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Parte 1 – Contextualização

1 Energia e sustentabilidade

1.4 Eletricidade no Brasil

O homem moderno hoje só tem contato com dois tipos de produtos energéticos: o combustível que ele usa para locomoção ou para cocção e a eletricidade que é fornecida na sua casa por um serviço ininterrupto.

A energia elétrica é um tipo especial de produto energético, pois esconde a sua origem e se apresenta como um produto de consumo, na forma de serviço de energia, fornecido por uma empresa de distribuição de energia.

Há tendência de cada vez mais de substituir processos, que antes eram supridos com outras fontes primárias de energia, pela eletricidade. Essa opção se torna prática para o usuário, no sentido de não ter que se preocupar com a fonte primária de energia. O fornecimento dessa forma de energia é garantido por um sistema de rede elétrica por onde a energia é distribuída, garantido por concessão com caráter de monopólio natural. Essa opção de eletrificar processos leva a algumas distorções, que foram incentivadas pela característica de mercado da energia elétrica e que numa análise mais apropriada, mostra um contra-senso.

A energia elétrica é considerada a forma de energia mais nobre que existe e como tal não deve ser usada em qualquer processo. Eletricidade é produzida por meio de geradores elétricos acionados por motores mecânicos que, por sua vez, recebem sua energia por meio de alguma forma de conversão de energia primária. A eficiência desse processo varia em função da fonte primária e da tecnologia usada. Por tanto, seu uso final mais nobre é para aqueles processos que precisam de movimento, iluminação e comunicação.

A transformação simples de energia elétrica em calor seria no ponto de vista da eficiência da sua transformação um contra-senso. Se fizesse uma análise, levando em consideração critérios ambientais, tería-se muito mais argumentos para condenar essa prática, pois as externalidades do processo de geração de eletricidade normalmente não são embutidas nos custos finais da energia.

Há estudos que mostram que somente o chuveiro elétrico é responsável por pelo menos 24% do todo o consumo final da carga residencial de energia elétrica (ELTROBRÁS- PROCEL, 2007). O consumo residencial de eletricidade foi de 85,8 TWh em 2006 (MME- EPE, 2007a). Ou seja, o chuveiro foi responsável por 20 TWh que corresponde a 5% do consumo anual de eletricidade no Brasil.

Essa distorção tem sua origem nas características do mercado. A despeito de diversas outras opções tecnológicas, como por exemplo, GLP, gás natural e solar térmica, não há participação significativa dessas alternativas ao chuveiro elétrico no mercado. 4

Isso pode ser compreendido também pelo relativo baixo custo da eletricidade, devido ao seu forte componente de hidroeletricidade. A matriz energética do Brasil, comparada com o quadro internacional, tem uma participação significativa da hidroeletricidade. Atualmente a

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O custo de aquisição de um chuveiro elétrico é em média de R$ 15 reais. Assim não há como concorrer com as outras alternativas que tem um custo de aquisição pelo menos 20 vezes maior que o chuveiro elétrico.

energia hidráulica e eletricidade representam 14,8% do toda a oferta interna de energia em 2006 no Brasil, como mostrado na Figura 2. No mundo essa a participação não passa de 2,2% (MME-EPE, 2007a, p. 22).

A geração da eletricidade no Brasil é garantida basicamente com grandes usinas hidrelétricas (UHE) e termoelétricas (UTE), que são responsáveis por respectivamente 75,46% e 20,78% da produção nacional. A Tabela 1 mostra a distribuição da geração de energia elétrica por fontes.

Tabela 1- Distribuição da geração de energia elétrica por fontes em 2008

Geração de Energia Elétrica fiscalizada em 2008 Empreendimentos Mil kW ou (MW) Porcentual

UHE Usina Hidrelétrica de Energia 159 75.024 74,45

UTE Usina Termelétrica de Energia 1.008 21.496 21,33

CGH Central Geradora Hidrelétrica 220 115 0,11

EOL Central Geradora Eolielétrica 16 247 0,25

PCH Pequena Central Hidrelétrica 295 1.877 1,86

UTN Usina Termonuclear 2 2.007 1,99

SOL Central geradora solar fotovoltaica 1 0,02 0,00

Total 100.765 100

Fonte: Banco de Informação de Geração da Aneel disponível em: <http://www.aneel.gov.br> acesso em: março 2008

Para entender a hidroeletricidade no Brasil e os seus desdobramentos, é necessário fazer uma breve revisão da sua história.

A primeira utilização de hidrelétrica no Brasil foi em 1883 em Diamantina-MG, no Ribeirão do Inferno, para uma mina de diamantes. As centrais hidrelétricas surgiram para suprir as necessidades de serviços públicos de iluminação e para atividades econômicas ligadas a mineração, fábrica de tecidos, serrarias e beneficiamento de produtos agrícolas (TIAGO FILHO, 2003, p.184).

Um exemplo documentado na literatura mostra como foi a introdução da hidroeletricidade no Nordeste do Brasil. A companhia Agro-Fabril Mercantil liderada por Delmiro Gouveia instalou uma usina hidrelétrica no distrito de Pedras Município de Água Branca no extremo oeste de Alagoas em 1914. A pequena usina hidrelétrica tinha uma potência instalada de 1MW para alimentar uma fábrica de linhas de costura. Esse empreendimento e o seu trágico fim provocado pela concorrência de uma multinacional mostra um dos episódios mais interessantes da industrialização do Brasil no inicio do século XX (AZEVEDO, 1989, p.29).

Durante as primeiras décadas de 1900 a presença do Estado no setor elétrico era mínima. O setor era composto principalmente por empresas privadas e com a mínima

interconexão de sistemas. A instituição do código das águas em 1934 foi o primeiro marco regulatório do setor. Todo o uso de recursos hídricos, independentemente da propriedade da terra, só poderia ser realizado mediante concessões emitidas pelo Governo Federal.

Entretanto, a presença de investimentos públicos não era muito relevante até os anos 1950 e somente depois de 1964 a expansão do setor público foi consolidada com a incorporação e nacionalização das empresas privadas (MOTA, 2003).

Houve uma divisão de empresas geradoras e distribuidores, onde os geradores eram estatais federais, (Eletrobrás, Eletrosul, Eletronorte etc.) e as distribuidoras empresas subordinado ao governo de estado.

A decisão de separar a distribuição e geração como responsabilidade da união e estados na época foi definição de estratégia política para garantir a participação do Estado no setor elétrico.

Apesar da mudança do modelo, alguns municípios mantiveram a autorização de continuar explorando o potencial hidroenergético e realizar a distribuição de eletricidade. Um desses municípios, Poços de Caldas, situado no Estado de Minas Gerias, atualmente opera sete Pequenas Centrais Hidrelétricas e foi destacado pela Aneel em 2002 como uma empresa com melhor índice de satisfação ao consumidor. O Departamento Municipal de Eletricidade de Poços de Caldas ainda é reconhecido por sua competência na construção e gestão de PCH’s.5

O modelo de desenvolvimento implementado na segunda metade do século XX no Brasil induziu às grandes obras de infra-estrutura que marcaram essa época. No setor elétrico pode-se citar a construção das grandes hidrelétricas de Tucuruí e Itaipu.

A interligação dessas usinas ao centro de consumo concentrado no Sudoeste do Brasil, por meio de uma rede elétrica de dimensões continentais, mostra a complexidade dessa obra e o vulto de recursos investidos neste modelo, dando origem ao Sistema Interligado Nacional (SIN).

As grandes usinas hidrelétricas foram construídas para atender a crescente demanda de consumo de energia elétrica do parque industrial brasileiro, mas também pela opção estratégica do país para investir em infra-estrutura com o objetivo de atrair grandes empresas

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eletrointensivas para o Brasil. A Figura 3 mostra a localização dessas usinas hidrelétricas no país e ano de instalação.

Figura 3 - Usinas hidrelétricas no Brasil Fonte: Apostilha de Hervé Théry

A Figura 3 mostra que a grande maioria das usinas hidrelétrica se concentra nas Regiões Sul e Sudeste, enquanto a Região Norte conta somente com nove usinas em operação. As usinas hidrelétricas na Região Norte são Curua-Una (30MW), perto de Santarém no Pará, construído em 1975, Coaraci Nunes (68MW) no Amapá em 1975, Tucuruí (8,3GW) no Pará em 1984, Balbina (250MW) no Amazonas em 1980, Samuel (216MW) em Rondônia e Santo Antônio, também em Rondônia, que gerará 3,1GW com previsão de entrada em operação em 2012 (REDCLIFT, 1994), (MME - EPE, 2007b).

As grandes usinas hidrelétricas do Norte e Nordeste foram pensadas e projetadas para levar energia para o centro consumidor no Sul do país, aliadas a uma política de fixação de empresas eletrointensivas no Norte e Nordeste do Brasil.

Metade da energia produzida pela usina de Tucuruí é consumida pelas indústrias eletroenergéticas do estado do Maranhão e Pará, transformando minérios de relativo baixo valor, numa comodity de pura energia (ANEEL, 2002, p. 46).

Ao redor das áreas alagadas pelas usinas hidrelétricas na região norte havia diversas comunidades, vilas e povoados de populações tradicionais, que tiveram de sair do seu território para dar espaço ao lago artificial de acumulação. É sabido que a grande maioria dessas vilas não tem o benefício da eletrificação, pois os empreendimentos foram pensados para atender as demandas energéticas da indústria e os grandes centros consumidores e não para abastecer as comunidades tradicionais daquela região.

Nos anos 1990, o setor elétrico no Brasil passou por uma nova reforma. Haanyika (2006, p. 2978) mostra que essa reforma seguiu uma tendência mundial iniciada nos anos 1970 em Chile. A reforma foi baseada em teorias de mercado onde a energia é considerada uma commodity em oposição à visão de longa data que considere a eletricidade um serviço integrado (BYRNE; MUN, 2003).

Bacon e Besant-Jones apud Haanyika (2006, p. 2981) realizaram um estudo em 115 países em desenvolvimento e observam que em 1998 muitos desses países tinham implementado alguma forma de reforma do setor elétrico. As reformas em muitos países latino-americanos foram implementadas entre 1980 e 1990.

No Brasil, essa tendência levou a uma reforma em 1990 que desverticalizou as empresas de energia e privatizou 60% do mercado de distribuição e 20% do mercado de geração (MOTA, 2003, p.1). A reforma tinha uma forte orientação ao mercado onde questões sociais como universalização do acesso e eletrificação rural foram colocados de lado. Somente uma década depois da privatização essas questões sociais começaram a ser institucionalizadas.