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4.1 – “RECIFE SEMPRE”: CONTEXTO DE ORIGEM

“Recife, cidade minha, proclamo alto: se alguém me ama a ti te ama”104

Paulo Freire

Mediante essa perspectiva, iniciada nos parágrafos anteriores, para melhor fundamentá-la, agregamos Josué de Castro, analisando o drama da “Geopolítica da Fome”, Celso Furtado, um dos criadores mundiais da economia do desenvolvimento e outros

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Recife Sempre, poema escrito por Paulo Freire, na cidade de Santiago, Chile, durante o exílio, em fevereiro de 1969. Poema na íntegra inserido como anexo ao final deste trabalho. Consultar: “Aprendendo com a própria história” – Volume 1, p. 123-127 (FREIRE & GUIMARÃES, 2001, Anexo, p. 153).

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nomes diretamente vinculados ao drama da pobreza e da exclusão. Dentre eles, o próprio Gilberto Freyre que embora possa ter tido outros enfoques, mas contribuiu seguramente com “Casa Grande Senzala”, colocando a divisão social no centro das discussões.

Manter a população cativa e privar o povo de educação, limitar ou impedir o seu acesso à cultura formal, à leitura do mundo e à escrita da palavra, foi elevado no Nordeste ao nível de política sistematizada pelas tradicionais famílias que controlavam a política e a economia.

Neste contexto de Recife, alfabetizar as classes populares não era uma tarefa meramente técnica. Constituía, desde o início, uma atitude humanista de solidarização, e uma atitude política de desafio. Diante disso que se confrontaram Elza e Paulo Freire dando início á atuação política e pedagógica de ambos, ao compromisso com os oprimidos, saindo de lá e percorrendo todo o mundo.

A historiografia de Recife registra em sua história além do nascimento de Elza e Paulo Freire, o momento em que eles se encontram e se casam, o nascimento dos filhos. Encontro com Elza o conduz à pedagogia: “Outra influência importante foi minha mulher,

Elza... Assim, meus estudos lingüísticos e meu encontro com Elza conduziram-me à pedagogia.” (FREIRE & MACEDO, 2002, p. 109); e esse encontro os conduz à Educação

de Adultos: “Realmente me especializei em Alfabetização... Fizemos juntos, Paulo e eu, o

trabalho de alfabetização no Nordeste... Então, nós pensamos: e se transferíssemos para o mundo do adulto, como seria? Eu não tinha prática de adulto...” (ELZA FREIRE apud

COSTA, 1980, p. 230). Esses recortes apontam também o registro do nascimento de um “Método” que partiria dali para o mundo, revolucionando a Educação. Daí podemos extrair das palavras de Elza que ela atua decisiva para a concepção dessa metodologia, atuando de forma contínua e permanente, nas idéias e na prática. Elza não é mera expectadora, ela é partícipe.

Recife é o cenário desse processo, era preciso, não tratar a prática político- pedagógica de Elza, desvinculada de um tempo e um lugar, da ideologia da época. Mas situá-la para melhor poder entender a ela e a sua contribuição hoje.

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É importante salientar que esta pesquisa oportuniza discutir no contexto acima proposto a história de Elza por meio da História do Recife, dos acontecimentos e, descobrir mais sobre a História do Brasil, por meio dessas duas histórias: Elza e Recife.

Importante ressaltar o contexto nacional e internacional que se seguiu a isso, como podemos observar: “Sensível e telúrico. Corpo e sentimentos profundamente

enraizados em sua terra” (ROSAS, 2003, p. 73). Assim, Paulo Rosas se refere a

incapacidade de Paulo Freire em renunciar a qualquer momento de sua história, história que foi escrita, vivida, edificada com Elza. História de Elza Paulo Freire que com certeza não se fez insensível aos valores e sentimentos dos primeiros anos de suas vidas transcorridos em Recife. Destacando diz: “Enquanto escrevo, revejo a presença discreta de Elza. A presença

marcante de Elza. Elza, a que sabia o momento certo de dizer as coisas.” (ROSAS, 2003,

p. 73). Identidade que não sofreu rupturas, mas que vivenciou transformações importantes, enquanto foi preciso conciliar situações e desafios inesperados, enfrentar ações insidiosas de sentimentos depressivos e continuar adiante. Recife que acompanhou tantas outras cidades, outras tantas experiências, dolorosas, provocadas pelo exílio, mas sem apagá-las ou negá-las, mas construir novos caminhos e possibilidades. Marcas se sua presença, que Elza foi deixando ao refazer-se e fazer-se intelectual e culturalmente, pedagógica e politicamente.

Nesse contexto, conduzido pelas palavras iniciais do outro Paulo, o ROSAS (2003, p. 74), que ele denomina de “momentos substantivos, pousos intelectuais-afetivos de

Paulo Freire, antes de suas vivências no exílio”, acompanhamos a informação de

endereços em Recife de Elza, e interrogando ele se refere a sua participação na vida e na obra de Paulo Freire:

... evoco ainda no seu dia-a-dia, na Rua Rita de Souza ou no Jardim Triunfo, um Paulo Freire coerentemente sensível, quase nos provocando a dizê-lo ingênuo, em nossa incompetência para crer com sua fé no poder da palavra e da educação... Também ela educadora, quanto terá Elza ensinado a Paulo Freire? (ROSAS, 2003, p.73).

Certamente nos será impossível definir ou restringir quanto Paulo Freire pode aprender com Elza, como nas palavras de Paulo Rosas. Mas diante dessa evidente possibilidade, ampliamos a discussão para poder pesquisar e dialogar sobre quanto a

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Educação de Adultos terá recebido de Elza? Quanto poderemos nós outros receber de Elza? Onde estivesse, falando ou escrevendo, pesquisando ou trabalhando, indistintamente de públicos ou nacionalidades, em qualquer momento sua história não se fez esquecida.

Citaremos Rosas (2003) quando recorda o Jardim Triunfo, para fundamentarmos a importância de registrar referências sobre a iconografia a seguir, informando que esta residência foi a última antes da saída de Elza e Paulo Freire do Brasil para o exílio. Portanto, é um marco histórico a publicação da imagem inédita. Nessa perspectiva queremos ao apresentar a confrontação de iconografias e propor uma reflexão entre a primeira residência inserida na página 114 e esta última. Por meio da análise das arquiteturas é possível contextualizar as discussões do percurso e os avanços empreendidos pelas experiências trilhadas e compartilhadas entre Elza e Paulo Freire, por meio da Pedagogia da Convivência.

Figura 15 - Residência de Elza e Paulo Freire - 1964 (Jardim Triunfo – Recife/PE) Fonte: Acervo Pessoal de Vera Barreto

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As bases do pensar e do fazer de Elza estão fincadas nos encontros, reencontros e desencontros ideológicos de seu tempo, nos desafios e nas conquistas de sua cidade, nos contrastes entre uma intelectualidade letrada e um imenso contingente de excluídos. Por isso, deixamos deslizar o texto por alguns trechos e relatos que reafirmem o destaque para a influência desse período na vida e na obra de Elza e Paulo Freire. Estas bases se encontram enraizadas no agreste nordestino, bem como nas pessoas que com ambos conviveram.

Elza não apenas viveu naquele cenário. Viveu aquele cenário. Foi construtora

daquele cenário. Elza aprendeu e ensinou em todas essas oportunidades, sem esquecer-se

ou renunciar seu Recife, aonde tudo começou. Desde sua atuação profissional junto as escolas da periferia quando juntamente com a Escola de Belas Artes iniciou o trabalho pioneiro da arte-educação e a escola pública; o desenvolvimento do “Método Paulo Freire” na casa paroquial da Casa Amarela e no poço da panela, com ênfase para as palavras geradoras; a sua influência quando do trabalho de Paulo Freire junto ao SESI e no MCP; do enfrentamento do Golpe Militar e a solidariedade durante a prisão.

Foram esse preparo e essas experiências iniciais, que na cidade de Recife inauguraram com Elza o trabalho e o compromisso pedagógico e político, que continuaria por sua caminhada em Angicos, Brasília, América e Europa, África, São Paulo, todos encontram registros de sua passagem, todos testemunham sua contribuição e receberam sua influência. Elza, passando por cidades e países diferentes, enfrentando situações diversas e adversas, soube continuar extraindo daí o gosto e o amor pela vida, o ânimo para lutar pelos oprimidos, renovando-o.

Recife dos Mocambos e dos sobrados, das Casas Grandes e Senzalas, do casario, da cana-de-açúcar e do porto; das artes e das manifestações artísticas e culturais, do maracatu e do frevo; da Guerra dos Mascates e da Revolução Praieira; da Escola Normal e da Faculdade de Direito; da Casa Amarela e de Dona Olegarina; do Golpe Militar e da prisão; das mangueiras e areias, do vento e coqueiros, enfim de Elza.

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