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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.5 CONCEITOS DE BEM-ESTAR E FLORESCIMENTO HUMANO

2.5.1 B EM ESTAR SUBJETIVO

O bem-estar subjetivo possui caráter hedônico e se assemelha à filosofia de Aristipo, do século IV a.C., segundo o qual o objetivo primordial da vida é experimentar o máximo de momentos de prazer, sendo o estado de bem-estar derivado do conjunto dos prazeres que o indivíduo viveu, vive e almeja viver. Essa abordagem hedônica do bem-estar inclui uma gama enorme de prazeres mentais ou corporais relativos aos julgamentos de “bom” ou “ruim” que as pessoas fazem dos elementos presentes nas suas experiências quotidianas na vida (RYAN; DECI, 2001, p. 144).

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Além disso, o viés hedônico dado ao bem-estar possui uma forte presença histórica e cultural. Oishi et al. (2013) identificam que cerca de 80% das nações analisadas em seu estudo possuem uma noção de bem-estar que está profundamente associada às ideias de sorte e de boa fortuna obtidas por meio das circunstâncias da vida. Alguns pontos associados a esse ideal correspondem a ser favorecido por riquezas, sorte, prazeres, satisfação com a vida, boa ventura, bom destino, eventos felizes, alegria, deleite, alívio, conforto, saúde, satisfação de desejos, jovialidade, boas condições de vida, triunfo e prosperidade.

As culturas ocidentais valorizam o bem-estar como um dos principais princípios que orientam a vida dos cidadãos e cidadãs. Nessas culturas, não conseguir alcançar o objetivo de ser feliz pode ser um motivo de fracasso pessoal. No entanto, o bem- estar parece não ser uma busca unânime em todo o planeta, principalmente quando ele é encarado como uma busca por prazeres, uma passageira satisfação com a vida ou como um sucesso mundano. Nessa visão, acredita-se que a busca pelo bem-estar hedônico pode fazer as pessoas infelizes, egoístas, superficiais e contribuir para que os outros sejam infelizes (JOSHANLOO; WEIJERS, 2014, p. 22).

No ocidente, foram realizadas pesquisas na área da psicologia para se entender quais circunstâncias poderiam favorecer a vivência de momentos agradáveis e quais seus efeitos na quantidade de bem-estar dos indivíduos. Esses estudos são centrados em descobrir em que medida os eventos externos, circunstâncias e variáveis demográficas podem influenciar o bem-estar. O precursor desse tipo de estudos foi Wilson (1967) que identificou como pessoas mais felizes àquelas com as seguintes características: mais jovens, saudáveis, bem-educadas, bem pagas, extrovertidas, otimistas, casadas, com alta autoestima, com um trabalho moral, de modestas aspirações e com um alto nível de inteligência.

A partir dessa abordagem de pesquisa surge o conceito do bem-estar subjetivo, (no inglês, Subjective Well-Being, sigla SWB), que é descrito pelos aspectos cognitivos e afetivos das experiências positivas quotidianas, de acordo com Diener (1984) e Diener et al. (1999). O bem-estar subjetivo pode ser aprimorado mediante a vivência em maior número de afetos positivos, vivência em menor número de afetos negativos e uma positiva avaliação da satisfação global que as pessoas fazem de suas vidas.

Os afetos são descritos como o somatório dos humores e emoções, os humores relacionados às experiências afetivas de média a longa duração e as emoções relativas às experiências afetivas de curta duração (RYAN; DECI, 2001). O termo subjetivo considera que os indivíduos julguem como suas vidas estão indo de acordo com o que acreditam ser relevantes para seu bem-estar.

O bem-estar subjetivo é avaliado por meio de escalas que medem os afetos positivos, negativos e o nível de satisfação com a vida no quotidiano. A escala mais usada para avaliar os afetos é descrita por Watson et al. (1988) e é conhecida como Categorias dos Afetos Positivos e Negativos (no inglês, positive and negative affect schedule, sigla PANAS). Os afetos avaliados na escala PANAS são: interessado, angustiado, excitado, chateado, intenso, culpado, assustado, hostil, entusiasmado, orgulhoso, irritável, vigilante, envergonhado, inspirado, nervoso, determinado, atencioso, ansioso, ativo e receoso. Por outro lado, a escala mais usada para medir a satisfação consta de cinco sentenças (DIENER et al., 1985, 1999), que são listadas a seguir:

o em muitos aspectos minha vida está próxima do ideal; o as condições da minha vida são excelentes;

o estou satisfeito com minha vida, eu consegui as coisas importantes que gostaria para minha vida;

o se eu pudesse viver novamente não mudaria nada na minha vida.

Entretanto, outras pesquisas realizadas na área da psicologia ocidental mostraram que o bem-estar de longa duração não é afetado por experiências positivas e de satisfação no quotidiano, mas sim pelas diferenças de personalidade, como disposição afetiva, comportamento por recompensa e ajuste da pessoa ao ambiente (DIENER; EMMONS, 1984). Esses estudos apontam que as pessoas mais felizes são aquelas com um temperamento positivo, que enxergam as coisas de maneira clara, evitam ruminar, excessivamente, sobre eventos ruins do passado ou do futuro e que vivem em busca de seus objetivos de valor e significado na vida (DIENER, 1984; DIENER et al., 1999).

Não significa que seja errado vivenciar os prazeres da vida no quotidiano, no entanto, é prudente refletir que as sensações prazerosas podem não contribuir para a construção de um estado de bem-estar de longa duração.

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De acordo com o fenômeno da adaptação hedônica, as experiências prazerosas perdem seu potencial de provocar sensações de bem-estar quando repetidas constantemente, de acordo com Frederick e Loewenstein (1999). Isso ocorre porque há um declínio das sensações agradáveis geradas por experiências repetitivas e por as pessoas aspirarem novas experiências com maior grau de sensações prazerosas (SHELDON; LYUBOMIRSKI, 2012). Ainda, as circunstâncias da vida, por mais que sejam prazerosas, contribuem muito pouco para a construção do bem-estar duradouro (LYUBOMIRSKY, 2008). Com o objetivo de expandir o debate sobre o bem-estar de longa duração, a seguir apresenta-se o conceito de bem-estar psicológico proposto por Ryff (1989).