CAPÍTULO IV: AS POSSIBILIDADES DECISÓRIAS DO STF
7. Súmulas
Criada pela emenda regimental publicada no dia 30 de agosto de 1963, redigida por Victor Nunes Leal, a súmula é considerada como a grande contribuição do Ministro à sistematização dos trabalhos do STF.
A súmula, por ele mesmo definida como “método de trabalho” do STF (LEAL, 1981: 1), a bem da verdade foi idealizada por força de dois fatores que determinavam a atuação do Ministro Nunes Leal no STF em 1963.
O método foi desenvolvido pelo então recente Ministro do STF, que não tinha a experiência dos Ministros mais antigos e nem boa memória para registrar todos os casos que já haviam sido devidamente discutidos no Tribunal. Para superar estas dificuldades, resolveu sistematizar as notas realizadas nos julgamentos para consulta-los durante as sessões de julgamento (LEAL, 1981: 24).
gostaríamos que tivesse sido julgado levam à deformação da ementa. Quanto maior a extensão da ementa, maior o risco de equívocos na sua redação.” (AGUIAR JUNIOR, 2008)
Ou seja, a súmula foi idealizada para resolver um problema de falta de memória e de experiência no STF, o que tornava impossível ao Ministro recém-chegado fazer referência aos assuntos já abordados no Tribunal.
A ideia, assumida por Victor Nunes Leal (1981: 26), era alcançar os mesmos resultados da Suprema Corte americana, escolhendo-se os casos que mereceriam ser efetivamente julgados pela Corte – aqui, entretanto, a escolha seria inversa, julgando-se com a súmula os assuntos que pela repetição já estivessem destituídos de relevância jurídica.
Percebe-se, portanto, que a súmula não foi elaborada com a pretensão de normatizar nada, mas pura e simplesmente, facilitar a remissão aos julgamentos anteriores realizados pela Corte. E é exatamente por isso que o próprio Ministro afirma que “(N)não se recomenda a interpretação das súmulas” (LEAL, 1981: 4).
Para Leal, como método de trabalho, a súmula representa o resultado da interpretação da lei, não devendo ela mesma ser objeto de interpretação.
Afirma o criador das súmulas que o enunciado deve ser claro o suficiente para que manifeste a inteligência dada pelo Tribunal, e que se houver necessidade de algum esclarecimento sobre o enunciado, deve o mesmo ser cancelado (LEAL, 1981: 19). “Se a súmula, por sua vez, for passível de várias interpretações, ela falhará, como método de trabalho, à sua finalidade.” (LEAL, 1981: 22)
De Plácido e Silva (1997c: 297) assim conceitua o termo “súmula”:
Do latim summula (resumo, epítome breve), tem o sentido de sumário, ou de índice de alguma coisa. É o que de modo abreviadíssimo explica o teor, ou o conteúdo integral de alguma coisa.
Assim, a súmula de uma sentença, de um acórdão, é o resumo, ou a própria ementa da sentença ou do acórdão.
Hugo Mósca (1986: 134-135) evidencia a “explicação necessária” feita pela comissão242 que elaborou e publicou a primeira “Súmula”, assim:
O Supremo Tribunal Federal tem por predominante e firme a Jurisprudência aqui resumida, embora nem sempre tenha sido unânime a decisão dos precedentes relacionados na Súmula. Não está, porém, excluída a possibilidade de alteração do entendimento da maioria, nem pretenderia o Tribunal, com a reforma do Regimento, abdicar da prerrogativa de modificar sua própria Jurisprudência.
A finalidade da Súmula não é somente proporcionar maior estabilidade à Jurisprudência, mas, também, facilitar o trabalho dos advogados e do Tribunal, simplificando o julgamento das questões mais frequentes.
Para Victor Nunes Leal a súmula não pode ser aplicada com interpretação a contrario sensu, haja vista constituir instituto diverso de lei, sendo “mera descrição do fato de
que o Tribunal tem entendimento consolidado sobre certo aspecto da matéria” (ALMEIDA, 2006: 34), impedindo qualquer outra conclusão acerca do tema.
Para o autor, nos termos do Código de Processo Civil, “as súmulas não são elaboradas autonomamente: (...) a Súmula resulta de se alcançar maioria absoluta no julgamento do incidente de uniformização da jurisprudência, que tomou o lugar do prejulgado. (LEAL, 1981: 5-6)”
Assim, nos Tribunais a uniformização de jurisprudência243 tem por consequência o estabelecimento de súmula, nos termos do art. 479 do CPC. Esta súmula, elaborada por ocasião da resolução de divergência sobre o tema dentro do próprio Tribunal, não possui força vinculante.
Importante advertência é feita por Luiz Guilherme Marinoni, no sentido de que “as súmulas simplesmente neutralizam as circunstâncias do caso ou dos casos que levaram à sua edição”, e no Brasil não há método e nem cultura para que se procure nas decisões que lhe deram origem alguma particularidade (2011: 217-218).
Há quem veja, entretanto, uma “evolução” de precedente, jurisprudência e súmula, no sentido de que um precedente reiteradamente aplicado vira “jurisprudência”, a qual, por sua vez, se predominar naquele Tribunal pode dar ensejo a uma súmula, de modo que “o enunciado da súmula deve reproduzir a ratio decidendi que está sendo reiteradamente aplicada (...) é, por assim dizer, o texto que cristaliza a norma geral extraída, à luz de casos concretos, de outro texto” (DIDIER Jr.; BRAGA; OLIVEIRA, 2013: 450).
Interessante é o posicionamento de Alfredo Augusto Becker, que afirma que a súmula do STF substituiu as fundamentações doutrinárias e as referências aos textos legais aplicáveis ao caso, tendo sido a própria súmula substituída por um signo: a sifra aritmética, o que impede que sejam conhecidos e obedecidos os particulares efeitos jurídicos das leis (1999: 90-91), já que é indispensável que a regra jurídica continue a ser enunciada por linguagem e em texto escrito, e não por afirmações dogmáticas ou números, sob pena de se eliminar a fase de reflexão, partindo direto para a ligação direta “sensação-ação”, o que leva à perda da oportunidade de aperfeiçoamento do instrumental jurídico e da substituição do que se tornou obseleto ou prejudicial por novas regras jurídicas, pelo que “perde a humanidade. Coisifica-se” (BECKER, 1999: 94).
“Portanto, pode-se afirmar que, por virtude própria, a jurisprudência judicial não gera efeitos normativos”, é a conclusão de Bottallo e Mello (2007: 15), tratando da situação
do sistema nacional anterior às súmulas vinculantes, em que a jurisprudência sequer era considerada como fonte do direito, nos termos do art. 4º. da LICC, ou “norma complementar” do direito tributário, nos termos dos arts. 96 a 100 do CTN,
Fazendo referência ao instituto das súmulas antes da reforma de 2005, e considerando o ponto de vista de Kelsen sobre o “caráter de norma geral”, Lênio Streck (1998: 120), por sua vez, conclui que as súmulas somente podem vincular seu órgão emissor, e ainda assim em contrariedade à Constituição Federal, tendo sua obrigatoriedade o mesmo nível hierárquico que o Regimento Interno da Corte.244
Nosso posicionamento é no sentido de que a “súmula”, ou melhor, o “enunciado da súmula” deve servir unicamente de referencial para facilitar a pesquisa da jurisprudência, não podendo conter qualquer conteúdo normativo por si só.
7.1. A impropriedade na utilização das súmulas
De início, destaque-se que no site do STF as súmulas – tanto as vinculantes como as súmulas persuasivas - são colocadas como espécie de “legislação”. Para analisar como a utilização das súmulas é prejudicial à correta aplicação dos precedentes judiciais, analisemos a aplicação da súmula n. 279 do STF245, que prescreve:
Súmula 279
PARA SIMPLES REEXAME DE PROVA NÃO CABE RECURSO EXTRAORDINÁRIO.
Data de Aprovação:
Sessão Plenária de 13/12/1963
Fonte de Publicação:
Súmula da Jurisprudência Predominante do Supremo Tribunal Federal – Anexo ao Regimento Interno. Edição: Imprensa Nacional, 1964, p. 127.
Referência Legislativa:
Constituição Federal de 1946, art. 101, III. Lei 3396/1958, art. 7º.
Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal de 1940, art. 190, § 1º, "a"; art. 193. Precedentes: AI 29710: PUBLICAÇÃO: DJ DE 17/12/1963 CT 3713: PUBLICAÇÕES: DJ DE 9/4/1924 RSTF 71/77 Indexação:
DESCABIMENTO, RECURSO EXTRAORDINÁRIO, REEXAME, PROVA JUDICIAL.
244 “Formalmente, as súmulas vinculam apenas o seu órgão emissor, ainda que tal vinculação seja feito ao arrepio da Constituição Federal. Porém, para o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça, para ficar nas mais importantes instâncias jurídicas do país, o conteúdo de suas próprias súmulas passa a ter aquilo que Kelsen chama de “caráter de norma geral”. (STRECK, 1998: 120)
245 A qual, a rigor, já deveria estar em desuso, haja vista as inúmeras alterações legislativas ocorridas após a sua edição.
Em pesquisa realizada no site do STF246, constatamos que esta súmula foi
utilizada como fundamento de 8550 acórdãos, 27726 decisões monocráticas, 15 decisões da Presidência e em 29 documentos de repercussão geral.
Os precedentes invocados para a elaboração da súmula (um AI de 1963 e uma Carta Testemunhável de 1924) tratam da impossibilidade de interposição de extraordinário quando o objeto do recurso for unicamente o reexame de provas. A utilização desta súmula, entretanto247, tem sido realizada no sentido de impedir o conhecimento de todo e qualquer recurso que mencione questões fáticas.
Com relação a este ponto, alguns comentários:
1. a súmula foi elaborada em 1963 (na época da vigência da CF/1946), tomando por base um precedente de 1924 (decidido durante a vigência da CF/1891 e antes até do CPC de 1939, que já foi substituído pelo CPC de 1973, o qual está em vias de ser substituído por um novo CPC) e outro de 1963, ambos tratando de ofensa à lei federal (e não à Constituição). Depois desta súmula, passamos por um momento de exceção, passamos a utilizar o controle abstrato de normas, tivemos a CF 1967/69 e, depois da redemocratização, a CF/1988 trouxe novas competências ao STF, inclusive no que toca ao controle de constitucionalidade.
2. A súmula tem sido utilizada para obstar o conhecimento de Recursos Extraordinários, mesmo em situações em que normas constitucionais são flagrantemente ofendidas, impedindo o acesso ao controle de constitucionalidade das normas, sob a alegação de que o exame da matéria resultaria em “análise das provas dos autos”, o que estaria vedado pela súmula 279, STF.
3. O STF não é corte de cassação, mas sim corte de rejulgamento. Assim, a análise das provas é essencial ao novo julgamento dos casos levados ao STF por meio do extraordinário: uma coisa é a existência da ofensa à Constituição, autorizadora da abertura da jurisdição; outra, bastante diferente, é a necessidade ou não de reexame de provas para o novo julgamento. O que não se admite, de acordo com os precedentes que ensejaram a malfadada súmula, é a interposição do extraordinário para unicamente rever a análise das provas dos autos!
246 www.stf.jus.br, consultado em 29 de abril de 2013.
247 Pesquisa no site do STF realizada em 29 de abril de 2013 constata que foram proferidos, com base nesta súmula 8550 acórdãos, 27.726 decisões monocráticas, 15 decisões da Presidência e 23 Repercussões Gerais.
A utilização dos enunciados, fora do contexto em que foram pensados, gera conflitos e desrespeito aos próprios enunciados. E a utilização das ementas para se referenciar a um julgado anterior, da mesma forma, por descontextualizar a solução da controvérsia que estabeleceu o precedente, termina por ensejar a má utilização das decisões anteriores.
No Brasil, institucionalizamos uma prática que não é adequada à utilização da sistemática dos precedentes, que é a transformação de tudo em enunciado ou ementa, em se “resumir” a decisão. Esta prática é útil como forma de facilitar o acesso às decisões, ou seja, como forma de índice – como o é na Alemanha, por exemplo, em que as decisões são “resumidas” em ementas apenas para facilitar a consulta248.
Esta “institucionalização dos resumos”, transformando todas as circunstâncias que levaram a uma determinada conclusão em súmulas, enunciados ou ementas, causa a institucionalização também da descontextualização dos princípios obtidos de maneira indutiva nos julgamentos anteriores, prejudicando sobremaneira a adequada utilização dos precedentes, de sorte a manter a coerência, previsibilidade e segurança jurídica – valores estes tão caros nos dias de hoje.