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Alguns autores consideram que no século XX o movimento ambientalista deu início à sustentabilidade, sendo o livro ‘Primavera Silenciosa’ (CARSON, 1962) um dos marcos da sua origem e, mais adiante, das teorias de sustentabilidade com foco eminentemente ecológico Esse movimento questiona, por exemplo, o direito de propriedade frente ao planeta, tratando-o como se fosse uma mercadoria (LEOPOLD, 1949), agindo de maneira exploratória e sem preocupações com as consequências para a sua preservação. Mais adiante, Meadows (1972) propõe o conceito de capacidade de carga (carrying capacity), questionando a questão do crescimento (da população) dentro de um sistema fechado (planeta). Mesmo explorando questões ambientais, enfatiza a necessidade de uma sociedade baseada na igualdade e na justiça.

Mas, mesmo ainda não sendo unânime, a construção de um novo paradigma se estabelece, focado principalmente na questão do consumo atual da sociedade em todos os aspectos, tanto energético quanto de bens e serviços. McKibben (2007) aborda a questão de forma geral, procurando retirar a relação proporcional entre quantidade e qualidade, afirmando que “mais não é sempre melhor”. Ao mesmo tempo, Robèrt (2002) também propõe uma nova forma de se relacionar com os recursos naturais, evidenciando a necessidade de mudança de atitude coletiva frente aos recursos do planeta. Starik e Rands definem sustentabilidade ecológica como sendo a “capacidade de uma ou mais entidades, individualmente ou coletivamente, existir e prosperar (ou inalterado ou em formas evoluídas) por longos períodos de tempo, de tal forma que a existência e a prosperidade de outras

coletividades de entidades são permitidas considerando sistemas relacionados”, já apresentando uma visão sistêmica entre coletivos.

Indo mais adiante, há autores que argumentam a necessidade de uma visão sistêmica (CAPRA, 1982; LASZLO, 2006) para compreender e solucionar os desafios atuais. Não são raros os autores que mencionam, por exemplo, a necessidade da humanidade se considerar interconectada e interdependente com a natureza (BERRY, 2006). Entretanto, argumentam que parte dessa visão foi tolhida pela especialização das áreas do conhecimento (FULLER, 2008), dificultando a compreensão da inter-relação dos diferentes conhecimentos. Assim, novas formas de pensamento surgiram em contraponto às tradicionais. Por exemplo, podemos citar a visão cartesiana (modelo em que causa e efeito estão diretamente relacionados com a soma das partes resultando no todo) para a análise de problemas sendo substituída pelo o enfoque da visão sistêmica (o todo não é necessariamente a soma das partes); e a ecologia rasa (desprovida da inserção do homem no meio ambiente) sendo colocada em xeque com ecologia profunda (o homem inserido no meio ambiente) (CAPRA, 2002).

Além disso, há ainda as abordagens econômicas relacionadas com sustentabilidade, traduzidas pela sustentabilidade forte e fraca, ou pela economia ecológica e do meio ambiente, termos muitas vezes considerados como sinônimos, sendo que “talvez o principal debate teórico em economia tem sido sobre sustentabilidade forte e fraca” (SCHALTEGGER; BURRITT, 2005, p. 187). O ponto principal dessas teorias está relacionado com a consideração de potencial de substituição entre diferentes formas de capital (ver, por exemplo, NORTON; TOMAN, 1997; STERN, 1997). Considera-se desenvolvimento como sendo sustentável quando, segundo a regra do capital constante, se garanta estoques de capital constantes ou, pelo menos, os serviços de capital constantes, ao longo do tempo (FIGGE; HAHN, 2004, p. 174). Na sustentabilidade fraca todas as formas de capital são substituíveis, de modo que qualquer perda de uma espécie de capital pode ser substituído por outras formas de capital (ver, por exemplo, CABEZA, 1996; PEARCE; ATKINSON, 1993).

Segundo Kleine e von Hauff (2009, p. 520), “capital econômico, por exemplo, consiste de capital financeiro (capital próprio, os passivos), de capital tangível (equipamentos ou imóveis), e capital intangível (conhecimento, processos

organizacionais, marca, reputação, etc.), que é difícil de quantificar. Capital ecológico inclui os subtipos de recursos naturais (renováveis e não renováveis) e serviços prestados pelo ecossistema. O capital social refere-se à segurança, à coesão social, ou à identidade cultural dos seres humanos”.

Mais recentemente, dentre os novos modelos de economia, um que se destaca é a economia verde (green economy), sendo colocado que a qualidade do ambiente tem impacto no desempenho da economia. Pearce et al. (1989) consideram que deve ser atribuído um valor econômico aos ativos e serviços ambientais – os serviços do ecossistema – afirmando que eles não são gratuitos. Em outra lógica, que também busca aproximar ambiente e economia, Hawken (1994) argumenta que a saúde ambiental pode impulsionar a saúde da economia de longo prazo.

Considera-se o ano de 1972 um grande marco para o que mais tarde seria denominado Desenvolvimento Sustentável. Na Conferência de Estocolmo de 1972 (United Nations Conference on the Human Environment), chefes de estado e organizações mundiais passaram a vislumbrar a questão do meio ambiente como uma problemática em nível global, necessitando, para tal, um envolvimento e um comprometimento na mesma proporção para encontrar as soluções necessárias. Assim, um novo paradigma econômico vem à tona, requisitando a inclusão dos custos ambientais para as decisões que envolvam crescimento econômico, envolvendo, inclusive, questões ambientais e sociais. Uma contribuição relevante dessa conferência foi a criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA (ou United Nations Environment Programme – UNEP). Apesar de não ter aceitação unânime, começa a ser construída então, a partir da década de 1980, uma racionalidade voltada para a lógica do desenvolvimento, que passou a ser denominada desenvolvimento sustentável.

“Desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades.” (WCED, 1987).

Com isso, dentre muitas ações, novas formas de interagir com o meio ambiente passaram a vigorar nas legislações de diversos países, envolvendo a questão do uso racional de recursos naturais e a preservação do meio ambiente. Certificados ambientais foram criados e diversas empresas se mobilizaram para atender a essa nova exigência global e, principalmente, a de seus mercados

consumidores. Mais adiante, ainda no final do século XX, a discussão à luz da sustentabilidade passa a envolver também questões sociais, não ficando mais restrita às questões ambientais. Agora, além da dimensão ambiental, legitima-se explicitamente a necessidade de associar também a dimensão social ao crescimento econômico, abordando-se aspectos relativos à certificação, autorregulação, premiação e padronização.

“Atualmente, DS é um conhecido modelo de orientação da sociedade que demanda a integração de questões econômicas, sociais e ambientais em todas as esferas da sociedade em curto e longo prazo. Por conseguinte, o conceito deve ser perseguido por todos de diferentes maneiras”. (STEURER et al., 2005, p. 264).

Por outro lado, segundo Lélé (1991, p. 607), “desenvolvimento sustentável está em real perigo de se tornar um clichê [...] - uma frase da moda que todo mundo presta homenagem, mas ninguém se preocupa em definir. [...] Há aqueles que acreditam que não se deve tentar definir Desenvolvimento Sustentável muito rigorosamente. Em certa medida, o valor da expressão se encontra na sua ampla imprecisão”, sendo que Banerjee (2003) afirma que a definição de desenvolvimento sustentável está mais para um slogan do que para uma definição. Além disso, “alguns dos principais pontos de consenso parece prevalecer, como o objetivo de criar um desenvolvimento em direção a melhor qualidade possível de vida por um período indefinido de tempo que pode ser estendido para todo o globo. Dado este objetivo universal, não é surpreendente que o termo tornou-se uma frase popular que ‘tudo cabe’ (‘catch-al’)“ (SCHALTEGGER; BURRITT, 2005, p. 187).

Ainda assim, desenvolvimento sustentável apresenta diversas definições (PEZZEY, 1992), mas Schaltegger e Burritt (2005, p. 186) afirmam que “em uma visão global sustentabilidade envolve a expectativa de uma sociedade pacífica com equidade e justiça social e prosperidade econômica em um ambiente limpo” – em geral denominada abordagem TBL. Seus princípios estão pautados em integridade ambiental, prosperidade econômica e equidade social (ELKINGTON, 1998; WCED, 1987). Em particular, o princípio de equidade social assegura igual acesso aos recursos e oportunidades para todos os membros da sociedade. De forma mais abrangente, coloca em evidência a satisfação das necessidades presentes e futuras (WCED, 1987), que inclui, além das necessidades básicas, como alimentação, vestimenta, moradia, também uma boa qualidade de vida, com assistência médica, educação e liberdade política (BANSAL, 2005; UNCED, 1992b).

Martens (2006), ao estudar os elementos comuns presentes nas definições de desenvolvimento sustentável, identificou as seguintes similaridades:

 Consideração da temporalidade: as ações da geração atual criam ou restringem as oportunidades das próximas gerações;

 Consideração das múltiplas escalas de análise e interdependência entre si: ações locais têm efeitos regionais e potencialmente globais; e

 Consideração integrada das várias dimensões: no caso, pelo menos, a ecológica, a social e a econômica.

De forma semelhante, Gladwin et al. (1995, p. 878) coloca como componentes do desenvolvimento sustentável os seguintes elementos:

 Inclusão – entre sistemas ambientais e humanos, entre próximos e distantes, entre presente e futuro;

 Conectividade dos problemas do mundo, sendo que são interconectados e interdependentes;

 Equidade, de forma a prover uma distribuição justa dos recursos e direitos de propriedade; e

 Prudência, de forma a ter deveres de cuidado e de prevenção (princípio da precaução, princípio poluidor-pagador).

Schmidheiny (1992) defende a atuação positiva que as organizações podem gerar para um desenvolvimento sustentável, podendo atuar conjuntamente com o governo e a sociedade. A atuação do Desenvolvimento Sustentável no nível da organização – a sustentabilidade corporativa – é o tema que será abordado no próximo item.