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Capítulo III CIDADE MERCADORIA: AS CONDIÇÕES DA

3.5 Emoldurar a realidade: a transformação da vida no centro em

Um marco fundamental dos recentes conflitos suscitados pelas intervenções urbanas ocorre, justamente, no ano de 1967, quando o centro alça importância como vetor de desenvolvimento do turismo com ações da Prefeitura Municipal (sob o

37 O conceito de patrimônio cultural, que ganha em importância a partir da década de 80, foi assim

consagrado na Constituição de 1988:

“Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:

I - as formas de expressão;

II - os modos de criar, fazer e viver;

III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas;

IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais;

V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.”

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comando de Antônio Carlos Magalhães) e com a criação da Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia pelo Governo do Estado. Nesse mesmo ano, a referida fundação inicia seus trabalhos com um Levantamento Socioeconômico, atendendo a solicitações da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e da Prefeitura, como parte de um projeto de recuperação de Centro Histórico de Salvador e aproveitamento do seu potencial no turismo cultural.

A conjugação entre preservação e turismo surgia como proposta a partir das recomendações do Relatório Preliminar apresentado a UNESCO pelo seu consultor, o então inspetor dos Monumentos Históricos do Ministério da Cultura da França, Michel Parent. Acontece que, como sabemos, o antigo centro atravessou um longo processo de decadência, desde a transferência do governo colonial, passando pela concentração econômica e financeira no Sudeste, chegando ao período mais recente de crescimento da cidade e surgimento de novas centralidades. As consequências deste processo despontariam numa contradição social, que no âmbito de consumação dessa proposta de desenvolvimento urbano mostrar-se-ia inadequado à realidade dos moradores do centro. A ambiguidade do planejamento urbano frente ao contexto socioeconômico era perceptível, tanto ao consultor internacional, quanto aos pesquisadores do IPAC (dentre eles, Gey Espinheira, que seria um importante professor da UFBA). No fim da década de 60, havia o agravamento da situação de desvalorização imobiliária, deslocamento de atividades econômicas e governamentais, bem como a saída das famílias de alta e média renda. O abandono do interesse das classes dominantes consolidou o fim dos investimentos públicos e a apropriação dos casarões em estado precário por uma população negra, de baixa renda e escolaridade. Afinal, relator e pesquisadores depararam-se com territorialidades apropriadas pela classe trabalhadora negra de Salvador, cujo espaço é marcado, decisivamente, pelos sentidos de suas práticas socioespaciais.

A habitação dessa parcela de trabalhadores proporcionou a essa gente mais que uma localização. Permitiu a realização de um conjunto de comportamentos, atividades, formas cotidianas de uso e ocupação do espaço. Os sobrados, os casarões, muitos deles em condições precárias de habitabilidade, foram ocupados pela língua, religiosidade, cultura e identidade do povo negro, porém, sem escapar à própria condição de miséria humana a que é submetida essa fração da classe trabalhadora em Salvador. É,

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exatamente, nessas contingências socioeconômicas dos moradores, que reside o obstáculo à harmonia dos planos de preservação e destinação comercial.

A ocupação popular compunha um cenário cotidiano de pedintes, tuberculosos, prostitutas, marinheiros, trabalhadores informais ou desempregados, que reflete um perverso processo de segregação socioespacial e racial. O levantamento censitário de 1967, por amostragem de 1.000 fichas individuais e 251 fichas habitacionais, quantificou uma população masculina de 444 pessoas e feminina de 556. Dentre as mulheres, quase metade delas eram prostitutas. Entre os homens, 14,3% tinham profissões inclassificáveis, 52 eram biscateiros, 129 eram comerciantes, 40 funcionários públicos e 7 estudantes (IPAC, 1969).

Vale ressalvar que a despeito dos estigmas sobre esses moradores, o centro histórico possuía um grande dinamismo cotidiano, nos fluxos de pessoas, no comércio e na força das suas manifestações culturais. Um tanto idealizadas, as memórias comuns dos moradores mais antigos retratam um tempo melhor de convivência e vida entre os habitantes e frequentadores desse território.

No entanto, para muitos dos moradores de baixa renda do centro, cujas vidas revelavam-se como uma constante sobrevida, as referências estéticas e morais burguesas, os bons exemplos de comportamento ideologicamente tecidos no senso comum não se enquadram. Os assaltos, a violência, o consumo de drogas, a prostituição chocam os olhares, que atiram contra esses moradores seus apelos por medidas policiais. A pobreza assusta, impõe medo ao horizonte de vida das elites, por ser uma ameaça à ordem da propriedade privada e a ideologia que lhe dá sustentação.

Mesmo para certo discurso da esquerda, essas pessoas seriam exemplares do “lumpemproletariado”, segundo o vocabulário marxista, população degenerada, uma parcela miserável e inferior dos trabalhadores, desprovida de valores e de consciência política de classe. Portanto, de todos os lados há quem lhes negue direitos fundamentais, à medida que lhes negam a própria humanidade, sem reconhecer os perversos condicionamentos sociais a que estão submetidos.

O prenúncio de um planejamento urbano, que se destina ao consumo turístico do dito centro histórico, tem na ocupação negra e popular um obstáculo à contemplação e ao consumo pelas frações de classe com melhores rendimentos. A discriminação e o temor afastam os consumidores. Por isso, as observações do representante da UNESCO,

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tanto quanto do levantamento socioeconômico do IPAC, precisaram passar por um filtro de interesses para tornarem-se um projeto de “revitalização” praticável.

Em meio a todo o abandono e a violência importa discernir o “mais precioso conjunto arquitetônico brasileiro” (IPAC, 1969). Interessava restaurar as centenárias edificações e garantir a infraestrutura necessária à atração de turistas e visitantes. Feitas estas escolhas basilares, as práticas socioespaciais dessa população negra, objeto de rejeição nesse território, precisavam ser contidas, ao tempo que emolduradas em um culto a diversidade cultural. Para vender o Centro Antigo de Salvador foi preciso criar uma imagem higienizada, branqueada e palatável aos olhos dos visitantes (BONDUKI, 2010).

Na atualidade, em consonância com as recomendações referentes à conservação não apenas do patrimônio arquitetônico há um determinado reconhecimento oficial do Patrimônio Imaterial. O ofício das baianas de acarajé obtém esse reconhecimento pelo IPHAN, cujo registro no Livro dos Saberes em 14 de janeiro de 2005 descreve como a

“prática tradicional de produção e venda, em tabuleiro, das comidas de baiana, feitas com azeite de dendê e ligadas ao culto dos Orixás”. Associadas ao turismo, as baianas

passam a compor o espectro de consumo dos visitantes do centro histórico e de Salvador.

A vida dessa gente é transfigurada em uma grande confraternização pacífica e acolhedora: o mito da baianidade não conflituosa. Esse reconhecimento cultural assume uma forma ambígua, à medida que as práticas socioespaciais dos ocupantes populares são rejeitadas em seus condicionamentos de classe (no desemprego, na pobreza, na degradação e na violência), para serem apropriadas apenas nos traços mercantilizados da sua cultura negra.

Ao revelar a realidade desses moradores dos cortiços do Centro Histórico de Salvador ao mundo, o contexto dos prostíbulos e das práticas sociais rotineiras neste espaço, em obras como “Suor”, “Tenda dos Milagres”, entre tantas outras, o escritor Jorge Amado, conhecedor da sabedoria popular – obá, não poderia prever que toda essa projeção seria reduzida a forma de mercadoria (ARAÚJO, 2007). A realidade das edificações de uma ancestral América portuguesa, onde vivem negros descendentes de africanos, tudo seria envolto por uma profunda mistificação sobre a realidade desses moradores. Os problemas enfrentados por essa fração de trabalhadores negros seriam

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resolvidos no âmbito da apropriação cultural a serviço de um projeto de urbanização, que logo se mostraria tendente a aprofundar a desigualdade social e a violência.

Nas últimas décadas, essa contradição social no desenvolvimento urbano do CHS expressa-se, principalmente, na controvérsia em torno da manutenção da população local. Esses moradores são apontados desde então como causa dos prejuízos à urbanização do sítio histórico, com perda de investimentos públicos e privados, consolidação de uma imagem negativa da área (redução de frequência de visitantes) e a falta de auto-sustentabilidade na conservação do patrimônio edificado (VILLAÇA, 1998). Nessa linha, a solução oferecida para a recuperação da área, historicamente, tem sido as ações de higienização social, ou seja, mais segregação.