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PARTE II – A DOCÊNCIA COMO UM ACONTECIMENTO

3.1 A FAMÍLIA E A ESCOLA NO PROCESSO DE FORMAÇÃO PARA A PROFISSÃO

Trazemos neste tópico as influências e contribuições da família e da escola no processo de formação dos interlocutores da pesquisa que implicaram sua escolha inicial pela profissão técnica e, posteriormente, o encontro com a docência universitária. Evidenciamos, a partir das

falas dos professores bacharéis iniciantes, que os indivíduos têm no seio da família influências diretas e indiretas nas suas escolhas profissionais. Mesmo que a profissão inicialmente escolhida não seja aquela que irão exercer ao longo de toda sua vida profissional, há uma tendência de que as escolhas profissionais das pessoas estejam relacionadas a fatores familiares, tais como a profissão de membros da família (pais, avós, tios, primos, cônjuge etc.), aos valores construídos e aos conhecimentos, habilidades e competências desenvolvidos no contexto familiar. Na escola não é diferente, pois a ambiência escolar e o convívio com os professores e com os colegas também representam influências e contribuições significativas para a construção da identidade profissional.

Refletimos, então, acerca do desenvolvimento social dos indivíduos que está relacionado com o ambiente de socialização promovido pela família (condições de vida, valores da família, sistema educacional familiar), bem como pelas condições de formação promovidas pelas instituições de ensino. Nesse sentido, tanto a realidade socioeconômica e cultural das famílias quanto as condições escolares às quais são submetidas têm fortes influências na construção da identidade pessoal e profissional dos indivíduos.

Nessa direção, Dubar (2005, p. 147) explica:

[...] evidente que, antes de se identificar pessoalmente a um grupo profissional ou a um tipo de formação, o indivíduo, já na infância, herda uma identidade sexual, mas também uma identidade ética e uma identidade de classe social, que são as de seus pais, de um deles ou de quem tem a incumbência de educá- los. [...]. Contudo, é nas e pelas categorizações dos outros – e principalmente dos parceiros de escola (seus “professores” e seus “colegas”) – que a criança vive a experiência de sua primeira identidade social. Esta não é escolhida, mas conferida pelas instituições e pelos próximos com base, não somente nos pertencimentos éticos, políticos, religiosos, profissionais e culturais de seus pais, mas também em seu desempenho escolar.

A maneira como os atores sociais identificam-se uns aos outros é indissociável da definição do seu contexto de ação, que, por sua vez, é também contexto de definição de si mesmo e dos outros (DUBAR, 2005). Dito de outra forma, cada ator social tem uma certa definição da situação na qual está inserido e nela inclui a maneira de definir a si próprio e aos outros. Porém, se existe influência do contexto atual, também somos recheados de sentidos de outras vivências, ligados às trajetórias pessoal e social.

As identidades de ator estão assim vinculadas a formas de identificação pessoal, socialmente identificáveis. Elas podem assumir formas diversas, assim como são diversas as maneiras de exprimir o sentido de uma trajetória, ao mesmo tempo sua direção e sua significação (DUBAR, 2005, p. XIX).

Sendo assim, precisamos considerar que os sentidos que esses atores atribuem às suas ações estão condicionados a valorações, frutos de suas experiências vivenciadas em contextos presentes e pretéritos. Evidenciamos nas falas dos interlocutores que há influências familiares sobre suas inclinações e que essas influências abrangem um duplo sentido, pois, ao mesmo tempo que os direcionam para a docência como possibilidade de escolha da profissão, negam essa opção por preconceito, em virtude da desvalorização da profissão professor. Nesse sentido, a família influencia positivamente a partir do exemplo e negativamente com base no preconceito.

Observamos que na relação de interdependência e na convivência diária, especialmente com os pais e familiares, nós vamos construindo nossos valores, princípios e preferências. Desse modo, as influências dos pais e também de pessoas com quem convivemos podem determinar nossas decisões mesmo que indiretamente, pois os valores e as crenças que carregamos dão sentidos as nossas escolhas e ações. Oliveira (2011) trata a escolha profissional como um processo complexo de tomada de decisão, no qual estão envolvidas negociações entre fatores internos ou individuais (identificações, aptidões, estilos de vida, valores) e fatores externos (família, opinião de terceiros, necessidades de empregabilidade, entre outros aspectos que se sobrepõem aos desejos ou identificação profissional).

Conforme a referida autora, os fatores internos estão associados aos aspectos psicológicos do indivíduo, já os fatores externos estão relacionados aos aspectos advindos da cultura, das relações interpessoais, dos valores sociais, entre outros, que, quando transmitidos socialmente, influenciam os modos de ser e agir em sociedade. Desse modo, a motivação se origina das necessidades psicológicas e fisiológicas que emergem em determinados momentos de nossas vidas e representam a diferença percebida entre o estado atual e o ideal. Logo, as redes de interdependência que permeiam a vida dos indivíduos e suas necessidades psicológicas, fisiológicas e sociais são fatores de grande influência em suas decisões.

Nessa perspectiva, a docência universitária pode ser caracterizada como uma atividade complexa e determinada por fatores internos, por meio dos quais expressamos nossos desejos, intenções, perspectivas, valorações, dentre outros, ou por fatores externos, em que os discursos institucionais, os ideais sociais, políticos e econômicos, entre outros, se manifestam em âmbito mundial, nacional e local, formando a realidade em que vivemos (OLIVEIRA, 2011).

Na trajetória formativa do indivíduo, a família apresenta-se como uma das primeiras influências para a escolha da profissão e contribui para a construção de sua identidade profissional. Considerando que a inter-relação entre as pessoas promove contextos de

aprendizagem que vão facilitando o complexo desenvolvimento dos indivíduos que formam e se formam (GARCIA, 1999), entendemos que os valores humanos vão sendo adquiridos e construídos a partir da interação dos sujeitos em seus diversos grupos sociais. Assim, sendo a família a primeira instituição social de maior convivência do indivíduo, há nesse espaço muitas influências na sua formação, tanto pessoal quanto profissional.

As influências da família decorrem da aproximação que, desde cedo, as pessoas têm com os seus pais e familiares e, consequentemente, com as profissões exercidas por eles, de modo que “naturalmente” (como revelam todos os entrevistados) vão conhecendo e descobrindo em si certas aptidões para essa ou aquela profissão. Mesmo não tendo escolhido a docência como primeira opção para a carreira profissional, já que fizeram graduação em bacharelado, a maioria dos entrevistados revelou que influências familiares contribuíram para o seu encontro e entrada na docência universitária.

O conjunto das influências familiares é percebido pelos entrevistados de maneiras diferentes. A maioria deles assume que há influências direta da família e de pronto já identificam a relação da profissão escolhida com as já existentes dentro da família, outros não acreditam que haja influências familiares, mas inconscientemente as deixam transparecer durante a entrevista. Isso acontece porque não têm clareza ou não visualizam tal relação de influência. Evidenciamos, ainda, que as influências da família sobre a escolha profissional do indivíduo podem tanto aproximá-lo quanto afastá-lo da disposição por uma ou outra profissão.

Vimos que as profissões existentes na família e a ambiência familiar influenciam na escolha profissional. Luciano corrobora essa compreensão, ao afirmar: “eu sempre sonhei muito, tendo como base minha mãe e meu pai, que sempre trabalharam no ramo bancário, com aquela imagem de também ser um bancário, então, por isso eu escolhi Administração [...]”. Podemos perceber nessa fala que a escolha inicial pelo bacharelado em Administração aconteceu pela possibilidade de o referido curso levá-lo à carreira bancária que sempre idealizou espelhado na profissão dos seus pais.

Ana revela que a função social que sua mãe exercia na Secretaria de Assistência Social de uma prefeitura municipal do interior do estado do Rio Grande do Norte e o desejo de se graduar na profissão influenciaram a sua escolha inicial pelo curso de Serviço Social. Na época, não havia assistente social no município que a mãe de Ana trabalhava, de modo que os próprios funcionários da prefeitura assumiam a função social, mesmo sem ter a devida formação. A interlocutora, ao falar acerca da influência da mãe sobre sua escolha inicial pela profissão, sorri e afirma: “[...] uma vez eu a vi dizendo que se tivesse a oportunidade de continuar os estudos, minha mãe tinha só o ensino médio, ela teria feito Serviço Social [...]”. Ana, então, mesmo sem

saber o que significava Serviço Social e quais as atribuições desse profissional, fez do referido curso a escolha inicial para a sua profissão.

Rogério relatou que teve influência direta da família para a escolha da profissão, desde o ensino médio, quando entrou no Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET). Devido as suas aptidões para o desenho e por gostar de artes e tecnologia, ele foi orientado e incentivado pelos engenheiros e arquitetos que tinham na família a optar pela área tecnológica e decidiu fazer o curso técnico em Construção Civil. Chegado o momento da escolha do curso de graduação, ele ainda não tinha ao certo uma decisão formada sobre qual profissão seguir: “[...] eu sempre tive apreço a coisa da tecnologia [...]. O fato de eu gostar de tecnologia não influenciou na minha escolha/decisão profissional, eu acabei enveredando para a Administração”. Sua escolha prevaleceu influenciada pelos momentos de instabilidade financeira vivenciados na família, decorrentes da atividade profissional do seu pai. “A profissão do meu pai (geólogo) passa por essa coisa da instabilidade econômica, quando a economia vai muito bem ele está muito bem, quando a economia vai muito mal ele está muito mal [...]”.

O sentido da escolha de Rogério pelo bacharelado em Administração está vinculado ao ideário de segurança, previsão de riscos, garantia, ou seja, aos valores familiares referentes à importância da estabilidade financeira para a vida pessoal e profissional do indivíduo. “Minha primeira graduação não concluída foi em Economia”. Ainda durante o curso, ele resolveu mudar e ingressou em Administração: “Eu não pensava ser um empreendedor, eu não pensava em passar em um concurso público. A minha mãe falava muito, busque uma estabilidade, busque o seu dinheiro e a sua independência [...]”. Embora sua mãe estivesse sempre chamando a atenção dos filhos, “busque uma estabilidade, busque seu dinheiro e sua independência, não interessa o que você faça”, era notório que ela não desejava a docência para os seus filhos, tendo em vista a desvalorização e a má remuneração da profissão. Esse sentimento ficou incorporado em Rogério, de forma que a docência não era a sua preferência profissional: “Professor não ganha bem [...]. Eu e meu irmão crescemos olhando com certo preconceito para isso. A gente queria ser um grande executivo de uma empresa [...]”.

Aprender como superar situações e garantir empregabilidade eram significativos para o interlocutor. Desse modo, as diversas influências que tinha da família o aproximavam de variados aprendizados, mas, por vezes, lhe causavam dúvidas por qual profissão seguir. O conjunto dessas influências, ao mesmo tempo que o aproximava de determinada profissão, afastava-o de outras. Para Rogério, “[...] se fosse depender da minha casa, da minha família, eu não teria enveredado pela carreira docente [...]”.

Nos discursos de Antônia e de Álvaro, também podemos visualizar a influência familiar na escolha pela profissão inicial e posterior ingresso na docência, contudo destacamos outros aspectos. Antônia expressa a influência da ambiência, ao afirmar: “meu pai é um super leitor, isso tem uma influência muito grande na minha vida, eu gosto muito de estudar, gosto muito de ler. Então, isso sempre fez parte da minha formação. Provavelmente por isso, entre outras coisas, eu escolhi jornalismo”. Álvaro, apesar de não ter escolhido inicialmente a docência como profissão, atribui a seu pai a maior influência para seguir a carreira docente e revela que em sua casa existia um ambiente educativo, escolar e de ajuda mútua que o aproximou da docência.

Álvaro afirma: “meus pais têm formação na área de educação. Meu pai é matemático [...] e minha mãe é pedagoga”. Ele relata que era comum todos da família ajudarem-se uns aos outros. Sempre que alguém tinha uma dúvida, o outro estava pronto para orientar, ensinar. “Isso de certa forma contribuiu muito porque eu acabei tendo uma identificação com o que as pessoas têm dificuldades de aprender, [...] mas eu não pensava em ser professor, foi uma coisa que aconteceu meio que naturalmente”. Corroborando esse entendimento, José complementa: “uma tia minha foi quem enveredou pelo caminho acadêmico. Ela foi buscar o mestrado na Paraíba, depois veio fazer o doutorado aqui em Natal e sempre me incentivava”.

Maria também fala das suas influências familiares: “na minha família, a minha avó era professora, eu tenho quatro tias que são professoras, [...] talvez tenha sido uma mistura de tudo”. Como presume Maria, é possível que tenha sido um conjunto de diversas influências, pois a aproximação com profissões de pessoas da família, o incentivo e as experiências vivenciadas na ambiência familiar, entre outros fatores, contribuíram para que enveredasse pelos caminhos da docência. Fátima argumenta que em sua família há muitos professores e dois deles lhe serviram de referência e incentivo para seguir a carreira docente. Um é o seu primo: “ele é professor doutor, concursado da UERN e foi a primeira pessoa que fez um mestrado na família”. O outro é o seu marido. “Ele é uma referência porque é mais novo do que eu e foi pós-doutor antes dos trinta anos”

Evidenciamos que a escolha/opção por determinada profissão não é apenas uma escolha. Ela é fruto de uma construção social, de experiências vivenciadas e de valores e saberes apreendidos pelo indivíduo em suas pertenças, contribuindo para a sua identidade profissional. As contribuições e as influências dessas pertenças no processo de formação para a profissão do indivíduo nem sempre lhe são diretamente visíveis.

Mari, em sua fala, demonstrou falta de clareza quanto a influências e contribuições da família no seu processo de formação para a profissão. Por um momento, ela revela: “meu pai é

professor [...], a docência sempre esteve lá em casa. É quase um cargo de família, meu bisavô também era professor [...], mas nunca foi meu desejo, eu nunca pensei ser professora [...]”. Em outro momento, ela afirma que vivenciou situações de instabilidade familiar e financeira que a levaram a passar por experiências que contribuíram para a sua formação pessoal e profissional. Ela declara que, apesar das dificuldades que teve de enfrentar, “[...] minha mãe sempre investiu em educação [...]”, ou seja, a valoração pela educação era prioridade na família e repassada de geração para geração.

Percebemos na fala de Mari, como na de outros entrevistados, que, apesar de não visualizarem diretamente as influências da família para o seu encontro com a docência, suas crenças e ações denunciavam os sentidos que os valores familiares exercem sobre eles. Mari afirma que seu pai, professor e conhecedor das dificuldades da docência, nunca influenciou os filhos a seguirem a carreira docente. “Ele sempre teve essa paranoia ‘vão primeiro tentar ganhar dinheiro, docência não dá dinheiro’ [...]. Meu pai nunca foi só professor, ele sempre trabalhou com consultoria de empresas na parte de geologia”.

Rogério complementa ao falar que teve experiência semelhante. Sua mãe, professora da rede básica de ensino, incentivava os filhos a buscarem uma profissão que lhes proporcionasse boa remuneração. Na perspectiva de ser um grande executivo e alcançar a remuneração almejada, ele decidiu ingressar no curso de Administração, pois “[...] a grande maioria dos alunos de Administração sonhou de alguma forma com isso”. Quanto ao sentimento que tinha com relação à profissão professor, o interlocutor afirma: “é lógico que a gente cresce e quebra essa barreira do preconceito, mas se fosse depender da minha casa, da minha família, eu não teria enveredado pela carreira docente [...]”.

Sendo assim, entendemos que a família, imersa no conjunto de fatores que configuram a complexidade da formação e o desenvolvimento profissional dos indivíduos, exerce influências que contribuem para a escolha da profissão, o processo de constituição profissional e a apropriação de saberes que os auxiliam na prática docente. Contudo, o mais importante é percebermos que essas influências não podem ser assentadas de forma simplificada. Isso ocorre porque esses interlocutores carregam consigo elementos da formação que estiveram presentes no seu ambiente familiar e que os influenciaram não apenas para a escolha do bacharelado, mas também para a sua posterior entrada na docência, apesar de posicionamentos contrários, como a preocupação da família com a estabilidade financeira que se materializava no preconceito pela profissão professor, devido à má remuneração e à desvalorização da profissão.

Sobre as influências da escola para a escolha da profissão, à medida que mergulhávamos na escuta das falas dos docentes entrevistados, íamos percebendo que o tipo de escola, os

métodos de ensino, os valores e os conceitos praticados e ensinados pelas instituições escolares fazem diferença na construção da identidade do indivíduo que está sendo formado. Gisa, filha e sobrinha de pedagogas, reconhece as influências de diversas pessoas da família em seu processo de formação e constituição profissional, mas destaca que as maiores influências e contribuições para a sua formação e posterior encontro com a docência foram de sua mãe, de sua tia e da escola na qual foi educada: “[...] aprendi a andar, falar, tudo dentro da escola [...]. Aprendi a ler muito rápido [...], a ter um desenvolvimento cognitivo um pouco mais acelerado devido a esse estímulo”.

Gisa tinha a escola como o seu habitat, ou seja, como um ambiente natural e naturalizado. Passava o dia inteiro na escola convivendo com professores, funcionários e colegas, bem como presenciava e se envolvia em atividades educativas e de ensino para além da sua idade-série. Ao chegar em casa, ainda presenciava sua mãe corrigindo provas, planejando aulas, criando atividades etc. A respeito de sua desenvoltura no período escolar, explicita: “quando a gente ia estudar em grupo, eu sempre gostava de dar aula. Quadro [negro] era a minha diversão, o meu brinquedo favorito [...]. Não sei, mas esse ambiente me impulsionou”.

Os conhecimentos e as múltiplas habilidades que Gisa adquiriu na sua trajetória formativa, desde cedo dentro do ambiente escolar, deram-lhe uma base e certa desenvoltura para o trato com pessoas, desenvolvimento de atividades criativas e diversificadas, gestão escolar, entre outras habilidades necessárias à prática docente. Suas várias experiências e habilidades desenvolvidas na ambiência escolar contribuíram para a escolha pela profissão e posterior ingresso na carreira docente. “Eu gostava de tanta coisa, gostava da parte de pedagogia; da parte de psicologia - interação com as pessoas, entender comportamento; gosto da parte de gestão porque eu sempre fui líder em tudo que eu participava. Foi daí que me despertou por Administração [...]”.

Juliana demonstra entusiasmo pela escola na qual cursou a educação básica e enfatiza a importância das contribuições que teve nessa instituição para a sua formação pessoal e profissional, alicerçada na ética, na cidadania e no valor humano: “[...] a diretriz da escola era formar cidadãos, acima de formar pessoas para uma educação formal, para fazer [vestibular] nível superior [...]. Foi onde eu concluí o ensino médio. [...] eu fui [instruída/educada] por ela a vida inteira”. A interlocutora explica que “[...] desde pequena as minhas vivências na escola eram de aprender a raciocinar, a pensar, aprender a criticar, a falar sobre alguma coisa, de viver o momento”. Afinal, socializar no ambiente escolar é preparar o indivíduo para a vida em coletividade, desenvolver seu senso crítico e torná-lo autônomo.

Pérez Gómez (1998) corrobora esse entendimento ao afirmar que nas sociedades contemporâneas a preparação dos indivíduos para ingressarem no mundo do trabalho e na vida pública requer a intervenção de instâncias como a escola, que tem como função atender e canalizar o processo de socialização. Desse modo, entendemos que a escola deve ser um lugar onde o indivíduo possa se socializar e obter formação adequada para a construção e realização de futuros projetos de vida. As sociedades mudam e a escola precisa estar em conformidade com as necessidades delas.

Canário (2008) afirma que as mutações da escola, em tempo de incertezas, exigem novos paradigmas que são construídos no trabalho cotidiano, onde lutamos para sobreviver. Ao discutir sobre a proposição de mutação da escola, o autor assevera que construir a escola do futuro supõe transformar os alunos em pessoas, pois somente assim a escola poderá assumir- se, para todos, como um lugar de hospitalidade. Conforme Juliana, uma das coisas que mais lhe estimulava e dava prazer e curiosidade na escola era o fato do ensino e da aprendizagem se darem por um processo de buscas e descobertas de saberes. Em outras palavras, o modelo de ensino empregado pela escola onde estudava lhe conduzia a construir e se construir. Isso ocorre