UMA PRIMEIRA INCURSÃO SOBRE A INVESTIGAÇÃO
N. Autor(a) Orientador(a) Título da Produção Ano
4.2.4 EMC – mapeamento dos formadores de professores
Ainda com a pergunta “Existe EMC no Brasil?”, para além do mapeamento das teses e dissertações, também se investigou a inserção da EMC na formação inicial de professores de matemática. Para tanto,
elegeu-se a busca pelos formadores de professores que se aproximam desse campo de investigação.
Os formadores são os sujeitos que vivenciam os cursos de formação de professores. Logo, podem falar com propriedade dessa realidade, além de que são esses sujeitos que podem provocar mudanças nos cursos de formação de professores.
Para identificar os sujeitos, recorreu-se aos currículos disponibilizados na base da Plataforma Lattes99. Utilizou-se a busca por
assunto para identificar os sujeitos que apresentavam, em seus respectivos currículos, as palavras-chave de produção: “Educação Matemática Crítica” e “Formação de Professores”. Obteve-se o total de 127 formadores de professores com aproximação desse campo de investigação. Para refinar a seleção dos sujeitos, realizou-se a análise individual dos resultados. Observou-se cada um dos 127 currículos, de modo a identificar dois critérios:
I. Atuar na formação inicial de professores de matemática, pelo menos nos últimos cinco anos (2010 a 2015).
II. Apresentar produção que indicasse relação com a EMC (não necessariamente relacionada à formação de professores). Selecionaram-se 54 sujeitos que atendiam coetaneamente aos dois critérios. O Quadro 9A disponível no Apêndice 8 ilustra os resultados obtidos.
Os formadores identificados, com exceção de um que é pedagogo, têm atuação na área de EM. Destes, alguns atuam, também, na área de matemática.
A respeito da ocupação geográfica, por formadores de professores com atuação na área de EMC, desenha-se uma disseminação, mesmo que pontual, atingindo 15 estados brasileiros, com maior concentração nos estados de São Paulo, Paraná e Bahia.
O resultado exposto neste item mostra que, no Brasil, há um grupo de formadores de professores que atua nos cursos de formação inicial de matemática e tem produção referente à EMC. Cabe, agora, investigar se esses formadores conseguem levar as discussões da EMC para os referidos cursos e se possuem contato com os demais formadores ou se atuam com essa perspectiva de forma isoladaainda.
4.3 REFLEXÕES: OS CAMINHOS DA EMC
Pelo exposto até aqui, pode-se dizer que a EMC é um movimento que se preocupa, sobretudo, com os aspectos políticos da EM. Esse movimento não se constitui uma subárea da EM nem se ocupa de metodologias e técnicas pedagógicas ou conteúdos programáticos. Pelo contrário, sua concepção se encontra implícita na postura epistemológica do professor, estando presente em todos os espaços da EM, de modo a apresentar constantemente críticas à EM. Com essa intencionalidade, se manifesta como “a expressão de preocupações a respeito da EM” (SKOVSMOSE, 2014, p. 11).
A EMC, enquanto campo de pesquisa, vem se destacando, tanto internacional quanto nacionalmente. Entretanto, ainda não se firma com um coletivo de pesquisadores com aprofundamento na área, visto que a maioria dos orientadores de teses e dissertações orientou uma única pesquisa sobre EMC. Enquanto campo profissional, está crescendo, mas ainda não se manifesta com contundência, isto é, está circunspecta a interesses de alguns, podendo transformar-se em pesquisas pontuais que não tiveram aportes suficientes para influenciar mudanças na estrutura curricular.
A produção de teses e dissertações analisada apresenta dados relativos a um momento específico, de uma determinada prática, que foi destinado à pesquisa de pós-graduação. Praticamente, todos os trabalhos observados fizeram uma análise de uma proposta pontual para sala de aula em que aplicaram conceitos da EMC, com referências nas obras de Skovsmose. Dessa forma, não apresentam continuidade e mudanças ao sistema curricular da própria instituição em que atuam. Porém, é importante destacar que são essas pequenas manifestações que podem promover, paulatinamente, inquietações e apresentar novas formas de desenvolver a EM, imbricadas às questões sociais e, aos poucos, provocar mudanças em uma perspectiva crítica no modo de conceber a EM.
De um modo geral, é preciso ficar alerta para que a apropriação das perspectivas da EMC aconteça de maneira a avançar na sua compreensão no que concerne à crítica à EM e aos fundamentos epistemológicos assumidos. Pode ser perigoso quando apenas se estabelece uma discussão internalista100 acerca da aplicação da EMC, isto é, quando o
100
Para a concepção epistemológica internalista, a ideia básica é aquela segundo a qual o que determina se uma crença é garantia para uma pessoa são fatores ou estados em algum sentido internos a ela, isto é, as propriedades que conferem garantia são de alguma forma internas ao sujeito ou ao conhecedor.
pesquisador/professor se apodera superficialmente das abordagens da EMC e busca uma aplicação que, em sua maioria, acontece isolada da realidade da sala de aula ou, ainda, quando a investigação acontece com um pequeno grupo, em que é impossível inferir dificuldades externas àquele experimento. Analisando a aplicação isolada em um determinado grupo, a EMC parece funcionar, e nasce a crença de que, ao desenvolver atividades com as proposições da EMC, o aluno passa a ser um sujeito crítico e, o que pode ser mais grave, acreditar que, apenas por essas discussões, será um sujeito emancipado.
A compreensão desse tipo de atividade pode ser ingênua, por creditar que somente por meio de atividades desenvolvidas nos parâmetros da EMC os estudantes terão uma formação crítica, tornando- se capazes de compreender e interpretar a realidade. No entanto, se faz necessária uma reflexão mais profunda, que vise desvelar as relações que são essenciais para que uma formação crítica e uma possível competência democrática aconteçam.
A EMC, em consonância com o visto até o momento, parece ser o que se apresenta de mais avançado nas discussões críticas à EM. Ela estabelece relações intrínsecas entre o conhecimento matemático e as suas articulações com a realidade. Por isso, há exigência de uma vigilância quanto à matematização da sociedade contemporânea que, por sua vez, pode produzir tanto maravilhas como horrores. Esse apontamento conduz a formular mais um capítulo, em busca de problematizar a EMC e suas articulações com a formação de novos professores.
5. FORMAÇÃO “CRÍTICA” PARA PROFESSORES DE