“... minha recificidade explicava minha pernambucanidade, que esta esclarecia minha nordestinidade que, por sua vez, clareava minha brasilidade, minha brasilidade elucidava minha latino- americanidade e esta me fazia um homem do mundo.”
Paulo Freire (FREIRE, 1992, p. 88)
Elza e Paulo são pernambucanos, nordestinos. Paulo Freire, desde sua infância se sente compromissado com o sofrimento, a injustiça social e a miséria do seu povo, até porque experienciou essa realidade. Elza, desde o seu início profissional, nas escolas da periferia, demonstra igualmente esse compromisso, sobremaneira porque acreditava na capacidade de transformação pela educação. Portanto, para podermos melhor compreender a Pedagogia Freireana, é realmente importante localizar a sua origem, onde e quando ela surge. Isso, sobretudo implica igualmente na discussão desse contexto para Elza, pois ambos são de Recife, e assumiram esse fato por toda a vida e por onde passaram.
Paulo Freire se tornou um pensador universal, universalizando sua Pedagogia não a partir do universo em si, ou dos países que visitou, mas sobretudo, a partir de Recife. Como ele próprio reconhece e declara na epígrafe deste item. Assim também Elza seguiu sendo ela mesma, reinventando-se e renovando-se para enfrentar cada situação que surgia, sem que para isso fosse preciso perder suas raízes ou aculturar-se a ela e aos outros. Mas assimilando algo novo sem eliminar o que trazia, Elza não perdeu sua “recificidade” ou
“nordestinidade”, sua “brasilidade” ou “latino-americanidade”, ela continuou sendo
Elza. Foi uma mulher do mundo, isso fez com que vivesse a universalidade fora de sua cidade de origem, do Recife, de amor e de lutas sem renunciar a ela.
Mulher forte e decidida, mas meiga e doce, nunca perdeu seu amor ao Recife e ao Brasil, apesar dos duros anos de exílio. Também sua nordestinidade quis conservar durante a vida toda, sem contudo fazer disso uma expressão caricata que a impedisse de ser uma “mulher do mundo”, uma cosmopolita. Com isso expressa sua teoria do conhecimento que se renova, compõe e se recompõe nas experiências e continuamente, enquanto uma totalidade contraditória e crescente. (SILVA in SANTIAGO, 1987, Anexo).
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Esse é, aliás, um dos aspectos fundamentais que irá nos acompanhar durante o desenvolvimento deste capítulo, pois discutir essa tal “recificidade”, tão implícita e explícita em Elza, é tentar impedir a dicotomia entre os saberes popular e o erudito ou de como compreender e experimentar a dialética entre os dois.
Respeitar esses saberes que se inserem a um horizonte maior no qual são gerados, o horizonte do contexto cultural, que não pode ser entendido isolado da sociedade, das classes sociais, da religiosidade, do corpo e da vida, enfim. É impossível entender o respeito à interpretação e à significação do global sem referências ao local. Elza e Paulo Freire têm em Recife essa localidade, demonstraram essa referência em todo o percurso do trabalho desenvolvido, ora no Brasil, ora no mundo.
Essa compreensão e concepção de mundo, nas mais variadas dimensões de sua prática na prática social de que fazem parte é o que Snyders (1988) chama “cultura
primeira” e “cultura elaborada”. É consensual que é o avanço do conhecimento que nos
faz aceitar a existência de uma “cultura primeira” e de uma “cultura elaborada”, ainda que este conhecimento esteja em movimento, esse avanço deve ser facilitado, pois se apóia nos conhecimentos que temos e que consideramos significativos.
Elza e Paulo Freire constroem uma Pedagogia num itinerário que vai da cultura popular à cultura erudita e letrada, encadeando o “saber de experiência feito” ao “saber
científico” passando pela formação da consciência crítica, articulando a primeira com a
segunda.
Georges Snyders pretende operar uma ruptura e uma continuidade entre a
“cultura primeira” e a “cultura elaborada”, que a síntese entre a “continuidade/ ruptura”
em relação à cultura de massa deverá ser feita pela escola, se quiser respeitar a identidade cultural dos educandos.
É nessa perspectiva que Snyders (1988) defende a continuidade/ruptura da
“cultura primeira/cultura elaborada”, o que Freire (1999) prefere chamar continuidade/superação do “saber de experiência feito/saber científico”. Portanto, as
discussões de Snyders, em sua Pedagogia Progressista e Freire em sua Pedagogia Libertadora, produzem uma prática reflexivo-crítica.
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Dentro dessa perspectiva situamos e discutimos essa “recificidade”, pois só podemos compartilhar com alguém aquilo que possuímos: “... nada pode pela felicidade de
outrem, aquele que não sabe ser feliz ele próprio” (SNYDERS, 1988, p.21). Portanto, Elza
e Paulo Freire tiveram a coragem de abrir-se aos desafios de uma Pedagogia oposta à tradicional, inovando as suas práticas pedagógicas, a partir do momento em que não violentaram seu saber local, não se perderam em contradições com o universal e superaram- se, pois compreendiam que sendo felizes em si próprios, partilhariam a felicidade alheia.
Recife que desde o início de sua formação, apresenta-nos como o berço e o solo fértil, preparados para embalar e acolher Elza, seja nos parágrafos anteriores, seja nos subseqüentes, mas que durante o percurso de sua história, muito colaborou para sua formação intelectiva e afetiva, cultural e emocional, influenciando e acompanhando suas memórias, marcadas por suas andanças, ora com lembranças, ora com esperanças.
Que acompanhou a família, os filhos, refletindo forte e intensamente nos aspectos pessoais e profissionais. Elucidando isso, Fátima, escreve: “As lembranças da
minha infância no Recife têm cheiro de mar, gosto de manga espada na boca e o som do vento brincando nos coqueirais da praia de rio Doce” (FREIRE DOWBOR, 2008, p.21).
Outra Maria, a Cristina dá continuidade: “Dessa época... ficaram inúmeras e inesquecíveis
lembranças. Por exemplo, os passeios com a nossa mãe à Praça de Casa Forte permanece como um quadro cujas cores o passar dos anos não conseguiu apagar.” (HEINIGER
FREIRE apud FREIRE, 2001, LXXVII). E para concluir Fátima recorda: “Hoje percebo
como o aprendizado de amar o Recife foi profundamente influenciado pela figura dos meus pais.” (FREIRE DOWBOR, 2008, p.30).
Recife sempre, desde o contexto de origem a uma história político-pedagógica fez parte da história da educação escrita por Elza e Paulo Freire, iniciada lá e desenvolvida pelo mundo afora.
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