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CAPÍTULO II – DO PROCESSO LEGISLATIVO: ASPECTOS GERAIS

2.4 DAS ESPÉCIES LEGISLATIVAS

2.4.1 Emendas à Constituição

As emendas constitucionais são tratadas no artigo 60 da Constituição Federal de

1988

31

, e dizem respeito a modificações nesta realizadas. Se tratam de espécies normativas

primárias, produzidas através de procedimento e quórum especial e, uma vez aprovadas, se

tornam normas constitucionais com o mesmo status de qualquer outra, se sujeitando,

inclusive, ao controle de constitucionalidade.

Não se confundem com as emendas de revisão, como bem disciplina DANTAS

(1997, p. 28),

Em síntese: para nós, há uma diferença de amplitude entre Emenda e Revisão

Constitucionais, pelo menos se as olharmos pela óptica da Constituição de 5.10.88, a

31 Art. 60. A Constituição poderá ser emendada mediante proposta:

I - de um terço, no mínimo, dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal; II - do Presidente da República;

III - de mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação, manifestando-se, cada uma delas, pela maioria relativa de seus membros.

§ 1º - A Constituição não poderá ser emendada na vigência de intervenção federal, de estado de defesa ou de estado de sítio.

§ 2º - A proposta será discutida e votada em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, considerando-se aprovada se obtiver, em ambos, três quintos dos votos dos respectivos membros.

§ 3º - A emenda à Constituição será promulgada pelas Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, com o respectivo número de ordem.

§ 4º - Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: I - a forma federativa de Estado;

II - o voto direto, secreto, universal e periódico; III - a separação dos Poderes;

IV - os direitos e garantias individuais.

§ 5º - A matéria constante de proposta de emenda rejeitada ou havida por prejudicada não pode ser objeto de nova proposta na mesma sessão legislativa.

segunda tendo um sentido global, enquanto a primeira, de caráter restrito, não sofre nenhuma limitação temporal além daquelas mencionadas no parágrafo 1º do art. 60, enquanto que na Revisão, além destas, havia o limite de cinco anos.

Desta feita, nos termos do artigo 60 da CF/88, esta poderá ser emendada através de

proposta de, no mínimo, um terço dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado

Federal; do Presidente da República; ou de mais da metade das Assembleias Legislativas das

unidades da Federação, manifestando-se, cada uma delas, pela maioria relativa de seus

membros.

Assim, diferente do que ocorre com as outras espécies normativas, como será visto a

seguir, as emendas constitucionais não podem ser propostas pela vontade isolada de um

parlamentar, já que a Carta Magna exigiu a assinatura de um número determinado deles para a

apresentação de seu projeto.

Essa medida se dá com a finalidade de tornar mais difícil a reforma da Constituição,

que é o documento mestre de todo o ordenamento jurídico e que, por isso, deve estar

protegido de mudanças indevidas e por vontade de poucos, garantindo a segurança jurídica

tão perseguida pela ordem jurídica.

As Assembleias Legislativas também são titulares e podem propor emendas

constitucionais, o que garante a participação democrática nas possíveis reformas, o que não

era permitido pelas Constituições Federais brasileiras de 1937 e 1969 (DANTAS, 1997, p.

31). Além disso, ao Presidente da República, chefe do Poder Executivo, também é garantida a

iniciativa de propor emendas constitucionais.

No entanto, não é em qualquer momento que a Constituição Federal pode ser

emendada, motivo pelo qual existem as chamadas limitações ao processo de emenda, as quais

podem ser temporal, material e processual. Nesse sentido é que o §1º do art. 60 consigna que,

em casos de intervenção federal, estado de defesa ou de sítio, não poderá haver emendas à

constituição, com a nítida finalidade de manter a ordem jurídica o mais estável possível e sem

a possibilidade de se fazer ameaças ao Estado Democrático de Direito.

As cláusulas pétreas, disciplinadas no §4º do mesmo art. 60 (forma federativa de

Estado; voto direto, secreto, universal e periódico; separação dos Poderes e direitos e

garantias fundamentais), não podem também ser modificadas através de emenda

constitucional, mais uma vez, com a finalidade de assegurar a segurança jurídica dos

cidadãos, pois, caso essas pudessem ser modificadas, não se garantiria nenhum direito, muito

menos o Estado Democrático de Direito.

Tais limitações, evidentemente, só funcionam quanto ao Poder de Reforma (daí porque acima falamos em “vigência do processo constitucional”!) sendo desnecessário dizer-se que não atingem o exercício do Poder Constituinte, ilimitado, sob o ponto de vista jurídico-positivo.

E, a respeito da impossibilidade de emenda constitucional tendente a modificar

alguma cláusula pétrea, muito bem continua os seus ensinamentos DANTAS (1997, p. 33):

A esta altura, encontramos na própria Lei Maior, um aspecto que merece ser destacado: não é necessário que a proposta de emenda traga, em si, diretamente,

uma ameaça de alcançar os princípios citados. Suficiente será apenas que esteja

marcada por uma tendência à abolição de qualquer um dos incisos que compõem o art. 60, parágrafo 4º, para que não possa, nem ao menos, ser proposta. Em consequência, só a visão sistêmica do texto constitucional, embasada em conceitos de Ciência Política, é que informará quais os pontos “isentos” ou “sacralizados” do texto. O que caracteriza uma Federação? E a Separação dos Poderes? E os Direitos e Garantias Individuais?

A resposta que se dê a cada uma das interrogações acima formuladas, e sua identificação no texto global da Constituição, já torna a proposta de emenda por si só impossível, até mesmo pelo fato de apenas visar diminuir os parâmetros já hoje consagrados, e que, então, só não resistiriam ao exercício do Poder Constituinte, pela sua própria natureza fática, sociológico-política.

Quanto ao procedimento, as emendas à constituição possuem um rito próprio: a

discussão e a votação ocorrem em dois turnos em cada uma das Casas (Câmara dos

Deputados e Senado Federal), e a aprovação do projeto ocorre com a obtenção de três quintos

dos votos favoráveis dos membros de cada Casa.

FERNANDES

32

(2014, p. 884-885) dá um exemplo bastante didático para entender o

procedimento das emendas constitucionais, e que vale a pena conferir:

1ª) Fase: iniciativa: apresentação de uma PEC (Proposta de Emenda

Constitucional) pelos legitimados do art. 60, I, II, III, da CR/88 na Casa que será a

Casa iniciadora → a PEC apresentada vai para a Mesa da Casa (no exemplo, ora

trabalhado, será a Mesa da Câmara dos Deputados)

2ª) Fase: Constitutiva → A Mesa da Câmara encaminha à CCJ da Câmara

→ a CCJ terá 5 sessões para realizar um juízo de admissibilidade sobre a PEC → admitida a PEC, ela seguirá para uma comissão especial → A comissão especial (temporária) terá 40 sessões para elaborar um parecer sobre a PEC → posteriormente, a PEC será encaminhada ao 1º Turno de votação na Câmara dos Deputados, tendo como quórum necessário para a sua aprovação o quórum de 3/5 dos membros da Casa → aprovada em 1º turno ela irá a votação no 2º turno → aprovada em 2º turno por 3/5 dos votos → a PEC será encaminhada para a outra

32 O autor divide o processo legislativo em três fases, quais sejam: a introdutória ou de iniciativa (fase de deflagração do processo legislativo, que faz com que ele tenha início); a constitutiva (fase de tramitação do processo legislativo, em que ocorrerão as discussões e deliberações das proposições normativas), e a complementar (atestado de existência da norma e sua apresentação ao território nacional).

Casa (que no nosso exemplo será o Senado) → no Senado a PEC vai para a Mesa

do Senado → da Mesa, a PEC será encaminhada à CCJ do Senado, que será encarregada de realizar um juízo de admissibilidade e um parecer sobre a PEC num prazo de 30 dias → posteriormente, a PEC será encaminhada ao plenário para deliberação em 1º Turno → se aprovada com o quórum de 3/5, a PEC será encaminhada para a deliberação em 2º Turno → se aprovada em 2º turno, no Senado

3ª) Fase: Complementar (integração de eficácia): aprovada em dois turnos,

nas duas Casas, surge uma nova emenda constitucional, que conforme o art. 60 §3º da CR/88, será promulgada pelas Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado

Federal, com o respectivo número de ordem.

É mister salientar que podem ser apresentadas emendas à PEC tanto na Câmara quando no Senado. Só que aqui temos uma observação. O quórum para a apresentação de uma emenda à PEC será de 1/3 dos membros da Casa (171 deputados na Câmara de 27 senadores no Senado). Outra questão interessante é que se na “Casa revisora” (embora esse termo não seja o mais adequado, usamos aqui, como há dito, para fins didáticos), seja o Senado (como trabalhado em nosso exemplo) ou a Câmara dos Deputados, for aprovada a PEC com emendas e ocorrer uma alteração substancial na PEC, ela deverá ser encaminhada à “Casa iniciadora” do procedimento para a apreciação das emendas.

Desta forma, as emendas constitucionais possuem uma formalidade para serem

aprovadas, necessitando de aprovação por 3/5 dos membros das Casas, o que sem dúvidas é

um quórum bastante difícil de ser atingido, com a finalidade de tornar mais dificultoso o

processo de mudança constitucional.

Nos termos do §5º do art. 60, se for rejeitada ou prejudicada, o projeto da emenda

não poderá ser objeto de nova proposta na mesma sessão legislativa, só podendo sê-lo na

próxima sessão legislativa.

Por fim, as emendas constitucionais não se submetem à sanção ou ao veto do Poder

Executivo, mas tão somente são promulgadas pelas Mesas das Casas Legislativas, sendo

publicadas pelo Presidente do Congresso Nacional, se caracterizando, desta feita, como ato

soberano das Casas.