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1. O TRABALHO A SAÚDE E O DIREITO AO DESCANSO

2.2 O Dano Existencial

2.2.2 Elementos do dano existencial

Pode-se ainda notar que o dano existencial influencia negativamente nas expectativas de desenvolvimento pessoal, profissional e familiar do indivíduo, deixando de existir a fonte de gratificação que é essencial para a sua liberdade de escolha e modificando o seu destino. As suas características podem ser as seguintes:

Os sacrifícios, as renúncias, a abnegação, a clausura, o exílio, o prejuízo do cotidiano, uma interação menos rica do lesado com as outras pessoas, coisas e interesses, provisórios ou definitivas, todos esses elementos constituem o dano existencial (SOARES, 2009 p. 47).

Desta maneira, para que aconteça uma responsabilidade civil é preciso que exista algum tipo de prejuízo, ação ilícita do indivíduo agressor, e ainda o nexo de causalidade. No tocante do conceito de dano existencial, entretanto, este necessita também de mais dois requisitos, sendo estes, o dano ao projeto da vida e o dano à vida de relações (BOUCINHAS FILHO; ALVARENGA, 2013).

Salientando ainda que o prejuízo causado ao projeto de vida deve ser entendido como aquele que elimina as metas e os objetivos de maior relevância para a auto realização.

As palavras de Frota (2013) lecionam ainda que esse tipo de dano pode acontecer assim:

Por meio do qual o indivíduo se volta à própria autorrealização integral, ao direcionar sua liberdade de escolha para proporcionar concretude, no contexto espaço-temporal em que se insere, às metas, objetivos e ideias que dão sentido à sua existência (FROTA, 2013 p. 63).

Os estudos de Frota (2013) ainda lecionam que a forma de como uma pessoa opta por levar a sua vida, o caminho determinado para ser traçado, procurando e atingindo os sonhos esperados, compreendendo assim como um projeto de vida. Como uma peculiaridade própria do ser humano, procura então sugar o máximo de sua potencialidade. Sendo assim, os indivíduos fazem uma projeção, todos os dias, do seu futuro e ainda fundamentam as suas opções no sentido de proporcionar um sentido e administrar a sua existência à realização do projeto de vida.

Desta forma, por mais individual que possa ser a fundamentação do projeto de vida, esse está envolto por diversos fatores externos que podem influenciar na escolha pessoal, podendo assim resultar na construção do projeto de vida que possua motivação por conta da vivência simultânea de todas as outras pessoas em um determinado instante histórico. É vivendo com os indivíduos que se encontram no seu meio social que o sujeito é capaz de construir a sua personalidade e também amadurece como ser humano, podendo ainda incorporar algumas experiências e garantindo a existência de um sentido para a sua vida.

Sendo assim, com o intuito de que seja concretizado o projeto de vida, não é o suficiente existir como um ser individualizado. Com essa concepção, os estudos de Hildemberg Alves da Frota e Fernanda Leite Bião (2010) lecionam assim:

O projeto de vida espelha, em outros termos, as relações do ser com a sua ambiência e seu lugar sociocultural (mundo circundante), as relações que estabelece, seja em casa, junto aos familiares, seja nos espaços sociais (mundo humano), e a relação perante si mesmo (mundo próprio). Assim, compartilhando-se o cotidiano, as experiências, os projetos e os objetivos comuns, no respectivo contexto

sociocultural, o indivíduo é chamado a construir, de forma realista, sua própria história vivencial (FROTA e BIÃO, 2010 p. 180).

Ressaltando ainda que o prejuízo à vida de relações deve se fundamentar através de uma ofensa física ou psíquica, total ou parcial, impossibilitando assim que um determinado indivíduo possa conseguir desfrutar dos prazeres que são proporcionados através das atividades relaxantes, tal como praticar esportes, fazer viagens, ou seja, toda e qualquer atividade que tenha a capacidade de reativar e renovar as energias do trabalhador. Esta referida ação pode prejudicar diretamente o seu estado de ânimo e, consequentemente a isso, o seu relacionamento social e profissional também ficam prejudicados. Podendo ainda ser evidenciada uma dificuldade em poder se relacionar com as outras pessoas que são parte integrante do mesmo meio.

Ainda se fundamentando nas palavras de Frota (2013), o prejuízo à vida de relação pode ser:

Diz respeito ao conjunto de relações interpessoais, nos mais diversos ambientes e contextos, que permite ao ser humano estabelecer a sua história vivencial e se desenvolver de forma ampla e saudável, ao comungar com seus pares a experiência humana, compartilhando pensamentos, sentimentos, emoções, hábitos, reflexões, aspirações, atividades e afinidades, e crescendo, por meio do contato contínuo (processo de diálogo e de dialética) em torno da diversidade de ideologias, opiniões, mentalidades, comportamentos, culturas e valores, ínsita à humanidade (FROTA, 2013 p. 65).

Ademais, esse tipo de dano acaba prejudicando o ser humano no que diz respeito às opções pessoais ou profissionais, isso porque ele fica impossibilitado de se relacionar com os seus familiares, seus amigos e toda a comunidade que constitui a sociedade civil.

Os dizeres de Almeida Neto (2012) lecionam assim sobre o assunto:

O homem necessita se relacionar em sociedade, praticar atividades recreativas para suportar as pressões externas do cotidiano. São essas atividades que propiciam o bem estar físico e psíquico da pessoa, favorecendo a sua capacidade não somente de continuar exercendo seu trabalho, a sua profissão, como aumentar as suas chances de crescer, de ascender melhores postos e, com isso, aumentar os seus rendimentos. [...]

Por dano à vida de relação, ou dano à vida em sociedade, portanto, se indica a ofensa física ou psíquica a uma pessoa que determina uma dificuldade ou mesmo impossibilidade do seu relacionamento com terceiros que causa uma alteração indireta na sua capacidade de obter rendimentos. Assim, por exemplo, [...] a divulgação de notícias difamatórias infundadas que acarretam humilhação e depressão; acidentes graves que acarretam síndrome do pânico ou problemas na fala (ALMEIDA NETO, 2012 p. 22).

Segundo as informações apresentadas, fica claro que o cansaço e o desânimo influenciam negativamente o relacionamento social e profissional, resultante de uma falta de atividades recreativas e extralaborativas que podem proporcionar uma trégua para a vida muito corrida que um labor profissional proporciona. Todas as horas extras, a quantidade muito elevada de serviço, pequenos momentos de descanso e inúmeras outras razões podem diminuir as possibilidades de desenvolvimento da carreira profissional de um indivíduo, em seu ganho financeiro, e por consequência disso, acaba influenciando negativamente também na vida do trabalhador. Sendo assim, por conta do labor não é possível ser tratado somente como uma prestação de serviço danosa que produz uma gratificação salarial no fim dos meses, não medindo esforços, entretanto o profissional precisa possuir um tempo para o seu lazer e descanso, podendo assim proporcionar mais força para o seu ânimo, começando então cada dia uma nova jornada de trabalho.

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