Parte 1 – Contextualização
1 Energia e sustentabilidade
1.2 Perspectivas para a era solar
Tradicionalmente a energia tem entrado na economia como um bem de consumo ou mais uma commodity a ser comercializada. Nessa lógica puramente comercial, a energia aparece nos balanços quando é produzida, comercializada ou consumida. Portanto, foi normal estabelecer certos indicadores para avaliar o estágio de desenvolvimento dos países tomando por base o seu consumo ou produção de energia per capita. Em última instância, o que valia era o valor monetário.
No fundo essa lógica é conseqüência de pensar a energia como estoque. Essa lógica dos modelos macroeconômicos está sendo questionada por diversos autores. Em seu livro Ponto de Mutação, Capra (1986) propõe que os modelos macroeconômicos terão que ser estudados dentro de uma estrutura baseada na abordagem sistêmica e que devem utilizar um novo conjunto de conceitos e variáveis.
Essa proposta difere do pensamento econômico atual, que insiste em usar a moeda como único variável para medir a eficiência dos processos de produção e distribuição.
Na estrutura conceitual de Capra, a energia será uma das mais importantes variáveis para medir as atividades econômicas. Para isso ele usa o conceito de mapeamento de fluxos energéticos, de Howard Odum, que foi um dos pioneiros na elaboração de modelos energéticos (CAPRA, 1986, p.385).
Odum elaborou em 1983 um conceito que chamou de emergy onde ele resgata o valor e a importância da principal fonte primaria de energia na terra, que é o sol. Odum argumenta que vários joules solares são necessários para fazer outras formas de energias concentradas, do tipo útil para a humanidade. Assim é conveniente de expressar todas as formas de energia na terra em termos da quantidade de energia solar necessária diretamente e indiretamente para sua formação. O conceito de energia embutida ou emergy é definido como energia necessária, que tem que ser usada para fazer um produto ou um serviço (ODUM; ODUM, 2006, p.23).
Odum também elaborou o conceito de cadeias de energia, de forma análoga às cadeias de alimentação em ecossistemas, mostrando dessa forma, a hierarquia das fontes primárias de energia.
Na estrutura conceitual proposta por Capra, pode-se medir a eficiência dos processos de produção em termos de energia líquida e usar a entropia – uma quantidade relacionada com a dissipação de energia – como uma variável importante para a análise de fenômenos econômicos.
O conceito de entropia foi introduzido na teoria econômica por Nicholas Georgescu- Roegen. Segundo Georgescu-Roegen, a dissipação de energia, tal como é descrito pela segunda lei da termodinâmica, é importante tanto para o desempenho de máquinas a vapor como para o funcionamento de uma economia. Assim como a eficiência termodinâmica de máquinas é limitada pelo atrito e por outras formas de dissipação de energia, também os processos de produção nas sociedades industriais produzirão inevitavelmente atritos sociais e dissiparão parte da energia e dos recursos da economia em atividades improdutivas (CAPRA, 1986, p.385).
Henderson apud Capra (1986) ressaltou que a dissipação de energia atingiu tais proporções em muitas sociedades industriais avançadas atualmente, que os custos de atividades improdutivas – manutenção de tecnologias complexas, administração de vasta burocracia, mediação de controles e conflitos, controle da criminalidade, proteção dos consumidores e do meio ambiente, etc. – absorvem uma parcela cada vez maior do PNB e, portanto levam a inflação a índices sempre crescentes.
Para descrever esse estágio de desenvolvimento econômico, em que os custos de coordenação e manutenção burocráticos excedem a capacidade produtiva da sociedade, Henderson criou o conceito de estado de entropia, e alerta que nesse estado todo o sistema soçobra sob seu próprio peso e complexidade.
Entretanto, o mesmo autor alerta para não simplificar a análise macroeconômica somente usando os conceitos rígidos da termodinâmica clássica.
As raízes mais profundas de nossa atual crise energética situam-se nos modelos de produção e consumo perdulário que se tornaram características de nossa sociedade. Para resolver a crise não necessitamos de mais energia, o que apenas agravaria nossos problemas, mas de profundas mudanças em nossos valores, atitudes e estilos de vida. Entretanto, ao mesmo tempo em que perseguimos essa meta a longo prazo, também precisamos mudar nossa produção de energia dos recursos não–renováveis para os renováveis, e das tecnologias pesadas para as brandas, a fim de alcançarmos o equilíbrio ecológico (HENDERSON apud CAPRA, 1986, p.386).
Para sair dessa crise energética, Amory Lovins (1977) apresenta uma alternativa que ele chama de “Soft energy path” onde ele propõe (1) a conservação de energia, (2) a utilização inteligente das atuais fontes de energia não-renovável e (3) rápido desenvolvimento de tecnologias brandas para geração de energia.
Capra completa esse quadro de visão futura, que ele chama de “A passagem para a Idade Solar”, apontando a energia solar como a única espécie de energia que é renovável, economicamente eficiente e ambientalmente benigna. O mesmo autor ainda afirma que a transição para energia solar não é necessária somente porque os combustíveis fósseis – carvão, petróleo e gás natural – são limitados e não renováveis, mas especialmente porque
eles têm um efeito devastador sobre o meio ambiente, devido ao aumento da quantidade de CO2 na atmosfera3. É necessário a descarbonização da economia energética.
Apesar da radicalidade da inovação da abordagem e análise proposta por Capra e Lovins, as respostas dadas por eles deixam de tocar na questão da apropriação da energia.
Numa outra linha de pensamento, Lovelock (1997) trabalha os conceitos de energia, entropia e vida, mostrando que a planeta Terra, com sua atmosfera é uma entidade viva, produzida, mantida e regulada por todas as entidades vivas na biosfera.
Ele chegou a essa conclusão estudando a possibilidade de vida em outros planetas e batizou essa entidade viva de Gaia, figura da mitologia grega. A terra foi trabalhada pela biosfera para chegar ao ponto que chegou. Da mesma forma que a energia solar também é trabalhada pela biomassa para chegar a sua forma de combustível e alimento.
A afirmação de Capra (1986, p.27) que a moderna era industrial chegará ao fim com o esgotamento dos combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural), coloca um futuro bem sombrio para a humanidade.
Odum e Odum (2006) no seu artigo The prosperous way down já prepararam o caminho para um evitar um colapso, apontando a necessidade de diversas mudanças de práticas e atitudes para garantir um pouso suave da nave terra.
No plano mais conceitual, as propostas de Odum e Capra voltam a valorizar o sol como primeira e última alternativa energética do mundo. Junto com o conceito de Gaia elaborada por Lovelock, esses pensamentos, de certa forma, fazem um contraponto à visão judaico-cristã do mundo, apontada por White, dois mil anos depois da vitória do cristianismo sobre o paganismo. Nas palavras de Georgescu-Roegen: “para o tipo de energia que é necessária à vida em si mesma, o homem ainda é inteiramente dependente de sua fonte mais primitiva, os animais e as plantas que o cercam” (GEORGESCU-ROEGEN apud VEIGA, 2005, p. 203).
3
O quarto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática de novembro 2007, não deixa dúvida sobre a contribuição dos gases de efeito estufa no meio ambiente. A concentração de CO2 (379 ppm) e CH4 (1774 ppb) na atmosfera em 2005 excedem em muito a faixa natural dos últimos 650.000 anos. O crescimento global da concentração de CO2 são principalmente devido ao uso de combustível fóssil, e em segundo lugar devido à mudança no uso do solo. O relatório ainda mostra que a emissão gases de efeito estufa devido à ação antropogênica global em 2004 foi de 49 GTCO2 eq /ano (IPCC, 2007, p. 4). O relatório concluiu que muito do crescimento observado das temperaturas globais desde meados do século XX é muito provavelmente devido ao crescimento observado da concentração de gases de efeito estufa de origem antropogênico. (Ibid, p. 5)
A passagem para a Idade Solar já foi de certa forma descrita aqui no Brasil pelo físico Bautista Vidal. Vidal é um militante da causa da energia da biomassa e um dos idealizadores do programa Proalcool brasileiro.
Diferente da Capra, Vidal alerta para as armadilhas escondidas nessa passagem para a Idade Sol, se os países industrializados resolvem se apropriar da capacidade produtiva de biomassa para fins energéticos dos trópicos. As conseqüências geopolíticas são analisadas por Vidal nos seus diversos trabalhos (BAUTISTA VIDAL, 2000; BAUTSITA VIDAL; VASCONCELLO, 2002).
Os trópicos serão as principais áreas de produção de energia. A mudança da extração da energia fóssil para a produção de diversas formas de bioenergias mudará a face dos trópicos. Entretanto, não se pode pensar num simples substituição de combustível fóssil para bioenergia, pois na escala atual em que a humanidade está consumindo seus estoques de energia não-renovável, não haverá terras cultiváveis, sol e água suficiente para substituir em tempos humanos o que Gaia levou milhares de milênios para produzir.
Da mesma forma Hémery, Debier e Deléage (1993) mostraram que houve uma ruptura no sistema energético na gênese do capitalismo, há de se esperar uma nova ordem na transição para a era solar.
Nessa nova ordem haverá necessariamente uma revalorização do espaço rural e uma nova lógica de ocupação do território e exploração dos recursos naturais. Ainda não se sabe como seria essa nova lógica e de que forma ele se manifestaria.
São poucos os autores que arriscaram um palpite. Georgescu-Roegen mostrou que o crescimento econômico moderno até o presente baseou-se na extração da baixa entropia contido no carvão e no petróleo. Um dia esse crescimento se baseará em formas de exploração mais direta da energia solar. Mas nem por isso poderá contrariar o segundo princípio da termodinâmica, o que acabará por obrigar a humanidade a abandonar o crescimento. Segundo Georgescu-Roegen, um dia será necessário encontrar uma forma de desenvolvimento que possa ser compatível com a retração, isto é, com o decréscimo do produto (VEIGA, 2005, p. 120).
Já Hobsbawn, ao analisar a economia mundial baseada na busca ilimitada do lucro por empresas econômicas, que competem uma com as outras num mercado livre global, profetiza que do ponto de vista ambiental o futuro da humanidade com certeza não será capitalista (HOBSBAWN apud VEIGA, 2005, p.207).
Os poucos autores que arriscaram a formular as bases dessa nova sociedade utópica pós-moderno são sem dúvida Marx e Engels. Eles lançaram ainda em 1848, nos primórdios da modernidade, o manifesto comunista.
Ainda não há nenhum consenso de que como seria a sociedade pós-moderna, e qual a lógica do seu desenvolvimento. Mas na prática há de se suspeitar que essa nova lógica seja mais próxima ao modo de pensar e agir daquelas sociedades que atualmente vivem à margem dessa modernidade e são considerados tradicionais. As populações tradicionais representam uma das últimas fronteiras de um modo de pensar e viver que se contrapõe a lógica hegemônica da modernidade. A perspectiva da era solar certamente chegará primeiro para eles.