Em relação à Sustentabilidade Corporativa (e Responsabilidade Social Corporativa), o trabalho entra como uma das questões fundamentais, porém por motivos distintos. Um dos objetivos da Sustentabilidade Corporativa é a introdução do discurso do desenvolvimento sustentável no ambiente corporativo, em que ganham força os movimentos para um maior cuidado com os trabalhadores. Além de atender às legislações trabalhistas nacionais, espera-se das empresas a introdução proativa de políticas para melhorar as práticas de trabalho e para eliminar definitivamente as ameaças aos direitos dos trabalhadores. Outro aspecto é relacionado à tendência nos últimos anos em garantir a sustentabilidade, em particular, a ambiental. Por esses aspectos, os trabalhadores e seu trabalho são considerados fundamentais para a sustentabilidade.
Porém, a introdução de SC nas organizações muitas vezes é relacionada a motivações econômicas, sendo os objetivos do desenvolvimento sustentável moldados em função de objetivos empresariais. Com tal visão, a introdução dessa temática nas políticas corporativas visa alinhar o discurso da sustentabilidade com necessidades específicas da própria empresa, uma vez que privilegiam o objetivo econômico em detrimento de objetivos das dimensões social e ambiental. Disso podem resultar ações que não estejam de acordo com os conceitos do desenvolvimento sustentável, como é o caso da utilização do discurso da sustentabilidade com a intenção principal de maximização dos aspectos econômicos (ex.: melhorar parcialmente a imagem corporativa, ocultando exemplos de não sustentabilidade ou de externalidades negativas provocadas por essa pseudo sustentabilidade). Essas ações também impactam o trabalho e os trabalhadores.
Entretanto, quando se coloca o trabalho como questão central, é possível salientar pelo menos duas categorias para a relação entre trabalho e sustentabilidade (Figura 14). A primeira categoria, denominada o “trabalho para a sustentabilidade”, está relacionada com as ações que envolvem o trabalhador como responsável para garantir a sustentabilidade.
Figura 14: A responsabilidade corporativa sobre o trabalho. Fonte: adaptado de (BOLIS; MORIOKA; SZNELWAR, 2013).
Tanto o referencial teórico quanto os estudos de caso indicaram diversas práticas relacionadas a essa categoria, com ações de capacitação, ações de sensibilização, códigos de conduta e comitês de ética. Por exemplo, é possível destacar os códigos de conduta corporativos (BÉTHOUX et al. 2007) que descrevem, principalmente, ações que os trabalhadores devem executar, a fim de manter ou garantir a sustentabilidade ambiental, bem como o incentivo à realização de ações externas, como é o caso do trabalho voluntário e incorporação das práticas de sustentabilidade na sua vida pessoal. Verifica-se, então, a importância de considerá-lo como protagonista da ação e, sobretudo, promotor dessa sustentabilidade. Consequentemente, integrar a dimensão social nessa análise é um elemento essencial para o contexto de sustentabilidade.
Quando processos mais sustentáveis são projetados, segundo a dimensão ambiental e econômica, há novas demandas às quais os trabalhadores precisarão atender, sendo necessário compreender e considerar, no momento do projeto, as implicações dessa nova realidade para os mesmos. Independentemente das características que serão otimizadas e por mais automatizado que seja o novo processo, sempre haverá um novo trabalho a ser realizado, com novos conteúdos, desafios e restrições, em que o trabalhador precisa “dar conta”, isso é, precisa “doar de si” para garantir o sucesso da produção.
A segunda categoria, denominada a “sustentabilidade do trabalho” (sob a perspectiva do trabalhador), está relacionada com as ações que envolvem o
trabalhador como foco da sustentabilidade. Como identificados nos estudos de caso e no referencial teórico, há muitas ações relacionadas a essa categoria, como condições de trabalho, saúde e segurança no trabalho, desenvolvimento humano e bem-estar.
Em particular, um tema mencionado nos estudos de caso quanto ao que seria um trabalho sustentável, foi o fato de, no limite, “levar à felicidade”, “dar prazer”, “fazer sentido”, “ter significado”, devendo ser estabelecido em uma relação ganha- ganha entre o trabalhador e a empresa. Outro ponto de destaque foi a importância de uma visão de saúde integral em todos os sentidos, tanto dentro como fora do ambiente de trabalho.
Entretanto, pouco se mencionou sobre a importância que a organização do trabalho pode ter nesse sentido, tampouco o conteúdo do trabalho. Em geral, as questões individuais (momento de vida, histórico familiar, valores individuais, etc.) e a responsabilidade do líder para manter o equilíbrio do ambiente de trabalho se sobrepuseram à consideração das implicações da organização do trabalho, tornando-as invisíveis. Essas questões serão mais discutidas no próximo capítulo.
Deve-se salientar que as ações das empresas são norteadas por diretrizes de sustentabilidade que, por sua vez, são fundamentadas em documentos de sustentabilidade, que indicam a consideração do tema trabalho. Dessa forma, trabalho e sustentabilidade se relacionam em uma evolução crescente e muito já se abordou sobre questões gerais do trabalho, como já estabelecido nas considerações da OIT e, mais especificamente, no conceito de trabalho decente.
Em particular, os conceitos presentes nesses documentos, que são direta ou indiretamente relacionados com trabalho, são a centralidade do ser humano, a interdependência das dimensões (no sentido de identificá-la para evitar externalidades negativas), cooperação, desenvolvimento humano, qualidade de vida, equilíbrio entre vida profissional e pessoal, padrões sustentáveis de produção e consumo, direitos humanos, vida saudável e produtiva, soluções ganha-ganha- ganha.
Considerando-se que o trabalho é a fonte da sustentabilidade, faz-se necessário que as áreas da empresa atuem de forma integrada para projetar sistemas de trabalho em uma perspectiva de sustentabilidade corporativa,
compreendendo que as ações que acontecem em ambas as categorias - trabalho para a sustentabilidade e sustentabilidade para o trabalho - precisam ser consideradas em uma visão mais integrada e ampla.