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2.1 Aposentadoria – conceito e repercussões

2.1.1 Modelos teóricos para a compreensão da aposentadoria

O modelo tradicionalmente usado para se estudar a aposentadoria descreve-a de forma temporal, defendendo a sua composição em três etapas (Figura 1): a) planejamento da aposentadoria (momento abstrato em que o indivíduo avalia sozinho ou com pessoas próximas a possibilidade de se aposentar), b) decisão pela aposentadoria (o indivíduo, neste momento inicia o processo decisório da aposentadoria por meio da observação de diversas variáveis), c) transição e adaptação para aposentadoria (adaptação do indivíduo a uma nova rotina) (SHULTZ; WANG, 2011; WANG; SHI, 2014). Tal modelo considera a aposentadoria como uma tomada de decisão formada pela interligação das três etapas referidas, em que tanto o passado quanto o futuro é considerado pelo aposentável na sua decisão final.

Entretanto, apesar desse modelo descrever e buscar entender como o processo de aposentadoria se desdobra ao longo do tempo e, por isso, ser importante para a compreensão deste fenômeno, o processo temporal nele apontado não se apresenta para todas as pessoas de forma homogênea (SHULTZ; WANG, 2011; WANG; SHI, 2014). Além das questões pessoais, questões sociais e institucionais vivenciadas pelo indivíduo se entrelaçam na compreensão da aposentadoria (WANG; SHI, 2014), incluindo o significado atribuído ao trabalho (FRANÇA; SOARES, 2009), fazendo com que as pessoas vivenciem este momento por diferentes perspectivas, e em espaços de tempo diferentes.

Pesquisadores indicam, por exemplo, que o impacto da aposentadoria para as mulheres é menor do que para os homens (BULLA; KAEFER, 2003; DUBERLEY, CARMICHAEL;

SZMIGIN, 2014; FRANÇA, 2010; GRIFFIN; LOH; HESKETH, 2013); e que há uma

diferença nos fatores preditores da aposentadoria a depender da nacionalidade, e do nível hierárquico dos trabalhadores (FRANÇA; CARNEIRO, 2009; FRANÇA, 2007). Assim, o fenômeno aposentadoria passa a exigir dos estudiosos uma perspectiva mais ampliada de compreensão, que extrapole as dimensões individuais, visto que os contextos sociais, econômicos, e culturais influenciam a maneira como as pessoas percebem e vivenciam este fenômeno (TAVARES; NERI; CUPERTINO, 2012).

Figura 1– Modelo temporal da aposentadoria

Fonte: elaborada pela autora, com base em Feldman e Beehr (2011), Shi e Wang (2014), Shultz e Wang (2011).

Neste entendimento, Szinovacs (2003; 2013) propõe um modelo multidimensional (dimensões macro, meso e microssocial), no qual a aposentadoria é considerada como um fenômeno social, em que os contextos e a relação entre eles influenciam na sua compreensão (Figura 2). Para Wang e Shi (2014), esse modelo é importante cientificamente por servir como um arcabouço teórico geral para a compreensão do processo de aposentadoria. Segundo o modelo multidimensional, a aposentadoria não ocorre numa lacuna social, mas sim é influenciada pelos contextos político, econômico, cultural, social e individual.

Os fatores mais gerais que influenciam no processo de aposentadoria e que, por conseguinte, estão fora do controle dos indivíduos, fazem parte da macro dimensão (HELAL; NÓBREGA;

LIMA, 2017). As leis que determinam os requisitos para a aposentadoria, o valor das contribuições e do benefício que será recebido durante a aposentadoria; assim como, as condições econômicas e o mercado de trabalho se inserem nesta dimensão. Os valores culturais que regulam como os aposentados são enxergados pela sociedade e refletem nas normas e políticas da aposentadoria como um todo também são assim considerados, e trazem impactos em nível social, organizacional e familiar (HELAL; NÓBREGA; LIMA, 2017;

SZINOVACS, 2003; 2013; WANG; SHI, 2014).

Figura 2 – Modelo multidimensional da aposentadoria

Fonte: Szinovacs (2013, p.153)

Na dimensão meso, a aposentadoria é concebida como um conjunto de normas, políticas e culturas inseridas no nível organizacional (HELAL; NÓBREGA; LIMA, 2017;

SZINOVACS, 2013; WANG; SHI, 2014). As organizações afetam, portanto, a vivência da aposentadoria por meio de diferentes fatores, tais como: características do trabalho; valores

organizacionais em relação ao indivíduo de mais idade, assimilados e propagados pelos colegas de trabalho; políticas e programas que abarcam incentivos para aposentadoria ou a permanência dos trabalhadores mais velhos no mercado de trabalho; planos de benefícios, entre outros. As políticas e programas oferecidos pela organização, como afirma Szinovacs (2013), permitem aos empregadores exercerem, de certa forma, controle sobre o processo de transição para aposentadoria e estabelecerem oportunidades para os trabalhadores mais velhos, se assim for o objetivo da empresa.

Quanto à dimensão micro, esta envolve as variáveis que podem influenciar no processo individual da aposentadoria, tais como: características de personalidade, saúde, condições financeiras, relações familiares e de amizades, histórico de emprego e atitudes em relação à aposentadoria. Fatores estes que, segundo Shi e Wang (2014), são muitas vezes debatidos no modelo temporal da aposentadoria.

A perspectiva multidimensional traz, portanto, uma visão sociológica do fenômeno de aposentadoria; sendo por isso defendida por autores que acreditam ser tanto a trajetória individual quanto a vivência desse fenômeno, influenciadas por múltiplas variáveis de diferentes dimensões. Aspecto que difere da perspectiva do modelo temporal, embasado numa visão mais psicológica do fenômeno (HELAL; NÓBREGA; LIMA, 2017; SZINOVACS, 2003; 2013).

O último modelo de estudo para a aposentadoria aqui descrito refere-se ao modelo dinâmico baseado em recursos proposto por Wang, Henkens e van Solinge (2011). Tal modelo foi criado para preencher uma lacuna teórica quanto ao processo da adaptação contínua e variável à aposentadoria. Para esses autores, o ajuste à aposentadoria é um processo que acontece ao longo da vida do aposentado, podendo flutuar em função dos recursos disponíveis. Recursos estes, físicos, cognitivos, motivacionais, financeiros, sociais ou emocionais, e que podem ser entendidos em nível macro (normas da sociedade, políticas organizacionais); organizacional e de emprego (clima organizacional, prática de recursos humanos, condições de trabalho);

familiar (qualidade conjugal); e individual (saúde e resiliência) (WANG; HENKENS; VAN SOLINGE, 2011). Em sua pesquisa, os autores destacaram como recursos favoráveis ao processo de adaptação à aposentadoria: saúde física e mental, status financeiro, insatisfação no trabalho, aposentadoria voluntária, qualidade conjugal, planejamento da aposentadoria, trabalhos voluntários e bridge employment; e como recursos desfavoráveis, o declínio da

saúde física, a forte identidade do papel de trabalhador, o número de filhos dependentes, a viuvez e a aposentadoria compulsória ou por invalidez. A seguir (Figura 3) é apresentado o modelo dinâmico baseado em recursos para uma melhor compreensão dessa perspectiva.

Figura 3 – Modelo dinâmico baseado em recursos para compreender o processo de adaptação à aposentadoria

Fonte: Wang; Henkens; van Solinge (2011)

No próximo subcapítulo, será abordado o programa de preparação para aposentadoria; tema que se insere na mesodimensão do modelo de Szinovacs (2013), e no nível organizacional do modelo de Wang; Henkens e van Solinge e que, atualmente, é considerado como uma ação de responsabilidade social das organizações junto aos seus funcionários (ABRAPP, 2004;

NETTO, F.; NETTO, J., 2008). Destaca-se que os autores enfocam a necessidade de, durante todo o planejamento do PPA, se entender o contexto da organização e a realidade dos possíveis participantes, a fim de se customizar o programa às necessidades do público-alvo e da empresa.

2.2 Programa de preparação para aposentadoria (PPA) – pressupostos,