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PARTE II – A DOCÊNCIA COMO UM ACONTECIMENTO

4.1 EXPERIÊNCIAS NA UNIVERSIDADE E APROXIMAÇÃO COM A DOCÊNCIA

4.1.5 Em processos relacionais: o professor supervisor

O descontentamento de Juliana com a experiência no estágio docência demonstra a falta de comprometimento do professor em seu papel de supervisor de estágio, uma vez que tanto as ações do professor quanto as do aluno, enquanto sujeito aprendiz, devem ser deliberadamente planejadas e propostas pelo professor responsável pelo processo de ensinagem. Contudo, a depender das relações que são estabelecidas entre os envolvidos, o desenvolvimento dessas ações e o seu devido acompanhamento podem não acontecer ou deixar a desejar. Para Juliana, embora a experiência do estágio tenha lhe proporcionado diversas aprendizagens, a apropriação de saberes docentes não se deu a partir de orientações pedagógicas do professor em momentos de construção conjunta, conforme ela almejava.

Segundo Juliana, a contribuição do professor supervisor do estágio foi muito pouca. “Foi uma disciplina de 30h, conversei algumas coisas com os alunos, apliquei prova [...]. Ele não chegou a pedir ‘prepare uma aula sobre esse tema’, eu não ministrei nenhuma aula”. Com

relação à participação no plano de curso da disciplina, ela afirmou que não teve nenhuma participação: “eu acho que ele não fazia nem para ele”. No entanto, vimos que houve um acordo tácito quando ela afirma que se encontrava na fase inicial de desenvolvimento de sua dissertação e preferiu não cobrar nada do professor. “Foi meio que livre e, também faltou iniciativa da minha parte [...]. Eu deixei que acontecesse, já veio assim e eu deixei, [...] para não me sobrecarregar”.

De fato, Juliana nos auxilia a introduzir a relevância do papel do professor supervisor em atividades de formação para a docência, reafirmada pelos entrevistados ao falarem de suas experiências formativas no estágio docência durante o mestrado. Porém, identificamos também um campo dos acordos implícitos e não cobranças de ambas as partes. A falta de orientação e acompanhamento do professor supervisor do estágio docente foi evidenciada nas falas dos entrevistados como o principal bloqueio para que o referido estágio não alcançasse a eficiência e a eficácia da formação proposta no Programa de Estágio Docência na Graduação (PEDG).

Apesar de a Resolução n. 063/2010-CONSEPE, em seu Art. 13, estabelecer que “O acompanhamento, supervisão e avaliação das atividades de assistência à docência serão realizados pelo professor responsável pelo componente curricular e pelo orientador, com ciência dos coordenadores de Graduação e Pós-Graduação”, ela não deixa claro quais são as atribuições dos sujeitos envolvidos no processo de formação.

Ratificando a nossa compreensão acerca da importância do papel do professor supervisor do estágio na formação de mestrandos e doutorandos para o ensino superior, a UFRN, considerando a necessidade de rever as normas que regulamentam as atividades de Assistência à Docência na Graduação, entre outras constantes na Resolução n. 063/2010- CONSEPE, em 23 de abril de 2019, cria a Resolução n. 041/2019-CONSEPE, que traz em seu Art. 5º as seguintes atribuições do Professor Supervisor de Estágio Docência:

I - orientar o estagiário no planejamento e elaboração do Plano de Atuação de Estágio Docência;

II - supervisionar somente um estagiário por turma;

III - acompanhar a execução das atividades propostas pelo estagiário no Plano de Atuação de Estágio Docência;

IV - contribuir com o estagiário no desenvolvimento de habilidades e na troca de experiências no campo profissional da docência universitária;

V – supervisionar toda atividade do estagiário diretamente relacionada à sua atuação em ambientes de prática docente (sala de aula, laboratório, clínica, hospital, outros);

VI – orientar o estagiário na elaboração do Relatório Final de Estágio Docência.

VII – avaliar a Docência Assistida, considerando as atuações do Professor Supervisor e do Estagiário.

Em face disso, acreditamos que os pós-graduandos que almejam a docência no ensino superior possam ter um melhor aproveitamento em sua experiência formativa no estágio docência. Contudo, entendemos ser de fundamental importância que haja permanente comunicação entre departamentos, coordenações de graduação e pós-graduação e professores supervisores de estágio docência, para que estes sejam esclarecidos acerca de suas atribuições e tomem ciência das responsabilidades que devem assumir sobre a formação de futuros docentes. Conforme os relatos dos entrevistados, os professores pareciam desconsiderar a orientação normativa e não atenderam ao estabelecido na resolução quanto ao acompanhamento, supervisão e avaliação das atividades de assistência à docência, o que pode ter contribuído para que muitos pós-graduandos não atingissem a formação proposta pelo estágio, já que o papel desses professores é primordial nesse processo formativo.

Maria relata que no seu estágio docência o acompanhamento da professora lhe dava mais segurança e foi muito importante para o seu fazer inicial no magistério superior. “Durante o estágio, eu [...] ministrei aula com ela me acompanhando em sala de aula, vendo o meu desempenho. Nunca tive que ministrar uma aula sem a presença da professora, ela sempre estava presente e isso foi positivo porque eu me sentia mais segura com a presença dela”. A interlocutora deixa claro que nessa experiência havia comprometimento por parte da professora supervisora do estágio docência. Ressalta que a docente tinha conhecimento acerca dos objetivos e finalidades daquele projeto de formação e das suas atribuições como professora supervisora, como também das atribuições de Maria, referentes ao seu papel de estagiária, o que, como já explicitamos, não aconteceu em sua experiência na monitoria.

Identificamos, ainda, na fala da interlocutora que, entre outros benefícios resultantes do seu estágio docência, havia uma relação dialógica entre ela, como estagiária docente, e a professora supervisora do estágio, que favorecia a aprendizagem da pós-graduanda no seu processo de formação para a docência. Conforme Maria, a atenção e o acompanhamento da parte da professora, como também o diálogo que existia entre as duas, resultaram na eficácia do estágio como contributo da pós-graduação para a sua prática docente iniciante.

Rogério teve uma experiência diferente, mas acredita que “[...] teria sido mais enriquecedor com a presença dele”. Na tentativa de explicitar a importância da orientação e do apoio do professor supervisor nesse tipo de formação para o ensino, Rogério fez a seguinte analogia: “[...] é como a presença de um pai ensinando a gente andar de bicicleta, uma hora a gente vai aprender. Se não tiver ninguém [apoiando], você vai cair muito. Mas, uma hora você vai perceber que tem de pedalar de tal forma [...] que vai aprender igual aprendeu andar [...]”.

Jorge explica que, mobilizado pelo CID, “[...] fui obrigado a fazer um planejamento, acho que da disciplina, um plano de aula, etc. [...] mas não foi junto com ele [o professor supervisor do estágio]. Eu só mandei e ele aprovou”.

Na compreensão dos interlocutores, a aprendizagem também se dá sem orientação explícita de alguém, ou seja, o indivíduo também é capaz de aprender sozinho, em processos de ensaio e erro. Porém, quando se tem orientação prévia, pautada em saberes teóricos e experienciais para as ações, possivelmente os erros e suas consequências serão minimizados. Um programa de formação deve estar em sintonia com as necessidades e perspectivas do discente para que possa exercer a docência com qualidade e eficácia na sua futura prática de ensino. Retomando a sua analogia, Rogério argumenta que “[...] seria interessante que seu pai estivesse ali segurando a bicicleta para você até dizer: ‘segure o ritmo e pedale com força’. E você vai”!

Álvaro revelou que o professor supervisor do seu estágio docência nunca lhe deixou sozinho em sala de aula, mas seu método de ensino deixava muito a desejar. “Ele me deu orientação para dar uma aula e todo o resto do curso eu estava com ele em sala, mas eu não peguei muito da técnica de docência desse professor não. Para ser sincero, eu não gostei muito da forma que ele dava aula [...]”. Mesmo assim, o interlocutor destaca que a experiência lhe serviu de aprendizagem, apreendendo pelo contraexemplo. “[...] Em relação a forma de avaliação, por exemplo, o método que eu uso hoje é muito dele [...]”.

Evidenciamos que até os que não tiveram orientação e acompanhamento nas atividades de monitoria e estágio docência consideram esses processos formativos fundamentais para a entrada no exercício do magistério superior, entendendo que todo conhecimento é válido e que a prática possibilita o despertar para o saber a partir da necessidade de busca de conhecimentos impostos pelo contexto. Pimenta (1999) corrobora esse entendimento, ao afirmar que a prática docente e pedagógica é o ponto de partida e de chegada da formação. É, portanto, no contexto dessas práticas que se encontram os caminhos para a formação docente (inicial e continuada). Ao afirmar que aprendeu muito com a prática dos estágios que realizou, Luciano destaca que considera esse tipo de participação fundamental para a formação docente do pós- graduando. O interlocutor fez quatro estágios docência, três deles realizados pelo Programa de Bolsas REUNI e um por meio do PADG-UFRN, obrigatório para todo bolsista CAPES de pós- graduação. Para Luciano, a participação dos professores nesse contexto foi essencial: “[...] fiquei bem habituado a sala de aula, estava sempre em sala de aula com os professores vendo tudo que eles faziam [...]. Então, tudo que eles faziam e que eu achava interessante guardei, porque poderia utilizar. Como hoje em dia eu utilizo”.