3.2 Procedimentos metodológicos
3.2.2 Fontes orais
As fontes orais, por seu turno, se constituíram, predominantemente, de entrevistas agendadas e efetivadas, pessoal e exclusivamente por minha pessoa, para os fins desta pesquisa, com diversas protagonistas do processo constituinte. Porém, convém registrar que também fiz uso, mas em caráter complementar, de transcrição de intervenções orais resultantes do I Colóquio Nacional sobre as
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Mulheres e a Constituição
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, cujas palestrantes, em sua grande maioria, foram ativistas feministas igualmente participantes do lobby do batom ou a este vinculadas em razão de suas atividades laborais. O mencionado Colóquio, pensado e proposto conjuntamente por mim e pela professora Dra. Ana Alice Costa, orientadora desta tese, ocorreu nos dias 17 e 18 de outubro de 2008, tendo como organizador e promotor o Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher-NEIM/UFBA. O objetivo deste evento foi realizar reflexões de caráter jurídico e político sobre a participação das mulheres na ANC. Tal acontecimento se deu, também, no bojo das diversas comemorações alusivas aos 20 anos da Constituição Federal, sendo que, neste caso específico, a abordagem, além de crítica, tinha uma proposta feminista.
Por ter participado da proposição, organização e realização do referido evento, inclusive como expositora, ocorreu-me aproveitar, dada a importância e pertinência temática, o resultado de algumas das contribuições realizadas, pois estas, no que couberam, auxiliaram, sobremaneira, na produção dos dados desta tese, vez que os diversos painéis, dada a forma como os organizamos, em muito se
assemelharam aos chamados grupos focais. 101
Deste modo, para além das entrevistas adiante explicitadas, enquanto fontes orais, contei também com a colaboração de algumas participantes do lobby do batom e/ou estudiosas do tema mulher e política, presentes no mencionado evento, tais como: Fanny Tabak, Leila Linhares, Elizabete Garcez, Lídice da Mata, Wania Santanna, Jussara Pra, Ana Alice Costa e Lourdes Bandeira, cujas intervenções,
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Esse evento foi realizado com o apoio da Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres–SPM- PR e fez parte do projeto “NEIM/UFBA: 25 ANOS Articulando Teoria e Praxis Feministas”. O referido apoio resultou do edital 2008 do Programa 1433 voltado para a Cidadania e Efetivação de Direitos das Mulheres. A programação completa do mencionado evento pode ser acessada no seguinte endereço eletrônico: http://www.neim.ufba.br/site/agenda.php?ID=79
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Denomina-se de grupo focal uma técnica de entrevista que, apesar de não ser um processo em que se alternam perguntas do entrevistador e resposta dos participantes, permite-se que temas específicos sejam tratados de modo aprofundado, vez que sua essência se baseia ‘’justamente na interação entre os participantes e o entrevistador, que objetiva colher dados a partir da discussão focada em tópicos específicos e diretivos (por isso é chamado grupo focal)”, (IERVOLINO, S. A. & PELICIONI, M.C.F, 2001, p. 116). No evento referido, cujas atividades se assemelham ao grupo focal, os tópicos específicos trataram, respectivamente, dos seguintes temas: ‘’Conferência inicial: 20 anos da Constituição! O que nós mulheres temos a comemorar?; Mesa-redonda 1: As mulheres e a experiência constitucional – lições para a história do feminismo no Brasil; Mesa-redonda 2: As conquistas jurídicas advindas do Texto Constitucional: o que se fez e o que há por fazer? ; Mesa- redonda 3: A interlocução entre mulheres e parlamentares - um caminho para a construção de direitos constitucionais.”
117 realizadas, num mesmo espaço físico, em torno de questões propostas, traduziram,
sobremodo, a ação das mulheres na ANC. 102
Quanto às entrevistas realizadas exclusivamente para os fins desta tese, importa assinalar que foram 11 (onze), efetuadas em 5 (cinco) diferentes estados da federação, além do Distrito Federal, com importantes protagonistas do lobby do batom, cujos nomes, perfis e atividades, à época da Constituinte, passo a expor:
Jacqueline Pitanguy (RJ): socióloga, feminista, foi presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher-CNDM, entre os anos de 1986 e 1989
103 ; Maria Amélia de Almeida Teles (SP): feminista (autointitulada ‘’autônoma’’),
fundadora e militante da União de Mulheres de São Paulo (1981), foi quem defendeu, como membro ativo do lobby do batom, a emenda popular sobre Aborto e Saúde da Mulher ;
Schuma Shummaer (RJ): pedagoga, feminista, foi secretária executiva do CNDM e diretora de articulação política do mencionado Conselho à época da Constituinte;
Ana Maria Rattes (RJ): advogada, foi deputada constituinte pelo PMDB (1987/88), ocupando a função de segunda vice-presidente da Comissão de Soberania e dos Direitos e Garantias do Homem e da Mulher ;
Hildete Mello (RJ): economista, feminista, atuou como conselheira do CNDM, de setembro de 1985 a julho de 1989;
Comba Marques Porto (RJ): advogada, feminista, atuou ativamente no processo constituinte, colaborando com o CNDM em palestras e seminários sobre Constituição e direitos das mulheres, em diversos estados do país. Foi uma das advogadas responsáveis pela sistematização do conteúdo da Carta
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As referidas mulheres são destacadas militantes do movimento feminista brasileiro, tendo participado do evento mencionado enquanto expositoras, valendo destacar a filiação institucional de cada uma delas, respectivamente: Profa. Dra. Fanny Tabak, cientista política e pesquisadora, ex- professora da UFRJ; Dra. Leila Linhares, advogada feminista, membro do CEPIA; Dra. Elizabete Garcez, advogada, diretora da AGENDE; Lídice da Mata, deputada federal e ex-deputada constituinte de 1987/88; Wania Santanna, militante do Movimento de Mulheres Negras; Profa. Dra. Jussara Prá, cientista política e professora/UFRS; Profa. Dra. Ana Alice Costa, cientista política, coordenadora do programa de Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo/PPGNEIM; Profa. Dra. Lourdes Bandeira, sub-secretária Nacional de Políticas para Mulheres.
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Este órgão foi responsável por articular a Campanha Mulher e Constituinte e por auxiliar o lobby do batom em suas atividades junto à Assembleia Constituinte, conforme consta do capítulo IV desta tese.
118 das Mulheres aos Constituintes. Também participou de audiências públicas na ANC, em nome do CNDM;
Marlene Libardone (DF): economista, feminista membro do CNDM, atuou especificamente como coordenadora da Comissão de estudos e propostas sobre Mulher e Trabalho;
Gilda Cabral (DF): administradora, feminista, membro do CNDM, foi coordenadora da Campanha Mulher e Constituinte;
Lúcia Porfírio Homem (MG): dona de casa, professora aposentada, presidente do Movimento das Donas de Casa e Consumidores de Minas Gerais, foi quem defendeu, na Constituinte, a emenda popular em prol da aposentadoria das donas de casa;
Moema Viezzer (PR): socióloga, educadora popular, feminista, coordenadora da Rede Mulher de Educação (situada em São Paulo), membro da Rede de Educação Popular entre Mulheres da América Latina-REPEM, vinculada ao Conselho de Educação de Adultos para a América Latina. Defendeu, na tribuna da Constituinte, a emenda popular denominada Direitos da Mulher; Antônia Garcia (BA): feminista, militante do movimento de mulheres, líder
comunitária, membro-fundadora da AMPLA, Associação de Moradores de Plataforma-Salvador-BA, e da Federação das Associações de Bairro de Salvador- FABS. Teve importante atuação nas discussões sobre a Constituinte e na coleta de assinaturas em prol da aposentadoria das donas de casa.
Tais entrevistas, feitas em profundidade, 104
foram gravadas e realizadas durante os anos de 2008, 2009 e 2010, nos locais de trabalho e/ou moradia das referidas ''colaboradoras'', além de retornos realizados pela via telefônica e pela internet. A escolha por este tipo de procedimento se deu pela sua natureza qualitativa, vez que possibilita, no dizer de Jorge Duarte (2006, p. 62), “recolher respostas a partir da experiência subjetiva de uma fonte, selecionada por deter informações que se deseja conhecer.” No caso em tela, as informações que, por meio das entrevistas, consegui obter das mulheres participantes do lobby do batom
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Segundo Jorge Duarte (2006, p. 62), a entrevista em profundidade é uma técnica de pesquisa “que explora um assunto a partir da busca de informações, percepções e experiências de informantes para analisá-las e apresentá-las de forma estruturada.”
119 não apenas constituíram um raro material sobre a temática, senão que também possibilitou a narrativa de uma parte importante da história brasileira (que se encontrava oculta), desde a perspectiva e versão das próprias mulheres.
Esta modalidade de entrevista tem como qualidade fundamental “a flexibilidade de permitir ao informante definir os termos da resposta e ao entrevistador ajustar livremente as perguntas”. Portanto, adotei e realizei uma abordagem que “procura intensidade nas respostas, [e] não quantificação ou representação estatística.” (DUARTE, op. cit. p. 62). Ou, como diz Lilia Cuéllar (2007, p. 62) optei por um empreendimento que permite gerar um conhecimento baseado na “recuperación de la subjetividad, la cotidianidad, la intersocialización y la historicidad de los seres humanos”.
Pode se dizer que a pesquisa de campo, composta pelas entrevistas em profundidade e a consulta ao Arquivo Nacional
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, além das fontes bibliográficas virtuais e convencionais, contribuiu, sobremaneira, para a composição dos dados analisados; sendo que a amostra das entrevistas foi formada, conforme já explicitado, por 11 mulheres integrantes do lobby do batom, cujas escolhas se deu com base em suas destacadas participações e nos importantes papéis desempenhados por elas no processo constituinte. Em seu conjunto, não obstante tenham agido desde a reivindicação de uma identidade coletiva, tais mulheres representam a multiplicidade e a diversidade feminina presente no referido locus político; sendo que meu propósito, com esta amostra, foi contemplar, na pesquisa, a representação das feministas veteranas, das conselheiras do CNDM, dos membros dos movimentos de mulheres, das líderes comunitárias e das profissionais especializadas que, com seus conhecimentos e experiências específicas, auxiliaram na construção das propostas, dentre outras coisas.
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No Arquivo Nacional, consoante já explicitado, foi possível encontrar um vasto acervo documental do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, sendo que, conforme nos informou a servidora que nos atendeu, esta era a primeira vez que, para fins de pesquisa acadêmica, alguém procurava o mencionado catálogo.
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