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CAPÍTULO II A RELAÇÃO ESTADO-CLASSES SUBALTERNAS NA

2.8 Expansão da centralidade e valorização do Centro tradicional

O Centro Antigo de Salvador é a expressão territorial da concentração de fluxos materiais e imateriais, de pessoas, equipamentos, capitais, de atividades comerciais e de serviços na cidade. Ou seja, constitui uma centralidade urbana, concentração econômica e de poder, produto e condição das diversas e contraditórias formas de apropriação espacial. Por sua qualidade, não resume a totalidade da (re)produção do espaço urbano. No entanto, mesmo sendo uma esfera determinada da estruturação da cidade, submetida a distintos processos de valorização e conflito pela sua apropriação, tem na sua correlação indissociável com o “não centro” ou as periferias a tradução de uma dinâmica fundamental de reprodução do espaço da cidade.

A modernização de Salvador no século XX impacta o processo de urbanização do centro tradicional, de forma a reconfigurar as disputas em torno de sua apropriação em uma cidade cada vez mais segregada. O centro torna-se uma contradição concreta dessa modernização, ao conservar a vida comercial, portuária, a circulação de mercadorias, a

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maioria dos edifícios de órgãos públicos, igrejas, assim como os principais bairros residenciais (BAHIA, 2010), ao tempo em que se consolida também como território das frações mais empobrecidas da classe trabalhadora (SANTOS, 2012).

Com base nos dados da OCEAPLAN na década de 70, Jânio Santos avalia:

Percebe-se que a Zona Central constituía-se como o espaço privilegiado para a materialização do capital comercial e de serviços de Salvador, bem como da maioria dos estabelecimentos bancários, das matrizes das redes comerciais e das filiais de empreendimentos comerciais importantes da cidade (SALVADOR, 1978 apud SANTOS J, 2013).

Diante da pouca expressividade da industrialização de Salvador, o antigo centro mantém uma alta concentração de vagas de trabalho (formal e informal). Por sua vez, em busca dessas oportunidades, trabalhadores continuam a ocupar as edificações, os espaços marginalizados, conhecidos pelos cortiços e casas de prostituição. O abandono dessas áreas pelo Estado e pelas classes dominantes revela-se na degradação do patrimônio edificado, que até a década de 80 não recebe investimentos em preservação arquitetônica.

A deficiência da infraestrutura para o transporte individual e coletivo dificultava a circulação no centro, assim como péssimas condições das ruas e de edificações mostravam a inadequação às expectativas do urbanismo moderno. Além disso, o crescimento populacional colocava em cheque a centralidade urbana, alterando-a com a formação de subcentros (bairros de Calçada e Liberdade) (SANTOS, 2012).

Se por um lado, os problemas identificados no Centro tradicional legitimavam a criação de novas centralidades pela gestão urbana do governo, tais argumentos eram enfatizados pelos beneficiários da especulação imobiliária (SANTOS J., 2013). Interessava a alguns entes privados a expansão do tecido urbano com a valorização de novas áreas pelos investimentos programados do Estado na abertura de fronteiras ao transporte individual e coletivo.

Dessa maneira, o processo de urbanização da cidade seguiu com a implantação de um moderno sistema viário, que abre novas fronteiras urbanas com as avenidas Antônio Carlos Magalhães, Luís Viana Filho (Paralela), Bonocô, as avenidas de vale, entre tantas outras, além de equipamentos como CAB – Centro Administrativo da Bahia, o shopping Iguatemi e a Av. Tancredo Neves (GORDILHO, 2008). Toda essa grande expansão da cidade altera o cenário de ocupação e funcionalidade do Centro de

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Salvador. Retira-lhe a condição exclusiva de centro econômico, financeiro e administrativo da cidade.

Contudo, a expansão da centralidade não retira do centro tradicional sua importância na cidade, tampouco evita os conflitos pela sua apropriação. As áreas de população marginalizada incomodavam os transeuntes com a prostituição, os assaltos, afinal, a própria miséria e suas mazelas eram objeto de constantes denúncias, com exigências de medidas saneadoras por parte do Estado. Comerciantes, funcionários públicos, a população que circulava pela região, muitos faziam apelos aos órgãos públicos pela expulsão dos prostíbulos da região, por ações enérgicas da polícia, quando não, até mesmo incêndios criminosos davam a tônica do desprezo a esses moradores. Por exemplo, o jornal A Tarde, em matéria intitulada “Fogo destrói pardieiro na rua dos marginais”, assim noticiava em 22 de junho de 1967:

Um incêndio irrompido ontem nas Laranjeiras, zona de meretrício da cidade alta, e conhecido covil de marginais, destruiu parcialmente o pardieiro número 18, da Ladeira Inácio Aciolly, que liga a Rua Francisco Muniz Barreto à Ladeira do São Miguel (Frei Vicente). [...] Fato invulgar em casos policiais dessa natureza se registrou ontem, quando populares se pronunciavam como se fossem uma torcida organizada, ansiosos para que o incêndio se alastrasse. As justificativas eram as mais diversas possíveis, começando pela falta de higiene reinante em toda a rua, ponto de reunião de gatunos e maconheiros, prostituição da mais baixa espécie e de prédios bastante arruinados. (in JORNAL A TARDE, 1967, p. 69 apud PALÁCIOS, 2009, p. 82)

Acontece que a “tolerância” do governo com a ocupação popular e negra do centro da cidade não permaneceu apenas nos intentos repressivos da gestão policial dessa desordem periférica. Os processos de valorização desse espaço urbano metamorfoseiam-se, tencionam o ingresso de áreas estigmatizadas do centro nos meios e circuitos de acúmulo de capital pela apropriação desses territórios. Logo, as ações espoliatórias do Estado investiram sobre as práticas socioespaciais e os respectivos espaços dessa classe trabalhadora negra, desta feita, fundando uma mercadoria de teor cultural. De tal modo, a concepção do centro antigo de Salvador como patrimônio histórico e cultural incorpora as edificações, ruas, monumentos e as manifestações da cultura negra em um extraordinário produto comercial.

O desenvolvimento brasileiro, diligente em seguir o receituário dos países europeus, tem diante de si um novo olhar sobre a cidade antiga, seus monumentos e

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edificações. Como se passasse da água ao vinho, da rejeição ao apreço, de repente o território do Centro transita para uma valorização justamente pela arquitetura colonial e por sua cultura negra, que até então eram objetos de desprezo. Todavia, não há milagre nesse inovador “olhar”. O que se afirma é uma nova forma de apropriação ou de uso desse ambiente construído, uma valorização econômica no rastro da acumulação de capital por segmentos privilegiados.

Até o início do séc. XX, o urbanismo idealizado em nada condizia com a atual visão preservacionista do patrimônio arquitetônico. A marcha do progresso prevalecia com um caráter demolidor sobre as edificações da cidade. A abertura da Avenida Sete de Setembro provocou a destruição de parte de um conjunto arquitetônico dos séc. XVIII e XIX, inclusive a demolição da igreja Matriz de São Pedro e do Convento das Mercês; também o alargamento da Avenida Carlos Gomes destruiu parte dos quintais das edificações adjacentes (FERNANDES; GOMES, 1993). Nesse sentido, professores de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal da Bahia esclarecem sobre o urbanismo moderno por essas terras:

(...) a constituição de uma prática urbanística em Salvador não se diferencia do que pode ser observado, na mesma época, em outras cidades brasileiras. Calcada nas velhas e já mencionadas preocupações estético-viárias e sanitárias, este padrão de intervenção incorpora o fato de o funcionamento da cidade ter se tornado tributário de sistemas técnicos (transporte, distribuição de água, esgotamento, energia, telefone, etc.), embora ainda não incorpore a pretensão de pensar nem de intervir de uma forma global na cidade. Atributo de engenheiros politécnicos, este tipo de “urbanismo” tem nos estreitos limites das técnicas setoriais que mobiliza, seu horizonte de complexidade intelectual para análise e proposição da cidade. Preso às formulações iluminastes da cidade enquanto “escola de civilização”, busca a ruptura com o passado colonial. Sua relação com a história é, pois, de negação do antigo, daí vindo seu caráter destruidor e reformista, pautado por rigorosa geometrização e despreocupado com as pré- existências. (FERNANDES; SAMPAIO; GOMES; 1995, p. 759) Um evento paradigmático para o fim desse modelo de urbanização é a demolição, em 1933, do antigo templo da Sé Primarcial do Brasil (a primeira catedral do país), situada justamente na Praça da Sé, no Centro Histórico de Salvador. Em seu lugar abriu- se uma linha de bonde, o que gerou a denúncia de importantes intelectuais locais (FERNANDES; SAMPAIO; GOMES; 1995). Essa reação apresenta-se como um marco importante na resistência a essa concepção de urbanismo predatório.

Dois anos depois desse episódio, os governos estadual e municipal, com a participação de associações e entidades da sociedade civil, organizam em Salvador a

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Semana de Urbanismo. Dentre as conclusões finais do evento destaca-se a preocupação com a conservação e restauração do patrimônio histórico, incluindo a afirmação de Salvador como “monumento nacional” (FERNANDES; SAMPAIO; GOMES, 1995: p. 780). Essa ruptura demonstra o quanto aquela conferência reflete à tendência internacional, que surge da reconstrução e resgate das memórias urbanas dos países após a segunda guerra mundial24.

Toda essa nova mentalidade e suas experiências nacionais representam uma modalidade de mercantilização do cenário urbano. O cuidado na recuperação e preservação de monumentos e de áreas urbanas deterioradas, em todo o mundo, passa a ser planejado de modo a torná-los atrativos turísticos. Uma inovadora forma de entretenimento, que tem por objeto o aproveitamento econômico de um determinado território, com potencial arquitetônico, cultural e histórico, ao que se reporta o ambíguo título de “Centro Histórico”. Portanto, o antigo centro de Salvador passou por uma transição urbanística em que foram despertos interesses dos capitalistas com a exploração do turismo, do comércio, da especulação imobiliária. Interesses que as políticas dos governos desde então demonstram avalizar.

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Nesse sentido, Lysiê Reis destaca que as discussões sobre a preservação das “áreas de valor monumental” tem por marco a Carta de Atenas de 1933, mas somente a partir da década de 50 tornam-se mais sistemáticos os conceitos e as normatizações. A própria noção de “Centro Histórico” surge apenas na década de 60 com codificações destinadas a preservação do patrimônio arquitetônico na França e, principalmente, na Itália (REIS, 1998, p.48).

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CAPÍTULO III - CIDADE MERCADORIA: AS CONDIÇÕES DA FORMAÇÃO