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2.3 Algumas lentes conceituais

2.3.4 Empoderamento e protagonismo político

Assim como as noções de participação, cidadania, identidade e sujeito já expostas, os conceitos de empoderamento e protagonismo também auxiliam na compreensão do objeto estudado. Neste tópico, faço também um breve passeio por algumas interessantes reflexões realizadas sobre os mesmos.

Ferdinad Cavalcante Pereira (2006, p. 1), em seu artigo O que é

empoderamento, afirma que “empoderamento significa em geral a ação coletiva

desenvolvida pelos indivíduos quando participam de espaços privilegiados de decisões, de consciência social dos direitos sociais.” Essa definição tanto pode se referir ao empoderamento individual como coletivo, pois, numa perspectiva emancipatória, o empoderamento pode ser entendido como um processo em que tanto indivíduos quanto grupos ou comunidades conquistam meios, recursos e/ou espaços onde lhes seja possível atuar com capacidade para interferir nas decisões.

O conceito de empoderamento, todavia, como tantos outros no âmbito das ciências sociais, tem sofrido, pelo seu uso indiscriminado e abusivo, uma série de problematizações, merecendo destaque a preocupação de Rodrigo Horochovski e Giselle Meirelles (2007, p. 485), explorada no artigo intitulado Problematizando o

conceito de empoderamento, segundo os quais

Em anos recentes, tem se multiplicado o emprego do conceito de empoderamento em vários campos do conhecimento – administração, economia, saúde, desenvolvimento comunitário e sociologia política, por exemplo – e nos mais diferentes espaços de ação social – famílias, comunidades, escolas, grupos minoritários, etc. A despeito da profusão de

109 estudos sobre empoderamento, uma quantidade significativa deles toma o conceito como dado sem preocupar-se em defini-lo ou contextualizá-lo.

Neste mesmo sentido, Magdalena León (1997, p. 194), no artigo denominado

Empoderamiento: relaciones de las mujeres con el poder, ao questionar o uso deste

termo como algo auto-evidente ou óbvio, diz:

La variabilidade del uso y contenido hace que el término empoderamiento en sí mismo tenga poco significado, por eso las teóricas feministas en la década de los noventa han tradado de llenar este vacío. Wieringa y Youg presentan posturas provocadoras para el uso del concepto de empoderamiento en relación con las mujeres y las relaciones de género. La primera autora señala que el concepto tiene significado ''si es utilizado para la transformación social según la concepción feminista del mundo''.(...) Young indica que el empoderamiento para el feminismo implica ''una alteración radical de los procesos y estructuras que reproducen la posición subornada de las mujeres como género.'' (grifo nosso)

Com efeito, o uso deste termo, no âmbito do movimento e do pensamento feminista, somente tem razão de ser se for tomado como categoria analítica relativa ao poder e, no caso dos estudos de gênero, tomando o poder como sendo um elemento constitutivo das relações sociais, dentre estas, as relações de gênero.

Do ponto de vista histórico, Ana Alice Costa, no artigo intitulado Gênero, poder

e empoderamento das mulheres (2005, p. 7) informa que a ideia de

“empoderamento surgiu com os movimentos de direitos civis nos Estados Unidos nos anos setenta, através da bandeira do poder negro, como uma forma de auto valorização da raça e conquista de uma cidadania plena.” Para esta autora, empoderamento pode ser conceituado como “o mecanismo pelo qual as pessoas,

as organizações, as comunidades tomam controle de seus próprios assuntos, de sua própria vida, de seu destino, tomam consciência da sua habilidade e competência para produzir e criar e gerir.” (grifo nosso)

Ana Lília Ulloa Cuellar (2007, p. 74), na obra denominada Género, Derecho y

Democracia, afirma que o empoderamento é um processo através do qual as

mulheres deixam de ser oprimidas pelos homens ou por outras mulheres. Neste processo, as mulheres se reconhecem, se fazem visíveis, e levam a cabo uma série de ações que lhes permite superar a condição de subordinadas nas relações sociais, com os homens ou entre elas mesmas. Sobre isto, assim diz a autora:

110 Todo proceso de empoderamiento conlleva cambios en la consciencia; en las identidades individuales y en las identidades coletivas. Con el empoderamiento se obtiene cambios en la autoestima y se da lugar a un fortalecimiento humano para lograr mayor equidad en las relaciones de género, en los diferentes espacios sociales.

Desde uma perspectiva feminista, o empoderamento liberta as mulheres com desconstrução da ideologia patriarcal que rege as relações sociais, fazendo com que haja dependência, opressão e pensamentos acríticos. “El empoderamiento – diz Ana Cuéllar – presenta acciones políticas y estratégias para lograr la autonomía en términos de derechos y responsabilidades.” Assim, para além das funções reprodutivas e do trabalho doméstico, o conceito de empoderamento, como leciona Cuéllar (2007, p. 75), advoga que toda mulher tem

(…) un potencial necesario y suficiente para llevar a cabo una autorreflexión de su situación individual, familiar e social (y) percatarse de las enormes injusticias que durante años han sufrido y desde esa misma condición iniciar acciones de construción y organización colectiva para transformar sus situaciones precarias de dependencia, subordinación, exclusión y discriminación.

No campo do movimento de mulheres, o termo empoderamento, segundo Ana Alice Costa (op. cit, idem), tem sido útil para se referir e entender as mudanças radicais dos “processos e estruturas que reduzem a posição de subordinada das mulheres como gênero.” A mencionada autora, em consonância com os ensinamentos da pesquisadora norte americana Nelly Stromquist, evidencia os elementos constitutivos dos parâmetros de identificação dos processos de empoderamento, elencando-os conforme a seguinte sequência: a) construção de uma auto-imagem e confiança positiva; b) desenvolvimento da habilidade para pensar criticamente; c) construção da coesão de grupo; d) promoção da tomada de decisões e, por fim, a ação.

Tais elementos poderão ser depreendidos da narrativa e análise das ações do movimento feminista e de mulheres presentes nos capítulos IV e seguintes, onde constam, pormenorizadamente, atividades desenvolvidas ao longo dos anos anteriores ao processo constituinte, bem como, e principalmente, no âmbito deste processo, quando, através das diversas ações realizadas se pode observar, um a um, os parâmetro requeridos, os quais se evidenciam, dentre outros exemplos, pelas atividades dos grupos de reflexão e conscientização, pelas diversas

111 campanhas em prol da eleição de constituintes mulheres, pelas campanhas em defesa da inserção dos direitos das mulheres na Constituinte, promovidas pelos grupos, movimentos e Conselho de Direito, e pela articulação e participação coesa nos variados momentos da feitura constitucional, a exemplo das audiências públicas, abordagens de parlamentares, coleta de assinatura, defesa de emendas populares, etc.

Como anteriormente destacado, a reivindicação do conceito de empoderamento, para, dentre outros, explicar a ação e o êxito da participação política das mulheres, através de seus movimentos, e mais concretamente por meio do chamado lobby do batom, no seio da Constituinte, torna-se necessária em face de que esta categoria permite visualizar e compreender perfeita e especificamente o acúmulo de experiências e percepções de capacidade política obtidas pelo movimento feminista e de mulheres ao longo das décadas imediatamente anteriores e, também, nos marcos do próprio processo constituinte; afinal, como será visto no capítulo IV desta tese.

O movimento feminista brasileiro, enquanto ator social interessado na redemocratização do país e, mais que isto, enquanto movimento comprometido com a cidadanização das mulheres, decidiu, levando em conta o momento histórico, consciente de sua responsabilidade e capacidade mobilizadora, conforme consta dos termos da Campanha Mulher e Constituinte, envidar todos os esforços possíveis, para inscrever não apenas nas páginas de história, mas do próprio texto constitucional brasileiro, as demandas específicas das mulheres, convertidas em direitos fundamentais, vez que, como membros da sociedade brasileira, a estas também deveriam ser garantidas todas prerrogativas sociais inerentes a sua condição de humanas.

Como enfatizado anteriormente, no fenômeno objeto do presente estudo as mulheres, através de seu movimento, destacando sua identidade coletiva, demonstraram um importante fortalecimento enquanto sujeitos portadores de uma consciência de gênero capaz de mobilizar outras mulheres (e alguns homens) em prol da luta pela superação de sua condição subalterna, revelando, com isto, empoderamento e protagonismo individual e, sobretudo, coletivo, capaz de desenvolver cambios em sua realidade e em sua histórica posição social.

112 que se dá através da participação transformadora da realidade político-social, na qual as pessoas, no caso, as mulheres, se envolvem com lutas relativas à sua condição, e, mais do que isto, interconectam suas demandas com as questões mais gerais da sociedade, pode-se dizer que este corresponde à manifestação concreta do empoderamento, isto é ''aparece como una estrategia impulsada por el Movimiento de Mulheres del Sur, con el fin de avanzar en el cambio de sus vidas y generar un proceso de transformacion de las estructuras sociales.” (LEÓN, 1997, p. 197).

Assim, o termo protagonista, oriundo do grego protagonités, que, segundo o Novo Dicionário Aurélio (2009, p. 28) significa “aquele que protagoniza; o principal lutador, ou a personagem principal de uma peça dramática, pessoa que desempenha o primeiro lugar em um acontecimento”, é adotado nesta tese como correlato de ator/atora, sujeito social e político cuja participação, no caso em apreço, apesar de destacada como fundamental e decisória, não despreza ou ignora a parceria e/ou colaboração de outros sujeitos políticos presentes e atuantes no espectro político-institucional da ANC.

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III - O PONTO DE APOIO: a trilha metodológica

No presente capítulo apresento os caminhos percorridos para a construção do conhecimento científico acerca do objeto investigado. Para tanto, destaco a natureza da pesquisa, os procedimentos utilizados para a obtenção dos dados, bem como o método de raciocínio e o modo de organização, análise e interpretação dos resultados. Ao fim, explicito, ainda, as dificuldades encontradas e o modo como enfrentei tal problema, tudo em consonância com a abordagem teórico-metodológica adotada.