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CAPÍTULO II A RELAÇÃO ESTADO-CLASSES SUBALTERNAS NA

2.6 Trabalho, cidade e segregação socioespacial

Para tornar inteligíveis os mecanismos e as especificidades dessa segregação urbana dos ocupantes populares do Centro Antigo de Salvador é preciso contextualizá- las na formação das classes, do Estado e do sistema hierárquico das relações sociais. O processo de urbanização de Salvador está estritamente vinculado às particularidades do seu tipo de capitalismo. Diga-se de passagem: ambos delineados por um

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desenvolvimento econômico e social que se sustenta no empobrecimento de parcela significativa da classe trabalhadora.

Somente se inicia uma efetiva estruturação do mercado de trabalho no Brasil a partir da década de 40 do século XX (Salvador, somente na década de 50), sem cessação das atividades de tipo “não capitalista”, a despeito do forte impulso na transição do trabalho escravo para o trabalho assalariado. Havia a esperança de uma supressão progressiva dos modos arcaicos de espoliação dos trabalhadores, que, na realidade, se firmaram como parte da lógica de reprodução capitalista de países de industrialização tardia (OLIVEIRA, 2013). Essa sociedade brasileira perfaz-se em um mercado de trabalho dotado de um imenso contingente de trabalhadores sem emprego, que tem na sua extremada precariedade de vida e trabalho uma garantia das condições de reprodução do capital.

A formação do mercado de trabalho brasileiro tem por característica a intensa presença de uma superpopulação relativa15, excedentária. Assim, como condição, inclusive para a efetividade do modo de produção capitalista, houve por parte do Estado o empenho de constituir um exército industrial de reserva. Durante um longo período da história foi prioritária à imigração de estrangeiros para a ocupação das novas formas de trabalho, o que, ironicamente, foi financiado pelos rendimentos que a lei de terras proporcionou (à custa da expropriação de negros e índios da posse sobre o solo brasileiro). Todavia, somente a partir da década de 30 inicia-se uma efetiva formação do exército industrial de reserva nas grandes cidades, que toma forma nos fluxos inter- regionais e interestaduais da migração rural-urbana (ARAÚJO, 2010).

Para o conjunto desses trabalhadores urbanos uma legislação social foi apresentada como dádiva do governo populista de Vargas. Essas leis cumpriram uma função constitutiva do âmbito da relação capitalista típica (que gera mais valia), regulando a base necessária para uma oposição capital-trabalho condizente com o padrão de acumulação interno. Nesse contexto, faz-se a fixação do salário mínimo, que arbitra um preço rebaixado da força de trabalho, ou seja, o capital fixa sua obrigação máxima com a reprodução dos trabalhadores (BARRETO, 2014). No entanto, a institucionalização dessas relações de trabalho não resultaria na garantia de direitos para a imensa maioria dos trabalhadores.

15 A opção nesta pesquisa é por não adentrar aos tipos – flutuante, latente e estagnada – por não ser

central para os seus objetivos o esforço de explicação da complexidade do desemprego no Brasil e em Salvador.

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Além do mercado de trabalho nacional ser caracterizado pela escassez de empregos formais, para aqueles que o conseguem, o salário mostra-se insuficiente no custeio da vida (o salário mínimo torna inviável o custo da moradia como mercadoria para um imenso contingente de trabalhadores). E para parcela expressiva da população resta o dito trabalho informal, “não tipicamente assalariado”, cujas atividades remontam os trabalhadores de hoje às formas de sobrevivência do passado16.

Salvador, por suas peculiaridades diante do desenvolvimento nacional, é o exemplar máximo de um setor informal que expressa a continuidade de ofícios desempenhados por sua classe trabalhadora negra desde os mais remotos períodos coloniais e republicanos.

A expansão do sistema capitalista não alterou o quadro social de profunda desigualdade de Salvador, na qual uma imensa parcela da população empobrecida sobrevive como pode nos serviços que a cidade oportuniza. Em toda economia nacional destaca-se o fenômeno do crescimento excessivo do setor terciário, para o qual Francisco de Oliveira oferece uma explicação de seu papel fundamental ao tipo de desenvolvimento empreendido.

A aceleração do crescimento, cujo epicentro passa a ser a indústria, exige, das cidades brasileiras – sedes por excelência do novo ciclo de expansão –, infraestrutura e requerimentos em serviços para os quais elas não estavam previamente dotadas. A intensidade do crescimento industrial, que em trinta anos passa de 19% para 30% de participação no produto bruto, não permitirá uma intensa e simultânea capitalização nos serviços, sob pena de esses concorrerem com a indústria propriamente dita pelos escassos fundos disponíveis para a acumulação capitalística. Tal contradição é resolvida mediante o crescimento não-capitalístico do setor Terciário. (OLIVEIRA, 2013, pp. 56-57)

Essas formas de trabalho contribuem decisivamente para a reprodução do capital, muito embora camelôs, domésticas, entre uma vasta gama de serviços urbanos, sejam desconsiderados em sua importância na economia nacional. Tais atividades não consomem excedente de capital, ao tempo em que utilizam de uma mão de obra com remuneração muito baixa, fundamental à transferência de mais valia ainda que de forma indireta no processo de acúmulo capitalista (BARRETO, 2014).

Aqueles que trabalham no comércio informal de mercadorias, de modo mais evidente, estão inseridos no ciclo de realização do capital ao colocá-las em circulação.

16 Nesse sentido, a obra de referência sobre essa discussão trata-se de: SOUZA, G. Adeodato e

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Todavia, mesmo os serviços mais pessoais, de caráter doméstico ou familiar, ocultam uma exploração sustentada em baixos salários e em relações de traços servis, por não ter se constituído na cidade a infraestrutura necessária à acumulação tipicamente capitalista sobre essas atividades. Segundo Francisco de Oliveira, o brasileiro de classe média vive em padrão de vida mais elevado quando comparado ao estadunidense médio, cercado de serviços no âmbito da família – motoristas, lavadeiras –, visto que pouco se desenvolveu, nestes casos, o transporte coletivo e as empresas de lavagem industrial, por exemplo (OLIVEIRA, 2013: 58).

A segregação socioespacial pode ser entendida no contexto dessa desigualdade de posições e de recursos na reprodução da sociedade soteropolitana. Na passagem ao regime urbano-industrial, uma ordem bem estabelecida impõe-se em uma conjugação do velho e do novo no domínio das necessidades de acumulação de capital, o que se materializa em uma determinada reprodução do espaço urbano. A diferenciação social entre as classes expressa-se em formas de trabalho e vida similares ao passado, em cuja modernização capitalista por essas terras, ao que parece, não abre mão de seu atraso escravagista.

Em consonância com o desenvolvimento periférico do modo de produção capitalista, o solo de Salvador feito mercadoria tem sobre si uma nova ordem de disputas pela sua apropriação. Todavia, embora drásticas transformações nas condições de (re)produção da cidade estivessem em curso, para uma fração da classe trabalhadora, sem emprego e sem moradia, o padrão de negação de sua apropriação espacial se reafirma.

Próprio das práticas de ordenação territorial do Estado, ainda mais a partir de meados do século XX, as remoções forçadas da posse sobre o espaço urbano delimitam os locais da cidade reservados ao despejo da uma população negra marginalizada. Territórios estes, somente franqueados pelo desinteresse das classes dominantes ou em razão de suas derrotas nas verdadeiras guerras que tiveram lugar nas grandes cidades. Assim, na divisão geográfica ou territorial, os não brancos concentram-se nas áreas de menor infraestrutura e dinamismo econômico, seja na região nordeste, nas periferias das cidades ou nas zonas rurais (SCHWARCZ, 2012).

O que pode ficar subjacente à análise é como o mercado de trabalho e a cidade (ou mais detidamente, o centro antigo de Salvador), construídos a base da manutenção de arcaísmos estruturais, tem na “seletividade” do Estado e na aversão das classes

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dominantes aos setores populares a expressão de certas hierarquias, dentre as quais se avulta a de cunho racial. Trata-se de um “critério” determinante na inclusão ou exclusão do assalariamento, mas também no acesso aos direitos sociais, no encarceramento ou liberdade, na expectativa de vida ou de punição pelo Estado.

De forma aberta, é preciso que se diga frente à representação de uma democracia racial no Brasil: uma condição fundamental da punição e da segregação socioespacial é ter o fenótipo negro. Ou seja, a segregação produzida na cidade está vinculada a certas discriminações que permeiam as relações na sociedade17.

Porém o que se conhece como racismo por essas terras reduz-se, comumente, a uma discriminação de indivíduo a indivíduo, em relações de âmbito pessoal. As posições sociais desiguais absolutamente manifestas são naturalizadas. A discriminação racial é suavizada, reduzida a circunstâncias excepcionais de conflitos entre pessoas, furos na barreira da harmonia alegre da miscigenação. Os brasileiros não se consideram racistas, mas reconhecem em outros o preconceito, de forma que Lilia Schwarcz chega a dizer: “todo brasileiro parece se sentir, portanto, uma ilha de democracia racial, cercado de racistas por todos os lados” (Idem: 30)

O mito de um povo sem separações e pacífico ecoa, permite interiorizar pelo senso comum o imaginário de relações de tolerância, em que a mestiçagem é feita símbolo de uma identidade nacional. Não à toa, o período de início da modernização urbana coincide como um divisor de águas no discurso sobre a questão racial. Nos anos 30, uma representação oficial da nação é arquitetada, uma ideologia constituída para a solução do dilema da integração nacional e do apaziguamento da luta entre brancos e negros. A integração do negro a sociedade de classes faz-se no âmbito do discurso democrático e de inclusão, apagando as diferenças identitárias e culturais, quando na realidade mantem conservadas a segregação e a violência dessas relações na cidade.

Para desvendar as relações raciais na reprodução do Centro Antigo de Salvador, por conseguinte, é preciso percebê-las na política, desnaturalizá-las (e mais a frente, nesta pesquisa, contextualizá-las). Assim sendo, a ocupação negra e popular deve-se a necessidade de reprodução social de uma fração extensa da classe trabalhadora, o imperativo da sobrevivência nas atividades de rua, nos serviços e na informalidade, que

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Nessa abordagem, o tema racial tem a influência importante da linha dos estudos da década de 50, que entre autores como Roger Bastide, Costa Pinto, damos destaque à elaboração de Florestan Fernandes. Vale ressaltar que não interessa aos objetivos da presente pesquisa subsumir o debate racial a uma perspectiva enrijecida da luta de classe, pois importa conhecer as classes sociais também na cultura pela qual se formam.

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o centro concentra historicamente em suas funções. Porém, tanto no trabalho quanto na cidade, um sistema hierárquico coloca-se acima dessa reprodução social, oprimindo esses trabalhadores negros e moradores do centro.

Para se ter em conta, não é um dado secundário da realidade que os trabalhos considerados indignos pela associação ao trabalho escravo, ainda hoje mantenham um status desigual análogo. O acesso aos prédios dos serviçais, de maioria negra, é segregado com os elevadores de serviço. Dentro das casas das classes média e alta, os quartos de empregada são comumente cubículos, sem janelas, mais uma vez, nos fundos da área de serviço. Esses são apenas exemplos dos espaços subjugados que se consente à apropriação dos trabalhadores negros.

No que diz respeito ao espaço habitacional, quando os obreiros deixam de morar sob o mesmo teto dos senhores, a dominação escapa do âmbito privado e, assim, precisou ser reestabelecida no domínio público. Era insuportável para as classes dominantes testemunhar seus hábitos, a estética e os privilégios, tornando-se acessíveis ou sendo imitados na cidade pela população negra (DABROWSKI, 2003). Então, a diferenciação espacial ingressa como a saída ao reconhecimento do status privilegiado na sociedade. As classes dominantes já não querem se misturar com os moradores populares. Dessa vez, novos muros os separam dentro do âmbito citadino, de forma que os trabalhadores continuariam a ter negado o domínio sobre a “cidade civilizada” ou a “cidade alta”.

Em Salvador, os espaços subalternos fizeram-se nas periferias, nas favelas e, de modo equivalente, nos cortiços do antigo centro. São territórios urbanos apropriados por comunidades estigmatizadas, onde vivem os marginalizados e se concentram os problemas sociais, o abandono, a privação. Áreas proibidas, temidas em razão dos crimes, vícios e violências, que se faz crer dessa maneira em excesso, porque vista de longe, com uma visão negativa desproporcional da mídia, de agentes do Estado e da sociedade como um todo.

Mas embora sejam considerados como problemas sociais, verdadeiros tumores na sociedade a serem eliminados, o que não se mostra é o quanto são parte fundamental do acúmulo de riqueza na cidade. O quanto a força de trabalho, mesmo informal, viabiliza a extração de mais valia e, no que mais nos interessa, como são alvo do acumulo capitalista pela espoliação de seus espaços urbanos e de suas próprias práticas

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socioespaciais. Assim, chegamos aos ofícios do Estado, que se revelam verdadeiros “roubos” dos territórios e da cultura negra e popular de Salvador.

2.7 O Estado e classes subalternas na urbanização do centro: o conflito pela