CAPÍTULO IV: AS POSSIBILIDADES DECISÓRIAS DO STF
6. Ementas
Finalizada a votação, o Relator elaborará o acórdão, que será remetido à publicação por sua conclusão e ementa. Assim, a “ementa” é parte integrante do acórdão e, juntamente com a conclusão (dispositivo da decisão) é publicada no diário oficial.
Nos termos do art. 563 do CPC, “todo acórdão conterá ementa”237. A redação
atual do dispositivo, conferindo tal obrigatoriedade, foi obra de alteração legislativa efetivada pela lei 8.950/94. Até então, havia tribunais que, em seus regimentos internos, dispensavam a sua obrigatoriedade nos julgados (CUNHA, 2004).
235 Art. 557. O relator negará seguimento a recurso manifestamente inadmissível, improcedente, prejudicado ou em confronto com súmula ou com jurisprudência dominante do respectivo tribunal, do Supremo Tribunal Federal, ou de Tribunal Superior.
§ 1o-A Se a decisão recorrida estiver em manifesto confronto com súmula ou com jurisprudência dominante do Supremo Tribunal Federal, ou de Tribunal Superior, o relator poderá dar provimento ao recurso.
§ 1o Da decisão caberá agravo, no prazo de cinco dias, ao órgão competente para o julgamento do recurso, e, se não houver retratação, o relator apresentará o processo em mesa, proferindo voto; provido o agravo, o recurso terá seguimento.
§ 2o Quando manifestamente inadmissível ou infundado o agravo, o tribunal condenará o agravante a pagar ao agravado multa entre um e dez por cento do valor corrigido da causa, ficando a interposição de qualquer outro recurso condicionada ao depósito do respectivo valor.
236 Fonte: http://www.stf.jus.br/portal/cms/verTexto.asp?servico=estatistica, consultado em 08 de maio de 2013. 237 Há quem entenda que não há nulidade do acórdão que não contenha ementa, assim: “Não contendo ementa o acórdão, poderá, como visto, haver alguma dúvida quanto à sua lavratura, no momento da intimação da parte, mediante publicação no Diário Oficial. Nesse caso, nula será a intimação, e não o acórdão.” (CUNHA, 2004)
A ementa do acórdão nada mais é do que um resumo bastante sintético do conteúdo do acórdão. De Plácido e Silva (1997a: 150) assim define o termo ‘ementa’:
Derivado do latim ementum (pensamento, ideia), de e e mens (juízo, razão, mente), é aplicado de modo geral, para indicar toda espécie de apontamento ou anotação tomada pela lembrança, a fim de que por aí se produza depois o documento escrito, que se quer fazer, ou se execute o ato nela lembrado. (...) Em sentido próprio do Direito, quer ementa significar o resumo que se faz dos princípios expostos em uma sentença ou em um acórdão, ou o resumo do que contém uma lei, provisão, alvará, decreto, levado à assinatura da autoridade a quem compete referendá-la ou decretá- la.
“Em uma palavra, pode-se dizer que a ementa é o resumo do julgamento” (CUNHA, 2004). Para Nelson e Rosa Nery é “o título do acórdão do qual devem constar, de forma sintética, menção às principais matérias decididas no julgamento e a descrição das teses adotadas pelo órgão julgador” (NERY; NERY, 2006: 822).
Há quem entenda, de outro lado, que a ementa é uma “norma jurídica judicializada, criada para o caso objeto do julgamento”238 (AGUIAR JUNIOR, 2008). Não concordamos com esta posição, pois a ementa, ao nosso ver, não pode substituir o inteiro teor do acórdão239, devendo ser utilizada unicamente como forma de auxílio para a pesquisa de decisões judiciais anteriores. “À evidência, a ementa não é o acórdão nem com ele se confunde. Trata-se, apenas de resumo do que ficou decidido no julgamento pelo tribunal” (CUNHA, 2004).
É elaborada pelo Relator240, mas ao nosso ver deveria ser elaborada pelo órgão
julgador na sua composição completa, de sorte a permitir que os termos da ementa fossem também objeto de deliberação241 e que, consequentemente, pudessem representar o
“entendimento da Corte”.
238 “Costuma-se dizer que a ementa é um resumo, uma síntese, um sumário do julgado. Acredito que não. Quem elabora a ementa não tem obrigação de fazer um resumo do que foi julgado nem um sumário do seu voto; deve, isto sim, expressar na ementa a norma jurídica aceita no julgamento de que se trata. A ementa é a norma jurídica judicializada, criada para o caso objeto do julgamento.” (AGUIAR JUNIOR, 2008)
239 Em sentido contrário, afirma Guimarães (2004: 66) que “Na condição de resumo, deve o dispositivo ser informativo (e não indicativo), substituto do documento original no processo inicial de pesquisa. Deve ser inteligível por si só, sem depender do cabeçalho ou do acórdão, mormente pelo fato de que, dado o prestígio que a ementa jurisprudencial goza no meio jurídico, será ela, via de regra, transcrita em peças processuais e pareceres para representar um determinado acórdão, seguida de referência bibliográfica do mesmo.”
240 “A ementa é elaborada de um modo geral pelo relator, mas seria conveniente que fosse também submetida ao colegiado. Muitas vezes, nos julgamentos, ouve-se o vogal perguntar: “E como ficará a ementa?” Porque ele sabe da importância da ementa, porquanto é o que vai ser objeto de divulgação. Daí a conveniência de que a própria ementa, nos casos mais relevantes, seja também submetida ao conhecimento dos demais integrantes da turma ou da câmara.” (AGUIAR JUNIOR, 2008)
241 “Como a ementa sempre implicará certa filtragem, porque o seu autor terá que extrair a essência do julgamento, corre-se o risco de aproveitar o que é acidental e abandonar a essência. Há também o perigo de empregarmos as nossas palavras, ou – o que é pior – de inserir as nossas idéias, em lugar de aproveitar as palavras do acórdão ou os fundamentos dos julgadores. O equívoco na informação ou a inserção do que
Pequenas alterações podem representar ganhos substanciais para a manutenção da unidade sistêmica na interpretação do direito. Nas palavras de Marcela Mattiuzzo, “(A)a mudança no método de elaboração de ementas, por exemplo, é algo que depende exclusivamente dos próprios ministros e que penso contribuiria para um processo deliberativo mais organizado” (2011: 67).
De qualquer forma, a ementa deve sempre ser vista como método de auxílio para encontrar os julgamentos elaborados pelo Tribunal, e nunca serem elas os instrumentos de vinculação e/ou de referência para os julgamentos anteriores.
A ideia de entender que a vinculação das decisões do Tribunal Constitucional Federal alemão se dava pelas ementas foi duramente criticada pela doutrina (MARTINS, 2005: 119), já que estas têm o objetivo de sintetizar a decisão tomada e, portanto, um escopo não vinculante por excelência, e quanto a isso a opinião é unânime (MARTINS, 2005: 119).
A utilidade da ementa, portanto, em nosso sentir, é a de referenciar o acórdão, ou seja, de facilitar a pesquisa sobre o conteúdo de uma decisão pretérita, e não de substituí-lo ou de ser compreendida como a própria norma jurídica concreta, constante no dispositivo do acórdão.