4.3 Compreensão sobre o Programa Nova Vida
4.3.2 Empregados participantes do PPA
O Programa Nova Vida é compreendido pelos participantes como uma oportunidade de conhecimento sobre a aposentadoria, de seus efeitos e da necessidade de planejamento para esta nova fase da vida, o que corrobora com o posicionamento de Leandro-França (2016).
Esta compreensão, alinhada à curiosidade gerada pelo incentivo dos colegas para participação no programa, foram elementos que impulsionaram o interesse destes empregados pelo PPA.
Quando foi divulgado, foi divulgado que seria uma pós-vida. Que seria para você ter conhecimento e não sair sem ter o conhecimento do que é o outro lado. Então, eu fui exatamente buscar esse conhecimento.” (P7)
Por conta de que estou próxima de me aposentar. Isso aí foi a questão de querer me planejar para a aposentadoria.” (P6)
Na verdade, foi Bruno. Ele participou antes de mim, e ele adorou, ele elogiou e disse: “Rapaz!” Aí então eu embarquei. Fiquei curioso, sabe? Ele atiçou a minha curiosidade. (P4)
A maioria teve conhecimento do Nova Vida pelos meios de comunicação formais da empresa, e foi liberada para participar sem nenhuma objeção da chefia imediata, com exceção de um participante. Alguns apontaram ainda que, apesar do programa já ter acontecido em outros momentos antes da sua participação, apenas souberam da sua existência no ano em que o
realizaram. Fato que faz a divulgação do PPA ser apontada como sugestão de melhoria por alguns dos entrevistados.
A metodologia (apresentação dos temas e trabalhos em grupo), assim como muitos dos conteúdos apresentados (com exceção dos temas de saúde e sexualidade e previdência privada), foram considerados por praticamente todos os entrevistados como positivos e adequados ao momento que estão vivenciando, o que indica estar o programa em sua quase totalidade alinhado à maioria das necessidades dos participantes.
A troca de experiências, ideias e o compartilhamento de expectativas sobre a aposentadoria, junto à oportunidade de rever ou conhecer pessoalmente colegas de trabalho foi considerado o ponto alto do programa para muitos dos entrevistados. Outros relataram o despertar dos colegas para uma vida cheia de possibilidades como algo que mais lhes chamou atenção durante o Nova Vida. Diante dessa observação, percebe-se que ambas as situações enfatizam o outro, que também está passando por situação similar, como elemento facilitador do aprendizado, reforçando assim a importância deste na construção de significados (ZANELLI;
SILVA; SOARES, 2010); e acentua-se a importância das trocas no interior do grupo como importantes elementos para a tomada de consciência e desenvolvimento pessoal (ANTUNES, SOARES; SILVA, 2015; MUNIZ, 1996; ZANELLI; SILVA; SOARES, 2010).
[...] sem contar que você está ouvindo as experiências dos outros, ouvindo as pretensões dos outros para quando saírem e que você pode avaliar e de repente até um surja com alguma coisa que você nem tinha pensado e que você pode fazer, não é? Então, é interessante você ouvir as outras pessoas.
(P14)
O momento que me chamou mais atenção é quando você vê as pessoas acordando para a realidade, achando que podem ser úteis, que podem fazer alguma coisa. (P12)
Durante a observação não participante, ficou evidente no módulo da abordagem psicossocial, o estímulo para que os participantes se expressassem e compartilhassem suas ideias e opiniões. Eles pareciam de fato à vontade para se colocar e, em sua maioria, sempre atentos aos posicionamentos dos demais integrantes do grupo.
Ainda como aspectos relevantes do programa, os entrevistados relataram alguns conteúdos das palestras, e a atenção desprendida pela equipe responsável e condutora do PPA. Seidl,
Leandro-França e Murta (2014) comentam, por exemplo, sobre a importância da equipe do programa para o engajamento dos participantes; e França (2002); Leandro-França (2016) e Zanelli, Silva e Soares (2010) afirmam que os conteúdos têm que fazer sentido para os participantes, estando alinhados de fato às suas necessidades.
No discurso dos entrevistados, os conteúdos dos encontros mais enfatizados foram o financeiro e a abordagem psicossocial da aposentadoria, sendo seguida pelo empreendedorismo. Tais destaques podem ser devido ao talento de oratória dos condutores e, sobretudo, ao fato de que são estes temas de grande preocupação para pessoas próximas da vivência da aposentadoria, uma vez que é comum a perda de rendimentos durante esta fase na realidade brasileira, e o preconceito social, que associa este momento, dentre outras características, a não continuidade da vida ativa (FRANÇA, 2002; FRANÇA; SOARES, 2009; ZANELLI; SILVA; SOARES, 2010).
A parte de redescobrir e a parte financeira. No dia que eu fui, foi o rapaz do Banco Central que falou sobre investimentos, como aplicar com riscos e sem riscos, e qual era o melhor pra gente que era pequeno investidor. E essa parte que eu lhe falei de se redescobrir. O consultor é ótimo! E quando termina o curso, você tem direito a três sessões com ele, se não me engano. (P5)
Os entrevistados afirmaram que participar do programa os ajudou a ampliar a concepção da aposentadoria como continuidade da vida ativa, ou a modificar a visão da aposentadoria focada na ociosidade e na descontinuidade de possibilidades de agir no mundo. O Nova Vida contribuiu para apresentar-lhes novas possibilidades de atuação advindas com a aposentadoria, que pode ser tanto a continuidade no mercado de trabalho quanto a realização de sonhos ou antigos projetos até então adormecidos (FRANÇA; SOARES, 2009;
ROMANINI; XAVIER; KOVALESKI, 2005; ZANELLI, SILVA; SOARES, 2010).
E aí o Programa Nova Vida me trouxe mais esse janelão, porque se eu já tinha projetos, se eu já tinha sonhos na minha cabeça, se eu já pensava na minha aposentadoria para investir nesse sonho e nesse projeto, esse Programa foi tudo que estava precisando. Sabe aquele abraço que você recebe? Pronto! Eu recebi do Programa Nova Vida um abraço. (P1)
A aposentadoria era receber o dinheiro e ficar com ele curtindo a vida, mas a vida não é só curtir, você tem que produzir. Antes, a gente tinha a percepção que as coisas terminavam, ou seja, que você ia pra casa e descansava. Mas você vê, por outro lado, que a vida começa aí. Que você vai ter um novo rumo que você pode trilhar novos caminhos e novas oportunidades. [...]
Antes eu pensava em chegar nessa idade e parar, ou seja, estabilizar, ficar
parado, mas não. A vida tem que ser essa rotina contínua, ou seja, você deve procurar, você vai ter mais oportunidade, mais chance de se achar, de se aprofundar mais naquilo que você mais gosta. [...] Você não pode se isolar (P7)
Atrelados obviamente à concepção de aposentadoria provocada ou reforçada pelo programa estão os aprendizados que o Nova Vida lhes proporcionou, dentre os quais se destacaram em seus discursos: a concepção da aposentadoria como continuidade da vida ativa, a vivência da aposentadoria como um processo de escolhas, a importância de um planejamento financeiro e o lidar com os relacionamentos social e familiar. Estes aprendizados estão consonantes com o que pretende o Programa Nova Vida em seus objetivos, conforme é possível verificar no Quadro 7 e, de fato, alinham-se aos principais objetivos de um programa deste tipo, conforme defendido pela literatura: momento de desenvolvimento pessoal com vistas a um repensar de concepções, muitas vezes negativas, atreladas à aposentadoria (DANTAS; OLIVEIRA, 2014;
FRANÇA, 2002; FRANÇA; SOARES, 2009; ZANELLI; SILVA;SORES, 2010).
Uma das lições foi essa: de que eu não sou obrigada a parar. Como eu me vejo parar aqui, eu vou pra outro canto. [...] Porque a minha concepção, antes do curso, era que eu tinha medo da aposentadoria, a aposentadoria era um bicho pra mim, eu queria correr dela. Mas aí ela não é. Você tem vida pós-aposentadoria, porque, na verdade, eu via que eu não teria, porque eu ficava analisando: “não gosto de serviços domésticos, não gosto de cuidar de casa. Eu gosto de cumprir horário[...] Ficar depois em casa sem ter nada, Meu Deus!” (P14)
O programa traz esse ponto bastante positivo de poder desenvolver nas pessoas esse senso de responsabilidade das suas ações e das suas decisões, o que você planejar hoje, o que você decide hoje pode afetar na sua vida, nas consequências que são trazidas a partir das suas decisões hoje. Talvez, sim, esse tenha sido o meu principal aprendizado. Pensar de forma proativa, você se antecipar nas suas decisões, não esperar lá na frente como a maioria das pessoas pensa. Vou empurrando com a barriga e lá na frente eu decido. Eu vou decidir hoje, construir o meu futuro hoje. A melhor forma de você construir o futuro é você mesmo criar a partir das suas decisões, planejamento, ideias”. (P9)
Apesar dos aprendizados com o programa apresentados no parágrafo anterior, que traduzem a importância individual e social dos efeitos do Nova Vida, poucos foram os participantes que relataram evidências empíricas destes efeitos. A prática do conhecimento financeiro, relativo a uma melhor organização dessa área, foi evidenciada por cinco entrevistados; enquanto um outro relatou ter iniciado um curso de aprimoramento técnico referente à sua carreira profissional pós-saída do trabalho. A maioria dos entrevistados registrou o fator tempo como motivo para não ter colocado em prática efetivamente o que aprendeu, seja porque sua rotina
atual ainda não os permite inserir no dia a dia alguns aprendizados, ou porque ainda permanecem trabalhando sem estarem efetivamente “aposentados”. Todavia, todos eles demonstraram enxergar o potencial do programa para a promoção de mudanças efetivas de comportamento (LEANDRO-FRANÇA, 2016).
Tentando (risos). Eu fico me policiando para que eu pense mais, gaste menos, entendesse? Eu fico pensando nessa questão aí. Eu fico segurando mais. E assim, pensando: daqui há 3 anos eu não vou estar com essa mesma estrutura financeira que eu tenho hoje. Eu acho que muito está ligado ao lado financeiro mesmo. (P2)
Ainda não por causa do tempo, né? Tudo tem seu tempo. O tempo para trabalhar é agora. O tempo para viver outras coisas vai ser depois, pós-aposentadoria. (P10)
Os participantes fizeram ainda referência ao programa como uma ação de valorização da empresa aos empregados que dedicaram anos de sua vida à organização. Afirmaram se sentir reconhecidos, e enxergados como mais do que simples recursos que contribuem para o atingimento dos objetivos. Entendimento que condiz com o que afirmam autores como Antunes, Soares e Silva (2015), ao declararem que a prática do PPA contribui para o sentimento de valorização e pertencimento dos empregados à organização.
Eu gostei da atitude da empresa em nos ajudar aqueles que estão saindo a encontrar um novo caminho. Eu adorei essa parte porque eles pensam na gente, nós não somos objetos que vão ser descartados. Foi isso que eu senti.
Porque, com esse programa, eu não me senti como um objeto que vai ser descartado definitivo “Já terminou teu tempo, vai embora, desaparece!” Não.
Ele está preocupado com a gente, que a gente continue a produzir, né? (P4) Ainda assim, vale salientar que um dos participantes enfatizou a necessidade da presença física de um dos Diretores em algum momento do programa como forma de valorização dos aposentáveis, e outro propôs outras formas de reconhecimento aos empregados que de fato se aposentam da empresa, a exemplo o recebimento de uma placa, como forma de agradecimento.
Faltou ainda apresentação da direção, pelo menos um dos diretores deveria saudar essa turma que está saindo. Um dos diretores e também o gestor que seria o gerente, ou seja, do RH ou de cada um passar lá pelo menos quinze minutos e saber o processo. Porque você tá saindo é de uma empresa, mas a gente vê que falta ainda à empresa um pouquinho mais de humanidade. (P7)
A dimensão de análise evidenciada nos dois últimos parágrafos anteriores a este: PPA e empresa, aparece ainda nos discursos dos participantes acompanhada por uma preocupação de que a empresa não dê continuidade ao programa, seja pela falta de interesse de alguns profissionais em participar ou pela possível falta de importância por parte da Diretoria, uma vez que esta geralmente não se mantém estável, característica própria de organizações públicas. Preocupação legitimada inclusive por pesquisadores sobre PPAs, dentre eles Seidl, Leandro-França e Murta (2015, p. 15), ao afirmarem que “muito mais complexo que planejar e definir as características desses programas é obter a aprovação das organizações para a realização legítima e contínua dos mesmos”.
Por enquanto, a empresa tá indo nessa visão de ajudar. A partir do momento que começar a ter menos pessoas a participar, a tendência é acabar com o Programa. Então eu espero que as pessoas estejam ouvindo isso, né? Eu não sei se alguém vai ouvir. Mas que comecem a pensar dessa maneira, que participem! (P5)
O Programa é bom permanecer, né? Mas isso depende muito de Diretoria, de decisão de Diretoria. De repente, outra Diretoria assume e não tem mais essa visão, e queira realmente se preocupar só com os empregados da ativa. Isso é muito por gestão, infelizmente tenho que dizer isso. Essa gestão teve essa preocupação. (P10)
No intuito de contribuir para que os seus colegas de trabalho tenham também acesso aos aprendizados proporcionados pelo PPA, e de ajudar na continuidade do Nova Vida, os próprios participantes se encarregam de estimular a participação dos empregados. Fato que termina ajudando o RH na divulgação e no despertar de interesse do público-alvo.
Que participem porque vale a pena! Eu tenho feito inclusive campanha (risos). Eu tenho feito campanha chamando, mas muitos dizem isso, Quando não, alguns dizem assim: “A empresa está dando esse treinamento que é para mandar a gente ir pra casa”. Eu digo: “Olha, não acho que seja para mandar a gente para casa, eu acho que ela está preocupada com a qualidade de vida da gente quando a gente sair. Pelo menos eu vejo dessa forma. Agora, se vai mandar pra casa, o que é que a gente vai fazer? A gente vai pra casa.”
(risos). Mas ainda tem muitos que ficam com medo. (P14)
Eu sei que eu falei com alguns encanadores e eles disseram: eu vou perder tempo com isso. Mas, infelizmente nem todos têm uma visão, né?! É triste, mas é verdade. Eu tentei convencer alguns, mas eu não tive sucesso. Eles diziam logo: “vou perder tempo com esse negócio”. Tu sabe como é, né? É difícil. (P5)
A própria divulgação, assim como alguns conteúdos dos encontros (saúde, sexualidade e aspectos previdenciários e outros que não aconteceram por ausência do instrutor), conforme anteriormente mencionados, foram apontados pelos participantes como sugestões de melhorias para o Nova Vida. Somados a essas sugestões, apareceram a necessidade de realização do programa antes da fase de transição e de seu acompanhamento; a necessidade de apoio psicológico, sendo indicada por um participante; e do trabalho de temas para toda a empresa que tratem do conflito geracional (sugerida por três participantes). Aspectos que poderiam ter sido quase todos contornados caso houvesse a realização do diagnóstico preliminar, conforme defendido por alguns autores (FRANÇA, 2002; MURTA et al., 2014;
ZANELLI, SILVA; SOARES, 2010).
Acontece muito de pessoas novas porque chegaram ontem, desqualificarem o funcionário que está aposentado, como eu já ouvi muitos dizerem assim:
“Eu não sei porque esse povo ainda está aqui, deveriam estar em casa”. [...]
Então, eu achei que o que faltou foi essa demonstração. [...] Digamos uma palestra, ou uma movimentação para a empresa, para que fosse revisto essa situação. (P14)
Dentre as sugestões, destaca-se a necessidade dos participantes de uma continuidade do programa apontada por eles por diversas vezes em seus discursos. Eles sentem a falta de um acompanhamento e reforço do conteúdo vivenciado, e parecem entender a importância de uma educação para a aposentadoria, conforme defendida por França (2002); França e Soares (2009) e Seidl, Leandro-França e Murta (2015), o que por sua vez reforça a concepção da aposentadoria como um processo de adaptação (HIGO; WILLIAMSON, 2009; SHULTZ;
WANG, 2011), cuja preparação é considerada de fundamental importância.
[…] Eu acho que não deveria ficar só numa edição por turma. Deveria ter mais uma ou duas edições, entendesse? Para as pessoas participarem e que isso começasse um pouco mais cedo pra elas. (P2)
Quanto às críticas ao Nova Vida, foram relatados o pouco tempo para as discussões dos temas, sendo o tempo muitas vezes cronometrado; a ausência de empregados do interior do Estado; o fato de algumas palestras serem utilizadas como uma vitrine para a venda dos serviços dos profissionais, e a necessidade de os empregados serem previamente ouvidos para assim se definirem quais assuntos abordar dentro do temas a serem trabalhados. Apesar destas críticas terem sido proferidas por apenas um dos entrevistados, acredita-se ser importante
apresentá-las, uma vez que representam um olhar bastante analítico de um participante do PPA, cuja história com a empresa é marcada por decepções e ressentimentos.