Parte 1 – Contextualização
4 Eletricidade, desenvolvimento e modelo de gestão
4.1 Eletricidade e indicadores de desenvolvimento
Durante muito tempo houve uma ligação quase de sinônimo entre eletricidade e desenvolvimento. Diversos indicadores ligados a energia elétrica eram usados para mostrar o estado do desenvolvimento de um país ou uma região: o consumo ou produção de energia elétrica por capita ainda é usado para mostrar o ranking de desenvolvimento de um país.
O uso do consumo de energia como indicador de desenvolvimento (ou progresso) tem sérias restrições. Paz, Silva e Pinguelli Rosa (2006, p. 1562) mostram que a avaliação do crescimento do consumo de energia elétrica como melhoria do desenvolvimento é muito questionável. Primeiro, porque a melhora na distribuição social dos benefícios do desenvolvimento do setor elétrico não acontece numa maneira justa. Segundo, o progresso tecnológico permite uma maior eficiência na operação do sistema, especialmente no consumo final, privilegiando assim países desenvolvidos e grupos sociais de maior poder aquisitivos. Por fim, os autores concluem que uma política efetiva de conservação de energia e eficiência energética permite redução no consumo.
Há diversos estudos em andamento sobre indicadores na área energética que propõem sair dessa visão simplista dos indicadores tradicionais e avaliar a sustentabilidade da energia e que foram publicados recentemente na literatura. Os trabalhos de Athayde, Silvério e Brasil Junior (2001) e de Afgan, Carvalho e Hovanov (2000), apresentam uma metodologia de avaliação que usa um conjunto de indicadores de sustentabilidade sociais, ambientais e econômicas para avaliar o uso de fontes de energia. Maduro Abreu (2004) chega a propor essa metodologia numa comunidade isolada na Amazônia.
A Organização Latino-Americana de Energia (Olade) estabeleceu dez indicadores de sustentabilidade (REIS; SILVEIRA, 2000), numa abordagem muito parecida com o anterior. Os indicadores podem ser divididos em basicamente três grupos: indicadores de dimensão socioeconômica, indicadores sociais e indicadores relativos ao meio ambiente. Dentro dos indicadores socioeconômicos, tem-se a auto-suficiência energética, que avalia a sustentabilidade associada à baixa participação de importação na oferta de energia. Outro indicador socioeconômico apresentado é a produtividade energética, que relaciona o total da produção da localidade contra o total de energia consumida. Esse indicador pode ser importante para avaliar o impacto na economia local com a instalação do sistema alternativo de energia. Os indicadores sociais apresentados pelo Olade medem basicamente a porcentagem de lugares eletrificados e a cobertura das necessidades energéticas básicas. Os indicadores relativos ao meio ambiente apresentados são: a pureza relativa do uso de energia, o uso de energias renováveis e, finalmente, o estoque de recursos fósseis e lenha.
Numa outra linha de pensamento, há o trabalho de Bermann (2002) apresentando indicadores que explicitam relações de sustentabilidade, que envolvem energia e eqüidade, energia e meio ambiente, energia e emprego, energia e eficiência, e energia e democracia.
A Agência Internacional da Energia Atômica (IAEA) apresenta um conjunto de indicadores de energia para o desenvolvimento sustentável que foi elaborado seguido o mesmo quadro conceitual usado pela Comissão de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (IAEA, 2005, p.17). Este conjunto é composto por 30 indicadores, classificado em três dimensões (social, econômica e ambiental) e organizados em 7 (sete) temas e 19 sub-temas. Este conjunto de indicadores representa um primeiro passo de um consenso por cinco agências internacionais: IAEA, ONU, Eurostat, European Environment Agency, International Energy Agency (VERA; LANGLOIS, 2007). Alguns desses indicadores já estão sendo desenvolvidos no Brasil (PEREIRA JR et al, 2008). Estes indicadores apresentados pela
IAEA e os propostos por Bermann permitem avaliar a equidade em relação ao acesso de energia elétrica.
O conjunto de indicadores da dimensão social dos indicadores de energia para o desenvolvimento sustentável do IAEA é apresentado no Quadro 12.
Indicadores de energia para o desenvolvimento sustentável
Tema sub-tema indicador de energia
Equidade disponibilidade Parte de domicílios (ou população) sem eletricidade ou energia comercial ou muito dependente de energia não comercial
acessibilidade Parte da renda domiciliar (familiar) gasto com combustível e eletricidade Disparidade Uso de energia por grupo de renda e seu correspondente composição de
combustível
Saúde Segurança Número de acidentes fatais por energia produzida por cadeia de combustível
Quadro 12 - Indicadores de energia para o desenvolvimento sustentável: Dimensão social Fonte: IAEA, 2005
Os indicadores do IAEA apresentam um avanço, pois mostram um consenso entre os diversos organismos internacionais. Entretanto, acho que o subitem disponibilidade pode esconder a situação das populações rurais dos países do terceiro mundo, pois não faz distinção entre a população urbana e rural. Segundo dados da PNAD de 1997 do IBGE, no Brasil 24,6% dos domicílios rurais não tem acesso aos serviços modernos de eletricidade, e esse número desaparece quando se considera que somente 5,3% dos domicílios no Brasil não tem acesso a energia elétrica (BERMANN, 2002, p. 56).20
A grande desigualdade social no Brasil fica patente nos números apresentados por Paz, Silva e Pinguelli Rosa (2006). Eles mostram a equidade em relação ao uso e acesso de energia a partir da correlação entre consumo e distribuição de renda. Os dados estatísticos apresentados neste artigo mostram de maneira clara a distribuição desigual do setor elétrico brasileiro. Ela mostra que a parcela da população que ganhe mais de sete salários mínimos (9,5% da população) consume 57% da energia elétrica, enquanto 50% da população, que tem renda menor de dois salários mínimos, usa apenas 2% (Ibid, p.1566)
A Figura 11 mostra estes dados da distribuição renda e consumo de energia elétrica
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Figura 11 - Distribuição de renda versus consumo de energia elétrica Fonte: Elaborada a partir de Paz, Silva e Pinguelli Rosa (2006).
Essa constatação não é um fato isolado. Hémery, Debier e Deléage (1993, p.385) mostram que essa desigualdade é mundial. “A unificação e internacionalização dos diversos sistemas energéticos desenvolveram-se de par em par com a inaudita centralização dos excedentes de produção e da renda energética em proveito dos pólos dominantes do espaço planetário, graças à generalização, nesta “banda dourada” do mundo, de modos e de hábitos de desperdício de massa batizadas de ‘obsolescência’”.