elemento fundamental de qualquer patrimônio paisagístico. Este chafariz teria sido uns dos primeiros da Val D’Osne instalado no Brasil. Depois dele, uma série de outros chafarizes e fontes, bem como diversificado mobiliário urbano, ornaram os espaços públicos das maiores capitais brasileiras. No entanto, a cidade do Rio Janeiro foi a que recebeu número expressivo destes equipamentos urbanos, seguida, possivelmente, pela cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Apenas da Fundição Val D’Osne chegaram aos nossos dias cerca de duzentas peças localizadas em lugares públicos e privados da cidade (RJ), conforme levantamentos realizados pela Fundação de Parques e Jardins do Rio de Janeiro, em parceria com a Association pour la Sauvegarde et la Promotion du Patrimoine

Métallurgique Haut-Marnais. É, também, no Rio de Janeiro onde se encontra a maioria dos

Jardins Históricos protegidos por instrumento legal no Brasil, como veremos adiante.

A aquisição do mobiliário ficava a cargo de cada concessionária responsável pela obra específica. No caso do chafariz do Terreiro de Jesus, em Salvador, a Companhia do Queimado realizou a compra diretamente na Val D’Osne. O mesmo ocorreu com Francisco Fialho e Auguste Glaziou, responsáveis pela reforma do Passeio Público do Rio de Janeiro (1861), conforme consta das remessas recebidas por este último dos Portos da França e publicadas periodicamente nos jornais do Rio de Janeiro. Para Glaziou, chegavam numerosos volumes de “Ferragens”, vindas do Havre. Não havia especificação do que seriam estas ferragens e nem o fornecedor. Possivelmente, eram as peças desmontadas do mobiliário dos jardins em remodelação e/ou construção pelo paisagista francês.

Além da importação de ferro fundido da França, veio para o Brasil considerável ornatos em faiança de Portugal. Em pesquisas realizadas por João Pedro Monteiro (2009), no Museu Nacional do Azulejo, de Lisboa, descobriu-se que em 1826 foi realizada uma grande encomenda de “estatuas, grupos e vasos” para a Imperial e Real Quinta da Boa Vista ou Quinta de São Christóvão, no Rio de Janeiro. A encomenda foi feita à Real Fabrica de Louça ou Fábrica do Rato (1767-1835), instalada em Lisboa. A produção fabril de peças em louça, principalmente de prataria, iniciou-se em Portugal na Real Fábrica do Rato301. A Fábrica do

Rato foi uma das primeiras fábricas portuguesas a produzir esculturas de cerâmica representando divindades ou personagens da mitologia e cultura greco-romana para jardins ou espaços exteriores no período compreendido entre 1781 e 1816, sob a administração de João

301 PAIS, 2012.

Anastácio Botelho de Almeida302. Os artefatos, encomendadas pelo próprio Imperador D. Pedro

I (1798-1834), ornaram os jardins da Quinta Imperial. Eram ornatos para arquitetura: coroamento de fachadas e muros e esculturas vasos, jardineiras para jardins. Por volta de 1880 estas peças estavam instaladas no Jardim das Princesas, um jardim privado de uso das damas da Quinta Imperial.

O Imperador, possivelmente, se inspirou nas Casas Senhoriais, nas Quintas e nos jardins dos palácios reais de Portugal, tais como os jardins do Palácio Nacional de Queluz, considerado um museu a céu aberto e localizado entre Lisboa e Sintra, concebidos por José Van del Kolk e, posteriormente, por Jean-Baptiste Robillion em meados do século XVIII. Nos jardins do Palácio de Queluz foi construído um Canal dos Azulejos, de 110 metros de comprimento, além de inúmeras esculturas, bustos e vasos em chumbo, pedras e mármore, adquiridas na Holanda e na Itália que se encontram espalhadas pelo jardim. O Canal dos Azulejos foi construído em 1756, com revestimento azulejar de autoria de João Nunes de Oliveira (1756) e de Manuel da Costa Rosado (1775-1776). O muro do Canal é coroado por vasos de faiança azul e branca, produzidas originalmente na Real Fábrica do Rato, em 1784, as réplicas atuais foram produzidas na Fábrica Viúva Lamego, para reformas realizadas no século XX.

É necessário que se faça uma ressalva. A fábrica do Rato não pode ser tomada como exemplo da produção industrial em larga escala que a sucedeu, dadas as suas características produtivas e abrangência. Ela representa a produção artística de peças em faiança, cerâmicas e ornamentos para jardins numa fase que antecedeu à grande produção industrial das fábricas do Porto e de Vila Nova de Gaia.

A pesquisadora portuguesa Ana Margarida Portela Domingues, em sua tese de doutorado em que pesquisou a ornamentação cerâmica na arquitetura do Romantismo em Portugal, em 2009, relatou que:

Na época em que surgiram as primeiras estátuas de faiança esmaltada para decoração de jardins portugueses, dificilmente estas poderiam generalizar-se a todos os jardins privados e nem sequer substituíam as estátuas de pedra dos espaços mais solenes. Em finais do século XVIII e início do XIX, para além de jardins de palácios e alguns solares, assim como cercas de alguns conventos, as estátuas em pedra foram utilizadas em Portugal também no coroamento de alguns edifícios. Na linha do que já sucedia desde o Renascimento, estes

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edifícios eram sobretudo os mais eruditos, os mais dispendiosos, associados ao poder régio, fossem palácios ou igrejas303.

As estátuas de coroamento das fachadas, aludidas pela pesquisadora portuguesa, também podem ser encontradas no Brasil. Em desenho de 1831, de Thierry Frères, do acervo da Biblioteca Nacional Brasileira há uma imagem do Palácio da Quinta de São Christóvão onde se vê estátuas no coroamento da fachada. Não é possível afirmar qual o material foi utilizado nestas estátuas, é bem provável, pelo período, que fossem de pedra ou cantaria.

A fonte representada em frente ao Palácio aparece em imagens até a década de 1860, depois desaparece completamente (imagem 53). Possivelmente foi demolida com a reforma empreendida por Glaziou e a construção do Parque da Boa Vista.

Imagem 52: Gravura Thierry Frères. Améliorations progressives du Palais de St.

Christophe: (Quinta de Boa Vista); depuis 1808, jusq’en 1831. Acervo Digital BN.

Imagem 53: Paço de São Christóvão com a fonte e o portão. La pedreira a Rio de Janeiro:

prise de St. Christophe. Litografia de Louis- Julien Jaccottet (1806-1880). Acervo digital da

BN.

No ano de 1879 aconteceu, no Rio de Janeiro, uma grande Exposição de Produtos Portugueses sob a direção de Luciano Cordeiro, a partir da qual foi publicada uma Revista onde foram reunidos os dados sobre a história da exposição com documentos oficiais, a descrição dos objetos expostos e a repercussão na imprensa. Antônio de Almeida Costa & Cia., da