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ELZA: VIVER E CONVIVER A VIDA, ESCREVER A HISTÓRIA

“Às vezes, por ir mais rápido não se faz história e aqui o que se busca fazer é história porque é isso que fica, quando formos embora”.

Elza Freire (ORNELAS apud GADOTI (Org.), 2006, p. 150).

Figura 3 - Elza na década de 1930 Fonte: Acervo Pessoal de Fátima Freire Dowbor

Elza iniciou seus estudos, numa escola perto de casa com a Profª Maria Elisa Viégas. Sua continuidade deu- se em Olinda na Academia Santa Gertrudes. Matricula-se na Escola Normal de Pernambuco em 1931. Depois, ingressa no Instituto Pedagógico. Aprovada em concurso público, no ano de 1943. Professora e diretora de escola, ao demonstrar grande compromisso com a Educação e, em particular com a alfabetização, transformou-se em educadora política, solidária com as causas humanitárias. Elza inscreve seu nome na História da Educação.

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CAPÍTULO II

ELZA: VIVER E CONVIVER A VIDA, ESCREVER A HISTÓRIA

“Às vezes, por ir mais rápido não se faz história e aqui o que se procura fazer é história porque é isso que fica, quando formos embora.”

Elza Freire (ORNELAS apud GADOTI (Org.), 2006, p. 150).

Para este capítulo apresentamos a protagonista Elza, cuja iconografia que antecede ao desenvolvimento do texto requer a análise da dedicatória feita por ela entre a metade da década de 1930 e o início da década de 1940, para Paulo Freire quando se pode identificar o escrito: “A Paulo com todo o meu amor, de sua Elza”.

Elza sujeito da pesquisa, por meio da reconstituição da sua vida e trajetória, bem como trazer o clima de uma época, percorrendo espaço, tempo, lugares, pessoas e instituições. Para tal, tentamos configurar os vínculos culturais, educacionais, econômicos e sócio-políticos de Elza, por meio de referências bibliográficas e narrativas que nos deram suporte conceitual para o entendimento desse processo.

Nossa preocupação inicial foi tentar demonstrar Elza caracterizando-a em seu contexto de origem, e a partir dessa abordagem regional, dividimos em subitens os principais tópicos desse momento, compreendido entre o seu nascimento em Recife no início da década do século passado no ano de 1916 até o histórico das instituições em que atuou até 1964.

Em sua busca, iniciamos com os aspectos familiares que nos foram possíveis elencar. Em seguida, avançamos por sua escolarização e formação perpassando o início das atividades à educadora política, quando o destaque cabe as instituições em que se matriculou como estudante e normalista. Prosseguindo, discutimos as experiências como professora primária e diretora de escola, encerrando com observações sobre as transformações ocorridas nesse período, às quais promoveram a possibilidade interpretativa sobre Elza.

Fomos a procura e ao encontro de detalhes e indícios que permitiram conhecer diversos espaços pedagógicos, as relações sócio-políticas, as discussões educacionais e o

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contexto que foram significativos na sua formação como professora, além da inserção no corpo do texto de figuras iconográficas, revelando significações que lhes atribuem.

Principais referências bibliográficas inseridas no capítulo: Porto (1981); Costa Pinto & Carneiro (1955); Chacon (1977); Romanelli (1978), Skidmore (2007); Schwartzman et. all (1984), Rodrigues (2003); Desaulniers (1992). Destacamos Maria Eliete Santiago (1987), cujo trabalho Sobre Elza, foi a principal fonte de pesquisa para informações ocorridas nesse período, bem como para sugestão de fontes complementares.

O nome Pernambuco vem do tupi Paranãpuka, que significa “o mar que bate

nas pedras”, expressão com que os índios conheciam a foz do rio Santa Cruz, que separa a

ilha de Itamaracá do continente, ao norte do Recife. Daí, caminhou para suas formas primitivas Perñabuquo e Fernambouc, já denominando o porto do Recife e fazendo-se presente nos mapas portugueses22. Assim surge o nome do estado de Pernambuco, batizado pelos índios. Um dos mais importantes estados do Nordeste Brasileiro, Pernambuco se estende de leste a oeste, em uma estreita faixa de terras que vai da Zona da Mata, na faixa litorânea, atravessa o agreste e termina no sertão profundo, tendo como limites Paraíba e Ceará a noroeste, o Oceano Atlântico a leste, Alagoas e Bahia ao sul e Piauí a Oeste.

Dentro desse contexto, situamos e tentamos estabelecer uma discussão em torno de Recife, cuja forma e conteúdo vão se fundindo ao texto. Acreditamos no reflexo permanente, que Recife atribui a Elza reportando-se em sua memória e personalidade, influenciando sua formação, pesquisas e indagações. Recife a acompanhou e se fez acompanhar por ela, isso é marcante no decorrer de sua trajetória de vida. No cenário nacional, Recife se destaca pela influência estabelecida, desde o descobrimento do Brasil aos dias atuais.

Quando a história da região se inicia em 1534, Portugal havia criado as capitanias hereditárias. A Capitania de Pernambuco foi dada a Duarte Coelho Pereira23, quando se tornou o capitão-donatário, a primeira capitania a ser constituída no Brasil.

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Fonte: Pernambuco – Caminhos de Liberdade (Coleção Brasil Redescoberto), Editora Tempo real.

23 Colonizador do Brasil (Miragaia, Porto, 1480/1485-1554), era filho bastardo de Gonçalo Coelho, escrivão da Fazenda real e membro da nobreza agrária em Portugal. Serviu no Oriente, de 1509 a 1527, e depois na África. Fonte: “História de Portugal – Dicionário de Personalidades “(Org. José Hermano Saraiva), QuidNovi, 2004.

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Acompanhado por sua família e muitos colonos, ali instalou os primeiros engenhos e fundou outras povoações. Sob seu comando e sua orientação a Nova Lusitânia, como denominou a sua capitania, foi uma das mais prósperas ao tempo de D. João III24.

Desde cedo, a cultura da região se baseou na mistura de três povos: europeus, índios e negros; de início, os portugueses tentaram utilizar mão-de-obra escrava índia; entretanto, após sucessivos levantes indígenas, optou-se por importar mão-de-obra africana. Essa influência é fortemente marcada até os dias atuais através das manifestações culturais e artísticas, pelo artesanato e pela literatura, o frevo, maracatu, e pelo seu povo.

Recife, por décadas, foi apenas o porto utilizado para escoar a produção local e receber peças da metrópole. Essa situação se alterou a partir de 1630, quando os holandeses ocuparam Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Sendo o fato principal desse momento, a chegada em 1637, do Conde Maurício de Nassau, que assume o governo das possessões holandesas no Brasil. Culto, Nassau conduziu uma revolução urbanística na cidade: ruas foram planejadas e traçadas, várias pontes foram construídas; Nassau trouxe da Europa grandes arquitetos, engenheiros e paisagistas que deram um ar de metrópole à cidade do Recife. Várias das obras urbanísticas dos tempos de Nassau são ainda visíveis na cidade; alguns dos quadros que retratam o país naquela época, pintados pelo holandês Frans Prost, e outros expostos no Museu do Louvre, em Paris. É impossível falar em Recife sem conjugar a atuação e a paixão de Nassau e toda a influência recebida desse período, em vários aspectos da cidade e da região.

Indiscutivelmente esse retrospecto sobre Recife nas artes, através do reconhecimento as influências deixadas pelos holandeses de Nassau, repercutem na personalidade de Elza ajudando a delinear o envolvimento e a sua participação junto a Arte- educação. Influência que se desdobra durante um período significativo de sua vida no sentido intelectual e cultural.

Quando os holandeses foram expulsos, em 1654, Recife tinha se tornado importante entreposto comercial. A rivalidade entre os senhores de engenho, que tornaram

24 Nascido em Lisboa, era filho de Rei Manuel I de Portugal e de Maria de Aragão, princesa de Espanha, filha dos Reis Católicos. Dom João III cognominado O Piedoso ou o Pio pela sua devoção religiosa, foi o décimo quinto Rei de Portugal. Fonte: VERÍSSIMO SERRÃO, Joaquim. História de Portugal – Vol. V, Editora Verbo, Portugal, 1986.

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a ocupar Olinda, e a emergente classe comerciante que se formara em Recife resultou na Guerra dos Mascates25 no início do século 18, o que se reflete até hoje no espírito de luta e conflito, de garra dessa população “arretada”26. Extraímos daí características predominantes em Elza.

Recife teve papel decisivo nos mais importantes momentos históricos do Brasil, como por exemplo: No ano de 1817, Pernambuco tentou proclamar-se independente de Portugal, mas o movimento foi derrotado. A Revolução Praieira (1848) questionava o regime monárquico, e já pregava a República; segundo Porto (1981) a rebelião se desenhava. Por um lado, a insatisfação popular e de parte da elite contra o latifúndio e o monopólio do comércio pelos estrangeiros, por outro, a luta entre os liberais e conservadores. Conclui Porto que “em meio a esse embate surge o jornal liberal Diário

Novo, instalado à Rua da Praia, que passa a ser a voz dos liberais mais radicais, agora denominados "praieiros"” (PORTO, 1981, p. 87). Para o abolicionista Joaquim Nabuco27, participante do movimento, o Partido da Praia "era a maioria, quase o povo pernambucano

todo", prossegue, "mais que um segmento político", era assim, um “movimento social".

Nabuco define “Os "praieiros", recebiam esse nome por pertencerem à Rua da Praia,

tradicional reduto de portugueses. Já os conservadores eram chamados pelos liberais de "guabirus", nome de um rato considerado "sorrateiro, ladrão e esperto"”. (NABUCO

apud PORTO, 1981, p. 101).

Esse momento histórico de Recife, certamente era o prelúdio para outro momento histórico, na Educação e anos mais tarde; revoluções na alfabetização de adultos; movimento libertário e conscientizador de uma pedagogia transformadora, os quais tiveram como partícipe principal Elza. Tais acontecimentos e descobertas não iriam apenas revolucionar Recife e seus arredores do Nordeste, se estenderiam a todo um país e, posteriormente ao mundo.

25 Mascate era forma pejorativa de se referir àqueles que se dedicavam ao comércio. 26

Palavra regional e popular que indica numerosas idéias apreciativas, equivalendo a elegante, excelente. 27 NABUCO apud PORTO, 1981. Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo nasceu em Recife no ano de 1849. Político, diplomata, historiador, jurista e jornalista brasileiro. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Dá nome a uma das maiores Fundações do Brasil, a Fundação Joaquim Nabuco, sede em Recife/PE.

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Fundada ainda, na cultura de cana-de-açúcar e na pujança do porto, Recife continuou desenvolvendo-se, tanto econômica como intelectual e culturalmente, durante os séculos 18 e 19.

Durante o século 20, principalmente após a criação da SUDENE28, a cidade consolidou sua posição como pólo comercial e cultural de toda a região Nordeste ao norte da Bahia. É após sua fundação, inicia-se a assistência técnica na elaboração do plano anual de cultivo e corte de cana, assim como na gestão de Cooperativas. Os camponeses assumiram as tarefas cotidianas de implantação dos cultivos e administração das Cooperativas rurais de Pernambuco. Como a própria SUDENE enfatiza, talvez pela primeira vez, foi colocado em prática no meio rural o Método de Alfabetização Paulo Freire, para o qual Elza contribuiu e influenciou a estruturação, fundamentação e consolidação. Posteriormente nos demais capítulos aprofundaremos sobre as contribuições, influências e participações de Elza para a criação e desenvolvimento desse método. “Método” que contribuiu para o desenvolvimento regional, à partir do poço da panela em Recife e, depois levando o nome do Nordeste para o Brasil e o mundo. “Método” que teve suas raízes fincadas no agreste nordestino, cujas sementes se espalharam pelos quatro cantos do mundo.

E a partir de 1950, a economia da região ganhou novo impulso: o turismo e riqueza cultural, suas praias e sua natureza. Uma vez que em 1988, por força da Constituinte, o arquipélago Fernando de Noronha, foi reintegrado ao Estado de Pernambuco, sendo hoje um Distrito Estadual. No início do terceiro milênio se desenvolvem a instalação do Porto Digital e investimentos na área educacional, com implantação de cursos na área de bio-médicas.

Enfatizando a importância do movimento histórico que marca Recife desde sua fundação, como cenário para o nascimento de Elza no início do século passado e segue marcando a sua História, analisamos a influência que foram exercendo entre si, sobretudo num contexto de Educação quando da epígrafe desse segundo capítulo: “Às vezes, por ir

28 A Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE, é uma autarquia especial, administrativa e financeiramente autônoma, vinculada ao Ministério da Integração Nacional, com sede na cidade de Recife Estado de Pernambuco. A primeira SUDENE foi fundada em 1959 no governo Juscelino Kubitscheck, e teve como idealizador o economista Celso Furtado. (www.sudene.gov.br, acesso durante o mês de abril/2009).

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mais rápido não se faz história e aqui o que se procura fazer é história porque é isso que fica, quando formos embora”. Elza Freire (ORNELAS apud GADOTI (Org.), 2006, p.

150). Portanto, é a história de Elza que se funde e se confunde à própria história de Recife, mas igualmente é a história que permanece ao se permitir seja re-escrita.

Ao citarmos essas palavras, salientamos que ela deixou contribuições significativas no contexto pedagógico, social, político, transformando-se em personagem histórica e patrimônio cultural de um povo, uma região, um país.

Embasados assim, nas próprias palavras de Elza ao afirmar que “aqui o que se

procura fazer é história porque é isso que fica quando formos embora” a pesquisa aponta

para essa afirmação, salientando de maneira crítica-reflexiva: se não fosse Elza, a história teria sido outra!