2.3 Algumas lentes conceituais
2.3.2 Identidade coletiva
Para pensar a cidadania, nos dias atuais, o conceito de identidade se apresenta como peça fundamental, haja vista que, ao contrário do que ocorria nos marcos da recém-nascida modernidade, onde foram constituídos os fundamentos da cidadania moderna, não se concebe mais o cidadão apenas como um indivíduo abstrato, dotado de razão, reivindicado, pela teoria liberal, como participante dos
102 negócios do Estado, e, por via de consequência, titular de direitos e deveres outorgados e protegidos pela entidade estatal.
Nos dias correntes, como consequência das inúmeras lutas sociais levadas a cabo “pelos não-cidadãos da história”, a cidadania tem sido, cada vez mais pensada, proposta e reclamada a partir da afirmação de características bio-psicossociais, pois foi justamente a partir da negação ou ocultação destas que, ao longo dos tempos, e nos mais variados espaços territoriais, indivíduos considerados diferentes foram/são tratados como desiguais e, portanto, não merecedores dos direitos, das prerrogativas e das garantias emanadas do Estado. Deste modo, a correlação entre cidadania e identidade torna-se quase que obrigatória para a análise e o entendimento das questões relativas à participação e à construção de direitos pelos diversos sujeitos/atores sociais.
Todavia, malgrado a importância do mencionado conceito, este, cada vez mais, se complexiza, dificultando, no mais das vezes, sua compreensão e utilização segura. A este respeito, Adriana Lopes de Araújo (2010, p. 4), no texto intitulado “Os
lados dos dois lados”: identidade feminina em As Doze Cores do Vermelho de Helena Parente Cunha, assinala que o “conceito de identidade é muito complexo,
pouco desenvolvido e compreendido na ciência social contemporânea.”
Minhas buscas, na tentativa de capturar a trajetória de elaboração, desenvolvimento e aplicação teórica deste conceito, me obriga a concordar, em grande parte, com a referida pesquisadora, vez que, não obstante as diversas e importantes contribuições de importantes autores/as no campo dos estudos
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torna-se penosa a tarefa de quem ambiciona traçar, ainda que sem profundidade, um caminho seguro e historicamente ordenado do referido conceito, haja vista que são múltiplas e complexas as abordagens, além de serem - como as identidades atuais - bastante desordenadas, escorregadias e fragmentadas.
Assim mesmo, conforme as contribuições de Stuart Hall (apud ARAÚJO, 2010, p. 5), em decorrência das constantes transformações sociais, os indivíduos tem se deparado com diversos questionamentos que abalam a antiga ideia de sujeito integrado, passando a existir, hodiernamente, identidades sociais
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Merecem destaque os estudos de COHEN e ARAUTO (2000), KLANDERMANS (1992), TILLY et all (2001), além das riquíssimas contribuições teóricas de MELUCCI (2001), BAUMAN (2005), dentre outros.
103 fragmentadas. Conforme a mesma, Hall teria proposto uma tríade de concepções identitárias diferenciadas uma das outras, correspondendo, respectivamente, à identidade do Iluminismo, a identidade do sujeito sociológico e a identidade do sujeito pós-moderno.
A identidade iluminista baseia-se numa ideia de pessoa humana enquanto indivíduo centrado, dotado de razão e de ação, completamente unificado. Já a identidade em concepção sociológica predominante, refletindo a complexidade do mundo moderno, entende que o núcleo interior do sujeito não é autônomo nem autosuficiente, mas formado na relação com outras pessoas em dadas circunstâncias e condições específicas. A identidade no paradigma pós-moderno, por seu turno, caracteriza-se pela sua instabilidade e impermanência, sendo mutável, fragmentária e flexível.
Nesta tese, opto por operar com a noção de identidade desde uma perspectiva sociológica, já que a entendo como sendo uma definição de pertencimento a um determinado grupo, dentro de certos limites, circunstâncias e especificidades. Assim, minha abordagem vai ao encontro da perspectiva de Alberto Melucci, (apud COSTA, 2009, p. 50), para quem a identidade coletiva é
(...) uma definição compartilhada e interativa, produzida por vários indivíduos (ou por grupos a nível mais complexo), que está relacionada com as orientações da sua ação coletiva e com o campo de oportunidades e constrições na qual esta tem lugar. Essa identidade está integrada por definições da situação compartilhada pelos membros do grupo, e é o resultado de um processo de negociação e laboriosos ajustes entre distintos elementos relacionados com os fins e meios da ação coletiva com o entorno. Através desse processo de interação, negociação e conflito sobre as distintas definições da situação, os membros de um grupo constroem o sentido de nós que impulsiona os movimentos sociais.
Ana Alice A. Costa (1998), ao abordar especificamente a questão da identidade reivindicada pelas mulheres, enquanto grupo historicamente inferiorizado, diz que “a ideia de identidade [pode ser caracterizada] como sendo um sistema de sentimentos e representações que especifica e singulariza o indivíduo dentro de sua cotidianidade.” Tal observação reporta-se à identidade de gênero que corresponde ao modo como cada mulher, ou grupo de mulheres, se vê(em) ou se identifica(m) socialmente, conforme se sinta(m) integrada(s) ou não aos papéis sociais (de
104 Esta identidade se relaciona com a noção de consciência de gênero, que, segundo Costa (1998, p. 205), seria o “processo de transformação da identidade em consciência”, isto é, o surgimento do entendimento das desigualdades vividas
pelos sujeitos sociais, no caso, as mulheres. De acordo com mencionada autora,
em texto elaborado em parceria com Cecília Sardenberg (1994, p. 83), a tomada de consciência de gênero se dá mediante um processo coletivo “que deve acontecer no contexto das relações de gênero, e que se materializa nas práticas sociais”. Portanto, as noções de consciência e identidade se articulam como os dois lados de uma mesma moeda, pois constantemente se interdependem.
Ricardino Teixeira (2006, p. 10), no artigo intitulado Ação Coletiva em Alberto
Melucc, lembra que, para este importante sociólogo italiano, “a identidade coletiva
não é um dado ou uma essência, mas produto de trocas, negociações, decisões e conflito entre atores sociais.” Sobre esta questão, pode se dizer que, na longa luta em prol de seus plenos direitos (d)e cidadania, historicamente negados, as mulheres (que nem sempre puderam 'negociar' suas identidades sociais, vez que estas sempre lhes foram negadas ou, na maioria das vezes, arbitrariamente atribuídas, ou ainda usadas como justificativa para sua subordinação),
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têm, quando podem, estabelecido entre elas, assim como com outros grupos sociais e, na maioria das vezes, com o próprio Estado, relações de tensão e diálogo, de conflito e colaboração que se realizam em dados espaços políticos-históricos-geográficos onde as mesmas, a partir da “construção contínua de um 'nós' “ - que autodefine sua condição particular - buscam se articular “não como uma unidade fusional de interioridades para compor um corpo homogêneo, mas no esforço de articular a diversidade” e a singularidade que as caracteriza (AZEVEDO, 2010).
Segundo Eulália Azevedo (2010, p. 37), também inspirada em Melucci: “É nesse processo que se expressa a identidade coletiva enquanto sistema de ação, entendido sempre como o resultado, não de uma intenção acabada, mas de uma dinâmica complexa de construção ancorada na disponibilidade de recursos e possibilidades”.
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Tanto na condição de mulher, quanto na condição de mãe, o fato é que estas identidades, reivindicadas ou atribuídas, foram historicamente utilizadas como empecilho para a plena realização deste sujeito social, vez que os diversos discursos hegemônicos, religiosos, médicos ou legais, justificavam a impossibilidade ou incapacidade das mulheres para as atividades públicas em razão de sua ''natural'' condição feminina.
105 Neste sentido, ao referirem-se a si mesmas enquanto “nós, mulheres”, as brasileiras, desde as lutas contra a ditadura e em prol da redemocratização do país, bem como, posteriormente, no seio do processo constituinte, cuja ação é objeto de análise neste trabalho, articulam uma identidade coletiva (de gênero), porém, não tomam esta como a mais pura essência de seu ser, senão como uma experiência, resultante de uma construção social que lhes tem imposto posições de subalternidade e, não raro, lhes têm impedido não apenas o usufruto, mas a titularidade mesma, de plenos direitos fundamentais, ainda quando estas constituem mais da metade da população do país. Destarte, por força do peso político- demográfico que as mulheres representavam/representam é possível entender, conforme dados adiante, o porquê da existência do chamado lobby do batom, bem como a importância e necessidade da campanha ''Constituinte pra valer tem que ter
palavra de mulher.''
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