• Nenhum resultado encontrado

EMPODERAMENTO EM INSTITUIÇÕES PÚBLICAS BRASILEIRAS

Suzana Mary de Andrade Nunes68

Raquel Meister. KO. Freitag69

Introdução

O objeto desse estudo é desenhado pela interdisciplinaridade de cunho sócio dis- cursivo interacionista, de modo que as concepções no campo da Linguística sob o aporte da Dialogia bakhtiniana e a Sociolinguística laboviana se articulem com concepções dos Estudos de Gênero, a fim de analisarmos o funcionamento da linguagem, as variações lin- guísticas analisadas socialmente sob o referente das identidades que se constroem em di- ferentes contextos por sujeitos e por relações que se estabelecem na estrutura primária entre homens e mulheres; mulheres e mulheres; homens e homens.

Sob as bases das matrizes teóricas da Linguística e dos Estudos de Gênero, pode- mos afirmar que o uso da língua sofre mudanças históricas com a inserção das mulheres no mercado de trabalho ou em tempos anteriores, quando há um movimento das mulheres estudarem e apropriar-se de uma variação culta, elitizada e institucionalizada, de modo que incorporam termos especializados de determinada categoria profissional ou classe so- cial, se bem que levemos em consideração as divisões sexuais do trabalho norteadoras à composição e concentração de determinados grupos de gênero, conforme a reprodução androcêntrica estudada e denunciada por estudos feministas na década de 60, antagonica- mente, reproduzidas nas primeiras décadas do século XXI.

Para desenvolvermos o tema proposto, dividimos o texto em três sessões: na primei- ra apresentamos conceitos de Linguagem e Gênero com o objetivo de dialogarmos, em um segundo momento, com a apreensão dinâmica da língua em consonância com as mentalida- des e valores da sociedade machista frente às mudanças ocorridas nas instituições públicas brasileiras com a inserção e consolidação das mulheres no mercado de trabalho e nas instân- cias de poder. A sessão é intitulada “A arbitrariedade da linguagem sob o signo de Gênero”. Em seguida, analisamos diferentes discursos – jornalísticos e políticos – falados e escritos, em 2016, a fim de denunciarmos a recorrência do preconceito e discriminação acerca das políticas de gênero. Com isso, a instrumentalização da linguagem preconceituosa e deforma- dora da realidade tem a finalidade de rebaixar a trajetória dos Estudos de Gênero e o empo- deramento das mulheres alcançados historicamente. Intitulamos a sessão de “A perplexidade dos retrocessos enviesados por Gênero”.

68 Professora da SEED e da Faculdade Estácio de Sergipe; Doutora em Educação pela Universidade Federal de Sergipe; membro do Grupo de Estudos: Educação, Formação, Processo de Trabalho e Relações de Gênero e do Comitê de Pesquisa e Ética do CNPQ. [email protected]

69Professora do Departamento de Letras Vernáculas, do Programa de Pós-Graduação em Letras e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe. Graduada em Letras, mestre e doutora em Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina, área de concen- tração Sociolinguística. Investigação de fenômenos de variação e mudança linguística com ênfase na dimensão estilística, considerando contatos, em comunidades de práticas, especialmente as marcadas por relações de gênero. [email protected]

Gênero na construção do discurso

Severo (2009) no artigo “O Estudo da Linguagem em seu contexto social: um diálo- go entre Bakhtin e Labov” assinala que ao tentarmos dialogar com o Dialogismo e a Socio- linguística é fundamental a manutenção das devidas distâncias entre o entendimento de língua e as suas possibilidades acerca do enfoque discursivo. A autora destaca os estudos sobre a variação linguística em que implica os seus significados valorados socialmente e, por isso, vinculados ao processo de constituição das identidades dos sujeitos, os quais se evidenciam as relações de valor que os sujeitos estabelecem com as variantes em virtude das variações linguísticas poderem ser vistas como lugar de manifestação de discurso. (SE- VERO, 2009, p. 281).

Bakhtin (2006) destaca “[...] a atenção do falante transfere-se do objeto do discur- so para o próprio discurso (reflexão sobre o próprio discurso). Essa mudança de polo de interesse do discurso é condicionada pela atenção do ouvinte. ” (BAKHTIN, 2006, p. 136).

Labov (2008) na publicação “Padrões Sociolinguísticos” destaca as oposições teóri- cas acerca da variação linguística, ao passo que apresenta uma nova perspectiva dos estu- dos linguísticos sob o argumento das estruturas heterogêneas, as quais não são compreen- didas como um “mero” desempenho, mas como parte da competência linguística da mesma língua. Desse modo, o autor assegura que a língua serve a uma comunidade complexa com estrutura heterogênea, ou seja, a língua no campo da funcionalidade da fala não pode ser vista como uma estrutura homogênea.

Bakhtin (2006) assinala “[...]. Cada enunciação, cada ato de criação individual é único e não reiterável, mas em cada enunciação encontram-se elementos idênticos aos de outras enunciações no seio de determinado grupo de locutores” (BAKHTIN, 2006, p. 93). São, justamente, estes traços idênticos, assim, normativos para todas as enunciações – tra- ços fonéticos, gramaticais e lexicais -, que garantem a unicidade de uma dada língua e sua compreensão por todos os locutores de uma mesma comunidade. Bakhtin (2006) pontua:

A escrita (a relação do autor com a língua e a utilização da língua que ela implica) é o reflexo impresso no dado do material por seu estilo artístico (sua relação com a vida e com o mundo da vida e, condicionado por essa relação, sua elaboração do ho- mem e do seu mundo). (BAKHTIN, 2006, p. 206).

Recorremos às concepções de Bakhtin (2006; 1997) e Labov (2008) para criarmos possíveis conexões entre os estudos da linguagem ou da língua em funcionamento, através das falas e escritas dos sujeitos, de modo que depreendamos semelhanças e diferenças entre os sujeitos femininos e masculinos em instituições públicas. Com isso, ao reportarmos à teo- ria da Igualdade ou das Diferenças da segunda e terceira onda feminista evidenciamos que as instâncias de produção e reprodução legitimam sujeitos matizados por traços de identifi- cação, os quais relacionamos no campo da linguagem traços característicos individuais e co- letivos como o modo de pronunciar e escolher as palavras em uso, a sonoridade, os sentidos e significados produzidos pelo locutor e assimilado pelo destinatário, segundo critérios de gênero, religião, etnias, geração, dentre outras.

Entendemos que na passagem das mulheres de espaços reprodutivos para espaços produtivos imprimem mudanças interiores e exteriores na e nas mulheres, bem como no e

nos homens, visto que afloram questões, acedem conceitos posições e papeis de conforma- ção, resistência e enfrentamento. É nesse contexto social que são constituídas as comunida- des, classes e grupos governamentais e não-governamentais que desenham as falas desses sujeitos, uma vez que devamos levar em consideração as imposições sobre os sujeitos frente as necessidades de mudanças e de adaptação à realidade que nem sempre correspondem com as estruturas psíquicas individuais, levando-os, por conseguinte, ao conflito, tensão, ma- culação e contradição entre o dito, o não-dito e os contraditos.

Arbitrariedade da linguagem sob o signo de gênero

Bauman (2015) afirma que diante dos novos tempos a linguagem passa a ser a pri- meira vítima de uma vida apressada, em que as palavras se reduzem a consoantes, uma lin- guagem atenuada empobrecida de significados, ao contrário, da linguagem de sujeitos que ainda insistem em ser “cavaleiros errantes das palavras”, que, por sua vez, precisam estar conectados as mídias sociais, sob pena de se tornarem sujeitos inexistentes. Para o autor, as mídias, dentre as Tecnologias de Informação, não são só políticas. Elas produzem indi- víduos insensíveis, cuja natureza e atenção social só são despertados por estímulos sensa- cionais e destrutivos, ao passo que ele relaciona a visão política da mídia e dos meios de co- municação ao começo do fim da Política com P maiúsculo em nosso mundo pós-neoliberal, uma vez que, a política clássica sempre foi associada ao poder de transformar problemas privados em questões públicas, assim como, ao poder de internalizar questões públicas e transformá-las em problemas privados ou existenciais. Hoje, esse mecanismo político está fora de sintonia, visto que, o que nós em nossa política pós-moderna tratamos como ques- tões públicas são mais frequentemente problemas privados de figuras públicas.

Bauman (2001) reporta a categoria de espaço público, sob o ponto de vista de co- munidade, que sinaliza para o aspecto de pertencimento, ausência de diferença, portanto, o sentimento de espaço “purificado” longe da competição e da negociação em que todos têm um projeto comum. Entretanto, a ideia de comunidade consagrando a posição de estar jun- tos por semelhança, elide a presença de vigilância ou esforço dos sujeitos das comunidades não serem reduzidos ao espaço de “consumo” que o submeteria a perda do equilíbrio entre liberdade e segurança. Assim, questionamos o que designamos por comunidade e ao seu referente conceitual não ser conduzido ao referente institucional. As instituições públicas concentram sujeitos de diferentes realidades, vivências, mentalidades, embora, compreen- damos que eles estejam atraídos por traços de identificações que vão se amalgamando em similitudes institucionais, de modo que, nesse processo de forjamento os discursos sejam produzidos e as marcas dos sujeitos da enunciação são postas para análise ou, desavisada- damente, recepcionada pelos seus interlocutores/as.

Os estudos de Gênero, precipuamente, reportam à história e apresentam um con- junto de práticas e representações empreendidas por movimentos, inicialmente, isolado de mulheres que romperam com as regras e papeis sociais delimitadores para o sexo mas- culino e feminino. Essas, primordialmente, incitadas para lutar por causas injustas forjadas pelo social, a fim de manter o controle sobre os seres, em oposição, a reprodução cultural

machista e patriarcal. Elas começam a se insurgirem ativamente na conquista pelo usu- fruto aos direitos de igualdade e liberdade entre os seres humanos. É deste movimento intelectual em que as bases do conhecimento também sofrem adaptações metodológicas e requisitam uma nova leitura sobre a realidade. Castells (2008) aponta para o movimento feminista moderno, uma vez que a atuação é centrada na ordem “discursiva”, através da in- tegração de pesquisadoras como aditivo de um ativismo adotado pelos Estudos de Gênero. A apropriação de teorias já consagradas como, por exemplo, marxista, estruturalista, pós- -estruturalista e cultural são utilizadas como instrumentos viabilizadores e complementa- res para análises críticas de questões relacionadas às diferenças de gênero/sexo, cultura, etnia, geração, religião, entre outros.

Fraser (2005) assinala que ao traçar a dança desconcertante dos dois feminismos – da segunda e terceira onda - frente a mudança do capitalismo organizado pelo Estado e pelo neoliberalismo concluiu que a segunda onda do feminismo fracassou simpliciter, se bem que não se deve culpá-lo pelo triunfo do neoliberalismo. Certamente, não se trata dos ideais feministas serem inerentemente problemáticos; nem que eles sempre já estejam condenados a serem ressignificados para os propósitos capitalistas “[...]. Precisamos am- pliar nossa consciência histórica na medida em que operamos em um terreno que também está povoado pela nossa estranha cópia”. (FRASER, 2005, p. 29).

Haraway (1994) no texto “Gênero” para um dicionário marxista: a política sexual da palavra destaca que “a dialética significa uma linguagem de sonho, ambicionando resol- ver a contradição:

Talvez, de forma irônica, possamos aprender nossas similitudes com os animais e máquinas como não ser Homem, segundo a corporificação dos logos ocidentais. Do ponto de vista do prazer, nestas fusões poderosas e acima de elementos tabu, torna- das inevitáveis pelas relações sociais da ciência e da tecnologia, deveria, realmente, existir uma ciência feminista (HARAWAY, 1994, p.273).

A compreensão da mensagem vai depender de elementos internos e externos à linguagem, da qual a malha complexa constituintes dos signos estão em permanente dis- puta no emaranhado jogo entre os significantes, significados e referentes, de modo que a emersão das verdades se matizam sob o efeito das associações formadoras dos disfarces, engodos e desvios emergentes nas representações sociais. Em conjunção ao pensamento de Fontenele-Mourão (2006) ao traçar percursos, estratégias das mulheres ao romperem os tetos de vidro com a ascensão nas carreiras profissionais, criando sobre si e sobre os ou- tros um fosso entre os significantes e os significados até a construção de novas identidades.

Os fatos requisitam novos valores, por conseguinte, uma nova significação. O enca- deamento frustra qualquer produção de significado pela indecifrável leitura do referente. Fontenele-Moura (2006) afirma “Atuam, ainda, como guias de interpretação e organização da realidade, permitindo aos sujeitos que se posicionem diante dela e definam a natureza de suas ações sobre esta realidade (aspecto de reconstrução do real) ”. É do paradoxo entre a palavra e a ação, entre o sonho e a realidade; entre a razão e a paixão que se constrói a história, vidas, seres humanos – homens e mulheres. Vozes, que insistem atravessar a linha do esquecimento e do tempo. É nesta relação dialógica da leitura da realidade e das com- preensões que a escuta do outro delineia o objeto de estudo de Gênero por meio de pistas,

trilhos e caminhos, às vezes, até percorridos, porém não mais apreendidos pela mesma óti- ca, uma vez que o entrecruzamento linguístico e psicológico impresso pela singularidade do ato em compromisso político, econômico e social com a ciência é singular e irrepetível.

A antagônica mudança permeada de tensão entre a coexistência de gênero em “um espaço imaginado para o homem e (re) imaginado para mulher”, Conforme Quinn (2003) na obra “POWERFUL SUBJECTS: are women really taking over the university” traz a voz masculina emergente nos relatos femininos por meio das vozes das acadêmicas. Apesar de certos espaços serem, fortemente, identificados com gênero, este é sempre aberto à renegociação, de modo que os espaços de gênero devem ser menos compreendidos pela imposição geográfica das estruturas patriarcais e mais como um processo social de acordo com o simbólico e à decodificação”. Isto significa que é um espaço visto como um homem pode ser reconfigurado como feminino. (grifos meus – QUINN, 2003, p. 130).

É bem verdade, que mudanças ocorreram, as mulheres adentraram em mercados de trabalhos qualificados, arrebentaram ferrolhos e fechaduras e adentram no mundo da política, se bem que, ainda há espaços diminutos de restritíssima paridade na representa- ção ideológica dos gêneros. Nestes dois últimos anos, após a segunda candidatura e eleita a Presidente Dilma, a primeira presidente mulher no país, foi desencadeado um forte embate político norteado por motivações internas e externas emergentes e manifestadas por estru- turas psíquicas modeladas pelas interações sociais que transitam entre o individualismo dos grupos e da consciência de grupos, conforme a concepção de Bakhtin (2006):

[...] a atividade mental do eu” (não modelada ideologicamente, próxima da reação fisiológica do animal, características do indivíduo pouco socializado) e a “atividade mental do nós” (forma superior que implica a consciência de classe. “O pensamento não existe fora da sua expressão potencial, fora da orientação social desta expressão e do próprio pensamento”. (BAKHTIN, 2006, p. 117)

Assim, a constatação de resistentes estruturas linguísticas revestidas de significados permeadas de preconceitos apontam, seguramente, uma estética machista patriarcal, po- tencialmente, transversalizada por mentalidades forjadas e maquiadas pela oposição polí- tica partidária. É inquestionável, que a figura feminina no mais elevado posto do executivo brasileiro traz ressonâncias que provocam desencaixes nas estruturas sociais, reforçando o recrudescimento das oposições, ao passo que, são determinantes o legado que a língua, ins- trumentalizada pela linguagem, sofre pela imposição dos contextos e das interações sociais postas no encadeamento dos significantes e significados.

Apontamos para o paradoxo de que tudo mudou, mas nada mudou. Sim, as mu- lheres falam, reivindicam espaços e direitos, por outro lado, e concomitantemente, ques- tionam e refreiam avanços e retrocedem em ressignificações. Nos contextos midiáticos e nas interlocuções da sociedade ressoam expressões como burra, sapatona, não sabe falar, analfabeta, incompetente, burra, bujão, debiloide, presidanta, enfim, ..., O funcionamento da língua, sob o uso estilístico da fala apresenta metáforas que denotam xingamentos, hu- milhações, descrédito, ofensas sem nenhuma referência a polidez da linguagem. Expres- sões não somente emitidas por homens, mas também por mulheres, colocando em xeque a teoria variacionista ao destacar que a linguagem das mulheres é mais formal, polida, com restrito uso de palavrões.

Os discursos refletem as estruturas internas dos sujeitos, as variações linguísticas e as valorações indenitárias dos significados denotam a ambivalência entre a norma culta e a popular. São postas, à margem, as análise e reflexões políticas, interesses de um estado democrático para reverenciar em público, expressões que ficassem restritas aos espaços privados. Ou seja, as mulheres ao saírem das suas casas e ao adentrarem nos espaços pú- blicos passam a serem alvo de violência simbólica, física e psicológica, publicamente. Uma estética machista sob a autoria dos sujeitos, homens e mulheres, que arbitram a reprodu- ção da dominação do macho sobre a fêmea. Vale ressaltar, momentos em que os chefes do governo federal ousaram ir aos estádios quando da abertura de jogos internacionais e o público presente insatisfeitos com a política brasileira vaiavam as figuras masculinas, en- quanto a figura feminina da presidente, além de ser vaiada, recebeu xingamentos e ofensas. Com isso, constatamos que o teor de agressividade sobre os homens é de menor intensida- de se comparado com as mulheres que exercem uma função de poder.

Hirata (2007) assinala que sempre que se tenta fazer um balanço da divisão sexual do trabalho em nossa sociedade se chega à mesma constatação no que diz respeito a cen- tralidade da reprodução cultural, na qual consiste compreender a natureza do sistema que lhe dá origem no nosso tempo em forma de paradoxo “nessa matéria, tudo muda, mas nada muda. ” (HIRATA, 2007, p. 597). Por isso, nesta exposição, procuraremos desconstruir esse paradoxo ou reafirmá-lo, infelizmente, para a nossa conscientização dos enfrentamentos que teremos pela frente.

Freitag (2015) traz as quatro abordagens de Coates (2006) – déficit, dominância, diferença e construção social utilizadas nos estudos da Sociolinguística para apontar ques- tões da linguagem em interface com Gênero. Ressaltamos a abordagem da dominância, nesta, a autora aponta o pressuposto de que as mulheres constituem um grupo oprimido, por sua vez, a dominância masculina é enaltecida pelos usos linguísticos, através da pre- missa de que, na interação, todos os participantes, sejam homens ou mulheres, conspira- ram para sustentar e perpetuar a dominância masculina e a opressão feminina. Trazemos o entendimento de representação da estilística da linguagem em instituições públicas como proposição enunciadora e de produção dos sentidos e significados, através da leitura de uma realidade preconceituosa, cujos preconceitos não se aplicam, indiscriminadamente, a todas as situações e a todos os setores da sociedade. Existem nuances regionais e culturais quanto a percepções do papel das mulheres no mundo do trabalho. Mesmo assim, ainda persiste um quadro geral onde a inferioridade feminina pode ser verificada tanto no mer- cado de trabalho do setor privado quanto no setor público indistintamente.

Hirata (2007) relata, a partir das observações em contextos diferenciados francês, a constatação de duas relações sociais entre mulheres, segundo a autora, inéditas historica- mente, que se estabelece entre a relação de classe entre as mulheres do norte, empregado- ras, e essa nova classe servil, uma relação de concorrência entre mulheres, todas precárias, mas precárias de maneiras diferentes, dos países do Norte e dos países do sul e logo tam- bém de “cores” diferentes com a chegada a esse mercado de mulheres dos países do leste. Esta visão sectária sobre as matizes de gênero no nosso país é histórica e resistente, uma vez que, nitidamente, evidenciamos o estabelecimento de privilégios sob o estigma das diferenças aos diferentes mesmo antes das mulheres adentrarem no mercado de trabalho,

ao passo que se encaminham para a perpetuação de mentalidades e valores tendo a sua origem desde o Brasil colonial: as escravas do norte/nordeste; a do sul/sudeste, mulheres cortesãs; mulheres recatadas; mulheres liberais, mulheres de esquerda, enfim, os estudos de gênero em interface com a Linguística e outras ciências Humanas e Sociais denunciam o encalorado debate sobre a diversidade e/ou as diferenças aos diferentes, versando as variações linguísticas implicadas na construção de identidades e os modelos reportam as valorações de significação social, política e econômica.

Com o incremento das novas tecnologias eletroeletrônicas e de automação na dé- cada de 80 do século XX, as mulheres investiram no campo profissional, buscando a qua- lificação, inserindo-se em cursos de formação e especialização no trabalho; perseguiram a ascensão aos postos de trabalhos e transitaram em setores que eram preponderantes à figura masculina, especificamente, o setor secundário da indústria e da construção. Elas enfrentaram o preconceito e os desafios dos empregos precarizados, as desigualdades sa-